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        <title><![CDATA[Expresso das Ilhas]]></title>
        <description><![CDATA[Notícias de Cabo Verde]]></description>
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        <pubDate>Fri, 04 Sep 2026 20:19:35 GMT</pubDate>
        <copyright><![CDATA[Expresso das Ilhas on-line. Todos os direitos reservados.]]></copyright>
        <language><![CDATA[pt-pt]]></language>
        <item>
            <title><![CDATA[À sombra da letra, a força da norma]]></title>
            <description><![CDATA[<p>É particularmente
difícil compreender essa aversão de um Prémio Camões ao natural escrutínio e às
legítimas observações feitas pelos seus concidadãos à sua postura de homem
público e facilitador de iniquidades. Pese essa observação introdutória, fique
claro que jamais estará nas minhas cogitações recusar ao Dr. Germano Almeida os
créditos que tem vindo a acumular como escritor e intelectual de vulto, cuja
distinção com o mais alto galardão das letras lusófonas é inteiramente
meritória e digna de respeito. Nem tenciono manter com tão ilustre e
multifacetada personalidade qualquer peleja de contornos estéreis, pois me
falta, decerto, a arte e o engenho literário para condigna refrega.</p><p>Na verdade, honra
lhe seja feita, em todos os momentos marcantes da nossa história recente — pelo
menos nos últimos sessenta anos —, o ilustre plumitivo tem estado sempre na
crista da onda. É ele mesmo a contar, por exemplo, ao jornalista e investigador
José Vicente Lopes que só não zarpou numa pequena embarcação para Dacar para se
juntar ao movimento de libertação de Amílcar Cabral porque, à última hora,
surgiu um inultrapassável desentendimento com o seu companheiro de aventura, o
Chico Varela, sobre se deviam ou não fazer-se acompanhar de um garrafão de
grogue. O companheiro opinava que, sendo uma longa viagem, havia conveniência
em reforçar o lastro com esse precioso líquido, porém, o nosso futuro Camões
opôs-se terminantemente, seguro de que para a história ficaria a sua indomável
vontade, não fosse a sabotagem do desavisado Chico.</p><p>Chegado o 25 de
Abril, lá apareceu o nosso poeta a responder, nas lides associativas, ao
chamamento superior da Pátria, embora desentendimentos profundos em torno do
uso e valorização do crioulo o levassem a resguardar-se prudentemente como
reserva moral acima da turba. Regressado a Cabo Verde, assumiu-se com altivez
como Magistrado do Ministério Público, com façanhas que lhe renderam um lugar
de destaque e um capítulo próprio na obra "Cabo Verde: Os Bastidores da
Independência". O que não deixa de ser profundamente paradoxal é que,
sendo um dos cabouqueiros e edificadores da justiça pós-independência, esteja
hoje permanentemente empenhado em demolir essa mesma justiça, tecendo loas
saudosistas à justiça do tempo colonial em detrimento daquela que ele próprio
serviu com toga. Fica por explicar, com o devido rigor intelectual, por que
razão evita partilhar os seus pergaminhos e experiências como magistrado para
aquilatar a autoridade moral com que hoje acusa os operadores do atual Estado
de Direito de "indignidade" e "má-fé".</p><p>Sobre o meu
escrito anterior, que deixou tão visivelmente perturbado o Dr. Germano Almeida,
reitero que não há razão válida para me retratar nem para retirar uma única
vírgula, em especial nos seus aspetos conceptuais e essenciais. Faço questão de
deixar meridianamente claro que nada me move pessoalmente em relação ao Dr.
Amadeu Oliveira. Tenho analisado com rigor estrito um processo jurisdicional e
a ordem jurídica em causa, e nunca a pessoa do arguido, preocupando-me acima de
tudo o princípio cardeal da igualdade na aplicação da lei e a integridade
sistémica dos tribunais.</p><p>Para mim, o processo
em referência obedeceu escrupulosamente aos requisitos estruturantes de um
processo equitativo, tendo sido assegurados e esgotados todos os meios de
defesa legalmente conferidos ao arguido. Se este não suscitou em devido tempo e
pelas vias processuais adequadas a inconstitucionalidade da resolução da
Assembleia Nacional, o ónus e o problema são exclusivamente seus, não cabendo
manifestamente ao Presidente da República agir em sua indevida substituição — o
que consubstanciaria uma suprema iniquidade e uma flagrante discriminação se o
fizesse em relação a um arguido patrocinado por mandatários presidenciais e o
recusasse em relação à maioria de cidadãos anónimos que batem diariamente às
portas dos tribunais.</p><p>O ponto nevrálgico
e mais perigoso da diatribe reside na forma olímpica como o cronista lida com o
instituto nevrálgico do trânsito em julgado, afirmando com desassossego que
"uma condenação errada continua para sempre errada" e que o trânsito
em julgado "não sacramenta coisa alguma". Aqui reside um erro
monumental e imperdoável, tanto em termos dogmáticos quanto de elementar
segurança jurídica. O trânsito em julgado é o pilar pétreo que sustenta a paz
social e a estabilidade das relações jurídicas numa comunidade civilizada.
Pretender que o sistema funcione como uma assembleia permanente de revisão de
culpas ao sabor do descontentamento popular ou da emoção efêmera abre
escancaradamente a porta ao caos institucional. O caso julgado material
estabiliza a ordem jurídica de forma definitiva, devendo ceder a contestação
estéril perante o valor supremo da segurança e da pacificação social.</p><p>Outro flanco
essencial da crónica debruça-se sobre a condição do autor enquanto antigo
mandatário presidencial e a sua pretendida imunidade face ao escrutínio cívico.
Ninguém questiona o direito inalienável de um intelectual apoiar quem bien
entender nas pugnas políticas, mas colide frontalmente com a coerência
institucional aplaudir lideranças em momentos de glória para depois vir
desqualificar os pilares e mecanismos do Estado de Direito quando estes seguem
o seu rumo estritamente legal.</p><p>A justiça
cabo-verdiana debate-se reconhecidamente com problemas estruturais profundos de
morosidade e insuficiência de meios materiais e humanos que os operadores
judiciais reclamam com justeza há décadas. Contudo, esses graves problemas
estruturais não se resolvem de maneira nenhuma transformando os magistrados em
alvos de pilantria discursiva sob a capa de uma suposta "indignidade"
generalizada. Diabolizar globalmente quem proferiu uma decisão judicial atenta
gravemente contra a independência dos órgãos de soberania e corrói o tecido da
República.</p><p>No fecho do seu
libelo, o escritor tenta inverter habilmente o ónus da argumentação, sugerindo
que o uso da palavra "jurisconsulto" constitui uma tentativa elitista
de impor silêncio através de uma suposta superioridade académica, atirando para
a ribalta a tirada de encaixe "por qué no te callas?". A ironia é
deliciosa, mas revela uma flagrante inversão de papéis, quem ocupa de forma
sistemática o espaço mediático semanal com colunas de ampla repercussão
nacional, munido do prestígio incontestável de um Prémio Camões, é o
romancista, e não o jurista confinado ao rigor austero dos códigos. O
jurisconsulto é, por definição dogmática, aquele que estuda cientificamente o
direito para dar respostas fundamentadas e tecnicamente justificadas. Numa
democracia sã, o escritor escreve romances e comove as almas, enquanto o
jurisconsulto interpreta os códigos e protege a arquitetura da legalidade.</p><p>Reitero com
firmeza a minha inteira disponibilidade de cidadão para não consentir, através
de um silêncio cúmplice, que a lei e o direito em Cabo Verde sejam reduzidos
àquilo que os mais influentes, articulados e poderosos pretendem que seja. Os
que dispõem de fácil acesso ao centro do poder político fazem pressão constante
a favor dos seus apaniguados, ao passo que os cidadãos sem voz e sem holofotes
permanecem lamentavelmente esquecidos nas margens do sistema.</p><p>Constituiu uma
profunda vergonha institucional que órgãos da República, comentadores e meios
de comunicação social se preocupem exaustivamente e monopolizem o espaço
público com a situação de um arguido que dispõe de plenos e amplos meios de
defesa, enquanto ninguém se lembra, por uma única vez sequer, dos familiares —
e em especial de um desamparado órfão — da vítima indefesa de um esfaqueamento
mortal ocorrido na localidade de Caibros, na Ribeira Grande de Santo Antão. É
estritamente contra essa iniquidade seletiva que continuarei a lutar sem
tréguas.</p><p>Cabo Verde é uma
democracia madura, aberta, vibrante e plural, onde cabem perfeitamente a pena
afiada e talentosa do grande escritor e a voz ponderada, técnica e serena do
jurista. Mas a liberdade de expressão não dispensa, em circunstância alguma, o
rigor intelectual e o respeito institucional. Continuaremos a pugnar por uma
justiça substancialmente mais célere, eficiente, pedagógica e próxima do
cidadão, exigindo o cumprimento intransigente dos compromissos assumidos pelos
poderes públicos, com os pés firmes na dogmática jurídica, respeitando
escrupulosamente a separação de poderes e recusando firmemente que a emoção
literária ou o populismo subvertam o Estado de Direito. Porque, no fim de
contas, as belas palavras do romancista encantam legitimamente o espírito, mas
são as normas impessoais do Direito que salvaguardam, em última instância, a
liberdade de todos nós.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1292
de 02 de Setembro de 2026.</strong></em></p>]]></description>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Olavo Freire]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 04 Sep 2026 20:19:35 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Mudança no comportamento é fundamental para ser a oposição que a democracia precisa ]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Na salvaguarda do
