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        <title><![CDATA[Expresso das Ilhas]]></title>
        <description><![CDATA[Notícias de Cabo Verde]]></description>
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        <pubDate>Wed, 22 Jul 2026 09:25:50 GMT</pubDate>
        <copyright><![CDATA[Expresso das Ilhas on-line. Todos os direitos reservados.]]></copyright>
        <language><![CDATA[pt-pt]]></language>
        <item>
            <title><![CDATA[O silêncio que grita]]></title>
            <description><![CDATA[<blockquote>
	<em style="background-color: initial;">“No final, não nos lembraremos das palavras dos nossos inimigos, mas
do silêncio dos nossos amigos.” 
	</em>Martin Luther
King Jr.</blockquote><p>
	Uma acusação de 26 crimes não cala a ambição
de um Programa de Governo. O que cala essa ambição é a ausência de uma resposta
completa à pergunta simples de com que dinheiro serão financiadas as suas
promessas. Na passada sexta-feira, 17 de julho, a Assembleia Nacional reuniu-se
para apreciar o Programa do novo Governo e votar a Moção de Confiança que lhe
dava suporte político. Saiu de lá aprovada, com os votos do PAICV a
sobreporem-se aos da oposição. No entanto, o que ficou por dizer nessa sessão
pesa mais do que tudo o que foi dito, e é sobre esse silêncio, não sobre o
resultado da votação, que quero escrever.</p><p>
	Antes, uma nota breve. Não me compete, como
candidato à presidência do MpD, comentar processos judiciais que nada têm a ver
com a eleição de 6 de setembro. O MpD tem hoje um presidente interino e um
grupo parlamentar legitimamente eleito, e é a eles que cabe fixar a posição do
partido sobre essa matéria. Acredito nas instituições, na presunção de
inocência e na distância que deve sempre existir entre a política e a justiça.
Apenas imagino, com alguma curiosidade, o que diria o PAICV de há um ano sobre
um hipotético Primeiro-Ministro do MpD na mesma situação. Mas há curiosidades
que ficam sem resposta, e hoje quero concentrar-me noutro silêncio: o das
contas.</p><p>
	<strong>Um programa que quer tudo ao mesmo tempo</strong></p><p>
	Centremos o foco no documento a que o Governo
deu o nome de “Cabo Verde para Todos” e onde se promete, de facto, quase tudo a
cada um: saúde universal e gratuita, ensino superior público gratuito já a
partir do próximo ano letivo, aumento salarial dos professores até uma base de
108 mil escudos. Nada ficou de fora, aparentemente. Do pacote constam ainda
travessias marítimas tabeladas em 500 escudos, viagens aéreas com um teto de 5
mil escudos, navios e aviões próprios adquiridos progressivamente pelo Estado e
cobertura de 5G para 95% da população até 2030.</p><p>
	É um catálogo de aspirações legítimas, que
qualquer cabo-verdiano gostaria de ver cumpridas, e ninguém nega o valor destas
metas. No entanto, um país não se governa por catálogo, governa-se por
prioridades, e prioridades é precisamente aquilo que este Programa de Governo
se recusa a ter.</p><p>
	O mesmo texto que anuncia a redução do Estado,
com menos pessoas, menos institutos e menos agências, anuncia também novas
estruturas: uma Autoridade Nacional de Mobilidade, um Centro Nacional de
Resposta a Incidentes Cibernéticos e novas polícias municipais. Por mais
esotérico que possa parecer, o mesmo programa promete baixar impostos e alargar
gratuitidades, garantindo ao mesmo tempo uma redução da despesa e um aumento
dessa mesma despesa, no mesmo documento. Isto não é visão, é um rascunho onde
ainda não se escolheu o que se quer ser. E um rascunho, por mais bem escrito
que seja, não substitui um plano.</p><p>
	<strong>Quando um programa muda, o orçamento continua
o mesmo?
	</strong></p><p>
	<em>“Os factos são melhores do que os sonhos.” </em>Winston Churchill</p><p>
	É precisamente aqui que o debate deixa de ser
político para passar a ser institucional. Os governos têm todo o direito de
serem mais ambiciosos do que aqueles que os antecederam. É para isso que servem
as eleições: para permitir que novas maiorias apresentem novas prioridades e
novas soluções para os problemas do país.</p><p>
	O que já não parece evidente é que um Programa
de Governo possa alterar, de forma significativa, a dimensão das
responsabilidades financeiras do Estado sem que surja uma reflexão séria sobre
a adequação do instrumento orçamental que as deve suportar.</p><p>
	Sejamos justos: a pergunta não está totalmente
por fazer. No dia 3 de julho, ao entregar o Programa no Parlamento, o
Primeiro-Ministro admitiu que a decisão sobre um eventual Orçamento
Retificativo dependerá da análise do grau de despesa já realizada. É uma
resposta, mas é uma resposta que adia o essencial. Analisar quando? Com que
critérios? E, sobretudo, como se financiam, entretanto, compromissos que o
próprio Governo anuncia como imediatos, a começar pela gratuitidade do ensino
superior já no próximo ano letivo? Uma resposta condicional a uma pergunta
estrutural não é transparência, é um compasso de espera.</p><p>
	O Orçamento do Estado não é apenas uma
autorização para gastar dinheiro. É a tradução financeira de uma determinada
visão governativa, aprovada pela Assembleia Nacional para um conjunto concreto
de políticas públicas. Quando essa visão se altera de forma substancial, seja
porque surgem novas prioridades, novas prestações sociais, novos compromissos
permanentes ou um aumento estrutural da despesa, é legítimo perguntar se
continuamos, verdadeiramente, perante o mesmo orçamento ou perante uma
realidade política diferente que merece um novo enquadramento financeiro.</p><p>
	Falo com o conhecimento de quem geriu orçamentos
sectoriais em funções governativas sucessivas, como Secretário de Estado da
Economia Marítima, Ministro da Economia Marítima e Ministro do Mar. Sei o que
custa uma promessa quando chega à fase da execução, sei a diferença entre
anunciar uma medida e cabimentá-la, e sei que nenhuma boa intenção sobrevive a
um mapa financeiro que não a previu. Não peço um exercício de contabilidade
criativa, nem uma aula de direito financeiro. Peço apenas aquilo que qualquer
cidadão tem o direito de exigir quando o Estado assume novas responsabilidades
em seu nome: uma explicação clara sobre a forma como elas serão financiadas.</p><p>
	Porque as promessas políticas pertencem ao
domínio da vontade, mas os orçamentos pertencem ao domínio da realidade, e
governar é, precisamente, fazer com que uma não deixe de respeitar a outra.</p><p>
	<strong>Contas que se somam, não promessas que se anunciam</strong></p><p>
	A boa política nunca teve medo de apresentar
ou explicar contas. Pelo contrário, é nelas que encontra a sua maior fonte de
legitimidade. Um Governo pode pedir tempo aos cidadãos, pode pedir confiança,
pode até pedir o benefício da dúvida. O que não pode pedir é que essa confiança
substitua a transparência.</p><p>
	Por isso deixo uma proposta concreta, que não
custa nada a quem tem as contas em ordem: que o Governo apresente ao país, até
ao debate do próximo Orçamento do Estado, a programação financeira das
principais medidas do seu Programa, com o custo estimado de cada compromisso, a
respetiva fonte de financiamento e o calendário de execução. Essa apresentação
pode confirmar que o orçamento em vigor é suficiente, ou pode concluir que será
necessário ajustá-lo através de um Retificativo. Em qualquer dos casos, o que
fortalece a democracia não é a resposta em si, é o facto de ela existir com
clareza e a tempo.</p><p>
	Cabo Verde nunca perdeu ambição por exigir
rigor, nunca perdeu esperança por pedir contas, e dificilmente perderá
confiança num Governo que explique, com clareza, o caminho que escolheu. O que
verdadeiramente fragiliza a confiança é quando as perguntas permanecem
demasiado tempo com respostas adiadas.</p><p>
	Foi esse silêncio que marcou o debate
parlamentar da semana passada. Não o silêncio sobre pessoas ou processos, que
deliberadamente deixei de fora por entender que há quem tenha legitimidade
institucional para falar sobre eles. Refiro-me ao silêncio sobre aquilo que
permitirá transformar promessas em políticas públicas, expectativas em
compromissos cumpridos e intenções em resultados.</p><p>
	Porque, no fim, é sempre o mesmo princípio que
separa a política da governação: as promessas anunciam-se, as contas
apresentam-se. Enquanto as primeiras não forem acompanhadas pelas segundas,
continuará por responder a única pergunta que verdadeiramente importa ao país:
estaremos a caminho de um sonho, ou apenas perante um sonho a ser vendido a um
povo inteiro?</p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/07/22/o-silencio-que-grita/103759</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Paulo Veiga]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 22 Jul 2026 09:25:50 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Cabo Verde no Mundial 2026: Crónicas de uma Campanha Histórica]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Mas este feito vai muito além do resultado.</p><p>Os heróis foram todos. Um coletivo extraordinário, liderado por Bubista,
que foi uma barreira intransponível, uma defesa imbatível, e com um nome que
ecoa mais alto nas últimas 24 horas: Vozinha. Aos 40 anos, Josimar Dias foi
mais do que guarda-redes — foi símbolo, foi muralha, foi alma. Foi, com toda a
justiça, o homem do jogo.</p><p>E, de repente, o mundo parou para falar de Cabo Verde.</p><p>Talvez nunca, na nossa história recente, se tenha falado tanto do nosso
país como agora. Talvez nunca um cabo-verdiano tenha sido tão admirado
globalmente num só momento.<br>
Mas há algo que o mundo precisa de entender.</p><p>Vozinha não nasceu em relvados perfeitos nem cresceu em academias modernas.
