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        <title><![CDATA[Expresso das Ilhas]]></title>
        <description><![CDATA[Notícias de Cabo Verde]]></description>
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        <pubDate>Fri, 05 Jun 2026 09:59:56 GMT</pubDate>
        <copyright><![CDATA[Expresso das Ilhas on-line. Todos os direitos reservados.]]></copyright>
        <language><![CDATA[pt-pt]]></language>
        <item>
            <title><![CDATA[Falta de pluralismo no debate de ideias sobre identidade histórica de Cabo Verde]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Pelas
intervenções feitas, porém, fica-se com a impressão que faltou a pluralidade de
experiências desejada, em particular da parte cabo-verdiana. Os painelistas
convidados na generalidade alinham pela única corrente de pensamento sobre a
história e a identidade cabo-verdiana que é aparentemente aceite na
universidade pública. Não estranha que em sintonia, nas suas intervenções, o PR
colocando-se mais uma vez no papel de activista, tenha reafirmado o recente  encontro da Crioulidade na Praia como projecto
da humanidade e renovado o apelo à oficialização da língua cabo-verdiana.</p><p>O evento pode ter
sido organizado para partilhar experiências da crioulidade, mas, de facto, foi
oportunidade para mais um exercício no quadro do processo em curso de
reafricanização dos espíritos. Não faltaram citações de Amílcar Cabral no
discurso do PR e de outros intervenientes. De um professor da UniCV ouviu-se
que “só faz sentido falar de governança, diplomacia e cooperação crioula como
parte de uma estratégia para reforçar a resistência pan-africana contra a
dominação eurocêntrica do sistema do mundo actual. Sem essa âncora política, a crioulidade
transforma-se num folclore inofensivo ao poder”. Ou seja, para se falar da
experiência de Cabo
Verde deve-se recusar o apelo dos Claridosos de “fincar o pé na terra” e falar a
partir de fora, a partir das reflexões sobre a luta de libertação na Guiné ou
então subordinando a análise da realidade do país às necessidades do
pan-africanismo. </p><p>“Fincar o pé na
terra” poderia mostrar logo as diferenças básicas entre a realidade
cabo-verdiana e as dos países ou das ilhas convidados para o encontro:  território deserto de pessoas quando “achado”
enquanto a generalidade das ilhas das caraíbas era habitada; arquipélago sujeito a secas
periódicas ao contrário de ilhas com chuvas regulares e intensas; agricultura praticamente
limitada a cultivos de sobrevivência versus economias de plantação para produção
de produtos ricos de
exportação (açúcar, tabaco, algodão) para Europa, ilhas isoladas e muitas vezes deixadas quase
abandonadas, ao contrário de ilhas e países com comércio crescente com várias
partes do mundo. </p><p>Outrossim, a perda
de população para os territórios mais promissores (Brasil), as mortandades
causadas pelas secas periódicas e o isolamento que limitava o fluxo humano para
ilhas e o consequente empobrecimento geral teriam contribuído em Cabo Verde
para uma vida muitas vezes no fio da  navalha ou nos limites da
sobrevivência. Menor
rigidez na estratificação social, menos dificuldade em aceder a propriedade e
constrangimentos para instalação de migrantes terão resultado num nível de
mestiçagem sem paralelo nos territórios ricos das plantações em que a riqueza
produzida suportava gente rica e branca na casa grande e escravos negros na
sanzala. Não admira que nas circunstâncias de Cabo Verde, diferentemente do que se
passa em Guadalupe, Martinica,
Jamaica, Maurícias em que os proprietários de terras são de origem europeia
colonial, se depara
com a realidade de não haver correlação directa entre ter propriedade e a cor
da pele. </p><p>O enorme alcance
desse processo de cabo-verdianização vê-se pelo uso do crioulo por todas as
classes sociais e em todas ilhas, cada uma com a sua variedade. Diz do nível de abandono a que
as ilhas foram votadas e da pobreza das suas gentes o facto de que, em Cabo Verde, o uso do
crioulo se ter generalizado a um nível sem paralelo em outras realidades
“atlânticas”. E é assim porque quando há riqueza, o Estado está presente, impõe
a sua língua, as classes mais abastadas e as da classe média fazem questão de a usar. Toda essa
excepcionalidade que veio de se viver no limite terá contribuído para a emergência
da consciência da
nação, a ideia de que mesmo sob a bandeira portuguesa toda a gente nas ilhas
sentia-se cabo-verdiano. </p><p>Chega-se ao 5 de
Julho de 1975 com essa consciência de nação, um bem precioso que outros países
recém-independentes, criados como foram artificialmente na conferência de
Berlim que dividiu a África, gostariam de ter para enfrentar os desafios do desenvolvimento
com um outro foco e motivação. Para alguns deles falou-se de “forjar nações na
luta” para conseguir o grau de unidade que facilita a implementação de
políticas. Paradoxalmente, em Cabo Verde que já era nação antes da
independência procedeu-se a um processo chamado de reafricanização dos
espíritos que tende a abrir feridas e a desconstruir a nação com o falso dilema
Europa ou África quando todos há muito que sentiam confortáveis como
cabo-verdiano. </p><p>Em consequência, toda
a história foi revista para que o passado aceitável fosse só aquele que traçava
um caminho que culminasse na luta do PAIGC e na independência nacional. Os
pontos altos deviam ser as revoltas porque constituiriam um prelúdio para luta
que viria depois. Também importante era invocar as memórias da fome para fazer
a população eternamente grata aos libertadores e mantê-la enredada nas malhas
da dependência do Estado. No mesmo sentido, reviver um passado de escravatura
foi considerada fundamental para inculcar um sentimento de vítima que precisa
de ser resgatado.  </p><p>Como disse um
ex-Ministro de Educação <em>“a
obra de António Carreira (</em><em>Cabo Verde</em>: formação e extinção de
uma <em>sociedade escravocrata</em> (1460-1878))<em> é aquela que mais fez para a produção e sistematização de
elementos teóricos para uma possível unidade entre Guiné e Cabo Verde</em>”. Atingir esse objectivo do PAIGC
de unidade foi a razão por
que o livro se tornou essencial nas escolas e nos círculos de estudos
sobre Cabo Verde. Quanto aos intelectuais, escritores e artistas que realmente
estiveram presentes na emergência da consciência da nação foram considerados
“lixo da nossa história” e ameaçados de serem metidos num saco e lançados ao
mar.</p><p>Há, pois, uma
razão para a falta de pluralismo no debate de ideias sobre a identidade histórica
de Cabo Verde que empobrece a sua experiência histórica e dificulta aos outros
estudiosos elementos para uma real compreensão do seu percurso ao longo dos
séculos. Viu-se isso no último encontro da Praia  e é
notório em eventos institucionais similares, nas actividades universitárias e
nos debates na comunicação social pública. 
O Estado, as universidades e a comunicação social não deviam veicular
ideologias e muito menos ideologia única. Mas como não é assim, por isso é que
se depara com activismo de titulares de órgãos de soberania, de académicos e de
jornalistas, sem a devida consideração pela unidade da nação que devem
preservar, a pluralidade de expressão que deve existir nas universidades e o
confronto de ideias das diversas correntes de opinião que se requer dos médias.
 </p><p>Depois de toda a
crise gerada pelo manual da língua cabo-verdiana que foi retirada do sistema de
ensino na sequência do parecer do Ministério Público a considerar que a adopção de um regime de
escrita para o crioulo devia ser aprovada pela Assembleia Nacional, a questão
da oficialização do crioulo regressou à baila pelo PR no encontro internacional da
crioulidade. Talvez estava-se a deixar um tempo para não se ter que enfrentar o
facto de que também o decreto-lei que aprovou o ALUPEC poderá não estar
conforme. Sabe-se que o tema é fracturante, mas mesmo assim pressiona-se,
marcam-se datas para oficializar, sabendo que não são factíveis considerando  o tempo exigido para o cumprimento dos
procedimentos necessários para a revisão constitucional. </p><p>É como se não se desse a
devida atenção à importância de Cabo Verde ser realmente uma nação e que a
manutenção da sua unidade é uma vantagem a preservar e a acarinhar. Em simultâneo
e aparente contradição dá-se a impressão de valorizar a crioulidade apresentando-a
como projecto de futuro para a humanidade. Mas isso parece que nem o professor
da UniCV acredita que o “mundo está a tornar-se crioulo”. Sempre atento às
manobras dos poderes coloniais avisa que poderão estar a promover uma crioulização assimétrica.</p><p style="text-align: right;"><strong>Humberto Cardoso</strong></p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1279
de 03 de Junho de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/06/05/falta-de-pluralismo-no-debate-de-ideias-sobre-identidade-historica-de-cabo-verde/103039</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[A Direcção]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 05 Jun 2026 09:59:56 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Rescaldo das Eleições Legislativas em Cabo Verde: Mudança ou Ilusão? Os Riscos de um Retumbante Falhanço]]></title>
            <description><![CDATA[<p>O PAICV venceu com
maioria absoluta. Contudo, trata-se de uma maioria curta: num parlamento de 72
deputados conquistou exatamente metade dos assentos, ficando o MpD com 34
deputados e a UCID com 2. Na prática, uma convergência parlamentar entre MpD e
UCID poderá bloquear iniciativas fundamentais do novo governo.</p><p>Mais interessante
do que a vitória do PAICV é compreender por que perderam o MpD e a UCID. O
equilíbrio político manteve-se em grande parte do país. O PAICV ganhou
sobretudo em São Vicente e na diáspora dos Estados Unidos, conquistando mais
quatro deputados e beneficiando também do desgaste natural de um partido após
uma década no poder. Erros de governação, ausência de reformas estruturais,
falhas de comunicação política e incapacidade de responder às expectativas de
mudança parecem explicar melhor o resultado do que uma adesão particularmente
entusiástica ao projeto vencedor.</p><p>Há, contudo, um
elemento novo que merece atenção.</p><p>O atual líder do
PAICV é um outsider relativamente recente na política nacional. Ascendeu à
liderança partidária num momento de fragilidade interna, conquistou a Câmara
Municipal da Praia e alcançou agora a chefia do governo. O seu percurso foi
marcado por um discurso fortemente crítico do funcionamento do sistema político
cabo-verdiano, frequentemente apresentado como incapaz de responder às
necessidades da população.</p><p>Tal como em 2001,
o regresso do PAICV ocorre num contexto de desgaste governativo,
descontentamento social e descrença institucional. Mas existe agora um fator
adicional: a reabilitação, explícita ou implícita, de aspetos do antigo regime
de partido único e uma narrativa revisionista sobre a história política recente
de Cabo Verde.</p><p>A campanha foi
marcada por promessas ambiciosas, forte mobilização emocional e soluções
aparentemente simples para problemas complexos. É precisamente aqui que reside
a minha principal preocupação.</p><p>Compreende-se a
frustração de muitos cabo-verdianos que continuam sem emprego, oportunidades ou
perspetivas, frequentemente obrigados a emigrar. Mas não eram precisamente
esses os problemas cuja resolução foi prometida após o 25 de Abril e cuja
solução alegadamente passaria pela independência de 1975?</p><p>Não acredito que a
transformação de que Cabo Verde necessita venha do atual PAICV nem da liderança
agora eleita.</p><p>Mais preocupante
ainda é ouvir referências elogiosas ao sistema anterior a 1991 e a um alegado
“entendimento de aço” relativamente ao regime de partido único. Durante quinze
anos, Cabo Verde viveu sob um modelo de forte centralização do poder, controlo
ideológico e limitação das liberdades fundamentais, cujas marcas políticas e
culturais persistem, em parte, até aos dias de hoje.</p><p>Não se trata de
afirmar que a História se repetirá, mas de reconhecer que certos reflexos
autoritários permanecem latentes. Quando se normalizam nostalgias desse
período, abre-se espaço para formas mais subtis de condicionamento da
liberdade, do pensamento crítico e do pluralismo democrático.</p><p>Não há lugar para
saudosismos de partido único numa democracia moderna.</p><p>Também inquieta a
emergência de discursos identitários e revisionistas que procuram reinterpretar
Cabo Verde através de narrativas próprias do contexto político de 1974 e 1975,
mas pouco úteis para enfrentar os desafios atuais.</p><p>Prometer o resgate
da dignidade de uma ilha, região ou grupo social pode ser politicamente eficaz,
mas também pode aprofundar fraturas num país que sempre viveu da sua capacidade
de integração e equilíbrio.</p><p>Enquanto isso, o
debate político degrada-se. Torna-se mais superficial, tribalizado e dominado
por slogans. A argumentação cede lugar à emoção e a análise ao marketing
político.</p><p>O balanço dos dez
anos de governação do MpD é, no mínimo, mitigado. O país tornou-se mais
centralizado, mais dependente e mais desigual territorialmente. Muitas reformas
prometidas nunca saíram do papel. O partido necessita de uma renovação política
e intelectual profunda.</p><p>Mas também não
consigo rever-me no atual PAICV nem na qualidade do seu discurso político.