princípio da separação de poderes no sistema parlamentar têm uma função
importante como oposição democrática no equilíbrio e controlo do poder da
maioria governamental/parlamentar. Também são fundamentais para garantir
alternância na democracia, afirmando-se através de visão, políticas e estratégias
próprias como real alternativa ao governo do momento.</p><p>Por isso é que se
diz que não há democracia sem partidos políticos. Pela mesma razão o que
acontece nos partidos políticos não deve ser preocupação apenas dos seus filiados,
mas de toda a sociedade. Aliás, a crise que vem se alastrando nas democracias
tem afectado extraordinariamente a organização do espaço político e alterado o
lugar ocupado pelos partidos tradicionais. Em alguns países, partidos
anteriormente poderosos quase que desaparecerem. Em contrapartida surgiram
outros, quase sempre nos extremos, que aceleraram a polarização social e
aumentaram a crispação política, com o populismo, nuns casos, de esquerda e, noutros,
de direita. </p><p>Nota-se ainda
fenómenos de captura de partidos tradicionais seja por grupos inicialmente
assumidos como “outsiders”, seja por comportamentos facciosos normalizados, traduzindo-se,
nos diferentes casos, num definhamento da vida política partidária. Vê-se isso
no consequente distanciamento dos eleitores e da sociedade, na incapacidade de
propor respostas aos problemas das pessoas e aos desafios do país e no
afunilamento e fixação da actividade política em personalidades narcisísticas e
ambiciosas. Daí resulta um estrangulamento ainda maior do espaço político
dentro dos partidos fazendo da intriga, da bajulação e dos golpes palacianos os
instrumentos para a ascensão e afirmação no seio dos partidos. </p><p>O problema com
tais desenvolvimentos é que nas democracias, a Constituição, a lei dos partidos
e o código eleitoral impõem que os partidos sigam princípios democráticos na
sua organização interna, publicitem as suas acções políticas, os seus processos
competitivos de eleições internas para os diferentes órgãos e para apresentação
de candidatos às eleições locais e nacionais e também prestem contas, revelando
as fontes de financiamento. Assim sendo, acaba por não escapar a ninguém o quanto que a
desconfiança em relação aos partidos nas democracias não resulta simplesmente da
crise de representação, da descredibilização progressiva das instituições e dos
efeitos das redes sociais no comportamento dos eleitores. São os próprios
partidos que, com a sua postura populista, desafiadora das regras e muitas
vezes albergando excessivas pretensões de poder e culto de personalidade dos
seus dirigentes, contribuem numa espécie de feedback positivo para agravar
ainda mais a crise das democracias. </p><p>A situação que se
vive hoje em Cabo Verde é paradigmática de como a convergência de certos factores
pode conduzir a um estado de mal-estar socio-político, sem que se veja um
clareamento da situação num futuro próximo. A abstenção de mais de 53% nas
eleições legislativas já dava sinal disso quando numa primeira análise se
percebia que o partido vencedor cresceu pouco relativamente, conseguindo a
maioria parlamentar, mas não ultrapassando os 50% dos votantes, enquanto o
partido vencido, com bons indicadores económicos, perdia eleitorado, que,
entretanto, não era atraído por outras forças políticas. As sombras que pairam
sobre o novo governo não deixam dúvidas quanto às dificuldades em encontrar caminho
para ultrapassar a situação. Nem as eleições presidenciais próximas pelas suas
vicissitudes garantem que possam servir de orientação para se deixar para trás
o mal-estar e olhar para a frente com mais confiança. </p><p>Um outro factor
que não é favorável é o estado da oposição. Não se vê no MpD, o maior partido
na oposição, sinais ou vontade de mudança na actuação política em sentido
contrário àquele que
os partidos têm desempenhado no agravamento da crise da democracia. Mesmo
depois da derrota eleitoral, em boa medida por alienação do eleitorado
potencialmente favorável derivada do definhamento da vida partidária e da
negligência na relação com a sociedade, parece que o partido continua na mesma senda.  No que é crucial para o desempenho da sua
função como oposição permitiu que fossem reveladas fragilidades internas com
impacto na unidade e eficácia do grupo parlamentar. </p><p>Também na imagem,  que projecta de um partido a  ultrapassar o deficiente funcionamento
democrático responsável pelas últimas derrotas eleitorais e a tornar-se uma alternativa
credível nas próximas eleições, tem suscitado dúvidas se será mesmo assim. Não é, por exemplo,
curial a realização de uma
reunião da direcção nacional para
decidir sobre o apoio do partido a uma candidatura presidencial, em pleno
período eleitoral e a uma
semana de eleições disputadas para presidente do partido  e para os delegados à convenção. Pode
ser estatutariamente uma competência da DN mas em situações normais,  entre as quais a  existência de uma proposta de um presidente eleito
já aprovada pela sua comissão política. </p><p>Não é certamente o
caso pois o presidente renunciou e o partido automaticamente pôs-se em estado
eleitoral com eleições a serem realizadas no prazo de noventa dias. Na
sequência, candidaturas para o cargo de presidente foram apresentadas e, evidentemente, o
princípio democrático de garantir a igualdade de oportunidades dos candidatos
teria que ser respeitado. Em particular, da parte dos órgãos que gerem o
partido deve haver isenção e imparcialidade, ou seja, de acordo com a cultura
constitucional e legal, mostrar contenção na tomada de decisões de grande
alcance que podem vincular os órgãos a serem eleitos no próximo domingo, 6 de
Setembro.   </p><p>Não foi o aconteceu
no sábado passado, 29 de  Agosto, com a
agravante de que pública e notoriamente por todo o país encontrarem-se entre os
apoiantes da candidatura presidencial escolhida as mesmas personalidades que
patrocinam a candidatura para o cargo de presidente do partido. Não é de estranhar se as
outras candidaturas tomassem a decisão de sábado como um sinal enviado para o
universo dos militantes que vão votar no domingo de quem realmente domina o
partido. Assim é, porque vai de encontro ao padrão de comportamento que já deu
divisão no grupo parlamentar e resultou em votações estranhas na eleição dos
membros da mesa da Assembleia Nacional. </p><p>A realização de
eleições livres e justas é fundamental para se conseguir do vencido a aceitação
dos resultados e garantir a unidade da organização depois de se ter dividido no
apoio a diferentes candidaturas. Ao pôr em risco tudo isso com mais uma
repetição de situações em que uns agressivamente se impõem, salvaguardando os
seus interesses, e outros procuram apaziguá-los, em nome da unidade do partido,
é de se perguntar se, de facto, há vontade de mudar para poder cumprir na
plenitude o papel de partido da oposição. </p><p>Vontade não houve para,
enquanto partido do governo, mesmo depois da derrota nas autárquicas, para
relegitimar numa convenção a sua liderança para as eleições e no processo
aproximar-se dos militantes, do seu eleitorado e da sociedade, como é normal em
todos os partidos democráticos. Neste momento crucial da vida da democracia em
Cabo Verde a vontade de mudança não pode fraquejar.  Nas democracias constitucionais é fundamental
que haja partidos cuja lealdade à constituição é indiscutível. Do MpD, com
origem no movimento popular que tornou a transição democrática dos anos noventa
possível, o país espera que assuma em pleno a responsabilidade que advém do seu
legado na construção das instituições da democracia e da economia aberta e
moderna.</p><p style="text-align: right;"><strong>Humberto Cardoso</strong></p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1292
de 02 de Setembro de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/09/04/mudanca-no-comportamento-e-fundamental-para-ser-a-oposicao-que-a-democracia-precisa/104429</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[A Direcção]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 04 Sep 2026 08:30:00 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Desmilitarizar a Cidadania - 

Porque a urna não é quartel
]]></title>
            <description><![CDATA[<p>— O mundo não
flutuava no espaço; repousava sobre uma tartaruga gigantesca.</p><p>— E essa tartaruga
repousa sobre o quê? — perguntou o filósofo.</p><p>— Sobre outra
tartaruga.</p><p>James insistiu. A
senhora percebeu onde queria chegar:</p><p>— Não vale a pena.
Há tartarugas até ao fundo.</p><p>Talvez a senhora
percebesse algo essencial: mais estranho do que uma sucessão interminável de
tartarugas seria uma tartaruga suspensa no ar. O mesmo se pode dizer das
decisões humanas. Nenhuma escolha existe isoladamente. Assenta numa
experiência, formada pela memória e pelas circunstâncias sociais que antecedem
a vontade. Nenhuma escolha nasce órfã.</p><p>A decisão
eleitoral não constitui exceção. No entanto, o voto e a abstenção são
frequentemente explicados como manifestações imediatas da vontade. O cidadão
teria votado porque quis ou ter-se-ia abstido por desinteresse. Essa
interpretação toma a vontade como a última base explicativa da democracia, sem
investigar o que a sustenta. Sob a decisão encontram-se pertenças, emoções e
aprendizagens que podem levar o cidadão a reconhecer primeiro quem é “dos seus”
e só depois a avaliar o que cada partido representa.</p><p>Tal como na
história relatada por William James, há sempre outra camada sob aquela que
inicialmente observamos — debaixo do voto, a vontade; debaixo da vontade, a
pertença; debaixo da pertença, a emoção; e, debaixo desta, a história.