As suas primeiras defesas foram feitas na terra batida, entre poeira,
sacrifício e sonhos. Há 40 anos, Cabo Verde provavelmente nem tinha um único
campo relvado.</p><p>Naquele tempo, ver um Mundial era um luxo. Uma televisão unia famílias
inteiras. Ou juntava-se em frente às montras do Hilário Brito, do Djibla, ou de
qualquer lugar raro com televisão.<br>
Um jogo unia um povo.</p><p>E esse povo nunca teve um caminho fácil.</p><p>Ao longo de mais de 500 anos, Cabo Verde foi forjado na escassez, nas
secas, na fome, na emigração e na saudade. Mas nunca na desistência.</p><p>Somos filhos do mar — imenso nas distâncias, mas nunca intransponível.</p><p>Somos Tubarões Azuis por uma razão.</p><p>Hoje, 50 anos após a independência, temos campos sintéticos espalhados
pelas ilhas. Mas não é isso que nos define.</p><p>Define-nos a alma.</p><p>Uma alma resiliente, indomável, luminosa. Uma capacidade quase
inexplicável de continuar a lutar quando tudo parece impossível.Talvez por isso
não tenha sido preciso vencer para emocionar o mundo.</p><p>As lágrimas de Vozinha e de Bubista disseram tudo. Lágrimas verdadeiras,
profundas, carregadas de história.</p><p>Lágrimas de um povo inteiro.</p><p>Um povo que celebrou um empate como quem vence a própria vida.</p><p>Como quem transforma derrotas em futuro.</p><p>Como quem prova que não é o tamanho do território que define a grandeza
de uma nação — mas sim a força da sua dignidade.</p><p>Nós crescemos a jogar descalços, com bolas de meia.</p><p>E ontem parámos uma das melhores seleções do mundo.</p><p>O apuramento já era histórico.</p><p>Mas agora que aqui estamos, que ninguém se atreva a pensar que somos
apenas figurantes.</p><p>Não sabemos até onde vamos chegar.</p><p>Mas sabemos exatamente quem somos.</p><p>Cabo Verde é uma nação que transforma limites em força, distância em
união e sonho em realidade — e quando o mundo duvida, nós respondemos com
história. Cabo Verde fez história.<br>
Cabo Verde não é pequeno.</p><p>Cabo Verde é imenso.</p><p><strong>2.</strong> Um Empate Histórico, mas as Dúvidas Permanecem</p><p>O empate 2–2 entre Cabo Verde e <strong>Uruguai</strong>, em Miami, será lembrado
não apenas pela sua importância na corrida pela qualificação, mas também pela
controvérsia que o rodeou.</p><p>Na minha perspetiva, o momento mais preocupante ocorreu quando o Uruguai
marcou o seu segundo golo enquanto Telmo Arcanjo, de Cabo Verde, estava caído
no relvado a sofrer de cãibras. O que tornou a situação ainda mais frustrante
foi ver o avançado uruguaio Federico Viñas inicialmente parar para ajudar o
jogador lesionado, apenas para abandonar o gesto e juntar-se à jogada ofensiva
assim que percebeu que o jogo tinha continuado. Embora o árbitro tivesse todo o
direito de deixar o jogo prosseguir, muitos adeptos de futebol argumentariam
que o <em>fair play</em> vai além do simples cumprimento das regras.</p><p>Houve também fortes apelos para a marcação de uma grande penalidade a
favor de Cabo Verde que, na minha opinião, mereciam muito mais atenção do que
aquela que receberam.</p><p>Momentos como estes levam inevitavelmente os adeptos a questionar se as
nações futebolísticas mais pequenas recebem o mesmo tratamento que as potências
tradicionais do futebol.</p><p>O selecionador Bubista falou dos códigos não escritos do futebol e da
importância de os respeitar. Creio que muitos observadores neutros teriam
dificuldade em discordar. O futebol é altamente competitivo, mas sempre
dependeu de um sentido partilhado de desportivismo que vai além do regulamento.</p><p>A arbitragem também se tornou um dos principais temas de discussão. O
veterano jornalista Mario Andrada esteve entre aqueles que questionaram várias
decisões ao longo do encontro, incluindo a decisão de terminar o jogo antes de
Cabo Verde poder cobrar um livre potencialmente perigoso perto da área.
Concorde-se ou não com todas as críticas, o facto de estas preocupações serem
levantadas por vozes respeitadas merece atenção.</p><p>A reação nas redes sociais mostrou que muitos adeptos sentiram o mesmo.
A discussão nunca foi apenas sobre um golo, uma falta ou uma decisão de
arbitragem. Tornou-se um debate mais amplo sobre consistência, justiça e o
tratamento das nações emergentes no futebol mundial.</p><p>A Confederação Africana de Futebol ainda não emitiu um comunicado
oficial, mas espero sinceramente que as questões levantadas por este jogo sejam
levadas à FIFA. O futebol não pode celebrar o <em>fair play</em> como um dos seus
valores fundamentais enquanto ignora incidentes que parecem contradizer esses
princípios. Quer seja tomada alguma ação formal ou não, este jogo merece uma
análise cuidadosa e uma discussão honesta para que controvérsias semelhantes
possam ser evitadas no futuro.</p><p>O que não pode ser contestado, contudo, é o caráter demonstrado por Cabo
Verde. Perante a adversidade, momentos polémicos e a pressão da ocasião, os
Tubarões Azuis recusaram-se a desistir. Lutaram até ao apito final e
conquistaram um empate que mantém vivo o sonho do Mundial.</p><p>O resultado foi importante. A exibição foi inspiradora. Mas as questões
deixadas por este jogo não devem simplesmente desaparecer com o apito final.</p><p><strong>3.</strong> Acabámos por perder… mas há derrotas que não nos
diminuem — elevam-nos. E esta foi uma delas.</p><p>O jogo de Cabo Verde contra a <strong>Argentina</strong> não foi apenas futebol…
foi alma em campo, foi coração a bater mais alto, foi história a ser escrita
diante dos nossos olhos. Entrámos desacreditados por muitos, mas dentro de nós
ardia uma chama que ninguém podia apagar. E mostramos isso ao mundo.</p><p>O resultado diz 3-2… mas quem viu, quem sentiu, sabe: Cabo Verde venceu.
Venceu na coragem, na entrega, na resiliência. Nunca baixámos a cabeça. Nunca
desistimos. Nunca deixámos de acreditar. Fomos gigantes. Fomos imensos. Fomos
um povo inteiro dentro de campo!<br>
Faltam palavras para descrever o que sentimos. A voz falha, o peito aperta, os
olhos enchem-se… é um orgulho que não cabe no peito. O mundo pode estar
surpreendido — nós não. Porque sabemos a força que carregamos.</p><p>Quando se acredita de verdade, quando se luta até ao último segundo,
quando se joga com o coração… tudo é possível.</p><p>Obrigado, Tubarões Azuis!</p><p>Por nos fazerem sonhar. Por nos fazerem sentir. Por nos fazerem
acreditar.</p><p>Hoje, mais do que nunca, somos campeões. Campeões de alma, de garra, de
identidade.</p><p>Bubista… líder, mestre de uma calma que inquieta os outros — és eterno.</p><p>Jogadores… guerreiros de verdade, autênticos tubarões.</p><p>Equipa técnica — cada um de vocês — levou um povo inteiro convosco.</p><p>Cabo Verde não perdeu. Cabo Verde elevou-se.</p><p>E Vozinha… que muralha! Frente a Messi, foi gigante, intransponível,
inesquecível. Olhos nos olhos com um dos maiores do mundo, mostrou quem somos:
um povo que não se verga, que luta até ao último segundo, sem medo, sem recuar.</p><p>Orgulho imenso nesta equipa. Orgulho imenso em ser Cabo Verde.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1285
de 15 de Julho de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/07/20/cabo-verde-no-mundial-2026-cronicas-de-uma-campanha-historica/103707</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[MARIA JOÃO NOVAIS]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 20 Jul 2026 09:12:20 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Cabo Verde: Uma Nação Disruptiva e agora no Mundo do Futebol]]></title>
            <description><![CDATA[<p>O duelo entre
Cabo Verde e Argentina foi seguido, no estádio
e pela televisão, com a trepidação de
uma disputa épica entre David e Golias.
O resultado oficial foi 3-2 para a Argentina, mas a vasta maioria
dos espectadores sabe quem
verdadeiramente “ganhou” aqueles 120
minutos de disputa renhida: foi Cabo Verde. Não fossem as irregularidades
de arbitragem, amplamente apontadas
nas redes sociais por adeptos atentos,
os Tubarões Azuis teriam, no mínimo,
chegado às grandes penalidades. E,
estamos certos, de que Vozinha teria mostrado
a Messi e aos seus colegas como se ganha uma bandeira. Perante
o mundo inteiro, Cabo Verde reafirmou a sua vocação de Nação disruptiva: uma seleção estreante que enfrentou, com tenacidade, dignidade e fair play, a
campeã mundial de 2022, fazendo-a estremecer durante 120 longos minutos.