Continuo impressionado pela pobreza argumentativa de grande parte da campanha
eleitoral, frequentemente reduzida a fórmulas simplistas e mensagens
populistas. Cabo Verde merece um debate político mais exigente e líderes
preparados para enfrentar desafios complexos.</p><p>Prometer um Estado
mais eficiente, justiça social, melhores transportes ou menos privilégios é
relativamente fácil. Difícil é explicar como tudo isso será financiado.</p><p>Governar não é
distribuir benefícios sem indicar receitas nem construir um Estado-providência
sem uma economia capaz de o sustentar.</p><p>Como observou
David Leite, Cabo Verde é um pequeno país inserido numa economia globalizada.
Depende do investimento externo, da cooperação internacional, das remessas dos
emigrantes e da confiança dos mercados. Não pode ignorar essa realidade.</p><p>Quem governa Cabo
Verde deve inspirar-se nos melhores exemplos da social-democracia europeia, mas
sem esquecer as limitações concretas do país. É preciso, como diz o provérbio,
fazer omeletes com os ovos que existem.</p><p>Mas o problema
cabo-verdiano é ainda mais profundo.</p><p>Talvez tenha
chegado o momento de reconhecer que a crise não é apenas de governação. É
também uma crise do modelo político construído desde 1975 e apenas parcialmente
reformado após 1991.</p><p>Cabo Verde
continua preso a um sistema excessivamente centralizado, partidocrático e
incapaz de libertar plenamente as energias criativas das ilhas. O resultado
está à vista: desertificação humana de várias ilhas, concentração populacional
crescente em Santiago, dependência económica persistente, emigração dos mais
qualificados e empobrecimento gradual do debate nacional.</p><p>Existem hoje dois
grandes partidos herdeiros, de formas diferentes, do universo político criado
pelo antigo PAIGC. O PAICV continua ancorado na legitimidade histórica da
independência e do legado do partido fundador. O MpD, apesar de ter surgido
como alternativa democrática, acabou por se transformar numa máquina pragmática
de poder sem identidade ideológica claramente definida.</p><p>A UCID desempenhou
um papel importante na democratização, mas parece hoje resignada a uma posição
de sobrevivência parlamentar, incapaz de se afirmar como verdadeira alternativa
governativa.</p><p>O resultado é um
sistema fechado sobre si próprio, onde a alternância raramente produz mudanças
estruturais. Mudam os protagonistas, os slogans e as campanhas, mas o essencial
permanece intacto.</p><p>O verdadeiro teste
ao novo governo não será apenas cumprir promessas eleitorais. Será enfrentar
problemas estruturais que sucessivos governos evitaram resolver: a excessiva
centralização do poder, os desequilíbrios territoriais, a dependência económica
externa, a desertificação humana das ilhas e a ausência de uma reforma profunda
do Estado.</p><p>Sem
regionalização, ou seja, um verdadeiro poder local, sem revisão séria das
estruturas de governação e sem uma nova cultura política baseada na
responsabilidade, competência e proximidade aos cidadãos, Cabo Verde continuará
a discutir os mesmos problemas daqui a dez ou vinte anos.</p><p>A campanha
terminou, a democracia falou e o resultado deve ser respeitado, Francisco
Carvalho venceu as eleições. </p><p>Mas vencer
eleições é a parte mais fácil.</p><p>A realidade começa
agora: governar, cumprir, apresentar resultados e demonstrar que as promessas
feitas ao eleitorado podem transformar-se em políticas concretas, sustentáveis
e compatíveis com a realidade do país.</p><p>Os cabo-verdianos
julgarão pelos resultados.</p><p>E estaremos todos
cá para observar, analisar, escrutinar e exigir contas.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do
Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/06/01/rescaldo-das-eleicoes-legislativas-em-cabo-verde-mudanca-ou-ilusao-os-riscos-de-um-retumbante-falhanco/102965</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[José Fortes Lopes]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 01 Jun 2026 16:00:57 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Cabo Verde Escolheu]]></title>
            <description><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong style="background-color: initial;">Há dias em que um país inteiro se afirma</strong></p><p>Há algo de
profundamente importante num dia de eleições. Não pelos resultados, que
inevitavelmente trazem alegria para uns e desilusão para outros, mas pelo acto democrático
em si.</p><p>Na fila silenciosa
diante das assembleias de voto, no gesto simples de dobrar um boletim, existe
uma ideia poderosa, durante aquele momento, todos os cidadãos são iguais. Poucas
instituições humanas conseguem traduzir essa igualdade com tanta dignidade.</p><p>No domingo,
17 de maio de 2026, Cabo Verde voltou a demonstrar essa maturidade democrática.
E, mesmo não sendo os resultados que eu desejava, fê-lo, mais uma vez, com serenidade
e sentido de responsabilidade.</p><p style="text-align: center;"><strong>Uma democracia que nos orgulha</strong></p><p>Há realidades
que os cabo-verdianos, por hábito, tendem a considerar normais, mas que continuam
a merecer a admiração do mundo. A alternância democrática do poder é uma delas.</p><p>Desde 1991,
quando o MpD venceu as primeiras eleições multipartidárias e Carlos Veiga assumiu
o cargo de Primeiro-Ministro, Cabo Verde construiu um percurso raro em África,
mudanças de poder feitas sem violência, sem roturas institucionais e sem
contestação da vontade popular.</p><p>Mais do que uma democracia eleitoral, Cabo Verde consolidou uma cultura
democrática. Uma cultura onde a alternância é entendida não como ameaça, mas
como parte natural da liberdade.</p><p>Por isso, o
primeiro gesto depois de qualquer eleição deve ser sempre o mesmo, agradecer ao
povo cabo-verdiano. Agradecer a quem votou. Agradecer também a quem não votou.</p><p>A abstenção
de 53,4% não pode ser ignorada nem tratada como um simples desinteresse. É um
sinal claro de distanciamento entre uma parte significativa da sociedade e a
vida política nacional. E isso deve interpelar todos os partidos, sem exceção. </p><p style="text-align: center;"><strong>Parabéns </strong><strong>PAICV</strong></p><p>Ao Dr.
Francisco Carvalho e ao PAICV, vencedores das eleições legislativas, dirijo as
minhas sinceras felicitações pela confiança que o povo cabo-verdiano depositou
no vosso projeto político. Vencer eleições é uma enorme honra, mas é também uma
enorme responsabilidade. O país escolheu uma liderança, e essa escolha deve ser
respeitada e honrada com trabalho, humildade e sentido de Estado.</p><p>Desejo
sinceramente que este novo ciclo político contribua para o desenvolvimento de
Cabo Verde, para o fortalecimento das instituições e para a melhoria das
condições de vida do nosso povo. </p><p>Uma
democracia saudável precisa de governos competentes, mas também de oposições
responsáveis e construtivas. O interesse nacional deve estar sempre acima das
disputas partidárias. </p><p style="text-align: center;"><strong>O que </strong><strong>os resultados nos dizem </strong></p><p>Cumprido o
dever da cortesia democrática, importa agora olhar os resultados com
honestidade.</p><p>Dois ciclos
eleitorais consecutivos com derrotas, as autárquicas de 2024 e as legislativas
de 2026, não podem ser vistas como um episódio isolado. São um sinal político
claro de afastamento entre o partido e uma parte importante da sociedade
cabo-verdiana. Esse afastamento não nasceu de um erro único. Resulta de uma
acumulação de distâncias, na linguagem, na presença, na escuta e, muitas vezes,
na capacidade de compreender as preocupações reais das pessoas.</p><p>Mais
preocupante ainda é a dimensão da abstenção de 53,4%, a mais alta da história
democrática de Cabo Verde. Quando mais de metade dos eleitores decide não
participar, não estamos perante um problema de comunicação política. Estamos
perante uma crise de confiança que interpela todos os partidos e toda a classe
política. Esse silêncio também é um voto, e é talvez o mais exigente de todos.</p><p style="text-align: center;"><strong>A </strong><strong>necessidade de </strong><strong>re</strong><strong>nova</strong><strong>ção</strong></p><p>O MpD foi
fundado a 14 de março de 1990 por quem teve a coragem de exigir liberdade
quando ela ainda não estava garantida. Foi construído sobre valores que
continuam a ser os mais relevantes para Cabo Verde: democracia, liberdade,
humanismo, economia aberta e Estado de Direito. Esses valores permanecem
válidos. O que importa renovar é a forma como os comunicamos, como os
praticamos internamente e como os traduzimos em propostas concretas para os
desafios atuais do país.</p><p>O MpD tem
história, quadros, experiência e dimensão humana suficientes para se
reinventar. Mas essa reinvenção exige coragem. Exige abertura. Exige capacidade
de escuta. E deve ser um processo conduzido sem ressentimentos, sem divisões e
sem exclusões.</p><p>Num partido
com esta história, todas as sensibilidades devem contar — porque numa família
política forte ninguém deve sentir-se descartável. A unidade não nasce da
uniformidade; nasce da capacidade de construir um objetivo comum apesar das
diferenças. E esse objetivo deve continuar a ser Cabo Verde.</p><p>Deixo ainda
uma palavra de reconhecimento merecido ao anterior Presidente e ainda
Primeiro-Ministro, Dr. Ulisses Correia e Silva.</p><p style="text-align: center;"><strong>O meu compromisso</strong></p><p>É neste
contexto que assumo publicamente o meu compromisso, estar disponível para liderar o MpD
e ser parte ativa neste processo de união e renovação.</p><p>Faço-o não
por ambição pessoal, mas por um sentido de responsabilidade que não consigo
ignorar. Há anos que escrevo sobre democracia, sobre o futuro de Cabo Verde,
sobre a necessidade de renovar as nossas instituições e de ter uma visão de
país à altura do que somos capazes. Chegou o momento de passar das palavras à
acção, ou de reconhecer que as palavras nunca valeram grande coisa.</p><p>A minha
disponibilidade para liderar o MpD assenta numa visão clara para Cabo Verde: a
visão de um país que se afirma como Farol do Atlântico, uma referência de
democracia, de estabilidade e de oportunidade numa região que precisa desses
exemplos. E uma ambição económica concreta, a de transformar Cabo Verde na
Singapura do Atlântico, um hub de excelência construído sobre os pilares da
abertura, do mérito e do Estado de Direito, tirando partido da nossa posição
geográfica única, da nossa estabilidade institucional e da confiança que
inspiramos ao mundo.</p><p><em>Proponho um MpD
refundado nos seus alicerces, renovado nas suas lideranças e reencontrado com o
povo que durante décadas confiou nele. Um partido que pratica internamente a
democracia que defende publicamente. Um partido presente no terreno todos os dias,
não apenas em tempo de campanha.</em></p><p>O povo falou
no dia 17 de maio. Com os votos que depositou e com os votos que não depositou.