Tartarugas até ao fundo. Ou pertenças até à urna.</p><p>Esta imagem
introduz a hipótese: em Cabo Verde, processos históricos de socialização
organizaram a cidadania em campos nos quais a pertença partidária pode
anteceder a avaliação política. É nesse sentido que se propõe o conceito de
“militarização da cidadania”.</p><p>A origem do
fenómeno relaciona-se com a construção do Estado após a independência. Hinos,
comícios e discursos de reafricanização integraram um projeto de redefinição
nacional. O partido único ultrapassou a sua condição partidária: representava a
luta de libertação e apresentava-se como prolongamento simbólico da nação.
Discordar podia, assim, significar afastar-se da narrativa fundadora do Estado.</p><p>A democratização
não eliminou essa estrutura; pluralizou-a. O novo partido construiu outra
narrativa fundadora, baseada na liberdade política, na superação do partido
único e na alternância. O multipartidarismo não substituiu a emoção pela
deliberação, mas produziu identidades rivais, sustentadas por memórias e
lealdades próprias.</p><p>Contudo, esses
campos perderam capacidade de integração. Segundo o Afrobarómetro, a proporção
de cidadãos próximos de um partido caiu de 68% em 2008 para 30,3% em 2024. Em
vez de dois blocos representativos do país, existem minorias organizadas que
procuram mobilizar uma maioria sem identificação política estável.</p><p>Os partidos
conservam a capacidade de mobilizar os seus apoiantes. Entre 2005 e 2024, os
cidadãos identificados partidariamente apresentaram maior propensão para votar.
Em 2024, 85,7% dos abstencionistas não se sentiam próximos de qualquer partido.
Quando maioritária, a abstenção não pode ser reduzida à apatia; pode revelar a
incapacidade do sistema para representar segmentos crescentes da população.</p><p>Os resultados de
2026 reforçam essa hipótese. Desde 2021, o vencedor ganhou cerca de 3.600
votos, enquanto o derrotado perdeu 25.700. Cerca de 88% da alteração da
distância eleitoral decorreu da retração do segundo, não de uma transferência
maciça de votos. Os inscritos aumentaram em 23.197, mas os votantes diminuíram
em 32.313, e a abstenção ultrapassou 53%. A eleição mantém a legitimidade
jurídica; politicamente, a redução da participação exige explicação.</p><p>Perante esse
afastamento, seria inadequado atribuir o insucesso eleitoral a uma deficiência
da cidadania — coisa em voga. A cidadania não nasce pronta. Age segundo as
experiências, pertenças e aprendizagens que a formaram. Se aprendeu a rejeitar,
rejeita; se foi estimulada a analisar e questionar, analisa e questiona. Os
resultados obrigam os partidos a interrogar a sua capacidade de escutar,
representar e mobilizar quem deixou de comparecer em vez de apontar em vez de
apontar os dedos à cidadania.</p><p>A identificação
partidária também pode influenciar a perceção do desempenho governativo. Os
apoiantes do governo tendem a avaliar mais favoravelmente a economia, a
liderança, a confiança e a corrupção do que os opositores; com a alternância, a
direção das diferenças também muda. Esse padrão é compatível com o raciocínio
motivado: informações semelhantes podem ser valorizadas de modo diferente
conforme a identidade política do observador.</p><p>Nessas condições,
a pertença pode anteceder o julgamento. Reconhecer falhas no próprio partido
pode parecer beneficiar o adversário; admitir mérito no campo oposto,
enfraquecer o grupo. A fiscalização torna-se assimétrica: práticas condenadas
na oposição são relativizadas no governo, sem critérios universais de
responsabilização.</p><p>Outra dimensão é o
contraste entre os indicadores macroeconómicos e a opinião pública. O FMI e o
Banco Mundial registaram crescimento robusto, redução do desemprego, reservas
elevadas e melhoria das contas públicas. Apesar desses resultados, em 2024
apenas 15% dos cidadãos avaliavam positivamente a economia, enquanto 65%
consideravam que o país seguia na direção errada.</p><p>Essa divergência
não torna irrelevantes os indicadores nem irracionais as perceções. O
significado político da economia depende da distribuição dos benefícios, das
expectativas e da experiência dos cidadãos com os preços, a habitação, o
emprego, a saúde, os transportes e o futuro. O crescimento pode ser real e ter
uma tradução social insuficiente ou desigual.</p><p>Uma interpretação
estritamente tecnocrática apresenta, portanto, limites. Os dados permitem
avaliar políticas, mas não substituem a análise das condições em que os
resultados são experimentados. Indicadores favoráveis não alteram
automaticamente perceções formadas pela experiência. Importa distinguir
desempenho macroeconómico de bem-estar percebido.</p><p>O afastamento
eleitoral não conduz automaticamente ao populismo, mas pode favorecê-lo. Quando
os partidos perdem representação, diminui a participação e cresce a distância
entre discurso institucional e experiência quotidiana, abre-se um vazio que
lideranças populistas procuram explorar. Apresentando-se como a voz exclusiva
do “povo” contra uma elite indiferente, convertem frustrações numa oposição
entre campos moralmente incompatíveis. Em vez de desmilitarizarem a cidadania,
reorganizam-na numa fileira personalista e hostil à mediação institucional.</p><p>Desmilitarizar a
cidadania significa impedir que a fidelidade substitua o julgamento. Não exige
eliminar os partidos nem suprimir a dimensão emocional da política, mas
permitir que o cidadão critique o seu partido, reconheça mérito nos adversários
e reveja as suas posições sem que isso seja interpretado como deserção.</p><p>Esse processo
requer partidos mais abertos, cujos dirigentes se considerem primi inter pares;
instituições menos permeáveis ao favorecimento partidário; e uma cultura na
qual a crítica não seja monopólio da oposição. Requer também que o sistema
político escute os cidadãos afastados antes que a sua insatisfação seja
apropriada por discursos que prometem devolver-lhes a voz, enquanto enfraquecem
a representação e o controlo democráticos.</p><p>Em síntese, a
independência promoveu uma pedagogia política e emocional; a democratização
distribuiu-a por campos concorrentes; e o afastamento partidário revelou os
seus limites. A menor identificação política, a abstenção e a polarização das
perceções sugerem que os partidos mobilizam os seus apoiantes, mas têm
dificuldades em representar a cidadania no seu todo. O aprofundamento
democrático — e a prevenção do populismo — dependerá da transição da lógica da
fileira para uma cidadania orientada pela autonomia crítica e pela
responsabilização imparcial do poder.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1291
de 26 de Agosto de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/08/31/desmilitarizar-a-cidadania-porque-a-urna-nao-e-quartel/104345</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Claudino Henriques-Veiga]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 31 Aug 2026 08:41:40 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[O casaco, o indivíduo e o Estado ]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Nos anos mais recentes, a
sátira política islenha encontrou num objeto aparentemente banal um
protagonista improvável: o casaco. Não deixa de ser curioso que uma simples
peça do guarda-roupa, capaz de tornar qualquer homem ou mulher um pouco mais
janota, tenha vindo a ocupar um lugar tão vasto no imaginário social e burburinho
dos dias que correm, insinuando-se nas conversas corriqueiras, alastrando-se na
instantaneidade das interações pelas redes sociais tanto no país como na
diáspora, e infiltrando-se, indubitavelmente, na permeável cultura popular.</p><p>Sucede, porém, que o
casaco do «homem de Estado» (<em>sic</em>) não
pertence ao seu guarda-roupa. Em boa verdade, nunca lhe pertenceu, foi-lhe
apenas confiado por aqueles em cujo nome governa, o povo, que lho entrega apenas
por um tempo breve, contado como todas as coisas que dependem da soberana vontade
popular, e que o pode reclamar quando assim entender, sem quaisquer explicações
nem indulgências. Não é peça que acompanhe o eleito para a sua casa de morada,
nem faz parte da herança destinada aos seus descendentes. O seu lugar, ontem
como hoje, e certamente também amanhã, é única e exclusivamente ao serviço da
República, onde permanece, impávido, mesmo quando muda aquele que o veste, lá
está, diga-se uma vez mais, sempre por um tempo determinado.</p><p>Talvez por isso aconteça,
de tempos a tempos, o espetáculo curioso, para não dizer até bastas vezes
caricato, de ver certos indivíduos convencidos de que cresceram apenas porque
vestiram um casaco maior do que eles. Julgam que o tecido lhes acrescentou
estatura, quando apenas tornou mais visível a diferença entre a dimensão do
cargo e a dimensão de quem o ocupa. Porque o casaco do «homem de Estado» (<em>sic</em>) nunca foi feito à medida de um
indivíduo; é o indivíduo que deve esforçar-se por caber na medida do Estado.</p><p>E isto, ao contrário do
que possa parecer à vista desarmada, não é tarefa simples. Há ombros que
encolhem ao primeiro peso da responsabilidade. Há mangas demasiado compridas
para braços que nunca aprenderam a servir antes de mandar. Há bolsos onde
alguns imaginam encontrar mais privilégios quando deveriam transportar apenas
deveres. E há espelhos, sim, muitos espelhos, onde certos governantes passam
demasiado tempo a admirar a sua figura, esquecendo que a História, essa velha e
paciente testemunha, nunca se deu por satisfeita com a elegância do casaco nem
com o aprumo de quem o veste, mas sempre acabou por perguntar, quando chegou a
hora de fazer contas, que grandeza houve nas decisões tomadas e que
consequências deixaram elas na vida terrena.</p><p>É certo e está cristalino
que numa democracia digna desse nome, ninguém deve ser impedido de aspirar às
mais altas funções públicas, salvo as limitações que a própria lei estabelece.