Inacreditável!</p><p>Cabo Verde nasceu disruptivo. Somos a primeira Nação do Novo Mundo que criou um
mundo novo. Quando Cristóvão Colombo chegou às Caraíbas, em 1492, já havia em
Cabo Verde pelo menos uma geraçãodecabo-verdianos a falar a nossa língua.Umpovomestiço,falandocrioulo,forjava no
Atlântico Médioumacultura
defusãoentreaEuropaeaÁfrica. Colombo
constatou-o alguns anos mais tarde, ao fazer escala no arquipélago durante a sua terceira viagem às “Índias”
ocidentais. Antes de o chamado “Novo Mundo” ter nome, Cabo Verde já era um mundo
novo — o primeiro fora do continente
europeu.</p><p>O cabo-verdiano foi sempre um povo resiliente. Contra a seca e a fome, forjou uma Nação com projeção muito além das fronteiras insulares. A nossa língua espalhou-se pela costa ocidental africana, pelas ilhas ABC — Aruba, Bonaire e Curaçao —nas Caraíbas, e chegou à Ásia,
de Malaca a Macau. Poucos povos tão pequenos em número deixaram marca tão duradoura em variantes do crioulo como o
papiamento, o papiá kristang, o papiaçam ou o patuá macaense.</p><p>Fomos disruptivos também ao ser o único povo africano a emigrar
voluntariamente para a América do Norte no tempo da escravatura ainda antes de as antigas colónias britânicas se
tornarem nos primeiros 13 Estados
fundadores da Nova República - hoje a nossa
maior comunidade na diáspora. A bordo
dos navios baleeiros Yankees, os nossos marinheiros deixaram a sua marca na história marítima americana — feito que Herman
Melville registou com eloquência para a posteridade no seu seminal romance, <em>Moby Dick</em>.</p><p>No século XX, Amílcar Cabral — um dos grandes
pensadores humanistas e heróis políticos de África—liderou cabo-verdianos e
bissau-guineenses, sob uma visão pan-africanista, na luta de libertação que conduziria
à criação da Nação-Estado cabo-verdiana
em 5 de julho de 1975. Meio século depois da independência, o país continua disruptivo: construiu e aperfeiçoou, com persistência, uma das democracias mais sólidas de
África. A boa governação e as
remessas dos emigrantes permitiram-lhe
ascender de país menos avançado a país de rendimento médio-alto em apenas três
décadas — percurso notável, alcançados em petróleo, ouro, diamantes ou
outros recursos naturais tradicionais. Bastaram a resiliência doseupovo, a boa
governação, o clima e a posição estratégica no Atlântico Médio.</p><p>Foi também, CesáriaÉvora quem, já em idade
madura, entreabriu a cortina do palco mundial,
revelando a riqueza
da música cabo-verdiana, contribuindo de
forma indelével para o reconhecimento universal da Morna, em 2019,
como Património Imaterial da Humanidade.</p><p>Agora, outra estrela cabo-verdiana
— Vozinha — brilhou no firmamento.
No dia 15 de junho, no jogo de estreia de Cabo Verde contra a Espanha no Mundial 2026,
mostrou o seu real valor como exímio guarda-redes. Encantou o mundo com a
elegância de um ginasta-bailarino,
deslizando pelo ar a catar as bolas que vinham na sua direção. De figura pouco
conhecida fora de Cabo Verde, passou, quase de um dia para o outro, à
celebridade internacional no mundo digital. E, com ele, outras estrelas dos
Tubarões Azuis fizeram brilhar Cabo Verde inteiro no jogo mais falado deste
Campeonato do Mundo. Igualmente brilhante nesse jogo foi a jogada magistral
orquestrada e rendilhada durante mais de meio minuto por vários jogadores antes
ser corado com o golo inesquecível de Sidny Lopes Cabral. E tudo decorreu sob a
maestria da batuta e do olhar atento e sereno do coach “Bubista”. <em>No Stress</em>
Cabo Verde!</p><p>Com grande dificuldade, a Argentina acabou por vencerpor3-2. Mas os nossos Tubarões Azuis saíram do campo como heróis, reconhecidos no mundo inteiro pela
competência, pela resiliência e pelo elevado sentido de fair play. O jogo ficará na história como um dos mais surpreendentes e memoráveis não só deste
Campeonato do Mundo, mas estou certo de que tornar-se-á facto lendário no mundo
de futebol.</p><p>É verdade, no dia 3 de julho
2026, o mundo tomou nota desta pequena Nação diaspórica: com menos de meio milhão de residentes no arquipélago e cerca do dobro espalhado pelo mundo. A centralidade de Cabo
Verde no Atlântico Médio, durante séculos um simples ponto de escala, tornou-se âncora—e hoje é farol. Um pequeno Estado insular que já não passa despercebido com a
simpatia granjeada junto de mais de 2.7 mil milhões de espectadores que
acompanharam o jogo.</p><p>Certamente,
outra equipa levará para casa o troféu do Mundial 2026. Mas esse troféu ficará
para sempre à sombra dos Tubarões Azuis de Cabo Verde. Como diz um cartaz que
circula nas redes
sociais com a imagem de Vozinha: “<strong>Cabo Verde pode não ter conquistado
o Mundial, mas conquistou o Mundo</strong>”!</p><p>Obrigado,TubarõesAzuis, por continuarem a trilhar —e a alargar —este caminho de Nação disruptiva que é Cabo Verde, orgulhando o nosso povo, no país e
na diáspora, e conquistando a simpatia de quase um terço da Humanidade.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1285
de 15 de Julho de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/07/20/cabo-verde-uma-nacao-disruptiva-e-agora-no-mundo-do-futebol/103708</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[José da Silva Gonçalves]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 20 Jul 2026 09:12:12 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Programa de Governo - 
Educação: entre a promessa de futuro e a prova da escola]]></title>
            <description><![CDATA[<p>O Programa do Governo «Cabo Verde para Todos» procura enfrentar essa
distância ao apresentar a Educação, a Ciência, a Inovação e a Transformação
Digital como pilares de uma sociedade do conhecimento. A visão é correcta e a
ambição é grande. O desafio está em saber se o sistema terá condições para
transformar medidas dispersas numa política coerente e com resultados visíveis.</p><p>O capítulo cobre todo o percurso formativo, do pré-escolar ao ensino
superior, passando pela formação profissional, pela ciência e pela inovação. A
abrangência é um dos seus méritos. Reconhece a educação como instrumento de
mobilidade social, formação de cidadãos e coesão nacional. Falta perceber por
onde se começa, com que meios se avança e como se mede aquilo que muda.</p><p style="text-align: center;"><strong>Da escola para todos à aprendizagem
de cada um</strong></p><p>A integração plena do pré-escolar no sistema formal é uma das propostas mais
estruturantes. A desigualdade educativa começa antes do ensino básico, quando
crianças com experiências linguísticas, culturais e cognitivas muito diferentes
chegam à escola sem as mesmas condições para aprender. Universalizar o acesso é
medida de justiça social, desde que não signifique apenas criar vagas. Exige
qualidade pedagógica, educadores preparados e articulação clara entre Estado e
autarquias.</p><p>No ensino básico e secundário, o Programa prevê currículos actualizados,
competências digitais, pensamento crítico, aprendizagem activa, autonomia das
escolas e inclusão. A orientação é moderna. Há, contudo, um risco conhecido:
reformar o vocabulário mais depressa do que a sala de aula. Currículos novos e
tecnologias só produzem resultados quando os professores têm formação, tempo e
condições para os aplicar.</p><p>A autonomia curricular pode aproximar o ensino da realidade dos alunos e
das comunidades. Precisa, porém, de liderança, acompanhamento e
responsabilidade. Uma escola sem recursos recebe encargos, não autonomia, e
pode ampliar desigualdades que a descentralização pretendia corrigir.</p><p>A valorização dos professores deve permanecer no centro da política
educativa. Formação inicial e contínua, revisão dos concursos para directores e
melhoria gradual das condições salariais são medidas relevantes, mas
insuficientes sem tempo para preparar aulas, acompanhar alunos, trabalhar em
equipa e actualizar conhecimentos.</p><p style="text-align: center;"><strong>Formar para o trabalho sem reduzir a educação ao mercado</strong></p><p>O Programa identifica como problema central o desajuste entre competências
adquiridas e necessidades da economia. A formação profissional surge como
instrumento de empregabilidade e inclusão. Cabo Verde precisa de técnicos
qualificados, percursos flexíveis e maior ligação entre centros de formação,
empresas e sectores estratégicos.</p><p>A valorização dos saberes adquiridos pela experiência profissional é
importante num país onde muitas competências foram construídas fora da escola.
Certificar esses saberes é reconhecer trabalho, experiência e capacidade,
abrindo novas oportunidades de formação e emprego. É aproximar o sistema
educativo da vida concreta de adultos que aprenderam a fazer antes de
transformarem esse saber em diploma.</p><p>O ensino técnico não pode continuar a ser visto como caminho de segunda escolha.
Precisa de prestígio, qualidade, exigência e progressão. Uma sociedade moderna
não se constrói apenas com licenciados. Precisa igualmente de bons técnicos,
bons profissionais e percursos formativos dignos.</p><p>No ensino superior, a gratuitidade nas universidades públicas é uma das
medidas mais fortes do capítulo. Pode alargar o acesso e reduzir a pressão
sobre as famílias. Exige, contudo, financiamento estável. Sem ele, mais acesso
pode significar turmas sobrecarregadas, laboratórios frágeis, bibliotecas insuficientes
e precariedade docente.</p><p>A universidade ganha quando se liga à economia e à sociedade, mas perde
quando é reduzida à preparação imediata para o emprego. Forma profissionais,
produz conhecimento, desenvolve pensamento crítico e ajuda o país a compreender
os seus problemas. Uma universidade que apenas responde ao mercado chega sempre
atrasada; uma universidade que investiga ajuda a criar futuro.</p><p style="text-align: center;"><strong>Ciência, inovação e o caminho da execução</strong></p><p>A criação de um Fundo Nacional para a Ciência, Tecnologia e Inovação, com
dotação inicial correspondente a 0,2% do PIB, é uma das poucas metas
financeiras explícitas do capítulo. A proposta dá materialidade a uma área
frequentemente celebrada nos discursos e esquecida nos orçamentos. Investir em
conhecimento significa ampliar capacidade de decisão e criar respostas próprias
para problemas nacionais.</p><p>O apoio à formação de doutorados, o regresso de investigadores da diáspora
e as parcerias entre universidades, empresas e Estado podem fortalecer um
sistema científico ainda pequeno. O valor de um fundo, porém, depende de
concursos regulares, avaliação independente, critérios transparentes e
continuidade.</p><p>Ciência não se constrói por campanhas. Precisa de laboratórios,
bibliotecas, bases de dados, carreiras de investigação e tempo protegido.
Precisa também de reconhecer áreas sem retorno económico imediato, como as
ciências sociais, as humanidades, a língua, a história, a cultura e a educação.