Cabe-nos, agora, provar que escutámos. Não com discursos, com actos. Não com
promessas, com uma equipa motivada e unida, e comprometida com o futuro de Cabo
Verde.</p><p>Esse
compromisso assumo-o hoje, com humildade e com determinação. Não porque seja o
mais indicado, isso caberá aos militantes decidirem. Mas porque acredito, sem
reservas, que Cabo Verde merece um MpD à altura do que este país pode ser.&nbsp;</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do
Expresso das Ilhas nº 1278 de 27 de Maio de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/06/01/cabo-verde-escolheu/102966</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Paulo Veiga]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 01 Jun 2026 15:59:00 GMT</pubDate>
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        <item>
            <title><![CDATA[Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe: Esquema de uma Evolução Conjunta]]></title>
            <description><![CDATA[<p><strong style="background-color: initial;">Aimé Césaire</strong> – Citado por Gabriel Mariano
in “Do Funco ao Sobrado ou o Mundo que o Mulato Criou”</p><p>O
artigo/ensaio que a seguir se “divulga”, retirado de “Cabo Verde – Boletim de
Propaganda e Informação Nº 76 de Jan. de 1956” de autoria do insigne
investigador <strong>Francisco Tenreiro</strong> é
uma excelente introdução para o leitor interessado no conhecimento da génese,
evolução e consolidação das sociedades cabo-verdiana e são-tomense desde os
seus achamentos e povoamentos.</p><p>O
autor começa por situar geograficamente Cabo Verde no seu espaço – oceânico – a
que designa por, (transcrevemos) “<em>grupo das Ilhas Atlântidas, [também
conhecidas por Macaronésia] uma vez que com os arquipélagos dos Açores,
Madeira, Selvagens e Canárias apresenta afinidades biogeográficas estreitas</em>”,
para logo a seguir afirmar: “<em>Cabo Verde, limite meridional das
Atlântidas, fronteiro a África, apresenta assim </em><strong><em>mais
traços de semelhança com a Europa e os restantes arquipélagos </em></strong><em>do que propriamente com aquele continente</em> [África].
(O negrito é nosso).</p><p>Francisco
Tenreiro não fica por aqui na caracterização do arquipélago. Vai mais longe ao
afirmar: “<em>No
arranjo dos campos, nas culturas minuciosas susceptíveis de serem cultivadas </em><strong><em>sempre
que chova</em></strong><em>,
no tipo de habitação e na pulverização da propriedade, vinca-se bem a expansão
de um «estilo mediterrânico» que ali, no decorrer dos séculos, </em><strong><em>acabou
por enraizar</em></strong>. (O negrito é nosso). Contudo, deixa bem claro
que este estilo é um denominador comum do plano da ocupação das Ilhas
Atlântidas dos inícios da expansão portuguesa e que se estendeu ao Brasil, Goa
e, obviamente, a S. Tomé e Príncipe, mas com muito pouco sucesso.</p><p>Sobre
S. Tomé e Príncipe diz que dado o tipo climático de carácter equatorial –
vegetação densa e cursos de água permanentes – só “<em>através de traços culturais poderão ser
aparentados às ilhas Atlântidas</em>”.</p><p>Com
este pressuposto da ocupação dos dois arquipélagos em estudo que, mau grado
essas ocupações terem sido feitas com uma diferença de mais de 20 anos,
respeitaram a um mesmo plano de povoamento e fixação e tiveram efeitos muito
semelhantes durante alguns anos. Este paralelismo da evolução das sociedades
dos dois arquipélagos que se manteve até o primeiro quartel do século XIX sofre
uma descontinuidade em que S. Tomé muda de paradigma de desenvolvimento dando
lugar a um outro tipo de sociedade, enquanto Cabo Verde continua o seu caminho.
O ponto de “divergência” ou de afastamento, é explicado com muita clareza, com
uma argumentação simples, mas rigorosa e bem fundamentada. O momento histórico
que separa a evolução paralela e idêntica das duas sociedades situa-o, o autor
do ensaio – Dr. Francisco Tenreiro – em 1820, aparecimento em S. Tomé da
cultura do café e 1822 da do cacau, sem contudo deixar de explicitar que “<em>desde
a segunda metade do século XVII que S. Tomé e Cabo Verde entrariam em declínio</em>”
isto é, quando o nordeste brasileiro se lançou na plantação da cana do açúcar e
o algodão da ilha do Fogo, se mostrou, por si só, insuficiente para sustar a
queda da economia do Arquipélago.</p><p>Para
superar a longa crise que desde século XVII assolava os dois arquipélagos, S.
Tomé que tinha condições climáticas excelentes para o cultivo do café e do
cacau introduz a cultura destes dois produtos altamente rendosos, mas exigentes
de uma mão de obra intensiva mudando deste modo a sua estrutura agrária para
grandes plantações – exploração do tipo capitalista – e a sua estrutura social
com “novos colonos” com outra mentalidade e outra postura e a vinda de um novo
surto de escravos, mais tarde, “serviçais”. É o ponto de viragem – estagnação
do processo da miscigenação, isto é, cessação da interpenetração social, de
quando “<em>as
relações entre a sanzala e o sobrado dos brancos eram então mais aconchegadas</em>”
– em S. Tomé dando lugar, de acordo com o autor, a “<em>uma sociedade «plural» – vários grupos
com vida cultural própria, cujos padrões dificilmente transbordam de um grupo
para outro; para um lado os nativos ou crioulos (também chamados «filhos da
terra»), descendentes das velhas famílias anteriores ao advento do surto
capitalista; para outro, serviçais, população flutuante que de Angola,
Moçambique e até de Cabo Verde ali vão trabalhar por período limitado de anos;
e ainda o grupo europeu, pouco numeroso, constituído por indivíduos que ou
ocupam os altos postos da burocracia ou dirigem ou possuem grandes propriedades</em>.”
E mais adiante, perante esta estrutura social, o autor diz-nos, de forma
peremptória: “<em>Estamos
sim, em face de uma estrutura social complexa, de classes raciais,…</em>”</p><p>A
mestiçagem considerada por Francisco Tenreiro como resultante de um dos pontos
do “Plano da ocupação e fixação das Ilhas” cedo teve início por aquilo que ele
designou de “<em>tolerância
rácica</em>” e que, ainda segundo ele, “<em>se traduziu num processo acelerado de
mestiçagem</em>”. Na verdade, não só se verificou a tolerância rácica
como houve orientações precisas da sua incentivação quando “<em>são
os próprios Reis que recomendam, a fim de as ilhas se povoarem, que os homens
brancos e sem família «tomem de suas escravas uma»</em>”.</p><p>A
abordagem do processo de desenvolvimento e mestiçagem das ilhas do Oceano
Atlântico é retomada, ainda nesta brochura, como um certo complemento do ensaio
que vimos apresentando com um texto do mesmo autor intitulado “<strong>Acerca
dos Arquipélagos Crioulos</strong>”, com uma abrangência que pretende
cobrir as principais ilhas do Atlântico. Compara a população de cada uma das
ilhas, a geografia e o tipo de ocupação e desenvolvimento de uma forma mais
física do que cultural sem, de todo, abdicar desta particularidade. E é o
próprio autor que nos alerta para a natureza da abordagem quando diz: “<em>Repare-se,
porém, que se está em presença da generalização «fisionómica» que despreza os
processos aculturativos a que as populações arribaram nas diferentes ilhas</em>.”</p><p>Acerca
de S. Tomé e Cabo Verde volta a concluir: “<em>Seja como for, o arquipélago de Cabo
Verde e as ilhas de São Tomé e Príncipe são «familiares» graças a um passado de
colonização que, por comum, levou à constituição de uma sociedade crioula
peculiar</em>.”</p><p>Essa
“sociedade crioula” – mestiçagem – merece-nos uma referência, se não mais
profunda, pelo menos um pouco mais clara – génese e desenvolvimento – uma vez
que se trata de um tema que vem sendo objecto de alguma atenção alargada, e
que, de certa forma, bole com a nossa identidade, a nossa cabo-verdianidade,
merecendo, deste modo, particular cuidado a sua evolução e estabilização.</p><p>Encimamos
esta nossa apresentação com uma “tese” de Aimé Césaire sobre o tema,
apresentado no ensaio «Culture et Colonisation» no “Primeiro Congresso
Internacional de Escritores e Artistas Negros” em Paris (Sorbonne) em 1956.