Esse é um princípio que protege a liberdade de todos. Mas existe uma diferença
essencial entre ter o direito de vestir o casaco e possuir a estatura para o
honrar. A primeira condição obtém-se nas urnas; a segunda conquista-se todos os
dias, diante da consciência, da Constituição e dos cidadãos.</p><p>O casaco deixa, então, de
ser uma simples peça de roupa. Transforma-se num símbolo republicano.
Representa a continuidade das instituições para além dos indivíduos, lembra que
os cargos sobrevivem aos seus ocupantes e que a República não muda de natureza
conforme muda o inquilino do gabinete oficial. Os ocupantes passam. O Estado permanece.
E é precisamente porque o Estado deve permanecer que exige de cada um a humildade
de compreender que apenas o representa, nunca o possui, nem parcialmente, nem
por inteiro.</p><p>Talvez resida aqui dos
maiores equívocos do nosso tempo. Confunde‑se autoridade com protagonismo,
liderança com popularidade digital, poder com propriedade. Esquece-se que
governar nunca deve ser um exercício de vaidade, mas um permanente ato de
contenção. Quem veste o casaco do Estado deixa de falar apenas em nome próprio;
cada palavra pesa mais, cada gesto alcança mais longe, cada silêncio produz
consequências.</p><p>Por isso, o casaco não faz
o «homem de Estado» (<em>sic</em>). Talvez nunca
fez. Mas obriga-o. Obriga-o a elevar-se acima dos interesses mais imediatos,
das conveniências meramente partidárias e dos aplausos fáceis. Obriga-o a
lembrar que a autoridade não nasce do tecido que cobre os ombros, mas da integridade
que sustenta a coluna vertebral.</p><p>No fim do mandato, o
casaco regressa ao cabide da República, à espera de um outro ocupante que o
vista. A questão nunca foi saber quem consegue envergá-lo. A verdadeira
pergunta, aquela que interessa aos cidadãos e que a História responderá sem
complacência, é outra: terá quem o vestiu crescido até à altura do Estado ou,
pelo contrário, terá encolhido o Estado à medida da sua própria estatura?</p><p>Colocar a questão nestes
termos é essencial, sobretudo nos momentos em que a vida política se torna mais
crispada e o ruído ameaça sobrepor-se ao sentido das instituições. O país acaba
de sair de um ciclo eleitoral. Os deputados tomaram posse, o novíssimo Governo
entrou em funções e os principais instrumentos de governação – o Programa do
Governo, a Moção de Confiança e o Orçamento Retificativo – foram aprovados,
conforma manda a lei magna, assegurando a normalidade constitucional e o
regular funcionamento do poder executivo.</p><p>O casaco, esse símbolo do
exercício temporário da autoridade pública, já encontrou novos ombros. Resta
agora saber se quem o veste compreenderá que o mandato não é uma distinção
pessoal, mas um compromisso solene com o Estado e com o povo das ilhas, no país
e na diáspora.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1291
de 26 de Agosto de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/08/31/o-casaco-o-individuo-e-o-estado/104344</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Euridice Monteiro]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 31 Aug 2026 08:41:29 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Ferramentas mentais para o desafio contemporâneo: inteligência artificial ]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Alguém a chamou a era da singularidade.</p><p>A alta tecnologia ocupando o
protagonismo dos humanos. Várias profissões em breve trecho já não serão
realizadas pelos humanos. </p><p>Uma situação ocorrida na China nos dá um
apanhado real do que podemos viver de agora em diante em relação ao surgimento
da inteligência artificial. Um tribunal chinês tomou a decisão em que uma
empresa não pode demitir um funcionário simplesmente porque a inteligência
artificial faz o trabalho mais barato do que um humano. A situação envolveu um
funcionário que auferia cerca de 25 mil yuans mensal. Após a empresa decidir utilizar a
inteligência artificial para executar a maioria das tarefas, o funcionário
recebeu um outro cargo com salário bem menor.</p><p>Ele recusou e a empresa o demitiu.</p><p>O funcionário contestou a decisão
argumentando que a substituição por inteligência artificial era uma opção de
negócio, e não uma razão plausível para terminar o contrato. Neste caso, o
tribunal concordou e deu razão ao funcionário. Todas essas mudanças
contemporâneas e tecnológicas irão trazer grandes mudanças psicológicas e
emocionais no concernente à saúde mental, profissional e social. Com tudo isso,
a sociedade se torna cada vez mais complexa, a gestão emocional e a saúde
mental, serão desafios de grande impacto mundial.</p><p>A sociedade certamente passará por
grandes mudanças, das quais não estaremos preparados para dar respostas. </p><p>O fenómeno interpessoal e o
distanciamento humano poderão ser mais contundentes ainda do que temos vivido
até agora.</p><p>Não precisamos ser adivinhos para prever
um futuro menos positivo e altruísta.</p><p>Se já estamos vivendo uma crise
interpessoal, imaginem num cenário onde as máquinas comandam quase tudo. De
acordo com dois dos principais mentores da inteligência artificial, "o
futuro não será fácil e as previsões não são promissoras". O principal
nome associado à criação da Inteligência Artificial é John McCarthy, o
cientista americano que cunhou o termo "Inteligência Artificial" e
organizou a famosa Conferência de Dartmouth em 1956.</p><p>Outro nome fundamental é o matemático
britânico Alan Turing, considerado o pai da computação e pioneiro ao propor se
as máquinas podiam pensar. Agora estamos perante o maior desafio do século.</p><p>Os humanos serão obsoletos e as
"máquinas inteligentes" assumirão a liderança.</p><p>Os desafios serão cada vez mais
complexos e não podemos encarar tudo isso de ânimo leve.</p><p>A sociedade tem dado sinais preocupantes
em vários ângulos e cenários.</p><p>Com incidência na patologia psiquiatra,
transtorno de ansiedade. Situações que tem vindo a crescer cada vez mais.</p><p>Síndrome do pânico, depressão e tantas
outras patologias assumindo um crescimento no âmbito pessoal, familiar,
profissional e social. Nunca tivemos uma sociedade tão frágil como hoje.
Estamos gradualmente perdendo as certezas que um dia norteavam a sociedade; a
motivação que plasmava a nossa existência e a simplicidade que um dia nos
mantinha com um olhar de esperança e prazer pela vida. </p><p>Nunca a humanidade esteve tão oca de
conteúdo como hoje. A humanidade está em perigo de um colapso universal. É
urgente adotarmos medidas preventivas no nosso quotidiano, ambiente de trabalho,
estruturas religiosas, igrejas e famílias. A situação é séria e requer um olhar
profundo e alguma urgência no seu combate e análise.</p><p>Já chegamos quase ao limite e se torna
um imperativo dar uma atenção especial e assertiva. Algo precisa acontecer no
sentido de mudarmos o quadro presente.</p><p>Medidas articuladas, respostas
positivas, decisões conscientes e incisivas diante do quadro atual. </p><p><img src="https://static.expressodasilhas.cv/media/2026/08/1787938025823.normal.jpeg"></p><p>Para terminar, irei apontar algumas
ferramentas fundamentais que nos ajudam a manter um equilíbrio necessário
diante dessa grande mudança de paradigma gigantesca. </p><p>O autoconhecimento sem dúvida ocupa o
espaço importantíssimo. Uma das ferramentas indispensáveis diante do quadro
atual. </p><p>Num plano mais metafísico e filosófico,
entram a espiritualidade filosófica e teológica. Aproximação do sagrado, da
metafísica e da transcendência.</p><p>Gerando um alto senso existencial, a
completude e a plenitude.</p><p>O vazio interno será preenchido pela
presença do autoconhecimento, da autogestão e da busca sincera de uma
existência que não se dissolve com os fatores externos.</p><p>A gratidão intencional e permanente não
deixa de ser uma das ferramentas basilares.</p><p>Uma alma grata não se distancia do
essencial e não se perde nas vicissitudes. </p><p>Gerando assim, um sentimento interno de
satisfação e sentido pleno.</p><p>Falando de sentido (Victor Frankl) no
seu esplêndido livro: "Em busca de sentido", nos trás uma compreensão
profunda sobre a razão de uma existência intencional e firme diante das lutas e
desafios sombrios. Quando temos um sentido firme diante da vida conseguimos
vislumbrar esperança onde a maioria enxerga negatividade.  Seguimos em
frente onde muitos ficarão pelo caminho.</p><p>Um sentido de vida inabalável nos ajuda
a manter a gratidão constante e dar respostas positivas em tempos sombrios e
difíceis.</p><p>É a resposta para a boa saúde mental e o
antídoto contra o vazio na alma.&nbsp;</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1291
de 26 de Agosto de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/08/31/ferramentas-mentais-para-o-desafio-contemporaneo-inteligencia-artificial/104343</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Lino Magno]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 31 Aug 2026 08:41:19 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Tensão política pode aumentar com a suspensão do mandato do PR]]></title>
            <description><![CDATA[<p>A aparente de-escalada do confronto que há
algumas semanas opunha o PR e o
governo nessa matéria e que incluiu ataques ao PR nas redes sociais e
desabafos do PR que não cederia a ameaças e a chantagens, pode
não significar que as partes já se recolheram ao cumprimento estrito das suas
competências respectivas, evitando tensão despropositada. Outras questões
sensíveis continuam em disputa, caso da nomeação de embaixadores e de quem pode
ter influência efectiva sobre os
municípios, que o PM nos últimos dias ostensivamente reafirmou com as auscultações dos presidentes das câmaras
municipais e as promessas de ajuda directa.</p><p>Há, de facto, uma preocupação de “salvar a face” depois que, sem precedentes, nomes de
propostas do governo terem sido trazidos a público levando o PR a sentir-se obrigado a explicar por que não os aceitava. Assim, num acto inédito, teve
demostrar apreço pela personalidade proposta, ao mesmo tempo
que deixava entender que a “<em>prudência&nbsp;</em><em>institucional e a necessidade de preservar a confiança
pública</em>” não aconselham nomeações de quem esteja envolvido em “<em>controvérsia jurídica ainda não
definitivamente ultrapassada</em>”.</p><p>Não se sabe se isso vai resultar
porque, quando exposto, o PR foi forçado a apresentar razões
que em outras circunstâncias não seriam públicas, correndo o risco de parecer incoerente em relação a nomeações já feitas, eventualmente mais
gravosas e de maior consequência para a confiança pública.</p><p>Mesmo na
questão dos embaixadores os argumentos apresentados que não são
precisamente os mesmos que opunham embaixadores de “carreira” aos “políticos”, mas já evoluíram para razões de processo – pedido de <em>agrément&nbsp;</em>junto dos estados estrangeiros que supostamente seriam mais rápidos para uns do que para os outros. Algo que justificaria o adiamento da nomeação dos embaixadores políticos para depois das eleições
e
para o aval do novo presidente. O problema
desse raciocínio é a aparente incoerência quando, por um lado, não se sustenta
nas próprias “linhas vermelhas” do PR, trazidas a público em Julho de 2024, e,
por outro, faz por ignorar o estatuto dos diplomatas, por ele
promulgado em Abril de 2026 que, para as individualidades não pertencentes à carreira, só estipula que devem ter qualificações
e ser em número inferior aos de carreira na chefia das missões.</p><p>Curiosamente, o confronto público na questão dos embaixadores, de carreira versus políticos, contrasta com a
facilidade com que o PR aceita a
proposta de exoneração de nove chefes de missão diplomática numa semana, ou seja, de mais de 50% da representação de Cabo Verde no
exterior. Isso faz lembrar Donald Trump, no início do seu segundo mandato em
2025, a deixar vagos 50% dos postos de embaixador dos Estados Unidos no mundo, no estilo
de quem, como um outro populista, o Javiel Milei da Argentina, usa figurativamente o motosserra para lidar com a Administração Pública. Em Cabo Verde, com sistema parlamentar, espera-se que o PR no papel partilhado de nomeação e exoneração
exerça o seu poder moderador.</p><p>Facilitar nesses processos partilhados, muitas vezes, tende a ser visto como um convite
para ir além do que é adequado e proporcional. Vê-se no verdadeiro&nbsp;<em>bullying&nbsp;</em>a que foi sujeito o PR as consequências do que acontece quando não
se rege pelos procedimentos
democráticos e pelas regras de convivência e diálogo democrático. Em matéria de nomeações, o PR em declarações
à imprensa, veio apelar que nomes propostos para cargos “<em>não devem ser revelados antes de existir consenso</em>”. Muito bem.