Um país precisa de tecnologia para competir e de conhecimento sobre si próprio
para não se perder.</p><p>A transformação digital atravessa todos os níveis do Programa. A direcção é
inevitável, mas tecnologia na escola não se resume à distribuição de
equipamentos. Exige conectividade, manutenção, conteúdos, formação de
professores e critérios pedagógicos. Um computador sem projecto educativo é
apenas mais um objecto na sala.</p><p>Há ainda uma ausência que merece ser assinalada: o lugar da língua
cabo-verdiana na educação. O Programa fala em competências digitais, línguas
estrangeiras, inovação e mundo globalizado, mas não enfrenta com clareza a
questão linguística. Uma política educativa inclusiva precisa de abordar, com
conhecimento e serenidade, a articulação entre a língua cabo-verdiana e a
língua portuguesa. Deixar o assunto fora do capítulo não o retira da sala de
aula.</p><p>Também fica pouco desenvolvida a educação ao longo da vida. Num país
marcado por mudanças tecnológicas, mobilidade e reconversão profissional, a
educação de adultos, a segunda oportunidade e a literacia digital deveriam ter
maior visibilidade. A escola deixou de terminar com a juventude.</p><p>O capítulo da Educação apresenta uma visão ampla, actual e, em vários
pontos, corajosa. Reconhece a escola como instrumento de igualdade, valoriza os
professores, aproxima formação e trabalho, propõe alargar o ensino superior e
dá à ciência uma meta de financiamento. Falta transformar a multiplicidade de
medidas numa sequência política clara: o que será feito primeiro, quanto
custará, quem será responsável e que indicadores mostrarão se os alunos aprendem
melhor.</p><p>O Programa afirma que investir na educação, na ciência e na inovação é o
investimento mais rentável que uma Nação pode fazer no seu futuro. A afirmação
é correcta. O futuro, porém, começa na escola de hoje, no professor que entra
na sala, no aluno que consegue aprender, no jovem que encontra formação com
sentido e na universidade que produz conhecimento. Entre a promessa e o
resultado encontra-se a política educativa que Cabo Verde terá de provar.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1285
de 15 de Julho de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/07/20/programa-de-governo-educacao-entre-a-promessa-de-futuro-e-a-prova-da-escola/103705</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Manuel Brito-Semedo]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 20 Jul 2026 09:12:00 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Consequências…]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Assim é porque o sistema de
governo é de forte pendor parlamentar, sendo o governo politicamente
responsável perante a Assembleia Nacional, e não ao presidente da república. Ou
seja, para governar, não basta
que um partido tenha ganho as eleições. É fundamental que, através da moção de
confiança, demonstre ter uma maioria parlamentar de suporte à política geral
que pretende realizar.</p><p>A apresentação do
programa do governo numa sessão especial do parlamento é um momento ímpar para
o primeiro-ministro dirigir-se à Nação, dar a conhecer as linhas gerais das suas políticas e submetê-las
ao contraditório dos deputados da oposição. É um pontapé de saída para o jogo
democrático da nova legislatura que, ao criar um quadro de debate e de
fiscalização de políticas a ser propostas e implementadas, vai possibilitar a
avaliação do progresso realizado e o confronto com políticas alternativas. Pela
importância da sessão especial o regimento da AN estipula um tempo máximo de
três reuniões consecutivas, sem período de antes da ordem do dia. Programar o
futuro num momento tão complexo da vida do país e também do mundo, com as suas
incertezas e imprevistos, aconselha que não se encurte o tempo de debate e que,
pelo contrário, se
faça o melhor do que é possível disponibilizar.  </p><p>Para uma discussão
mais produtiva entre o governo e os outros sujeitos parlamentares, seria talvez
proveitoso que o programa do governo não aparentasse ser essencialmente um
catálogo de boas intenções de tudo fazer “para todos”. De facto, num país de
recursos escassos, com orçamento rígido, devido à alta percentagem de despesas obrigatórias
e a resistências a
reformas da administração pública que afectam funcionários, conseguir libertar
recursos para realocar em sectores importantes na base da gratuitidade não será
certamente  tarefa fácil. E só boa intenção não chega. </p><p>Também não será
pela via da eliminação de “gorduras” localizadas no elenco governamental, no “excessivo” número de
deputados na Assembleia Nacional e no “pesado” custo dos estudos, que em geral
acompanham os projectos financiados pelos parceiros externos, que irá garantir
isso.  Aliás, a adoção dessas medidas não
decorre da intenção de tornar mais eficiente a utilização dos recursos públicos.
A a escolha dessas gorduras é feita não por querer maior eficiência na
utilização de recursos públicos, mas mais pela ressonância que faz com os
preconceitos demagogicamente alimentados contra os políticos e também contra a
democracia. É característico de uma certa esquerda, que ainda reclama algum
ascetismo bolchevique, ou se revê no ideal do suicídio da pequena burguesia, afirmar
superioridade moral sobre os outros actores políticos.  </p><p>Nessa perspectiva,
basta mostrar no programa do governo as suas intenções e elencar resultados sem revelar como se vão
materializar, quais as prioridades, como vai ultrapassar as resistências, como
vai lidar com os prejudicados pelas reformas, qual o horizonte temporal e o
passo de concretização e como vai encadear as medidas de política para aumentar
as probabilidades de sucesso.  Parece que
não faz mossa o facto de a visão de futuro para o país que é apresentada assentar
no mesmo discurso das vantagens comparativas de sempre - “<em>localização
geoestratégica privilegiada, uma diáspora dinâmica e qualificada, estabilidade
institucional, capital humano crescente e uma juventude criativa e empreendedora</em>”
-  cuja correspondência com a realidade é
no mínimo precária. Procura-se manter o ilusionismo com autoproclamações de ser o “<em>partido da Independência,
da construção do Estado e da transformação nacional”</em>, ou seja, os únicos
agentes das mudanças em Cabo Verde nos mais de cinco séculos da sua existência.</p><p>A realidade de que
é preciso crescimento económico para ter país inclusivo, combater a pobreza e
prosperar não é assumida explicitamente. E isso é complicado porque
considerando o estádio de desenvolvimento de Cabo Verde entre os países
insulares é da maior importância que haja uma aceleração no crescimento para poder
responder às expectativas crescentes das pessoas, das famílias  e da sociedade. Entretanto, ao nível do
programa do  governo o foco nas promessas
de redistribuição de rendimentos tende, na prática, a dirigir a governação para
um caminho que não difere muito do tipo de “gestão corrente” que se vinha
acusando o MpD de estar a fazer e que, de acordo com o discurso produzido pela
então oposição, gerava uma dinâmica económica que não beneficiava os mais vulneráveis.</p><p>Em consequência, o
que poderá vir a verificar-se, por um lado, é que nem se tem o acréscimo no
potencial de crescimento porque as reformas não são feitas e, por outro, a
gestão da escassez que se professa fazer em nome da luta contra as desigualdades
acaba por produzir distorções que podem enveredar por caminhos complicados. É o
que parecem evidenciar as recentes investigações a actos da câmara da Praia
pelo Ministério Público e subsequente acusação deduzida, dirigida a autarcas,
personalidades e outras entidades, em vários crimes, entre os quais crimes de
responsabilidade política. Isso, em geral, acontece quando se cria um ambiente
político num quadro, não de foco no crescimento, na promoção da autonomia individual
e no incentivo à iniciativa privada mas,  pelo contrário, de gestão de escassos recursos, de criação de
dependência do Estado e de aproveitamentos da vulnerabilidade para ganhos
políticos eleitorais.</p><p>Se normalmente
tais situações revelam as fragilidades das instituições em cumprir e fazer
cumprir as normas e os procedimentos democráticos, no caso actual, as
consequências ultrapassam o âmbito da câmara da Praia para afectarem
directamente o governo do país. E é assim porque, entre o início das
investigações e a dedução da acusação, o então presidente da CM da Praia passou
a primeiro-ministro depois das eleições legislativas de 17 de Maio. O problema
que se põe é se o país pode ficar na contingência de ter o PM durante um tempo
indeterminado, considerando a possibilidade de recursos sucessivos, a ser
julgado por vários crimes, entre os quais os de atentado contra o Estado de
Direito. Também de eventualmente vir a ser condenado, com perda de mandato ou
impossibilidade de exercício qualquer outro cargo durante período de dois a
cinco anos. </p><p>Curiosamente, nas
audições aos partidos políticos com assento no parlamento que precederam a
indigitação do primeiro-ministro pelo presidente da república, os
representantes da UCID não fingiram ignorar que a escolha do PR poderia recair
sobre quem, segundo um comunicado de 12 de Dezembro, era arguido numa
investigação criminal, e alertaram para possíveis consequências. O PR fez a sua
escolha e prosseguiu com a nomeação do governo.  Agora com a dedução da acusação pelo Ministério
Público o país vê-se num imbróglio. A capacidade do PR de intervenção para
assegurar o regular funcionamento das instituições, entretanto, diminuirá a
partir da sexta-feira, dia 17,  quando o
actual governo de gestão, após a apreciação do seu programa na AN e a votação
da moção de confiança,  passar a ter
plenos poderes e a ser politicamente responsável apenas perante o parlamento. </p><p> A exemplo de outras democracias que por actos
ou omissões não cuidaram o suficiente de aprofundar uma cultura de respeito
pelo cumprimento estrito das
normas e procedimentos democráticos, Cabo Verde vive o seu momento em que as
consequências de complacência com certos comportamentos políticos fazem-se
sentir e tem repercussões complicadas na imagem do país. Também não se ganhou
nem com a qualidade das propostas de governação, nem com um maior grau de
responsabilidade e lealdade dos líderes para com os seus partidos e para com a
democracia.&nbsp;</p><p style="text-align: right;"><strong>Humberto Cardoso</strong></p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1285
de 15 de Julho de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/07/17/consequencias/103672</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[A Direcção]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 17 Jul 2026 08:57:00 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[A oportunidade que não podemos deixar escapar]]></title>
            <description><![CDATA[<p><em style="background-color: initial;">«Há uma mar</em><em style="background-color: initial;">é nos destinos dos homens que, aproveitada na praia-mar, conduz à </em><em style="background-color: initial;">fortuna, desprezada,
toda a viagem da vida fica presa em baixios e mis</em><em style="background-color: initial;">érias.</em><em style="background-color: initial;">»</em></p><p><em>William Shakespeare, Jú</em><em>lio C</em><em>ésar</em></p><p>Aos três minutos do prolongamento, em Miami, cinco séculos de história
cabo-verdiana couberam num remate de Sidny Lopes Cabral. O mundo levantou-se
para aplaudir um país que muitos não sabiam localizar no mapa, e que, dois dias
depois, celebrava o aniversário da sua Independência. O Universo recorda-nos
diariamente que coincidências são coisas raras que os eruditos atribuem a Deuses e Mitos. No
entanto, naquele pontapé arqueado e forte a História ganhou vida e mostrou ao mundo aquilo que mornas e poemas crioulos já nos
lembram há séculos, a de
uma nação antiga que nunca aceitou ser pequena.</p><p style="text-align: center;"><strong>O 5 de Julho começou em 1640</strong></p><p>A nossa nação não nasceu em 1975, nasceu ao longo de quinhentos anos.