Trata-se de uma formulação generalista que não teve em consideração as
particularidades de cada território e que, sendo tomada à letra significa, do
ponto de vista de Gabriel Mariano que, “<em>a colonização falhou como possível
instrumento de criação em África de uma cultura mestiça</em>” uma vez
que é o próprio A. Césaire a concluir que “<em>a colonização tem provocado não uma
harmonização, mas antes uma justaposição de culturas</em>”.</p><p>Segundo
Nietzsche, «<em>cultura
é, antes de mais nada, a unidade do estilo artístico em todas as manifestações
vitais de um povo</em>». E de acordo com G. Mariano, <em>ela
é sempre uma expressão unitária e homogénea de elementos [heterogéneos] que se
harmonizam e se revelam depois sem conflitos e sem desajustamentos na sua
dinâmica mais íntima</em>. Mas o fundamental, ainda segundo G. Mariano,
é que esses elementos heterogéneos sejam «<em>sentidos interiormente como uma unidade</em>».</p><p>Debruçando
com alguma atenção sobre a tese de A. Césaire verificamos que ela tem
subjacente uma cultura nativa ou indígena preexistente que resistirá à do
colono criando mecanismos de rejeição. É uma tese que de certa forma está
impregnada de uma certa ideologia.</p><p>Não
é, nos seus fundamentos, seguramente, o caso de Cabo Verde em que o colono e o
colonizado se encontram, culturalmente, numa posição equivalente. Tanto mais,
tendo em conta que os negros – felupes, jalofos, balantas, papeis, bijagós,
entre outros – não constituem, à partida, uma ‘comunidade cultural’, mas sim,
apenas, rácica. E é isto que leva G. Mariano a afirmar que em Cabo Verde “<em>o
processo aculturativo desabrochou no florescimento de expressões novas de
cultura, mestiças «desde as suas origens mais remota»; que no arquipélago
puderam o negro e o mulato apropriar-se de </em><strong><em>elementos
de civilização europeia</em></strong><em> e
senti-los como seus próprios, interiorizando-os e despojando-os das suas
particularidades contingentes ou meramente específicas do europeu</em>.”
(o negrito é nosso) A este respeito, Alberto Carvalho no seu prefácio à obra
“Cultura Caboverdeana – Ensaios” de Gabriel Mariano, corroborando F. Tenreiro
quando este afirma que “<em>a forma ampla como se planeia o
povoamento, cedo se desencadeia a mestiçagem</em>, <em>e
com a troca de sangues a troca também de padrões culturais</em>”,
acrescenta: “<em>Enquanto
prosseguia a miscigenação sanguínea que gerava o crioulo biológico, em
crescimento progressivo e </em><strong><em>em continuado</em></strong><strong><em>acesso
à posse de bens materiais</em></strong><em>,
negros e brancos todos se iam </em><strong><em>transformando em crioulos culturais</em></strong><em>.</em> (O negrito é nosso)
Por isso, G. Mariano – ainda de acordo com A. Carvalho – pode afirmar que “<em>o
mestiço protagonizou em Cabo Verde o papel dinamizador que, nas Áfricas,
pertenceu ao português e, no Brasil, ao reinol</em>. Isto, na esteira do
que F. Tenreiro já havia concluído neste seu ensaio: “Porém, em nenhuma outra
parcela do território português ultramarino, <strong>o homem, fruto de um caldeamento de raças
e instituições</strong>, soube encontrar o «seu caminho» como em Cabo
Verde.” (O negrito é nosso).</p><p>Parece-nos
pertinente, registar que este “caminho” não foi resultado de uma planificação,
ou de actos de governação, mas de condicionalismos e circunstâncias várias, de
onde se destacam, a escassez de condições agrícolas – terra e regime de chuvas
– que terá desencorajado a emigração intensiva de colonos europeus bem como a
instalação do sistema de monocultura com a introdução de grandes plantações
exigindo mão de obra intensiva; forte mestiçagem devida à falta de mulheres
brancas, a que se junta a moral sexual do português; o isolamento e a reduzida
dimensão “quase familiar” das ilhas; e, para culminar, “<em>um certo abandono administrativo a que as
ilhas foram votadas durante algum tempo</em>”. A tudo isto se deve
juntar, de acordo com o investigador/sociólogo João Lopes, “<em>as
secas e os ataques dos piratas, levando brancos, negros e mulatos, </em><strong><em>a
embalar fraternalmente a trouxa</em></strong><em> e a procurar refúgio no interior das ilhas</em>”
facilitando deste modo o desenvolvimento da chamada “democracia étnica e
social”. (O negrito é nosso).</p><p>Mas
a miscigenação e a ascensão social do negro e do mulato não foram feitas em
todas as ilhas com a mesma velocidade. Em S. Tiago onde prevalecia o
“latifúndio” e consequentemente o morgadio e o engenho, a mestiçagem era a mais
reduzida do Arquipélago, mais precisamente, chegou a ser a única ilha onde a
percentagem de mestiços não era maioritária. Em todas as outras ilhas,
designadamente as de Barlavento, o mestiço era maioritário e praticava-se o
minifúndio – pequenas propriedades, do tipo hortas e jardins – e o mestiço já
era maioritário e as relações entre o dono da propriedade e os serviçais eram
muito estreitas assumindo, por vezes, configuração “familiar”. As propriedades
eram tão pequenas que se dizia – Investigador João Lopes numa feliz imagem – que
mal se podia “<em>abrir
os braços para não atingir o vizinho</em>.” Deve-se aqui ter em conta a
“mobilidade vertical” fruto da democracia social e étnica que permite ou
faculta um certo trânsito de indivíduos ou famílias na escala hierárquica
social, o que faz com que qualquer indivíduo durante a sua vida possa pertencer
a diversas classes (escalões) sociais independentemente da cor da sua pele ou
das circunstâncias do seu nascimento.</p><p>Segundo
Baltazar Lopes da Silva “<em>esta mobilidade vertical tirou em Cabo
Verde qualquer sentido ou conceito de raça. Assim a “gente branca” tão
corriqueira no arquipélago, não significa gente etnicamente branca, mas sim
gente que ocupa bons lugares na escala social</em>.”</p><p>É
oportuno aqui salientar que a verdadeira ascensão do negro e do mestiço fez-se
pela via da actividade mercantil, económica, que se acentuava à medida que se
tornava cada vez mais difícil a sustentação do regime de “escravaria”. E, com a
ascensão económica adveio a aristocratização intelectual, que se tornou num
elemento muito importante da sociedade que se consolidava e se estabilizava no
Arquipélago.</p><p>Sobre
a aristocratização intelectual, seria bom aqui fazer referência ao papel da
igreja no ensino e na educação das crianças antes do aparecimento da Escola
pública e do Seminário-Liceu em 1866. A este propósito – aristocratização
intelectual – temos as célebres observações já conhecidas do padre António
Vieira numa carta dirigida ao padre António Fernandes, confessor do Príncipe D.
Teodósio, em 1652 aquando da sua estadia em Cabo Verde – 20 a 26 de Dezembro de
1652 – mais precisamente, na então Vila da Ribeira Grande que dizia:</p><p>“<em>Há
aqui clérigos e cónegos tão negros como azeviche, mas tão compostos, tão
autorizados, tão doutos, </em><strong><em>tão grandes músicos</em></strong><em>, tão discretos e bem morigerados, que
podem fazer inveja aos que lá vemos nas nossas catedrais</em>.” (o
negrito é nosso).</p><p>Esta
observação é deveras importante porque já no séc. XVII – muito antes da
abolição da escravatura – a aristocratização intelectual já se afirmava não só
no conhecimento como também na música, como bem se referiu o padre António
Vieira que também se aludiu ao Arquipélago como terreno propício à aceitação e
interiorização do cristianismo através das palavras nessa já citada carta que a
seguir transcrevemos:</p><p>“<em>e
todas elas [Ilhas] estão em extrema necessidade espiritual; porque não há
religiosos de nenhuma religião que as cultivem, e os párocos são mui poucos e
mui pouco zelosos, sendo o natural da gente o mais disposto que há, entre todas
as nações das novas conquistas, para se imprimir neles tudo o que lhes
ensinarem. </em><strong><em>São todos pretos, mas somente neste
acidente se distinguem dos Europeus</em></strong><em>. Têm grande juízo e habilidade, e toda a
política que cabe em gente sem fé e sem muitas riquezas, que vem a ser o que
ensina a natureza</em>. (O negrito é nosso). Assim crescia a nação
cabo-verdiana mestiça de matriz cultural preponderantemente europeu, rumo a
consolidação e estabilização. Saliente-se que com a instalação do
Seminário-Liceu – 1866 – que formou e forneceu uma plêiade de intelectuais de
gabarito, Cabo Verde chegou a ter no topo da sua administração dirigentes todos
saídos dessa Instituição tendo chegado a “exportar” para as outras colónias
portuguesas através de concursos públicos, tal a sua competência.</p><p>Assim,
é que, nos anos 50 do século passado a elite africana das colónias portuguesas
a viver em Portugal toma a consciência de que desconhece a sua terra de origem,
a língua dos seus ascendentes, a história e a cultura dos mesmos, lança-se à
procura das suas fontes, das suas raízes, da sua identidade perdida <em>algures
no cruzamento da história que os liga aos colonizadores</em> e faz
então apelo ao que chama <strong>reafricanização dos espíritos</strong>.
A reafricanização dos espíritos outra coisa não era do que quebrar a “máscara
branca”, expressão utilizada por F. Fanon para simbolizar a “alienação”
provocada pelo colonialismo.</p><p>Não
obstante algumas dúvidas levantadas quanto à posição de Cabo Verde sobre o
assunto, parece-nos que só por solidariedade ou por calculismos ideológicos
poderá constituir-se num dilema para os cabo-verdianos. Tanto assim é, que
Tomás Medeiros – então dirigente santomense da CEI – chegou a comentar que
“enquanto andávamos, sobretudo os angolanos, moçambicanos e guineenses, à
procura das nossas raízes, passeavam os cabo-verdianos completamente
despreocupados pela “Estrela” e “Príncipe Real” com o seu crioulo, as suas
mornas e as suas cahupadas.</p><p>E
este dilema, se é que chegou a existir, a nosso ver, foi resolvido com
simplicidade e pragmatismo por Baltazar Lopes da Silva (Prefácio para “A
Aventura Crioula” de Manuel Ferreira – Lisboa – Plátano,1985) da maneira que
assim transcrevemos:</p><p>“<em>Tenho
por mim que, de forma expressa ou de maneira latente, se tem geralmente posto o
“problema” de Cabo Verde (quando nele se pensa) em termos erradamente
dilemáticos: há que optar, para a “definição” do “problema” por um de dois
termos irredutíveis: Europa ou África.</em></p><p><em>Sim, porque nos dizem, a nós das
ilhas:</em></p><p><em>– Se vocês “não são de África”, o
que é que são? Europa?</em></p><p><em>Ou, inversamente, mas creio que
muito mais raramente:</em></p><p><em>– Se “não são Europa”, o que são?