Também provavelmente deve-se evitar linhas vermelhas sem suporte na lei que sempre podem ser vistas como manifestações de agendas político-eleitorais
desadequadas. </p><p>No ambiente de
tensão existente, apesar do aparente apaziguamento dos ânimos e que tende a manter-se porque, por um lado, as nomeações ainda estão por acontecer e, por
outro, no horizonte próximo
estão as eleições presidenciais,
um outro factor pode introduzir dinâmicas novas. Se o PR for candidato, de acordo
com a lei eleitoral, terá de suspender o seu mandato até 16 de Setembro. A questão que se coloca é se o
presidente interino, que vai estar em funções até à data da proclamação oficial
dos resultados eleitorais, provavelmente até os fins de Novembro ou início de Dezembro, ou
seja, durante quase três meses, poderá tomar decisões em desacordo com o que o
PR – que mantém o cargo, embora suspenso –, explicitamente estabeleceu
como a sua linha de acção de política no seu mandato.</p><p>A Constituição da República define os poderes do presidente interino, entre os
quais a competência para a nomeação de embaixadores, do Procurador-Geral da
República e do Presidente do Tribunal de Contas, ouvido o conselho da
república, mas sem que fique vinculado pelo seu parecer (artigo 139º, nº2). Em 2016, numa situação
similar, aconteceu pela primeira vez a nomeação de embaixadores por um
presidente interino. Nada objecta que não aconteça agora. A diferença é que o
actual PR já manifestou publicamente a sua posição que essas nomeações devem
ser feitas pelo PR que sair das eleições de 15 de Novembro. Qual vai ser o desfecho disto tudo, vai depender
da pressão político-eleitoral e
também partidária sobre os actores políticos.</p><p>Cabo Verde tem a situação aparentemente única no mundo de suspensão do exercício do cargo pelo presidente da república que se
candidatar à sua própria sucessão. Os primeiros
ministros, ministros e deputados não suspendem funções nas eleições
legislativas. O presidente da câmara municipal, nas eleições autárquicas,
suspende, mas não tem limite de mandatos. Compreende-se que governos e autarcas governam
e há o risco de utilização de recursos públicos para influenciar o eleitorado.
O mesmo não acontece com o PR que não
governa e está limitado a dois mandatos. A questão que se coloca é se é realmente
indispensável a medida de suspensão do exercício do cargo de presidente da
república para garantir a igualdade de oportunidade de todos os outros
candidatos no pleito eleitoral.</p><p>A generalidade das democracias
parece não acreditar que pela importância do PR no sistema político compensa
suspender por quase três meses o seu mandato. A norma que impõe esta solução já
foi constitucional com o artigo 118º, nº2 da CRCV, mas deixou de constar e passou para o
código eleitoral com a revisão constitucional de 1999 (artigo 383º, nº2). Não
será esta a oportunidade de repensar
esta norma quando é palpável a tensão entre os órgãos de soberania, quando o princípio da separação de poderes está a ser questionado e revela-se de maior importância que os checks
and balances funcionem para garantir os direitos fundamentais, o primado da Lei e a democracia.</p><p style="text-align: right;"><strong>Humberto Cardoso</strong></p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1291
de 26 de Agosto de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/08/28/tensao-politica-pode-aumentar-com-a-suspensao-do-mandato-do-pr/104305</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[A Direcção]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 28 Aug 2026 08:41:00 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Pedido de fiscalização de constitucionalidade feito a desoras e falho nos seus pressupostos
]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Podem fazer e
desfazer, sempre alimentando a expectativa da impunidade; ou porque nunca se
tem a ousadia de se lhes mover um processo judicial ou porque, em se lhos
movendo, lançam mão de mil artifícios para se safarem, incluindo fazer protelar
a ação da Justiça até os processos morrerem de velhice, vulgo prescrição.</p><p>Se, porventura, os
processos chegarem ao fim, com uma sentença transitada em julgado, tentam
manter, a todo o custo, a narrativa da dúvida e da suspeição sobre a justeza e
a integridade do procedimento, como bem assinalava Humberto Cardoso num seu
recente e muito lúcido editorial.</p><p>Encontramos bem perto,
em Portugal, no julgamento do antigo Primeiro Ministro José Sócrates, exemplo
de protelamento <em>ad aeternum</em> de processos, com o risco de
prescrição e total descrédito da Justiça. Decorridos 12 anos sobre a sua
detenção, ainda se está bem longe de se concluir o julgamento em primeira
instância. Independentemente de outras causas que poderão explicar o penoso
arrastar desse processo, existe um largo e sólido consenso em como os
expedientes dilatórios, nomeadamente um sem número de recursos e incidentes,
suscitados pelo arguido têm constituído a principal causa dessa situação.</p><p>Já em Cabo Verde são
os processos movidos ao Amadeu Oliveira aqueles que melhor ilustram a
dificuldade em julgar pessoas que se cobrem de estatuto especial.</p><p>Alardeando todo o
interesse em ser julgado, chegando até a zombar da Justiça, que estaria com
medo de o julgar, a verdade é que, sempre que se apercebe que vai ser
efetivamente sentado no banco dos réus, tenta pirar-se, como comprovam as cenas
rocambolescas da sua detenção por agentes da autoridade, para comparência a
julgamento sob custódia.</p><p>Depois foi o que se
viu: no que chegou de ser percebido como um ato de rabidância política, com a
liderança da UCID, lá conseguiu a imunidade parlamentar, que não só o permitiu
subtrair-se a um julgamento que já estava em curso, como serviu-lhe de
incentivo para continuar a fazer das suas, desta vez escudado nessa imunidade.</p><p>Com o processo que lhe
foi movido como Deputado assistiu-se ao mesmo <em>modus operandi</em>. De
início ele próprio participou da sessão da Comissão Permanente da Assembleia
Nacional em que se votou a autorização para ele ser detido fora de flagrante
delito e ser presente ao Poder Judicial, para o primeiro interrogatório. Hoje
é, porém, fácil aperceber-se de que, afinal, se tratou de pura encenação da sua
parte, por estar imbuído da expectativa de que ia ser mais um número com a Justiça.