Algures entre 1455 e 1460, dependendo do historiador e das fontes, navegadores
encontraram no meio do Atlântico ilhas onde ninguém vivia. Nelas não se fundou
uma colónia como tantas outras, nestas
praias, montanhas e rochas fundou-se, sem que ninguém o planeasse, um povo novo,
um povo único e a alma da primeira sociedade crioula do Atlântico. Nascida do
encontro de continentes, forjada na secura e na distância, dona de uma língua
sua, de uma música própria, de uma maneira de estar no mundo que se resume na morabeza, eis Cabo Verde. Assim, quando içámos a nossa
bandeira, a 5 de Julho de 1975, não assistimos ao nascimento de uma nação, mas
sim a uma nação de cinco séculos que conquistava, finalmente, o seu Estado.</p><p>A geografia não nos
ofereceu um berço fácil, um nascimento sem petróleo no subsolo, sem minérios na rocha, e um céu que raramente se
lembra que além de Sol também há chuva para partilhar. Ao povo destas ilhas, o destino deu apenas
mar, vento e engenho, e foi com isso que se construiu tudo o resto. O Estado
nascido em 1975 conheceu primeiro a longa noite do partido único, uma noite sem
lua e com cicatrizes que marcaram o nosso povo. A liberdade não veio no mesmo
barco da bandeira, foi preciso esperar por 1991, e pela coragem de homens e
mulheres que lutaram, alguns com o custo da própria vida, para que o
povo conquistasse, pelo voto, o poder de escolher e de mudar.  Onde tantos previam fragilidade, ergueram-se
instituições, onde se anunciava dependência, conquistou-se credibilidade. Cabo
Verde tornou-se aquilo que os cientistas políticos hesitam em explicar e que nós
explicamos com simplicidade descrevendo a nossa conquista como a de um país que
decidiu ser maior do que o seu mapa.</p><p>Volto a este tema, como volto sempre, porque a liberdade não é um monumento, é um
músculo. Exercita-se ou atrofia-se. Cada geração de cabo-verdianos recebeu-a
com o dever implícito de devolvê-la maior e mais forte. As gerações de 1975, de 1991 e as
que se seguiram cumpriram a sua parte. O nosso papel, em 2026, tem a missão de
transformar o reconhecimento que o mundo hoje nos dá em desenvolvimento que os
nossos filhos possam usufruir.</p><p style="text-align: center;"><strong>Onze homens, dez ilhas, uma diáspora
e um só </strong><strong>cora</strong><strong>ção</strong></p><p>O Mundo ouviu meio milhão de almas espalhadas por dez ilhas e muitos
mais milhões espalhados por mil portos do mundo, e, durante um mês, todas
couberam dentro de um relvado. O país que o Mundo chamava de pequeno iria
disputar um Campeonato do Mundo e entrou em campo diante de um planeta, e fê-lo
com personalidade, coragem e dignidade. Os Tubarões Azuis superaram a fase de
grupos na sua primeira participação e só caíram diante da campeã do mundo, a Argentina
de Messi, e mesmo assim de pé, mostrando a força
de quem usa como pele a nossa bandeira. Por duas vezes estivemos em
desvantagem, por duas vezes empatámos, e o golo de Sidny Lopes Cabral ficará
entre os mais belos deste Mundial. Perdemos no prolongamento, por 3-2, a 3 de
julho, quarenta e oito horas antes do dia da nossa Independência, como se a História tivesse sentido de dramaturgia.</p><p>Homero teria reconhecido este povo. Nas epopeias gregas, os heróis nunca
se mediam pelo tamanho dos seus reinos, mas pela grandeza das suas travessias,
e poucos povos atravessaram tanto mar como o nosso. Quem olhou para os Tubarões Azuis não viu
apenas onze futebolistas talentosos. Quem teve a sorte de nos ver em campo,
deliciou-se com um povo que enfrenta os maiores desafios olhos nos olhos, sem
complexo de inferioridade e sem arrogância. Viu a diáspora e as ilhas fundidas
numa só bandeira. Viveu, em noventa minutos, aquilo que levámos quinhentos anos
a construir, uma identidade que prova que nunca será o tamanho do país, será
sempre o tamanho do sonho. Muitos tiveram a tentação de destacar, antes do
primeiro rolar de bola, os prémios que iríamos receber da FIFA. Obviamente, que é um valor importante, que
pode criar impacto nas nossas comunidades, mas o verdadeiro prémio não se deposita num banco, deposita-se no coração
das pessoas, e esse “depósito” é o activo mais
escasso e mais perecível da economia global.</p><p style="text-align: center;"><strong>Um mundo incerto </strong><strong>é </strong><strong>tamb</strong><strong>é</strong><strong>m um mundo aberto</strong></p><p>Esse coração agora
conquistado bate num tempo turbulento. A ordem internacional que conhecíamos
fragmenta-se diante dos nossos olhos, guerras que se prolongam, proteccionismos
que regressam, cadeias de abastecimento que se redesenham, e um clima que já
não espera pela próxima cimeira. Para os pequenos Estados, a tentação é ler este tempo como
ameaça. Eu leio-o como os nossos pescadores leem o mar de manhã, com respeito,
mas sem medo, porque sabem que é precisamente quando as águas se agitam que os
grandes cardumes mudam de rota. Quando as certezas dos grandes vacilam, abre-se
espaço para a agilidade dos “pequenos”, desde que saibam quem são e
para onde vão.</p><p>A história
recente é generosa em exemplos para quem a quiser ler. Singapura fez de um porto
sem recursos uma plataforma mundial, a Irlanda fez do talento e da diáspora um
motor de prosperidade, a Estónia fez da sua pequenez uma marca digital
global. Nenhum destes países esperou que o mundo se acalmasse, todos
transformaram a sua posição,
geográfica, humana e institucional, em estratégia. Cabo Verde tem
hoje, em cima da mesa, cartas que muitos invejariam. Uma localização atlântica
no cruzamento de três continentes, num momento em que o Atlântico volta a ser o
centro do tabuleiro mundial. Uma democracia estável num mundo que delas sente
cada vez mais falta. Uma diáspora global que acaba de reencontrar, nos estádios,
um orgulho renovado. Um oceano imenso, ainda por desenvolver, que é o maior território que
possuímos. E uma juventude que acaba de descobrir, em directo e em todas as
línguas, que é possível.</p><p style="text-align: center;"><strong>A oportunidade que não podemos deixar
escapar</strong></p><p>E se o nosso
Mundo é o
Oceano, a atenção do resto do mundo é uma maré, que sobe depressa e desce mais depressa ainda.
Daqui a um ano, outros protagonistas ocuparão os ecrãs e outras bandeiras
encherão os estádios. A janela que os Tubarões Azuis abriram não se manterá
aberta por gentileza, manter-se-á aberta se a soubermos usar. Usá-la significa
fazer do desporto um verdadeiro projecto nacional, com infra-estruturas,
formação e centros de excelência que transformem o feito de 2026 em sistema, e
não em milagre. Significa apresentar Cabo Verde ao investimento, ao turismo e à
cooperação internacional enquanto o nosso nome está na boca do mundo. Significa
fazer da economia do mar, da transição digital e da qualificação da nossa
juventude as traves-mestras da próxima década. E significa, acima de tudo, exigirmos a nós próprios, na política e nas instituições, o mesmo
padrão que os nossos jogadores exibiram em campo, ambição sem medo, rigor sem
desculpas, unidade sem uniformidade.</p><p>No século XV, os nossos pioneiros fizeram nascer uma alma
com as mãos nuas, em ilhas onde nada os esperava. Em 1975, os fundadores do
nosso Estado agarraram a sua oportunidade histórica com as mãos que
tinham, e eram mãos quase vazias. Em 1991, homens e mulheres corajosos
agarraram a sua, e alguns pagaram-na com a própria vida. Nós
recebemos mãos incomparavelmente mais cheias, instituições consolidadas, uma
reputação conquistada e um povo que voltou a acreditar em si próprio
diante do mundo inteiro. Se eles fizeram tanto com tão pouco, a História não nos perdoará se
fizermos pouco com tanto.</p><p>O 5 de Julho
de 2026 não nos pede apenas gratidão, pede-nos coragem, a coragem de acreditar
que o melhor de Cabo Verde não está nos livros de História, está
no futuro que ainda não escrevemos. Os Tubarões Azuis mostraram-nos o método, entrar em
campo sem medo, olhar os gigantes como iguais e jogar sempre para vencer.