África?</em></p><p><em>Claro que a mesa assim posta não
deixa liberdade nenhuma ao conviva, que possivelmente se retrairá de anunciar a
única verdade etnológica:</em></p><p><em>– Nem uma coisa, nem outra, somos
cabo-verdianos.</em>”</p><p>Na
realidade, o cabo-verdiano nunca andou à procura das suas raízes. Elas eram
evidentes: Fruto da aculturação e do renascimento de novas expressões de
cultura, mestiça “desde a sua origem mais remota”, que o negro e o mulato se
apropriaram da civilização europeia adaptando-as ao despojá-las das suas
especificidades e particularidades europeias, interiorizando-as, passando deste
modo a senti-las como suas pertenças. Não tinha saudades nem das grandes
florestas africanas que nunca conheceu nem dos grandes palácios e monumentos
que também ignorava. Parafraseando G. Mariano, tinha a sua língua falada por
todos; o seu folclore poético, musical e novelístico; a sua culinária; os seus
motivos de recreio; o seu folclore das advinhas, dos provérbios; os seus festejos
populares; as suas superstições, hábitos, esquemas de comportamento.</p><p>E
quando as elites africanas das colónias portuguesas lançaram mão, na esteira de
Aimé Césaire, Leopold Senghor e Cheik Anta Diop à afirmação de uma literatura
própria através do movimento literário “Negritude”, em 1952, com o lançamento
de «Os Cadernos da Poesia Negra de Expressão Portuguesa»” por Francisco
Tenreiro e Mário de Andrade, já Cabo Verde «<em><strong>tinha fincado os pés na terra</strong></em>»
com o lançamento – 1936 – do “Movimento Claridade” autonomizando e
“nacionalizando” a sua literatura – romance, conto, poesia, ensaio – tratando
os problemas específicos de Cabo Verde não à procura das suas raízes, mas
sincronizando e sintonizando com esses problemas.</p><p>Não
temos, pois, de procurar as nossas raízes nem em África nem na Europa porque
“Nós Somos as Nossas Raízes!” </p><p><strong><em>Texto originalmente publicado na
edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1161 de 28 de Fevereiro de 2024.</em></strong></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/05/29/cabo-verde-e-s-tome-e-principe-esquema-de-uma-evolucao-conjunta/102957</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Armindo Ferreira]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 29 May 2026 13:29:19 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[A transferência ordeira e pacífica do poder é fundamental nas democracias  ]]></title>
            <description><![CDATA[<p>O seguimento estrito desses dois princípios é fundamental para a
consolidação institucional da democracia, para a legitimidade de qualquer
governo saído das eleições e para a renovação da confiança dos cidadãos de que
o exercício do poder é feito no quadro constitucional e legal existente. Na
base desses princípios dá-se por ilegítima qualquer tentativa de tomada de
poder pela força ou por fraude e condena-se a tentação de passar a imagem que o
partido vencido está agarrado ao poder e deve ser escorraçado.</p><p>Um momento crucial
no processo democrático é o da proclamação do vencedor nas eleições e da
aceitação dos resultados eleitorais pelos vencidos. Um outro momento de extrema
importância é a assunção
do poder pelo vencedor na nova configuração das forças políticas saída das
eleições. Nestes dois aspectos Cabo Verde nos 35 anos de eleições democráticas tem-se
distinguido e a apreciação positiva da sua democracia em grande medida vem da
sua capacidade de realizar pleitos eleitorais livres e de não haver
sobressaltos de maior grandeza nas passagens de poder de um governo para outro.
Isso, porém, não exclui que não se note certo tipo de manifestações complicadas
em momentos de alternância governativa. Porventura, serão resquícios de uma
cultura política que pela sua natureza privilegia estratégias de captura do
poder que se completam na encenação de saídas, forçadas e humilhantes, dos adversários do poder. </p><p>Depois das
eleições que se saldaram na vitória do PAICV, rapidamente foram dadas
continuidade às múltiplas denúncias, com grande cobertura nos órgãos de
comunicação social e nas redes sociais, agora com um outro tema. Já não se
trata de pôr em causa a neutralidade das instituições estatais durante a
campanha eleitoral, mas de questionar a legitimidade do exercício do poder pelo
governo até ao fim do seu mandato. Mandato esse que, como a Constituição
estabelece, apenas termina com o início da nova legislatura, a acontecer vinte
dias depois da publicação pela CNE dos resultados definitivos das eleições.
Curioso que quem ostensivamente nega cumprir normas eleitorais que ferem de
inelegibilidade as suas candidaturas arroga-se agora o poder de limitar os
poderes do governo, passando por cima da Constituição. </p><p>Parece ser a táctica
política escolhida não cumprir as leis e exigir que os outros cumpram a
interpretação conveniente que fazem das disposições legais. A provocação
funciona quando, na falta de reacção de outros actores políticos e dos poderes
de fiscalização da legalidade, renova-se à vista de todos o sentimento de
impunidade. Nesse sentido, não ajuda o post no Facebook do presidente da
república na segunda-feira.  Depois de afirmar
categoricamente que “o governo não é de gestão e tem a plenitude dos seus
poderes constitucionais”, desdisse ao acrescentar que por “razões éticas, deve
limitar-se a actos correntes”, ou seja, ser governo de gestão. </p><p>Já na semana
passada o PR não se coibiu de presidir às cerimónias no Dia do município da Praia
e de, com a sua presença emprestar legitimidade ao processo de substituição do
presidente da câmara municipal que não resultou do cumprimento do código
eleitoral. A alínea a) do artigo 404 estabelece que presidentes das CMs e
vereadores devem renunciar
aos cargos para poderem candidatar-se a deputado pelo seu círculo eleitoral, o
que não aconteceu. A pergunta que fica é se o PR está a assumir na plenitude as
suas funções de zelar pelo regular funcionamento das instituições ou se está a
“autolimitar-se, como “<em>postou</em>” ter feito, em outras ocasiões, enquanto
primeiro-ministro, nos “30 dias antes das eleições”, e as razões para isso. </p><p>O problema é que,
quando se mudam as regras do jogo, não interessando se por razões éticas ou
outras, se não se está a abrir caminho para outras vias na conquista do poder
que desafiam os procedimentos democráticos. Vias essas que podem deixar espaço
para outras possibilidades não tão pacíficas e não tão tolerantes para os
adversários vencidos e não confortantes para os cidadãos que querem continuar a
escolher em liberdade e no pluralismo os seus governantes. Por isso é que, apesar
dos momentos eleitorais da
democracia cabo-verdiana ao longo dos 35 anos se terem globalmente revestido de
sucesso, não se deve ignorar que actos, provocações e entorses nos
procedimentos em várias eleições sugeriram a presença de outra cultura política
com pendor mais para captura do poder, sem olhar a meios, do que pelo uso da
persuasão para conquistar eleitores. </p><p>Um exemplo disso é
o que o PR se referiu no seu post
 ao ano de 2001 em que se verificou a primeira
alternância de governo na democracia, depois de, como agora, o PAICV ganhar as
eleições legislativas após 10 anos de governo do MpD. Como implicitamente diz,
não <em>foram seguidos os procedimentos constitucionais</em>. Se a orientação
escolhida fosse de os seguir a demissão do então primeiro-ministro Gualberto do
Rosário, no dia seguinte após as eleições legislativas de 14 de Janeiro de 2001,
teria sido gerida de outra forma. O resultado é que enquanto primeiro-ministro
tomou posse no dia 1 de Fevereiro desse ano, antes da constituição da nova Assembleia Nacional que
viria a verificar-se no dia 13 de Fevereiro. </p><p> Ora, num sistema parlamentar o governo nomeado
deve reflectir a configuração das forças políticas no parlamento sob pena de
quando apresentar o seu programa de governo não ter maioria para passar a moção
de confiança e ser automaticamente demitido. A nomeação, ao ter lugar 13 dias
antes, contornou o prazo constitucional de 15 dias para apresentar ao
parlamento o programa do governo sob pena de demissão imediata. Também para a escolha
da data certamente não se ignorou que acontecia em plena campanha para as
eleições presidenciais e como a iria afectar. Nem parece que então o primeiro-ministro
se “autolimitou-se”, por razões éticas, nas mudanças cirúrgicas que de imediato
fez, designadamente nos sectores sensíveis da polícia, da televisão, mesmo
sendo o seu governo um <em>governo de gestão</em>. Tão pouco se coibiu de,
segundo a Lusa (10.02.2001),
participar nos
comícios de Assomada e da Praia da candidatura de Pedro Pires. </p><p>Precisamente para
se evitar que situações do género que mancham a democracia cabo-verdiana
levando mesmo à prisão por fraude eleitoral é que se deve procurar seguir à
risca os procedimentos democráticos e não os interpretar por conveniência
própria ou reclamando-se portador de uma ética superior.  As eleições não devem ser esvaziadas por
denúncias, provocações e desafios às normas em detrimento do debate necessário sobre o
presente e o futuro para permitir ao cidadão fazer a sua escolha de governo e dos governantes. O país,
mesmo em momentos eleitorais e até ao término da legislatura, deve ter um  governo com plenos poderes. </p><p>Como se pode
constatar do rito de transferência de poderes nas democracias consolidadas,
tudo é feito para limitar no máximo qualquer vazio de poder. Recentemente na
Alemanha (Março de 2025) uma coligação partidária que tinha perdido as eleições,
mas ainda não tinha terminado o mandato, levou a cabo uma revisão
constitucional do “travão
da dívida”, crucial para o país.  Em Cabo Verde, realizadas as eleições há que
focar na nova legislatura que vem aí e deixar o ambiente de campanha. Afinal, já
se sabe quem foi o vencedor. O que não se pode fazer é, a pretexto de controlar
gastos ou actos do governo, tentar fazer dos funcionários públicos vigilantes
de práticas da administração pública como os comités de partido de outrora. </p><p>Cabo Verde é uma
democracia e um Estado de Direito e quem o governar deve saber que há limites
constitucionais e legais no exercício do poder que em nenhuma circunstância
devem ser preteridos. A liberdade, a paz e justiça dependem disso. O mesmo
acontece quanto à prosperidade que depende de uma sociedade ordeira, solidária
e confiante no futuro.</p><p style="text-align: right;"><strong>Humberto Cardoso</strong></p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1278
de 27 de Maio de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/05/29/a-transferencia-ordeira-e-pacifica-do-poder-e-fundamental-nas-democracias/102928</link>
            <guid isPermaLink="false">https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/05/29/a-transferencia-ordeira-e-pacifica-do-poder-e-fundamental-nas-democracias/102928</guid>
            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[A Direcção]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 29 May 2026 09:03:39 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Praia: A Cidade que se Lê em Passos]]></title>
            <description><![CDATA[<p>A Praia
afirmou-se como centro urbano através de uma profunda reorganização histórica
da ilha de Santiago. Alcatrazes revelou cedo fragilidades ecológicas. Ribeira
Grande, primeira capital do arquipélago, perdeu progressivamente protagonismo
perante vulnerabilidades militares, económicas e geográficas. A transferência
oficial da capital para a Praia, em 1770, consolidou o centro histórico elevado
como principal eixo político, administrativo e estratégico de Cabo Verde,
inaugurando uma nova etapa da história nacional.</p><p>A