Seria apenas ouvido em primeiro interrogatório, para depois ser mandado embora.</p><p>Só que as contas lhe
saíram furadas.</p><p>Tendo-se-lhe aplicado
a prisão preventiva, aqui d’el-rei, que a um Deputado não se pode impor, sem
mais, essa medida de coação.</p><p>Desde então, mesmo
depois do trânsito em julgado da sua condenação, ele e os seus apoiantes, de
entre os quais dois cidadãos que foram mandatários nacionais da candidatura do
atual Presidente da República, se têm desdobrado em influências junto do Poder
Político, para deslegitimar o procedimento judicial de que foi alvo e
desacreditar a Justiça.</p><p>A mais recente
investida é já conhecida.</p><p>O pretexto é de que a Resolução
nº 3/X/2021, da Comissão Permanente da Assembleia Nacional, que concedeu a
autorização para a sua detenção fora de flagrante delito, para ser presente ao
primeiro interrogatório judicial, que ele votou em pessoa, terá sido objeto de
uma interpretação inconstitucional, por se ter ido mais além e lhe imposto a
prisão preventiva.</p><p>Cumpre refutar
liminarmente a alegação de que se teria feito uma interpretação
inconstitucional dessa deliberação, ao se apoiar nela para se impor a prisão
preventiva ao citado Deputado. É que não faz qualquer sentido, chegando mesmo a
roçar o absurdo, que, no termo desse primeiro interrogatório, o Tribunal, órgão
de soberania de corpo inteiro, ficasse a aguardar por autorização de outro
órgão de soberania para aplicar a prisão preventiva ao arguido.</p><p>Admitindo, porém, que
a tese da interpretação inconstitucional possa ter pés para andar, não cremos,
ainda assim, que o recurso de fiscalização abstrata de constitucionalidade seja
a sede adequada para se suscitar a questão, como acaba por fazer o PR.</p><p>Na verdade, não se
está a questionar o texto da Resolução, em si, mas apenas o acerto da
interpretação que foi feita pelo Poder Judicial num caso concreto e num
processo que já terminou com decisão transitada em julgado.</p><p>Para o questionamento
dessa interpretação, feita pelo Poder Judicial, o meio processual adequado é,
não a <strong>fiscalização abstrata</strong>, mas a <strong>fiscalização concreta</strong> da
constitucionalidade, que devia ter sido acionada em devido tempo.</p><p>Isso porque, como é
sabido, as decisões judiciais só podem ser escrutinadas (e corrigidas, se for o
caso) no próprio processo, por via de recurso. O mesmo é dizer, enquanto o
processo estiver pendente e enquanto o recurso puder ser interposto.</p><p>Ora, se há coisa de
que o então arguido Amadeu Oliveira fez uso exaustivo foi do seu direito de
recurso, até ao Tribunal Constitucional, pelo que, se não chegou de suscitar, <strong>em sede de recurso de fiscalização concreta</strong>,
a inconstitucionalidade da interpretação dos Tribunais judiciais, para lhe
imporem a prisão preventiva, não é seguramente ao Presidente da República que
cabe, <strong>anos depois</strong>, e em <strong>sede de fiscalização abstrata</strong>, agir em
seu lugar.</p><p>Mais, cumpre sublinhar que a Resolução da Comissão Permanente não era definitiva, mas sim suscetível
de impugnação para o plenário da Assembleia Nacional, o que nunca foi
feito, nem pelo visado Amadeu Oliveira, nem por nenhum representante dos
partidos políticos com assento parlamentar.</p><p>Efetivamente, nenhuma irregularidade se pode apontar, nem
à composição da Comissão Permanente, que incluiu, para além dos Membros da Mesa,
a representação de todas as forças políticas presentes no Parlamento, nem à sua
competência, como tem demonstrado, de forma suficientemente persuasiva, o
Tribunal Constitucional.</p><p>Tudo indica, pois, que
a extemporânea e mal concebida iniciativa do PR está fadada ao insucesso.</p><p>No mais, o pedido de
fiscalização pelo PR, na sequência da petição que lhe foi dirigida, só adquire
alguma utilidade enquanto revelador de um certo estado de alma, de uma
predisposição para a permanente confrontação com o Poder Judicial, cuja
independência e legitimidade constitucional se pretende demolir, para em seu
lugar passar a prevalecer a vontade de meia dúzia de influentes.</p><p>Cumpre, finalmente,
dizer que, ao fazer o que fez, o PR tomou sobre si o difícil encargo, imposto
pela ética republicana e pelo princípio da igualdade, de pedir igualmente a
fiscalização abstrata da constitucionalidade, por dúvida sobre o acerto da
interpretação feita pelos tribunais, em centenas de decisões condenatórias, já
transitadas em julgado, envolvendo demais cidadãos, pois, não é suposto que o
faça em relação a um e não o faça em relação a todos. Pior, que se esmere em o
fazer em relação a quem pode, e efetivamente pôde fazer uso, no processo, de
todos os meios de defesa, e não em relação a quem simplesmente não pode, ou não
pôde, fazê-lo.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1290
de 19 de Agosto de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/08/21/pedido-de-fiscalizacao-de-constitucionalidade-feito-a-desoras-e-falho-nos-seus-pressupostos/104237</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Olavo Freire]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 21 Aug 2026 17:40:35 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[As Contas Públicas do II Trimestre e a verdadeira dimensão da “herança”]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Durante as últimas
semanas, assistiu-se a uma tentativa de construir uma narrativa sobre o estado
das finanças públicas deixado pelo Governo anterior. Opiniões foram
apresentadas como factos, interpretações políticas foram apresentadas como
evidências e criou-se, em alguns momentos, a ideia de que o novo Governo teria
recebido um quadro financeiro próximo da ruína. Hoje, porém, já existe um
instrumento muito mais poderoso do que qualquer discurso político. As próprias
Contas Gerais do Estado de junho de 2026.</p><p>É precisamente por
isso que o momento mais adequado para realizar esta análise é agora, após a
publicação da Conta Provisória do II Trimestre de 2026. Este documento tem uma
particularidade que não pode ser ignorada. Não se trata de uma conta do Governo
anterior nem de uma projeção por este deixada. Trata-se da fotografia oficial
da execução orçamental até junho, incluindo o período em que o atual Governo já
estava em funções, e é um documento validado institucionalmente pelo atual
Governo.</p><p>Há, portanto, uma
consequência política e técnica inevitável. Quem governa atualmente não pode
escolher os números que recebe. Recebe os resultados existentes. As contas
agora publicadas mostram, com clareza, qual era a situação das finanças
públicas no momento da transição, sem necessidade de interpretações
partidárias.</p><p>E a fotografia é
muito diferente daquela que alguns tentaram pintar.</p><p>As contas revelam
um aumento significativo das receitas, uma execução orçamental superior à da
despesa, um crescimento substancial da receita fiscal, um aumento da execução
do investimento, uma diminuição dos encargos com juros, um saldo global
positivo e uma diminuição considerável do rácio da dívida pública sobre o
PIB.  </p><p>Mais do que isso,
mostram que Cabo Verde entrou no segundo semestre de 2026 com uma economia em
crescimento, uma máquina fiscal a arrecadar mais, uma dívida em trajetória
descendente e capacidade para continuar a financiar políticas sociais e
investimentos públicos.</p><p>Isto não é uma
opinião. É a conta do Estado.</p><p>E talvez seja
precisamente por isso que estes números são tão importantes neste momento.
Permitem, finalmente, separar a realidade financeira do país da narrativa
política construída em torno dela.</p><p>Se existe uma forma
séria de avaliar a qualidade da gestão das finanças públicas, essa forma não
está nos discursos, mas sim na capacidade de aumentar receitas, controlar
despesas, financiar investimentos, proteger as áreas sociais e,
simultaneamente, reduzir a dívida. É precisamente nesta combinação que reside a
força dos resultados apresentados na Conta Provisória do II Trimestre.</p><p>Começando pelas
receitas. Até junho de 2026, as receitas totais, incluindo a venda de ativos não
financeiros, ascenderam a 42.421,3 milhões de ECV, o que corresponde a uma
execução orçamental de 45,7% e a um crescimento de 13,2% face ao mesmo período
de 2025.  </p><p>Mais importante
ainda é a qualidade dessa receita. A receita fiscal aumentou 14,7%, com os
impostos diretos a crescerem 16,2% e os indiretos 14,1%. O imposto sobre o
rendimento aumentou 16,5%, o IRPC 18,7%, o IVA 13,4% e os impostos sobre
transações internacionais 18,2%.  </p><p>Isto é
particularmente relevante, pois demonstra que o crescimento da receita não
dependeu exclusivamente de transferências ou de receitas extraordinárias.
Existe uma forte componente da receita fiscal associada à dinâmica da própria
economia e à capacidade de cobrança do Estado.</p><p>Do lado da despesa,
a leitura também exige alguma sofisticação. A despesa total aumentou 15,6%,
atingindo os 42.259,6 milhões de ECV. No entanto, este aumento deve ser
analisado em termos da sua composição. Enquanto os juros diminuíram 12% (menos
404,3 milhões de ECV), os ativos não financeiros aumentaram 17,6% (para 3.538,8
milhões de ECV).  </p><p>Isto significa que
uma parte significativa do aumento da despesa não está simplesmente associada
ao funcionamento corrente do Estado, mas sim à expansão do investimento e à execução
de ativos com potencial para gerar retorno económico e social.</p><p>Há, no entanto,
outro indicador fundamental. A receita apresenta uma execução de 45,7%, ao
passo que a despesa total apresenta uma execução de 40,6% do orçamento
reprogramado.  </p><p>Em termos de gestão
orçamental, este facto é importante. Significa que, no primeiro semestre, a
receita aumentou a um ritmo superior ao da execução global da despesa.</p><p>O resultado foi um
saldo global positivo de 161,6 milhões de ECV, o que equivale a 0,05% do PIB, e
um saldo primário de 3.112,5 milhões de ECV, o que equivale a 1,0% do PIB.  </p><p>Talvez uma das
conclusões mais importantes destas contas esteja precisamente no investimento,
que cresceu 18% em termos homólogos.  </p><p>A execução não se
concentrou numa única área. No pilar da economia, foram executados 7.055,6
milhões de ECV, com destaque para infraestruturas modernas e seguras,
sustentabilidade energética, turismo, transformação da agricultura, plataforma
marítima e transformação digital.  </p><p>No pilar do Estado
Social, foram executados 27.804 milhões de ECV, com uma forte concentração na
proteção social, no desenvolvimento do capital humano, na habitação e no
desenvolvimento urbano e na saúde.  </p><p>Portanto, a
narrativa correta não é a de um Estado que simplesmente aumentou as despesas.