Cabe-nos agora, enquanto nação, jogar esse jogo, porque as vitórias, como
a liberdade, não se herdam, conquistam-se.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284
de 08 de Julho de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/07/13/a-oportunidade-que-nao-podemos-deixar-escapar/103601</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Paulo Veiga]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 13 Jul 2026 09:06:36 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Nação em Catarse]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Este feito transcendeu amplamente o desporto, afirmando-se como
um autêntico fenómeno social e uma força propulsora da identidade crioula
transnacional, construída e consolidada nos espaços diaspóricos, bem como um
importante mecanismo de reforço da unidade nacional, da coesão social e da
memória coletiva. Independentemente do resultado desfavorável, que ditou a
eliminação de Cabo Verde da competição, o facto de ter enfrentado a Argentina
durante 120 minutos constituiu, acima de tudo, um raro privilégio — aquilo que
alguns designam por “meritocracia simbólica”.</p><p>Socorrendo-nos de um conceito clássico de Marcel Mauss, a
campanha inédita de um país arquipelágico, com forte pendor diaspórico,
configura-se mais do que um simples facto desportivo, como um “facto social
total”. Pode ser interpretada como um caso singular de construção identitária,
mobilização de vontades — dentro e fora das fronteiras —, projeção
transnacional e catarse coletiva em torno da seleção nacional. De facto, numa
sociedade diaspórica como a cabo-verdiana, caracterizada pela dispersão
geográfica, pela insularidade económica e pelo fenómeno do interconhecimento, a
participação num evento desportivo de tamanha projeção internacional funcionou
como um poderoso fenómeno social total, colocando em movimento a sociedade no
seu conjunto e as suas instituições. </p><p>O futebol, ao colocar Cabo Verde no centro das atenções
globais, deixa de ser apenas uma modalidade desportiva para se converter numa
instituição social relevante, que reflete, molda e atenua tensões estruturais,
funcionando como válvula de escape e mecanismo de amortecimento. É neste
contexto que os cidadãos, beneficiando dos “espaços de exceção” proporcionados
pelos jogos da seleção nacional, libertam frustrações acumuladas e tensões
recalcadas, num quadro em que o controlo social se revela frequentemente
apertado. O tempo dos Campeonatos do Mundo “é o tempo da nação”, como afirmou
Simoni Lahud Guedes (1998), ao refletir sobre o futebol enquanto campo de
produção da identidade nacional. Dito de outro modo, o futebol atua como um
campo privilegiado de produção de nação, em que vitórias e desempenhos
positivos geram euforia coletiva e manifestações públicas de celebração,
amplificadas pelas redes sociais. No contexto da globalização, assume-se também
como um importante fator de circulação e agregação de identidades
transnacionais, visível na participação de jogadores de segundas e terceiras
gerações da diáspora, cujas trajetórias se desenvolvem fora do arquipélago.</p><p>Neste quadro, quando jogadores nascidos e formados na
diáspora optam por representar Cabo Verde, o futebol funciona como um mecanismo
de
repatriação simbólica e de reafirmação identitária, no âmbitodas políticas de identificação e integração de talentos promovidas
pela Federação Cabo-verdiana de Futebol. Embora o contacto físico com o país
seja, muitas vezes, reduzido ou inexistente, Cabo Verde é conhecido por estes
descendentes através de narrativas familiares, práticas culturais, música,
gastronomia e redes sociais, que contribuem para a construção de uma
“comunidade imaginada”, no sentido proposto por Benedict Anderson. O Campeonato
do Mundo emerge, assim, como um exemplo paradigmático dessa comunidade
imaginada, ao evidenciar a forma como cabo-verdianos dispersos pelo mundo se
reconhecem na seleção nacional — verdadeiro “espelho da nação transnacional” —
e se reconhecem como parte de uma mesma comunidade de pertença. </p><p>Nos momentos de confronto com potências do futebol mundial,
como Espanha, Uruguai e Argentina, assistiu-se, em Cabo Verde, à suspensão do
quotidiano e das normas sociais, à efervescência coletiva, na perspetiva de
Durkheim, e à quebra das rotinas. Os jogos da seleção
nacional funcionam como um ritual sagrado moderno, dominado por uma situação de
exceção que não pode perdurar indefinidamente, constituindo apenas um
parêntesis na vida social. Neste estado de transição ou de liminaridade, no
sentido proposto por Victor Turner, marcado por um laço de <em>communitas</em>
efémero em que as regras são temporariamente suspensas ou invertidas, a
sociedade experimenta uma intensidade emocional partilhada, gerando um
sentimento de igualdade absoluta, solidariedade e camaradagem entre os adeptos.
A identidade individual é temporariamente absorvida pela força de uma
identidade coletiva, na qual se esbatem as divisões habituais: todos vestem a
mesma camisola e partilham o mesmo espaço, físico ou virtual, num ambiente
festivo. O trabalho abranda e as tensões políticas, económicas e sociais passam
para segundo plano. Os horários ajustam-se aos jogos e, durante os 90 minutos
da partida, o estatuto social desvanece-se, instalando-se uma “nova ordem” e
uma “nova normalidade” provisórias, o país suspende-se. O futebol, pela sua dimensão global e desterritorializada,
constitui igualmente um novo palco de visibilidade internacional, reforçando a
unidade nacional e a coesão social. Para além disso, tem a capacidade de
suspender temporariamente a realidade e de adiar a contestação social face às
dificuldades quotidianas, às assimetrias regionais e às ambivalências
identitárias, que não implicam ausência de identidade. Funciona, assim, como
fator de descompressão social e, perante resultados positivos, promove
celebrações, atua como uma forma de “anestesia positiva” e, à semelhança da
música cabo-verdiana, gera experiências partilhadas que reforçam o sentimento
de pertença nacional.</p><p>A tristeza da eliminação da seleção nacional de futebol,
longe de se traduzir em frustração depressiva duradoura, reforçou, pelo contrário, o orgulho nacional, o sentido
de pertença e a autoestima coletiva, por via de um mecanismo de compensação e
gratificação social. A eliminação do Campeonato do Mundo
funciona como um “despertador social”. O país inteiro regressa à normalidade
anterior, dissipa-se a igualdade provisória entre os cidadãos enquanto adeptos,
produzida por uma situação conjuntural. Reinstalam‑se as clivagens do
quotidiano e as rotinas de uma sociedade estratificada, marcada por assimetrias
regionais, desigualdades socioeconómicas e divergências políticas, e põe-se termo
ao clima de efervescência social e de euforia incontida, bem como ao estado de
transição, de exceção ou de liminaridade, entretanto instaurado. Em última
instância, a própria reprodução do sistema social implica a reativação das
hierarquias momentaneamente suspensas e o retomar dos conflitos e de outras
dinâmicas.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284
de 08 de Julho de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/07/13/nacao-em-catarse/103600</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[César Monteiro]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 13 Jul 2026 09:06:25 GMT</pubDate>
            <enclosure url="http://static.expressodasilhas.cv/media/2026/07/1783704300726.thumb.png" length="0" type="image/png"/>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Apeiron - Vasco ca ta li, ma el ta li...]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Esta nota
transportou-me diretamente para o <em style="background-color: initial;">Apeiron,</em> ou Arco, como é geralmente
conhecido. Uma construção arquitetónica mística e emblemática – património
material e simbólico concebido e mandado erguer pelo Vasco Martins na Praia do
Norte na ilha de São Vicente e inaugurado no dia 21 de junho de 1998, dia do
Solstício de Verão.</p><p>De acordo
com o Vasco, o Arco está virado para o Sol Nascente e fica a 33,33 metros acima
do mar, segundo medição GPS do “almirante dos ventos” François Gui. Foi feito
para durar pelo menos meio século pois como o próprio afirmou, “as gerações vindouras
cuidarão dele”.</p><p>O Arco, uma
referência arquitetónica não apenas de São Vicente, mas de Cabo Verde e além<em>-fronteiras</em>,
é um portal cósmico legado do Vasco ao seu país e, em particular, à sua
estimada ilha e às suas gentes. Talvez para nos lembrar que a existência não se
esgota na sua dimensão quotidiano e que somos constantemente convidados a olhar
além do visível ou tangível – a ler as estrelas, emocionar-nos com o cântico
das jubartes e do oceano, a ampliar os nossos sentidos para uma experiência de absorção
cósmica. </p><p>Aliás, toda
a obra artística e poética, bem como o pensamento do Vasco, são atravessados
pela manifestação de algo maior, uma sensibilidade e uma consciência em
permanente diálogo com o universo. A sua criação navega entre a insularidade e
a dimensão cósmica, utilizando a música, em particular, como veículo para se
fundir com dimensões mais amplas da existência. Afinal, como escreve em <em>Alquimia
da Luz</em>, “dizem que há mundos paralelos”.</p><p>Talvez por
isso as palavras do Vlú tenham tanto significado e ressonância, sugerindo que o
Vasco sempre pareceu dialogar com horizontes mais vastos do que aqueles que
habitualmente vislumbramos. </p><p>Para quem
não teve a oportunidade de privar com o Vasco, a forma mais direta de se
aproximar daquilo que procuro partilhar neste texto – um gesto de celebração,
amizade e memória - é através da sua obra. É nela que continua a habitar.</p><p>Voltando ao <em>Apeiron,</em>
é preciso conhecer minimamente o seu contexto filosófico e conceptual para se
poder compreender as motivações que levaram o Vasco a erguer este monumento que
convoca a experiência universal da arte, além da geografia e do sujeito. </p><p><em>Apeiron
</em>é um termo da filosofia
grega que designa o ilimitado, o indefinido, o infinito. Em Anaximandro de
Mileto, filósofo pré-socrático, surge como o princípio originário de todas as
coisas, a fonte primordial de onde tudo emerge e para onde tudo regressa.</p><p>Mais tarde,