escolha da Praia correspondeu a exigências claras de defesa, estabilidade e
eficácia governativa. A sua posição geográfica favoreceu maior protecção,
melhor controlo territorial e condições administrativas mais seguras. O centro
histórico elevado transformou-se, assim, no principal foco de governação,
reorganizando a hierarquia insular e estabelecendo uma nova centralidade
política.</p><p>Na sua
configuração urbana inicial, a cidade estruturou-se entre dois marcos laterais
significativos: a Rua do Hospital, num extremo, e Ponta Belém, no outro,
enquadrando o desenvolvimento político e funcional da capital. Entre esses
limites afirmou-se o espaço administrativo central, onde sucessivas fases de
poder deixaram marcas duradouras.</p><p>A partir
desse momento, a Praia desenvolveu-se como reflexo das sucessivas ordens
políticas que moldaram o país. A sua organização urbana evidencia o alargamento
territorial. A sua toponímia revela como cada época procurou inscrever no
espaço a sua visão de poder. A cidade afirma-se, deste modo, como verdadeiro
arquivo urbano da construção histórica cabo-verdiana.</p><p style="text-align: center;"><strong>Cidade
Régia</strong></p><p>O
percurso inicia-se no Miradouro Diogo Gomes, lugar simbólico da fundação, da
vigilância estratégica e da escolha geopolítica do centro histórico elevado. A
localização elevada, defensável e orientada para o controlo portuário
transformou este espaço no centro ideal para a reorganização do poder colonial.</p><p>A
cidade monárquica estruturou-se em torno da Igreja Matriz, Câmara Municipal,
Quartel, Praça Alexandre Albuquerque e ruas fundacionais, organizando uma
capital assente na autoridade régia, na administração imperial e na
centralização política. Ruas como Andrade Corvo, Serpa Pinto, Sá da Bandeira, a
Praça Alexandre Albuquerque e o eixo administrativo central reflectiam
claramente essa ordem colonial e monárquica.</p><p>Nos
extremos laterais, a Rua do Hospital e Ponta Belém delimitavam simbolicamente a
extensão urbana inicial, reforçando a organização territorial da capital
nascente.</p><p>A Praia
afirmou-se, desde cedo, como cidade-porta, cidade-centro e principal núcleo de
governação. O espaço urbano serviu directamente a administração, a defesa e o
controlo político, consolidando a cidade como eixo fundamental da soberania
colonial.</p><p style="text-align: center;"><strong>Cidade
Reformada</strong></p><p>A
implantação da República abriu uma nova fase de modernização cívica. Novas
praças, ruas e equipamentos públicos passaram a incorporar valores de
secularização, reforma institucional e progresso urbano. A toponímia
republicana valorizou figuras políticas, datas marcantes e símbolos de
modernidade.</p><p>Ruas
como Almirante Reis e Miguel Bombarda, a antiga artéria rebaptizada como Rua da
República e espaços como a Praça Camões acompanharam os antigos eixos urbanos,
prolongaram o centro histórico e traduziram no espaço a expansão republicana,
reforçando uma capital mais moderna, laica e administrativamente reformada.</p><p>A
expansão republicana consolidou o prolongamento do centro para além do núcleo
inicial, reforçando a cidade como espaço de modernização política.</p><p style="text-align: center;"><strong>Cidade
Disciplinada</strong></p><p>Com o
Estado Novo, a expansão urbana aprofundou-se sob uma lógica mais disciplinar e
funcional. A Igreja do Nazareno, o Lavadouro, o Liceu e a Pracinha do Liceu
passaram a marcar esta nova fase de organização social, educativa, religiosa e
urbana. Surge igualmente uma zona de moradias, destinada sobretudo a
funcionários públicos e chefes de serviço, reforçando uma urbanização orientada
pela hierarquia administrativa e pela organização social do aparelho colonial.</p><p>A
cidade passou, assim, a reflectir de forma ainda mais clara a estratificação
funcional do poder. Urbanismo, habitação, educação, religião e administração
articularam-se na consolidação de uma capital disciplinada e socialmente
hierarquizada.</p><p style="text-align: center;"><strong>Cidade
Soberana</strong></p><p>A
independência nacional, em 1975, inaugurou uma nova etapa decisiva. A Praia
consolidou-se plenamente como capital soberana de Cabo Verde.</p><p>A
reconfiguração toponímica valorizou heróis nacionais, memória colectiva e
identidade cabo-verdiana. Avenida Amílcar Cabral, Rua 5 de Julho e outras
referências nacionais passaram a inscrever no espaço urbano os símbolos da
soberania cabo-verdiana, prolongando o centro político para uma nova geografia
nacional.</p><p>A
expansão urbana alargou-se para além do centro histórico, integrando
progressivamente antigos bairros periféricos e novas áreas residenciais,
administrativas e populares. A cidade passou, assim, a representar plenamente o
Estado independente, articulando o núcleo histórico com uma geografia urbana
mais vasta, socialmente diversificada e territorialmente integrada.</p><p>A
capital afirmou soberania, modernidade e pertença nacional. A Praia reforçou
igualmente o seu papel institucional, diplomático e político, concentrando
estruturas essenciais do novo Estado. Tornou-se centro estratégico da
construção nacional moderna e símbolo territorial da soberania cabo-verdiana.</p><p style="text-align: center;"><strong>Cidade-Memória</strong></p><p>A
expansão da Praia sintetiza, de forma exemplar, a trajectória política de Cabo
Verde. Monarquia, República, Estado Novo e Independência deixaram marcas
sucessivas no território urbano, transformando a cidade em espelho histórico da
formação nacional.</p><p>Percorrer
o Centro Histórico da Praia significa atravessar séculos de reorganização
territorial, transformação política e construção simbólica. Do extremo da Rua
do Hospital a Ponta Belém, passando por Andrade Corvo, Serpa Pinto, Sá da
Bandeira, Praça Alexandre Albuquerque, Almirante Reis, Miguel Bombarda, Rua da
República, Praça Camões, Igreja do Nazareno, Lavadouro, Liceu, Pracinha do
Liceu, zona de moradias, Avenida Amílcar Cabral e Rua 5 de Julho, a cidade
revela como cada regime procurou inscrever a sua visão de poder.</p><p>A Praia
afirma-se como capital viva, memória territorializada da nação e espelho
duradouro da construção histórica, política e cultural de Cabo Verde.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1277
de 20 de Maio de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/05/25/praia-a-cidade-que-se-le-em-passos/102858</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Manuel Brito-Semedo]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 25 May 2026 08:59:20 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[O caminho complicado aberto com as eleições de 17 de Maio ]]></title>
            <description><![CDATA[<p>O MpD ficou pelos 33 deputados e a UCID
viu-se reduzida a 2 deputados, deixando para trás o sonho de constituir um
grupo parlamentar e de quebrar o bipartidarismo e a sucessão de governos de
maioria absoluta que têm caracterizado a democracia cabo-verdiana. A abstenção
subiu para cerca de 53.5%, servindo de argumento para os habituais descontentes
da democracia, sem qualquer estudo prévio sobre as suas reais causas, reafirmar
com mais vigor a convicção de qua a democracia representativa não passa de uma
democracia formal e de fachada.</p><p>O facto de todo o
processo eleitoral ter-se verificado na ordem e tranquilidade, culminando na
aceitação dos resultados obtidos por todos os intervenientes e na disposição
manifestada de uma transferência regular de poder com a nova legislatura, não
impede que se continue a pôr em causa a qualidade da democracia pelas razões
nem sempre as mais importantes. Não se valoriza suficientemente o que já foi conseguido,
mas, em sentido contrário, tudo parece servir para diminuir o sistema
democrático. </p><p>Um exemplo é o
zelo demonstrado nas sucessivas queixas à CNE visando a neutralidade do governo
que se tomadas à letra teriam o resultado de praticamente paralisar a
governação do país em tempo eleitoral. Aliás, parecem provocatórias e parte do
jogo político porque quem as faz em geral tem prática similar onde exerce poder
municipal. O mesmo acontece com as acusações mútuas de compra de votos que
depois das eleições são esquecidas porque na realidade a cultura política
vigente é de cultivar a dependência das pessoas como expediente político. </p><p>Um outro exemplo
são as acusações repetidas feitas pelo líder do PAICV logo na noite das
eleições de que Cabo Verde é uma democracia de fachada e a promessa de
construir um Novo Cabo
Verde. Se não fosse pelo facto de não ter maioria qualificada para rever
a Constituição da República, à semelhança de populistas como Victor Orban fizeram
na Hungria e antes na Polónia, seria de preocupar a todos, considerando os
propósitos iliberais que em outras ocasiões exprimiu e que incidiam
fundamentalmente no  controlo do poder
judicial e de outros órgãos constitucionais autónomos sobre o exercício do
poder pelo executivo. Mesmo assim a disponibilidade que tem demonstrado em
desafiar as normas e procedimentos já devidamente sedimentados no país dá ideia
do tipo de desafio que o seu futuro governo irá representar para o país na
construção do “Novo Cabo
Verde ” que propõe. </p><p>Essas engenharias
sociais, <em>criação do
homem novo</em>, “<em>construção
de um novo Cabo Verde ” </em>nos países onde foram tentadas, resultarem
em atrasos no desenvolvimento, perdas de oportunidade, e em alguns casos, em desastres
humanitários terríveis. Quando se está perante um mundo a reconstituir-se em
termos geoeconómicos e geopolíticos como agora está a acontecer, é complicado aventurar-se
sem corrimão de segurança e com fiscalização enfraquecida. Ainda mais se a
visão que se quer projectar e embarcar toda a gente mais lembra utopias do
passado do que um futuro construído com solidez e na base do realismo e do
pragmatismo. </p><p>Um contrapeso para
equilibrar uma proposta de incursão nesse caminho duvidoso podia ser o
presidente da república no âmbito das suas funções de garantir o regular
funcionamento das instituições. É, contudo, duvidoso que isso venha acontecer
considerando que o actual titular do cargo encontra-se numa posição politicamente
frágil. A seis meses da eleição presidencial e pertencendo originariamente ao
mesmo extracto político do partido vencedor das legislativas, o PR depende do
apoio dessa maioria para ganhar um segundo mandato. E não parece que isso
esteja garantido.  </p><p>O problema estaria
na forma como teria sido visto a sua posição na luta renhida pela presidência do
PAICV no ano passado.  Não era favorável à
actual liderança. Entretanto, com a convergência de apoios ao Francisco Carvalho
nas vésperas das eleições legislativas, poder-se-á tomar como um sinal de
aproximação a presença do actual Chefe da Casa Civil da presidência da
república num desses encontros. A isso deve-se juntar a agenda carregada do PR
depois da marcação das eleições legislativas junto a vários municípios das quatro
ilhas visitadas e depois em Portugal, na comunidade emigrada e entre os jovens.
A temática básica desses encontros não poucas vezes extravasa-se para a área de
governação com particular incidência nas questões mais sensíveis no debate
entre o governo e o maior partido da oposição. </p><p>A partir de uma
necessidade de sinalizar aproximação para eventualmente assegurar apoio, dificilmente
se pode ficar na melhor posição de árbitro e moderador que o equilíbrio e estabilidade
do sistema político exige. Na situação em que numa questão de dias se vai ter
um chefe de governo com disposição várias vezes reiterada de contornar ou
ultrapassar as normas e procedimentos democráticos para atingir os seus
objectivos, uma eventual fragilidade da função do PR trará muitas complicações.