Trata-se de um Estado que aumentou a execução orçamental, mantendo um saldo
positivo, reduzindo o peso dos juros e reforçando simultaneamente a componente
de investimento e a dimensão social.</p><p>E a dívida?</p><p>Este é,
provavelmente, um dos indicadores mais expressivos da trajetória das finanças
públicas.</p><p>O stock da dívida
pública atingiu os 303.728,8 milhões de ECV, no entanto, o seu peso no PIB
diminuiu de 99,9% para 93,1%, o que corresponde a uma redução de 6,8 pontos
percentuais em seis meses.  </p><p>Esta diminuição não
deve ser interpretada apenas como resultado de amortizações. Ela reflete também
o crescimento nominal da economia e uma gestão prudente das finanças públicas.
É precisamente esta combinação de crescimento económico, disciplina orçamental
e gestão da dívida que permite criar espaço para políticas públicas sem pôr em
causa a sustentabilidade.</p><p>E a economia
responde. No primeiro trimestre de 2026, o PIB cresceu 6,4%, o investimento
aumentou 15,9%, as exportações de bens e serviços cresceram 5,5% e a inflação
média anual situou-se nos 1,6% em junho. </p><p>Não é possível
separar estes resultados da qualidade da política económica e da gestão das
finanças públicas.</p><p>É por isso que as
contas do segundo trimestre são particularmente importantes neste momento.</p><p>Pode-se discutir
opções políticas, prioridades, modelos de desenvolvimento ou discordar das
escolhas feitas. O que não se pode é discutir contra os números.</p><p>Os números mostram
uma economia a crescer, com a consolidação das contas públicas e aumento de
investimento público.</p><p>Estes resultados
não significam que não existam desafios. Existem, e são grandes. Uma economia
pequena e aberta como a de Cabo Verde continua vulnerável aos choques externos,
ao preço da energia, às condições financeiras internacionais e às limitações
estruturais. Mas é precisamente por isso que a posição de partida é importante.</p><p>E a posição de
partida revelada por estas contas é, objetivamente, muito mais sólida do que
algumas narrativas políticas recentes poderiam fazer crer.</p><p>A política passa.
Os governos também. As narrativas também. As contas ficam.</p><p>E quando se trata
de contas públicas, oficiais e produzidas pelo próprio Estado, a melhor forma
de discutir o futuro é começar por respeitar os factos.</p><p>Porque uma boa
herança não é um problema para quem a recebe. É uma responsabilidade para quem
governa.</p><p>A história pode ser
contada de muitas maneiras. As contas públicas, porém, não podem ser reescritas
consoante a conveniência política. As contas do segundo trimestre de 2026
deixam uma mensagem clara. O novo Governo não recebeu um Estado em colapso
financeiro. Recebeu uma economia em crescimento e umas finanças públicas numa
trajetória de consolidação. A partir daqui, a responsabilidade é sua. Não se
trata de explicar a herança, mas sim de superar os resultados recebidos.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1290
de 19 de Agosto de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/cultura/2026/08/21/as-contas-publicas-do-ii-trimestre-e-a-verdadeira-dimensao-da-heranca/104238</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Gilson Pina]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 21 Aug 2026 17:40:00 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Denúncias do PR são um sinal de alerta para a democracia]]></title>
            <description><![CDATA[<p>O governo com o
suporte da sua maioria vai procurar impor-se ao parlamento. Não pela via da
persuasão, mas pelos seus próprios termos.</p><p>Para isso conta
com a colaboração da direcção dos trabalhos parlamentares pela presidente da AN.
Desde do primeiro dia desta legislatura  a presidente da Mesa procurou através de vários artifícios -
designações não constitucionais do parlamento, forma aleatória de se dirigir
aos deputados, gestão pessoalizada do tempo de intervenção dos deputados,
interferência nos debates -  criar
espaços de arbitrariedade e discricionariedade em colisão com o regimento da AN.
Naturalmente que tal atitude tinha que provocar a reacção dos deputados e um
consequente ambiente crispado, aliás, pretendido por quem em primeiro
lugar  desafiou as regras,  para, aproveitando-se do viés anti-parlamentar existente,  indispor a opinião pública contra o parlamento
e contra os deputados. </p><p>Não passou muito tempo para que a tensão na relação do
governo com outro órgão de soberania viesse à superfície. O presidente da
república, num post na sua página do Facebook da quinta-feira da semana passada,
foi peremptório a declarar que “<em>e</em><em>m nenhuma circunstância cederei a chantagens,
insultos, ameaças ou fake news de quem quer que seja”. </em>Em causa aparentemente estaria a nomeação de um novo
procurador-geral da República e possivelmente de novos embaixadores. O
primeiro-ministro confirmou no dia 6 de Agosto que já tinha sido entregue ao PR
a proposta para a nomeação
do PGR, algo que se teria verificado desde de finais de Julho. </p><p>Com as declarações tanto do PM como do ministro da justiça a trazer a
público essa proposta, abriu-se um precedente que evidentemente só poderia ser
factor de atrito entre os dois órgãos de soberania. A nomeação normalmente é
feita a “duas mãos” em que o impulso vem do governo e o presidente da república pode aceitar ou
não. A interacção entre os dois é normalmente discreta para evitar que eventual
falta de sintonia se desenvolva em facto político e que a não concretização de
uma iniciativa seja prejudicial para a imagem da personalidade proposta. Neste
caso, tudo indica que se quis fazer do processo de nomeação uma batalha
política em que não teriam faltado <em>chantagens e ameaças</em>. </p><p>A situação dos órgãos constitucionais com mandatos expirados vem de alguns
anos atrás e tem servido de arma de arremesso entre os vários actores políticos
e também apresentado como evidência da ineficácia da democracia representativa
pelos seus descontentes. Tendem a pôr todos no mesmo saco, mas, de facto, há
uns órgãos que resultam de um processo de nomeação conjunta do PR e do Governo e há outros que
são votados por maioria de dois terços na Assembleia Nacional. Em geral,
prefere-se falar destes últimos para demonstrar que o parlamento não funciona e
faz-se por ignorar a dinâmica política por detrás que não poucas vezes incluem
vontade de bloqueio quando se precisa de maiorias reforçadas e outras vezes configuram
tentativa de imposição de um órgão de soberania sobre o outro. </p><p>Assim, por exemplo, a votação da generalidade dor órgãos externos da AN
verificou-se em 2014/2015 com um governo e uma maioria do PAICV. Nos dez anos
seguintes com outro governo foi impossível renová-los devido a bloqueios
sucessivos. Agora a nova maioria prevê resolução rápida do problema, talvez
porque não espera que surja qualquer força de bloqueio. Em relação aos órgãos
nomeados pelo PR sob proposta do governo, o processo parece ser mais
complicado. Em causa poderá estar a relação futura entre o PR e o Governo, e em
particular entre o PR e o PM, sobretudo no que respeita à definição de qual das vontades deverá
prevalecer em determinadas matérias. O confronto actual, quando as
eleições presidenciais estão próximas e apoio político eleitoral pode ser
prestado, provavelmente já estará a forçar o redesenho das relações entre os
dois órgãos de soberania nos próximos cinco anos. </p><p>Diz-se muitas vezes que nos sistemas de governo de pendor parlamentar o
poder do presidente da república é de geometria variável. Se o governo é
minoritário, o PR tem um espaço maior de actuação e a sua influência conta
mais. Se o governo tem uma maioria parlamentar sólida, normalmente o PR é mais
contido nas suas intervenções. O que aconteceu na última legislatura com um
governo de maioria e um PR muito activo e a querer ultrapassar as suas
competências foi de certa forma uma anomalia. Continuar no mesmo registo com um
outro primeiro-ministro mais cioso em manter a sua esfera de poder,
inevitavelmente levaria ao
conflito. Isso é mais certo quando o actual primeiro-ministro é quem no
seu relacionamento com o parlamento já deu sinais de que a haver reequilíbrio
dos poderes entre os órgãos de soberania deve verificar-se com ele no centro. </p><p>Não é, pois, de estranhar que se queira transformar a nomeação do PGR num
campo de batalha para definir relações futuras. Em primeiro lugar a questão é
mais complicada do que normalmente seria porque o Ministério Público em Fevereiro
deste ano deduziu acusações contra quatro personalidades e funcionários ligados
à presidência da república e em Julho acusou o actual primeiro- ministro de 26
crimes alegadamente cometidos enquanto presidente da câmara municipal da Praia.