o pensamento de Deleuze permite reler o <em>Apeiron</em> à luz de uma visão
cósmica da existência, na qual o caos não representa a ausência de ordem, mas
uma potência criadora capaz de gerar novas formas, relações e mundos possíveis
sem perder a sua força original. </p><p>Para o Vasco
o Arco significa um portal cósmico, um símbolo simultaneamente introspectivo
como expansivo, que representa essencialmente a música como caminho espiritual
ascendente.</p><p>É também
neste contexto que nascem os “Concertos Vasco Martins no Arco”, uma programação
anual dedicada à mais pura fruição da música, em perfeita ressonância e fusão
com a paisagem envolvente. Um ambiente onde o murmúrio das ondas, os diferentes
tons de azul do mar e do céu de lua cheia, as dunas de areia branca e a
respiração do público se fundem, em uníssono, com as notas místicas dos
sintetizadores tocados pelo Maestro. </p><p>Nos
Concertos no Arco, o Vasco criava, em tempo real, ambientes transcendentes e
paisagens sonoras que se entrelaçavam numa simbiose profunda com o Oceano
Atlântico, as luzes cintilantes da Baía das Gatas, ao longe, e os montes
circundantes. Trata-se, fundamentalmente, de uma experiência de convívio entre
amigos, o público, a música, a natureza e o cosmos, pois como afirmava o Vasco,
“pouco mais existe a não ser a união relativa com o absoluto”.  </p><p>Como se pode
concluir, tudo está profundamente interligado. O Arco é muito mais do que um
monumento. Traduz-se num dispositivo poético e espiritual voltado para a
contemplação do ilimitado. Erguido entre o triângulo da terra, do mar e do céu,
materializa a ligação entre a experiência sensível e a vastidão do cosmos. </p><p>É um lembrete de que o Vasco permanece presente na obra que nos legou,
como compositor, pianista, guitarrista, sound designer, poeta,
musicólogo e, acima de tudo, espírito livre, sensível, elevado e expansivo. </p><p>Recorrendo
às suas próprias palavras sobre a presença da morna na sua criação musical,
Vasco <em>ca ta li, ma el ta li</em>...  </p><p><img src="https://static.expressodasilhas.cv/media/2026/07/1783690314190.normal.jpeg"></p><p><strong>POEMA </strong></p><p><em>Chuva </em></p><p><em>Oferenda</em></p><p><em><br></em></p><p><em>Terra </em></p><p><em>Ressequida </em></p><p><em><br></em></p><p><em>Corpo </em></p><p><em>Ausente </em></p><p><em><br></em></p><p><em>Órion </em></p><p><em>Cintilante </em></p><p><em>Orquestração </em></p><p><em><br></em></p><p><em>Sinfónica </em></p><p><em>Presença </em></p><p><em>Cósmica</em></p><p><em>Existência </em></p><p><em><br></em></p><p><em>Ilha </em></p><p><em>Mar </em></p><p><em>Alísios </em></p><p><em>Colinas </em></p><p><em>Ribeiras </em></p><p><em>Filili </em></p><p><em><br></em></p><p><em>Voo</em></p><p><em>Nota</em></p><p><em>Silenciosa</em></p><p>if. 01.12.25</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284
de 08 de Julho de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/07/10/apeiron-vasco-ca-ta-li-ma-el-ta-li/103585</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Irlando Ferreira]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 10 Jul 2026 11:59:00 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Colisão de princípios e valores poderá vir a agravar-se]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Logo na primeira intervenção, a presidente procurou rebatizar a Assembleia
Nacional como a Casa do Povo, à moda das chamadas democracias populares ou recuperando
o popular da assembleia nacional popular do antigo regime pós-independência. Ou
seja, a  AN deve ser uma casa do povo
onde a soberania é directamente exercida pelo povo e não ser meramente a Casa
dos deputados ou dos Representantes, mesmo que eleitos de forma livre e plural
e com mandato fixo.</p><p>Isso porque
questiona a democracia representativa quanto à real representatividade do
deputado, e a contrapõe à democracia participativa cujos “contributos“poderiam
remediar  supostas deficiências nesse
domínio. Desrespeito pelas regras democráticas e descrédito da instituição seriam
as consequências de
tais deficiências e que poderiam ser ultrapassadas com maior participação
política e social, resgatando no processo o <em>protagonismo de outrora.</em>  O problema dessas elucubrações é que, não
obstante os seus supostos defeitos, ainda é a democracia representativa e
liberal o menos pior de todos os regimes políticos, incluindo as democracias
nacionais ou populares com <em>casas do povo</em> onde “<em>o partido é o povo, e
o povo é o partido</em>”.  Também é o
único regime político que historicamente propicia prosperidade na liberdade. </p><p>Um outro ponto onde
poderá haver colisão é na relação entre o governo e a Assembleia Nacional. O
sistema de governo em Cabo Verde é parlamentar significando isso, entre outras características,
que o governo é responsável perante o parlamento. Nesse sentido, o governo
nomeado pelo presidente da república só ganha plenos poderes depois de ver
aprovada a moção de confiança. Com a pressa demonstrada em vários momentos do
processo de transferência de poder pós as eleições de 17 de Maio, causa alguma
estranheza o facto de ser ter marcado para um único dia, sexta-feira,  17 de Julho, a apresentação e discussão do
programa do governo
para a legislatura, quase um mês depois do dia da tomada de posse.</p><p>De facto, a Constituição
e o Regimento da Assembleia Nacional estipulam o prazo de 15 dias,  sob pena de demissão, para o novo governo
entregar o seu programa ao parlamento que, por sua vez,  no prazo de 15 dias  deverá
discuti-lo num máximo de três reuniões plenárias consecutivas,  culminando na aprovação da moção de confiança.
Mas na prática não tem que ser assim.  Um
governo ansioso por assumir plenos poderes poderia ter antecipado a entrega do
seu programa e de seguida acertar com a Assembleia Nacional a sua discussão e a
aprovação da moção de confiança o mais rapidamente possível. Por outro lado, estranha
que queira  desperdiçar num só dia a oportunidade
única de com tempo, três dias, apresentar o seu programa de governação à nação
e debatê-lo em sede do contraditório  e, no
processo,  gerar vontade política e
social para o implementar. </p><p>Não augura nada de
bom o que pode aparentar alguma relutância em lidar com o parlamento. É verdade
que nem o primeiro-ministro nem muitos dos ministros têm experiência
parlamentar, mas para o funcionamento de um sistema de governo de forte pendor
parlamentar é essencial que a dinâmica parlamentar - envolvendo de um lado o governo e a
sua maioria  e do outro a oposição,  seguindo os procedimentos democráticos - aconteça. Pela via do
debate, dos confrontos políticos, das negociações e acordos é que as várias
competências, legislativa, de fiscalização política, de responsabilidade
política perante os eleitores e em relação aos órgãos externos vão se
concretizar. </p><p>Não aproveitar o
tempo regimental para debates essenciais ou procurar contornar a oportunidade
de os realizar e confrontar a nação com as opções de políticas e as suas
consequências  fragiliza  o sistema político no seu equilíbrio de
poderes e prejudica a acountability dos sujeitos parlamentares perante a
sociedade e os cidadãos. Dúvidas quanto à realização do debate sobre o Estado
da Nação que constitucionalmente deve ter lugar no fim da sessão legislativa, ou
seja, até o dia 31 de Julho não devem existir. </p><p>O argumento que a
nova legislatura começou em Junho não invalida o debate que é sobre o estado da
nação e não especificamente sobre as políticas do governo que são avaliadas em
vários outros momentos em interpelações, debates mensais e perguntas ao
governo. Aliás, nos Estado Unidos onde o State of the Union foi
institucionalizado o facto do presidente iniciar funções a 20 de Janeiro não
impede que em Fevereiro se dirija ao congresso numa sessão conjunta do Senado e
da Casa dos
Representantes, com a sua avaliação da situação do país, e aproveite a
oportunidade para expor as suas opções de política e mobilizar apoio para as
implementar. O mesmo aconteceu recentemente (2025) em Portugal com o governo a
tomar posse em Junho e a debater
sobre o estado da Nação em Julho. </p><p>Alguma relutância
da parte do governo na relação com o parlamento pode complicar ainda mais a
situação actual em que tem uma maioria à justa para fazer aprovar as suas
iniciativas políticas.  Muito diálogo,
negociações e compromissos vão ser exigidos, particularmente quando não recebeu
do eleitorado os votos para fazer avançar as reformas que elenca no programa do
governo. Propõe algumas mudanças só possíveis com a revisão de Constituição,
designadamente a diminuição de deputados para um número inferior a 66, ou então
a reconfiguração dos órgãos constitucionais como o Procurador-Geral da República e o Tribunal de
Contas. Outras ainda como, por exemplo, na criação das regiões administrativas
irão exigir maiorias qualificadas de dois terços dos deputados. </p><p>Para conseguir o
necessário suporte das forças da oposição não é certamente pela via, como é
feita na moção de confiança, do <em>apelo ao apoio responsável e patriótico</em>
do parlamento. Denota aí uma pretensa superioridade moral que agride a todos.  Além disso, quanto às tais reformas, umas têm
na sua base em acerto de contas individuais que não têm lugar na política com
foco no bem comum e outras são demagógicas e voltadas para descredibilizar a
democracia representativa.  Outrossim, a
concentração tendencial do poder no executivo tende a desvalorizar o papel do
parlamento. Resta, pois, às outras forças políticas exercerem os seus direitos
de oposição com inteligência e habilidade táctica para obrigar o parlamento a
cumprir na plenitude das suas funções, em defesa do princípio da separação dos
poderes. </p><p>Num quadro em que
da parte do governo e a sua maioria já se provou que há unidade política de
acção, de discurso e de projecto político fica para a oposição a opção de se
mostrar unida, aguerrida e ciosa dos seus direitos. Não vai ser fácil com tiros
autoinfligidos revelando
fracturas graves no grupo parlamentar e desnorte com renúncia precipitada do
líder, ao mesmo tempo que apetites repentinos  para consenso fragilizam posições negociais
fortes no futuro. No início de um mandato em que não se procura esconder