Um outro factor a ter em conta no que respeita ao <em>checks and balance</em> do sistema
político poderá ser a oposição que o MpD será capaz de efectivar enquanto
estiver a recompor-se da derrota sofrida nas urnas. </p><p>A decisão tomada
pelo partido, na sequência da pesada derrota nas eleições autárquicas de 1 de Dezembro
de 2024, de não reagir com suficiente rapidez e determinação para se adequar ao
novo ambiente político provavelmente ter-lhe-à custado a possibilidade de sair
vitorioso nas eleições legislativas. Levou quase dois meses, fins de Janeiro de
2025, para se reunir numa direcção nacional. A opção por não realizar uma
convenção do partido para legitimar uma candidatura e uma liderança a presentar
nas eleições legislativas retirou-lhe a possibilidade de durante mais de um ano
engajar de uma outra forma a sociedade e sentir o seu pulso quanto aos desafios
do momento e as expectativas para o futuro. </p><p>Também não o motivou
para galvanizar estruturas do partido nas ilhas em debate frutífero para a
construção de uma visão a apresentar ao país e à sociedade, nem criou a
oportunidade para o despontar de novas personalidades, de novas ideias e de
futuros dirigentes. Em consequência, o partido afunilou toda a sua actuação
política em função do líder, transformado em maior activo, como se pode
constatar na forma como a campanha eleitoral foi conduzida. Não estranha que o
partido exaurido e falho de novas ideias não tenha tido capacidade para dar uma
resposta ao discurso populista dos adversários. Faltou a visão que poderia
contrapor ao convite à irrazoabilidade, à impaciência e às expectativas excessivas
inerentes ao populismo.   E no fim, o líder depois de contabilizar os
anos de política, os cargos exercidos e afirmar que há vida para além  da política, partiu figurativamente para o seu
“footing” matinal. </p><p>Parece ser esse o
destino dos partidos nas democracias que, em vez de ter vida interna e em
diálogo com a sociedade, focam toda a atenção no líder, transformado num chefe
à volta do qual tudo gira e em relação ao qual todos se submetem, embriagados pela
vontade de conquistar e manter o poder. O legado do partido tende a perder-se,
o mesmo acontecendo com as referências e também com a capacidade de renovação em
resposta à mudança dos tempos. O resultado para os cidadãos eleitores é para
uns considerar que não há diferenças entre os partidos e para outros
sentirem-se atraídos pelos extremos do discurso político e das promessas, apostando nos populistas, mesmo
que as propostas sejam irrealistas, a competência das lideranças seja duvidosa e a
liberdade e a própria prosperidade fiquem em perigo.  </p><p>O povo escolheu um
caminho complicado no dia 17 de Maio. É fundamental que o país conserve toda a
sua capacidade para enfrentar percalços no caminho que poderão vir a surgir.
Também que mantenha seguro e funcional os mecanismos democráticos necessários
para garantir o controlo democrático do poder e assegurar os mecanismos  que futuramente poderão permitir fazer as
ratificações necessárias na orientação do país, caso se desvie dos seus valores
de liberdade, de democracia e do Estado de Direito.</p><p style="text-align: right;"><strong>Humberto Cardoso</strong></p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1277
de 20 de Maio de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/05/22/o-caminho-complicado-aberto-com-as-eleicoes-de-17-de-maio/102824</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[A Direcção]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 22 May 2026 09:49:11 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[A Nova Filosofia da Ciência]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Na sequência de Francis Bacon e da
emergência do método experimental, com a revolução científica dos séculos
XVI-XVII, tinha-se estabelecido que a ciência procede começando pelos factos
observados, que se vão acumulando e repetindo até darem origem a teorias e
leis. Esta versão do método científico baseia-se na <em style="background-color: initial;">indução</em>, partindo do particular para o geral. Por exemplo, se
verifico que sempre que empurro um objecto no vazio este tende a continuar o
seu movimento, posso formular uma lei geral da inércia. Contrariando esta perspectiva,
Popper diz que não podemos comprovar ou verificar uma proposição partindo das
observações que, pretensamente, a corroboram. Por exemplo, se todos os cisnes
que observo são azuis, passo a caracterizá-los afirmando: os cisnes são azuis –
afirmação e definição que é válida, até ao momento em que encontrar cisnes
amarelos. Se corrigir a afirmação para “todos os cisnes são azuis ou amarelos”,
esta verifica-se até encontrar um cisne vermelho, e assim sucessivamente. O
número de observações, por maior que seja, não garante que não possa vir a
encontrar outras cores para lá das observadas. Seria preciso um número infinito
de observações para encontrar uma definição válida – o que não está ao alcance
das nossas limitações, as de existirmos num tempo e espaço limitados.</p><p>  Então, Popper
afasta-se do <em>verificacionismo</em> e da <em>indução</em> como modelos de ciência
essencialmente empirista ou baseada na comprovação experimental das teorias,
para propor uma concepção <em>falsificacionista</em>:
não posso comprovar ou verificar inteiramente uma teoria, mas posso refutá-la
ou rejeitá-la através da experiência. Em vez de ser uma acumulação de
observações, a ciência depende da nossa capacidade de construir livremente
teorias, hipóteses ou conjecturas, que permanecem válidas até que surjam dados
observáveis que as contrariam – ou seja, a observação assume uma função
negativa, de rejeição das teorias, em vez da função positiva ou de confirmação
que lhe era atribuída.Como as
espécies que vivem um tempo e depois se extinguem, também as ideias ou teorias
científicas vigoram até serem refutadas.</p><p>  A ideia de
ciência como inovação vai dar lugar a uma controvérsia entre Karl Popper e
outro dos maiores expoentes da nova filosofia da ciência, Thomas Kuhn. Ambos
partilham da ideia de ciência como inovação e transformação, mas Popper entende
que essa mudança continua ao longo da história da ciência, ou seja, há nela uma
<em>revolução permanente</em>, enquanto Kuhn
entende que há longos períodos de estabilidade em que vigora um <em>paradigma, teoria </em>ou <em>modelo </em>de ciência, designado como <em>ciência normal</em>, até que este começa a
ser posto em causa, acabando por se operar uma <em>revolução científica </em>que conduz à emergência de um novo paradigma.
Segundo a sua obra principal, <em>A Estrutura
das Revoluções Científicas. </em>Kuhn afirma que a sua visão corresponde à <em>prática </em>científica: os livros didácticos
inserem-se nas produções da <em>ciência
normal</em> ou do modelo estabelecido de teoria e método científico, e a prática
da investigação, por exemplo, nos laboratórios, segue uma rotina guiada por um
paradigma dominante.</p><p>  Popper
favorece uma ideia de ciência como divergência em relação a teorias
estabelecidas, enquanto para Kuhn há uma convergência em torno de um modelo de
ciência, sendo a divergência a operar as roturas que culminam nas revoluções
científicas, o que aconteceu, por exemplo, com a <em>revolução copernicana</em> que rompeu como o modelo
aristotélico-ptolomaico geocêntrico e construiu um novo paradigma
heliocêntrico. O pensamento destes autores contribui para compreender as
mudanças que reinventam o conceito de ciência, quer sejam uma constante
transformação (Popper) ou uma mudança situada numa época determinada (Khun). O
conceito de ciência está sempre em mudança, quanto aos seus métodos, lógicas e
procedimentos. Não há uma formulação que se mantém constante, embora possa
permanecer durante largos períodos de ciência normal. A cultura científica é
tão lógica como criativa. A nova filosofia da ciência foca-se, assim, na
criação de conceitos, métodos e lógicas ou modos de pensar, libertando-nos de
processos estabelecidos. Este novo olhar sobre a ciência centra-se na liberdade
e criatividade como atributos da teoria e prática científica, afastando-se de
qualquer modelo estabelecido de ciência. A aventura do pensamento científico
nunca está concluída, e esta ideia de aprendizagem constante desafia-nos a
pensar de novo aquilo que nos parece definitivamente adquirido. A formação humana
deve, assim. Integrar as componentes científica e humanística como factores de
inovação e criação de conhecimento. A filosofia da ciência deveria, nesta
perspectiva, integrar tanto os currículos científicos e técnicos como os de
humanidades, integrando a cultura científica no panorama geral do saber. Nomes
como os de Popper, Kuhn, Feyerabend, Lakatos ou Bachelard, contam-se entre os
que contribuíram para renovar o modo como pensamos a ciência, os seus conceitos
e métodos.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1276
de 13 de Maio de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/05/18/a-nova-filosofia-da-ciencia/102756</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Carlos Bellino Sacadura]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 18 May 2026 11:27:11 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Liderança: a construção do futuro e o desprendimento do passado ]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Líderes que não formam sucessores, ficam
pelo caminho, sepultando
o elemento mais importante em liderança.</p><p>Vários teóricos da liderança nos elucidam
sobre estilos e caraterísticas que poderão ser mais assertivos e apropriados em
liderança. </p><p>Os maiores teóricos da liderança incluem
Kurt Lewin (estilos de liderança), Daniel Goleman (inteligência emocional),
Peter Drucker (gestão eficaz), John Maxwell (liderança influenciadora) e
Stephen Covey (liderança baseada em princípios). Essas teorias assumiram novas
composições no decorrer do
tempo. </p><p>Uma transição de traços inatos para um
olhar comportamental, situacional e Transformacional. Evolução que, sem dúvida,
trouxe uma excelente contribuição da forma como as teorias de liderança são compreendidas. </p><p>Todas essas teorias são importantes, na
medida em que permitem à liderança alcançar uma performance robusta e um
elevado padrão de excelência. Trazendo a teoria para o campo prático, a
liderança não inventa, mas transforma e inova. Reconstrói caminhos e jamais se
estriba sob os auspícios da paralisação e controlo. </p><p>Todo o líder controlador evita a análise
e boicota a mudança. Quanto mais diálogo aberto, franco, seguido de um processo
efetivo e afetivo, melhores resultados haverão. </p><p>Do contrário, a estagnação será
inevitável. </p><p>A liderança transformacional pressupõe
uma visão a longo prazo:
quebra ciclos, repõe as pedras nos seus devidos lugares. </p><p>Sem a componente Transformacional, o
líder se perde e o exercício da liderança se torna invisível.  A liderança
eficaz não se debruça no esteio do passado, mas na construção do futuro. Quando
o líder não consegue se libertar do passado, estará sujeito a viver sem futuro.