Um outro aspecto é que a nomeação de um novo PGR nestas circunstâncias levanta
a suspeição de que se pode estar a proceder a um ajuste contas. A suspeição é
reforçada com a hostilidade dirigida contra esse órgão constitucional durante o
período do inquérito dos factos ao ponto de se sugerir motivação política e transmitir
que o mandato do PGR
estaria caducado, portanto, ilegítimo. </p><p>Para o PR, mais que provável candidato à um segundo mandato e a três meses
das eleições, talvez fosse mais conveniente esperar o resultado eleitoral para
avançar com a nomeação do novo PGR. Para o PM, em processo rápido de afirmação de
poder talvez não. A resistência de um forçou o outro a tornar público o nome da
personalidade e o envolvimento público de outras entidades no processo sugere que se pretendeu  ganhar tempo e/ou contornar o problema. As
denúncias de chantagem e de ameaças pelo próprio PR dão conta da intransigência
de quem se quer impor, o que
poderá estar a caracterizar a relação entre os dois órgãos de soberania que
devem funcionar com lealdade institucional dentro do quadro da separação de
poderes. </p><p>A questão que se coloca é:
desde de quando é que se estabeleceu essa relação? Se estava presente no
processo de indigitação ou na nomeação do primeiro-ministro. Ou se instalou
depois da acusação do Ministério Público. Também, se for assegurado apoio
eleitoral ao PR e sair vitorioso, a relação futura seguirá o que a Constituição
estabelece ou será torcida na base de <em>ameaças e chantagens</em>.  </p><p>Claramente que o que se passou no parlamento não pode ser considerada uma
simples coincidência. Nem tão pouco são as provocações feitas ao próprio
presidente da república que na sequência faz as denuncias referidas. A Administração
Pública vive em sobressalto de mudanças rápidas que vão além dos chamados
cargos de confiança para chegar a todos os escalões numa demonstração de que ninguém está salvo.
A erosão da confiança no poder judicial já vem de longe e o facto de, neste
momento, se reforçar a ofensiva,  não é à
toa. Até sugere que há uma estratégica de poder em marcha. E certamente que não
favorece a liberdade nem a democracia.&nbsp;</p><p style="text-align: right;"><strong>Humberto Cardoso</strong></p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1290
de 19 de Agosto de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/08/21/denuncias-do-pr-sao-um-sinal-de-alerta-para-a-democracia/104217</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[A Direcção]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 21 Aug 2026 09:09:57 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Elites de origem popular: as ambivalências da ascensão]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Considerada um dos
objetos mais complexos e reveladores da sociologia da mobilidade social, a
trajetória de ascensão de uma origem popular ao topo da hierarquia
técnico-política, recorrente em Cabo Verde desde a independência nacional, por
via da educação e da política, gera, muitas vezes, uma profunda tensão
identitária, bem como contrastes, paradoxos e conflitos internos em quem
ascende socialmente ou atravessa fronteiras de classe, num percurso que deixa
marcas indeléveis. Uma das dimensões menos visíveis desta mobilidade vertical
reside naquilo a que a sociologia chama «incongruência de estatuto». O conceito
foi elaborado por Gerhard Lenski, em «Status Crystallization: A Non-Vertical
Dimension of Social Status» (1954), sob a designação de «cristalização de
estatuto», mais tarde substituída pela de «consistência» ou «inconsistência de
estatuto», e traduz-se no desencontro entre a origem social popular dos
indivíduos e o seu elevado nível de instrução ou, inversamente, entre posições
sociais elevadas e baixos níveis de qualificação. Este desalinhamento pode
gerar mal-estar, frustração e comportamentos específicos, visíveis na sociedade
cabo-verdiana e, particularmente, no seio de elites locais em construção
permanente.</p><p>Convém,
todavia, ter presente que, no sistema de estratificação social cabo-verdiano,
elite não é sinónimo de classe média. A classe média pode dispor de capital
económico, cultural e social suficiente para se aproximar de segmentos da elite
cultural e política, mas isso não a torna, por si só, elite, cuja definição
conceptual tem variado ao longo da história. Na tradição clássica, Gaetano
Mosca, em <em>Elementi di scienza politica </em>(1896), definia uma elite como
uma minoria organizada que detém o poder e forma a classe dirigente; Vilfredo
Pareto, em <em>Trattato di sociologia generale </em>(1916), acrescentou à
definição o critério da excelência e distinguiu entre elites governantes e não
governantes. Max Weber, em <em>Wirtschaft und Gesellschaft / Economia e
Sociedade</em> (1922, obra póstuma), por sua vez, permitiu pensar a elite como
grupo de estatuto e de poder, e não apenas de riqueza. C. Wright Mills, em <em>The
Power Elite (</em>1956), realçou que uma elite se caracteriza sobretudo pela
capacidade de decidir, influenciar e impor definições legítimas da realidade
social e, por isso mesmo, não se circunscreve a um conjunto de ricos.</p><p>Numa
perspetiva mais refinada e mais lata, Pierre Bourdieu, em<em> La Distinction.
Critique sociale du jugement </em>(1979), sublinha que as elites são grupos que
ocupam posições superiores do espaço social devido à acumulação e conversão de
capital económico, social, cultural e simbólico. A sua posição é reproduzida
também por vias culturais e simbólicas, e não apenas através de mecanismos
políticos ou económicos. Daí que, em qualquer sociedade, pertencer à elite
dependa da composição desses capitais e da posição ocupada no campo do poder.
Importa, por isso, não reduzir a elite aos «ricos», nem pensar em termos
rigidamente dicotómicos de «nós» contra «eles», numa retórica moralista e
anti-elite. A elite também não deve ser idealizada, demonizada ou
instrumentalizada por discursos de vitimização política. Enquanto categoria
sociológica, a elite, pela sua posição privilegiada, pode ser uma alavanca de
mudança e de crescimento, desde que alinhada com o interesse público e
integrada numa estratégia adequada de desenvolvimento. Em sentido contrário,
quando toma o Estado como refém, fecha oportunidades, bloqueia a mobilidade
social e revela falta de qualidade no modo como interage e dialoga com a
sociedade, converte-se num fator de retrocesso.</p><p>À
semelhança do que ocorre noutros países, as elites cabo-verdianas revelam-se,
na sua generalidade, frágeis, segmentadas e incompletas. Segundo Cláudio Alves
Furtado, em <em>Génese e (re)produção da classe dirigente em Cabo Verde </em>(1997),
destacam-se sobretudo nos domínios político-administrativo, intelectual e
cultural, cabendo ao Estado e às instituições de ensino um papel relevante na
sua mobilidade e consolidação. Contudo, frisa o sociólogo, do ponto de vista
económico, não se constituiu uma elite suficientemente autónoma e robusta que
pudesse sustentar um bloco dirigente plenamente consolidado. Em síntese, pode
afirmar-se que na sociedade cabo-verdiana há elites plurais e estruturalmente
frágeis, maioritariamente escolarizadas por via estatal e socialmente
heterogéneas, em contraste e em tensão com a sua origem popular. A mobilidade
social de indivíduos provenientes destes meios, combinada com a distribuição
desigual dos recursos e das posições sociais, é responsável pela produção de
situações de «incongruência de estatuto». Os dados disponíveis confirmam a
dimensão do fenómeno, de acordo com Crisanto de Barros, em <em>Génese e formação
das elites político-administrativas cabo-verdianas: 1975-2008 </em>(2012): cerca
de 22% da elite político-administrativa cabo-verdiana provêm dos segmentos
sociais mais desfavorecidos e três em cada quatro altos dirigentes da
administração pública foram beneficiários do programa estatal de bolsas de
estudo.</p><p>A
passagem de uma origem popular à elite faz-se, em Cabo Verde, sobretudo por via
da escolarização, o principal mecanismo de ascensão social. Trata-se de um
processo que Bourdieu teorizou em <em>Esquisse pour une auto-analyse</em> (2004),
sob a figura do «trânsfuga de classe», caracterizada por um «<em>habitus</em> clivado»
(dividido), e que Chantal Jaquet (filósofa), em <em>Les transclasses ou la
non-reproduction </em>(2014<em>)</em>, prefere designar por «transclasse». É um
percurso que comporta frequentemente uma rutura identitária profunda, geradora
de traumas, complexos e desconforto, cujas marcas são duradouras. A origem
social popular não desaparece com a mobilidade ascendente; pelo contrário,
permanece inscrita nos gostos, na linguagem e na relação com o mundo, deixando
marcas que se manifestam em comportamentos ambivalentes e em custos
psicológicos invisíveis. Quem ascende socialmente vive simultaneamente em dois
mundos diferentes: o da origem, cuja pertença reivindica e à qual quer
manter-se leal, e o de chegada, que lhe exige um esforço permanente de
integração.</p><p>Desta
«dupla não-pertença», noção formulada pelo investigador Brady Smith, em «Other
Atlantics: Cape Verde, Chiquinho, and the Black Atlantic World» (2012), a
propósito da identidade cabo-verdiana, resulta um comportamento que oscila
entre a reivindicação da sua origem popular e da sua autenticidade, sobretudo
em situações de crise identitária, e o abandono do seu passado, sempre que o
processo de integração social ponha em causa as suas raízes, as ameace ou as
estigmatize. É nessa oscilação permanente entre duas escolhas identitárias
inconciliáveis e dois caminhos que se cruzam e se contrapõem que reside o
verdadeiro custo psicológico da trajetória ascendente. Afinal, a questão
relevante não é saber se a sociedade cabo-verdiana produz ou não elites, nem
avaliar o seu grau de rejeição ou de instrumentalização política. O que faz
sentido apurar, analiticamente, é se o tipo de elite que o país produz está ou
não ao serviço do desenvolvimento de Cabo Verde, sem que os seus atores reneguem
a origem popular, percam a autenticidade ou se envergonhem do passado que os
seus ancestrais edificaram de sol a sol.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do
Expresso das Ilhas nº 1289 de 12 de Agosto de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/08/17/elites-de-origem-popular-as-ambivalencias-da-ascensao/104111</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[César Monteiro]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 17 Aug 2026 09:07:35 GMT</pubDate>
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