Justamente, o futuro é a capacidade do líder não se prender à zona de conforto,
aos benefícios sem sacrifícios e falsa ancoragem. </p><p>Quando o passado pesa mais do que o
poder da construção do futuro e a visão da mudança, a continuidade
extraordinária deixa de cumprir com a sua máxima transformacional. </p><p>Todos os líderes de grande estatura
tiveram a visão do futuro sem se alinharem com os privilégios do passado. </p><p>Uma boa parte dos líderes deixa de formar uma boa plataforma de transição,
porque o apego aos benefícios e ao poder de controlo os domina. Todo o líder sábio sabe que o
exercício da liderança é absolutamente impermanente. </p><p>O apego excessivo é um risco que todo o
líder desprezado poderá sofrer. </p><p>E quando o apego se torna uma via de
regra fundamental, a estrutura sofre e a conjuntura atrofia.  A maestria
de um exímio líder está na construção de pontes, e não de muralhas. As muralhas
separam e dividem, enquanto a ponte liga, mantém o vínculo, quebra barreiras,
encurta distância e mantém o fluxo da relação permanente.  Saliento e
sublinho que uma das habilidades mais importantes em liderança é a construção
do futuro com base em pessoas e recursos humanos conscientes. </p><p>Sem rótulos, nomenclaturas destrutivas,
mas com fundamentos sólidos na capacidade e mérito. </p><p>Em todos os seguimentos da liderança o
método deve ser sempre o mesmo: indivíduos bem preparados, com carisma
necessária, com perfil e carácter para assumirem funções relevantes. A escolha
de quem lidera não deve se submeter aos caprichos simplórios nem princípios
"ideológicos". Sempre que entra o critério "ideológico" a
liderança sofre e a continuidade fica comprometida. </p><p>Em geral, a liderança autocrata e a
liberal deixam muito a desejar no que tange ao progresso e ao desenvolvimento.
O autocrata centraliza tudo à volta de si e acaba fazendo uma gestão de
controlo, anulando todo o potencial que a equipa poderia desenvolver. </p><p>A liberal deixa andar do jeito que cada
um achar melhor, não há seguimento, orientação e nem sempre a equipa estará
preparada para responder aos desafios da própria instituição ou organização. A
liberal só seria interessante, se cada membro da equipa estivesse preparado,
com linhas de atuação bem delineadas e definidas. Um aspeto preponderante em
liderança é a habilidade do líder não descartar ninguém. Em liderança descartar
com facilidade é ariscar a continuidade. </p><p>E não podemos esquecer que a
continuidade é o fator mais decisivo e essencial. Devo salientar que a
liderança não pode morrer no passado, mas sim perpetuar-se no futuro, custe o
que custar. Sem esse corpo, tanto a liderança como o líder cairão no
esquecimento e não haverá legado. </p><p>Para finalizar, deixo com especial
carinho um dos princípios mais valiosos em liderança: a atitude da escuta ativa como
base que transforma suposições e distanciamentos em
desenvolvimento. </p><p>O líder que muda o rumo da sua organização
ou instituição é aquele que domina a arte da interação positiva, levantando os
que estão em estado de desânimo, movendo em todas as direções para que todos
estejam em harmonia.&nbsp;</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1276
de 13 de Maio de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/05/16/lideranca-a-construcao-do-futuro-e-o-desprendimento-do-passado/102759</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Lino Magno]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 16 May 2026 13:23:25 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Expandir melhor, não expandir mais: limites macrofiscais e política expansionista em Cabo Verde]]></title>
            <description><![CDATA[<p>O futuro de Cabo Verde convoca-nos a refletir sobre uma das questões mais
perenes da economia política moderna. Que papel deve caber ao Estado numa
economia de mercado? A importância dessa questão não diminuiu com o tempo. Pelo
contrário, a rejeição histórica, no final dos anos 80, de modelos de direção
central e a crise do “Estado-Providência”, nas tradicionais economias de
mercado, continuam a suscitar novas e mais satisfatórias respostas àquela velha
questão. Richard Musgrave sistematizou a intervenção do Estado através das
funções afetação, distribuição e estabilização, visando mitigar limitações
intrínsecas ao sistema de preços e assegurar uma trajetória de crescimento
ótimo. Em Cabo Verde, a interpretação destas funções evoluiu drasticamente,
acompanhando a trajetória da economia e a própria maturidade da nação.</p><p>Nos anos
pós-independência, até 1990, a economia foi marcada por forte estatização, um
modelo centralizado que a liderança, à época, considerou adequado para a
edificação das bases do país. Durante esse período, conforme dados da UNCTAD, o
PIB real cresceu a uma taxa média de 3,2%, tendo desacelerado para 1,4% em
1991. O esgotamento desse modelo económico antecipou o primeiro grande <em>turning
point</em> da história económica de Cabo Verde: a transição para o
multipartidarismo e a liberalização económica. Com isso, a economia acelerou o
ritmo e registou um desempenho de 3% em 1992, ano que para o Banco Mundial,
representa um marco de descolagem da economia nacional.</p><p>O ciclo económico
dos anos 90, marcado por um crescimento médio de 7,4% e um pico histórico de
11,9% em 1999, não foi obra do acaso. Deve-se a reformas estruturais para a
edificação de uma economia de mercado baseada na livre iniciativa e na propriedade
privada, protegida pela Constituição de 1992, que consolidou os pilares do
Estado de Direito e das liberdades económicas. Destaca-se ainda a adoção do
Acordo de Cooperação Cambial, em 1998, reforçando a estabilidade, a previsibilidade
e a abertura da economia ao exterior.</p><p>Os anos
seguintes permitiram consolidar a economia de mercado, perante um ambiente confiável
para o investimento privado. A economia continuou a crescer, a uma taxa média
de 6,4% até 2008. O setor privado evoluiu de uma base empresarial limitada para
uma capacidade produtiva robusta de mais de 18 mil empresas ativas e cerca de
90 mil empregos em 2023, tendo os serviços como o motor da economia de mercado.</p><p>O turismo,
que lidera o setor dos serviços, registou uma expansão vigorosa na última
década. Passou de 644 mil turistas em 2016 para um marco histórico acima de 1,2
milhão de turistas em 2025. Esta capacidade de oferta, que antes era
incipiente, sustenta hoje uma rede hoteleira e de serviços privados mais densa
e qualificada. É o principal catalisador das exportações de serviços e da
entrada de moeda estrangeira no país. A sua qualificação, que nos últimos anos
culminou com a entrada de grandes marcas como Marriott, Hilton e Barceló,
estende-se ainda à gestão aeroportuária e aos serviços de handling, cujos processos
de reforma das empresas públicas (SOE) culminaram com a entrada de relevantes <em>players</em>
à escala mundial como a VINCI e a Swissport.</p><p>Nos últimos
anos, Cabo Verde tem apresentado
sinais consistentes de melhoria dos seus fundamentos macroeconómicos,
refletidos no reforço da credibilidade externa e numa perceção mais favorável
da estabilidade macrofiscal. A última revisão em alta do Outlook por parte da
Fitch Ratings, de “estável” para “positiva”, mantendo a notação do risco
soberano em “B”, constitui um sinal claro dessa trajetória. Esta assenta nos
principais indicadores macroeconómicos, com destaque para o crescimento do PIB
real, a desaceleração da inflação, a trajetória de consolidação do défice e do
rácio da dívida pública, bem como a melhoria significativa da posição
externa.</p><p>As
perspetivas da Fitch e do FMI, partindo da forte recuperação pós-COVID-19 e da capacidade
institucional acumulada ao longo das sucessivas crises, evidenciam que Cabo
Verde deverá manter um ritmo de crescimento robusto de 6,3% em 2025 e uma média
de 5,4% do PIB real até 2027, impulsionado pelo turismo, consumo privado e
investimentos públicos. Nas finanças públicas, destaca-se a trajetória de
consolidação, com saldo primário positivo de 3,1% e perspetivas de redução do
rácio da dívida pública de 99,8% em 2025 para cerca de 85% do PIB no médio
prazo, refletindo o reforço da disciplina orçamental e a melhoria da
mobilização de receitas endógenas. No setor externo, verifica-se a melhoria do
saldo da balança corrente, registando-se um excedente de 3,7% do PIB e o
reforço significativo das reservas internacionais, situando-se em cerca de 7,6
meses de importações em 2025. É expectável um aumento para níveis próximos de
10 meses nos anos seguintes, reforçando a capacidade de absorção de choques
externos. </p><p>Apesar desse quadro macrofiscal, a economia nacional
caracteriza-se ainda por vulnerabilidades socioeconómicas e climáticas estruturais.
Persistem igualmente riscos orçamentais das SOE, cujo passivo contingente
ascende a 8% do PIB. Ainda assim, o país apresenta potencialidades que
justificam a intervenção do Estado, através de mecanismos de resiliência e
instrumentos de política orçamental e monetária. Deste modo, a manutenção da melhoria
do quadro macrofiscal poderá traduzir-se, a médio e longo prazo, em espaço
fiscal adicional para o reforço das políticas expansionistas. </p><p>Cabo Verde precisa, por isso, de usar este ciclo de crescimento para investir
melhor nas pessoas, fortalecer o Estado, impulsionar o setor privado,
diversificar a economia e reduzir dependências. Isso implica canalizar de forma
estratégica as receitas do turismo para outros setores com potencial, tratar a
política social como alavanca de produtividade e coesão, enfrentar sem rodeios
os riscos das SOE e das concessionárias de serviço público. Por fim, garantir que
os ganhos macroeconómicos se traduzem em empregos dignos, serviços públicos
fiáveis e melhores oportunidades em todas as ilhas, salvaguardando a proteção e a
inclusão dos mais desfavorecidos.</p><p>Neste
contexto, perante intenções que vão desde medidas de
alívio fiscal à provisão pública aparentemente distribuída de forma “gratuita”
mas que, conforme define a equivalência Ricardo-Barro, acaba sempre financiada
por dívida e impostos futuros, emergem dois desafios centrais para o futuro.
Por um lado, a compatibilização entre políticas de natureza expansionista e a preservação
dos equilíbrios macrofiscais. Por outro, a definição das condições objetivas, exequíveis
e sustentáveis de financiamento perante restrições orçamentais, necessárias
para que essas políticas contribuam para reduzir as vulnerabilidades
estruturais e elevar o potencial de crescimento sustentável. Assim, mais do que
intenções de medidas expansionistas desarticuladas, impõe-se uma abordagem
integrada e responsável que assegure a consistência intertemporal das políticas
públicas e a sua compatibilidade com a sustentabilidade das finanças públicas.</p><p>Em última análise, a discussão sobre o futuro de Cabo Verde não se esgota
na dicotomia entre mais ou menos Estado, mas na qualidade, no <em>timing</em> e
na credibilidade da sua intervenção. Em economias estruturalmente vulneráveis, a
almofada fiscal para políticas de natureza expansionista não é definida apenas
pela disponibilidade orçamental e reafectação de recursos, mas pela capacidade
de os mobilizar e alocar com eficiência, disciplina e visão de longo prazo. É
neste ponto que a curva de experiência macroeconómica se torna ainda mais determinante.
Trata-se de evidência de que a capacidade institucional acumulada permite
reduzir os custos dos ajustamentos, melhorar a eficácia das políticas e
acelerar a convergência do crescimento, emprego e rendimento para os seus níveis
potenciais de longo prazo. O
verdadeiro desafio não está, portanto, em expandir mais, mas em expandir
melhor, preservando a estabilidade macrofiscal não como um obstáculo ao
desenvolvimento, mas como um ativo estratégico indispensável à
transformação socioeconómica e à proteção dos valores democráticos do país.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1276
de 13 de Maio de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/05/16/expandir-melhor-nao-expandir-mais-limites-macrofiscais-e-politica-expansionista-em-cabo-verde/102758</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Sandeney Fernandes]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 16 May 2026 12:12:00 GMT</pubDate>
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