hostilidade à democracia representativa e liberal há que reconhecer que quando
está na ordem do dia o “resgate de outrora” não se pode fazer o papel do idiota
útil de Lenine e ver-se num honesto jogo de estafetas. </p><p>Não há feito ou
ganho algum que a nação consiga realizar hoje ou em qualquer momento no passado
ou no futuro que fica livre da voracidade e do embraço dos melhores filhos. Nem
a selecção nacional, regressada vitoriosa da Copa do Mundo evitou vergar-se sob
o peso das medalhas de Amílcar Cabral ou de ser designado combatente em
homenagem aos míticos combatentes de outrora.&nbsp;</p><p style="text-align: right;"><strong>Humberto Cardoso</strong></p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284
de 08 de Julho de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/07/10/colisao-de-principios-e-valores-podera-vir-a-agravar-se/103564</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[A Direcção]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 10 Jul 2026 09:11:00 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[A Cidade que Ainda Não Construímos]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Quem planta no vento não
colhe no chão. Aprendi isso cedo, numa ilha onde o vento é companheiro
permanente e a terra só dá fruto a quem a respeita. Aprendi também no
urbanismo, ao longo de mais de três décadas a pensar cidades entre Lisboa e o
Mindelo, entre a Praia e muitos outros lugares pelo mundo: o território não
mente e não esquece. Guarda as boas decisões e as más, os planos cumpridos e os
que ficaram na gaveta, as oportunidades que aproveitámos e as que deixámos
passar sem darmos por isso.</p><p>No dia 3 de Julho, em
Miami, os Tubarões Azuis fizeram algo que vai muito além de um resultado de
futebol. Perante os campeões do mundo, com adversidades dentro e fora do campo,
resistiram, acreditaram e deixaram o seu nome escrito na história desta Copa do
Mundo com uma dignidade que nenhum marcador consegue medir. O golaço do Sidny
Cabral, que igualou o marcador pela segunda vez já na prorrogação, ficará para
sempre como símbolo de um povo que não desiste, mesmo quando tudo parece conspirar
contra ele. Esse momento não foi sorte. Foi a consequência de anos de trabalho
invisível, de uma cultura construída pacientemente, de uma crença que não
depende da aprovação de ninguém.</p><p><em>Devagar se vai longe. E Cabo Verde,
que aprendeu a navegar antes de aprender a correr, sabe isso melhor do que
ninguém.</em></p><p><strong>O
QUE O CAMPO TEM A DIZER AO TERRITÓRIO</strong></p><p>Escrevo isto como
arquitecto e urbanista, não como comentador desportivo. Escrevo porque o que vi
em Miami me ensinou mais sobre construção do que muitos dos projectos em que
trabalhei ao longo de trinta anos de profissão. Porque construir, no fundo, é sempre
a mesma coisa: ter clareza sobre o que se quer ser, trabalhar honestamente com
o que se tem, resistir quando o resultado demora, e não ceder à tentação do
caminho mais curto quando o caminho certo é mais exigente.</p><p>Temos tentado durante
demasiado tempo construir cidades à imagem de modelos importados que não foram
pensados para o nosso clima, para a nossa topografia, para a nossa forma de
viver e de habitar o espaço. Importámos tipologias habitacionais de latitudes
onde o sol e o vento se comportam de forma completamente diferente. Adoptámos
linguagens arquitectónicas que nada dizem da nossa história e que envelhecem
mal porque não têm raízes no lugar onde foram plantadas. E depois estranhamos
que as nossas cidades não tenham a coesão nem a qualidade de vida que admiramos
noutros sítios.</p><p>A resposta não está em
copiar melhor. Está em perceber, como a selecção percebeu há anos, que a nossa
força vem de sermos o que somos. A arquitectura tradicional cabo-verdiana,
construída durante séculos pela necessidade de responder ao vento, ao sol e à
pedra disponível em cada ilha, é um arquivo de soluções inteligentes que
continua a ser ignorado em nome de uma modernidade que não é nossa. As casas de
pedra basáltica de Santo Antão, a morfologia urbana singular do Mindelo com a
sua mistura única de influências, os centros históricos que sobreviveram porque
foram pensados para durar, tudo isso é conhecimento vivo que merecia estar no
centro das nossas políticas de habitação e de ordenamento.</p><p><em>Identidade não é o que se pinta na
fachada para parecer diferente. É o que se coloca na estrutura para ser
reconhecível, por nós próprios primeiro, e pelo mundo a seguir.</em></p><p><strong>A
CASA É O COMEÇO DE TUDO</strong></p><p>Existe uma tendência,
instalada há muito no debate público cabo-verdiano, de discutir o
desenvolvimento a partir dos grandes agregados: crescimento do produto interno,
entrada de investimento externo, expansão do sector do turismo. São indicadores
reais e importam. Mas nenhum deles diz nada sobre a família que quer ter a sua
casa própria e não encontra caminho para isso, nem sobre o jovem casal que não
consegue ficar porque as condições habitacionais disponíveis estão fora do seu
alcance.</p><p>A habitação é onde a
política pública encontra a vida das pessoas de forma mais directa e mais
duradoura. Uma casa bem construída não é apenas um tecto. É saúde, é
estabilidade, é o lugar onde os filhos crescem sabendo que pertencem a algum
sítio. É a diferença entre uma família que aguenta as dificuldades e uma que se
desfaz por causa delas. Quem constrói bem para uma família está, sem precisar
de discursos, a construir o país.</p><p>O mercado imobiliário,
quando funciona sem enquadramento, tende a servir quem já tem condições para
entrar nele. O investimento procura retorno e encontra-o onde a procura
consegue pagar. O resultado vê-se nas nossas cidades: de um lado, construção
nova e valorizada; do outro, crescimento informal persistente onde chegam os
que ficaram fora dessa equação. Não é culpa do mercado agir assim. É
responsabilidade do Estado não deixar que o mercado actue sozinho onde a
equidade está em causa. Como diz o ditado, quem semeia ventos colhe
tempestades. E as cidades que crescem sem plano cobram sempre a conta, mais
cedo ou mais tarde.</p><p><em>Não se pode pedir a um povo que
acredite no seu país se o país ainda não conseguiu garantir que esse povo tem
onde viver com dignidade e com esperança.</em></p><p><strong>ARQUITECTURA
É POLÍTICA, NÃO É ORNAMENTO</strong></p><p>Ao longo de mais de
trinta anos de prática profissional, uma das batalhas que mais me custou travar
foi esta: convencer quem decide que a arquitectura não é o acabamento do
desenvolvimento. É a sua estrutura. É a diferença entre uma escola onde os
alunos aprendem melhor porque o espaço os ajuda, e uma escola que é apenas um
contentor com carteiras. Entre um bairro onde as pessoas se encontram
naturalmente e constroem laços, e um conjunto de edifícios onde cada um fecha a
porta e não conhece o vizinho do lado.</p><p>Uma habitação que
respeita o sol, o vento e a chuva específicos de cada ilha custa menos a
construir, menos a manter e oferece mais conforto a quem nela vive. Estes não
são argumentos estéticos. São argumentos de economia e de bem-estar que
qualquer gestor público devia ter em conta antes de aprovar o próximo conjunto
habitacional. O barato sai sempre caro, e em arquitectura essa verdade
confirma-se com uma regularidade que cansa.</p><p>Com um novo Governo
instalado, as peças do território voltam a ser distribuídas. As
infraestruturas, a habitação e o ordenamento têm uma casa. A cultura, a
juventude e o desporto têm outra. O que falta, e sempre faltou, não é a
organização das tutelas. É a conversa entre elas. Porque uma cidade não é a
soma das suas competências administrativas. É a síntese do que um povo decide
ser. E essa síntese só acontece quando quem governa aceita que o território é
maior do que qualquer organograma.</p><p><strong>O
QUE PROPONHO A QUEM DECIDE</strong></p><p>Primeiro: que a habitação
seja assumida como prioridade de governação real, com dotação orçamental
própria, metas mensuráveis e um programa que chegue a quem mais precisa. Não
habitação como promessa de campanha que envelhece mal. Habitação como política
pública com endereço, calendário e responsabilidade perante os resultados.</p><p>Segundo: que os
instrumentos de gestão territorial sejam actualizados com urgência nas ilhas
com maior pressão de crescimento. Em urbanismo existe uma lei não escrita mas
sempre confirmada: é sempre mais fácil planear antes de construir do que tentar
ordenar o que já cresceu sem regra. Um plano feito depois da cidade já ter
crescido descreve o problema. Não o resolve.</p><p>Terceiro: que a
arquitectura e o urbanismo sejam reconhecidos como investimento e não como
despesa. Que se contratem os melhores profissionais para os projectos públicos,
que se exija qualidade nos concursos, que se valorize o conhecimento técnico
formado dentro do país. Cabo Verde tem arquitectos, urbanistas, geógrafos e
engenheiros que escolheram ficar e construir aqui. Essa escolha merece ser
correspondida com políticas que a tornem sustentável e que a reconheçam como o
activo estratégico que é.</p><p><em>Estas não são reivindicações de uma
classe profissional. São condições mínimas para que o que se construir em Cabo
Verde nos próximos anos seja sustentável, justo e reconhecível como obra de um
povo que decidiu, de vez, apostar em si próprio.</em></p><p><strong>O
REGRESSO QUE MERECE SER CORRESPONDIDO</strong></p><p>Os Tubarões Azuis
regressaram. As ruas disseram o que as palavras raramente conseguem. Agora,
depois da festa, fica a lição. O percurso que os levou até à Copa do Mundo a
defrontar os campeões mundiais de igual para igual foi construído com
paciência, com método e com a convicção inabalável de que os limites impostos
de fora não são os únicos limites possíveis . É exactamente isso que as nossas
cidades estão à espera que façamos por elas.</p><p>Existe neste arquipélago
uma energia que não é fácil de nomear mas que qualquer um que a tenha sentido
de perto reconhece de imediato. É a energia de quem aprendeu a transformar a
escassez em engenho, o isolamento em abertura, a saudade em laço que não se
corta com a distância. Está nas ruas do Mindelo quando o carnaval toma conta da
cidade e o mundo pára para olhar. Está nos jovens que terminam a formação lá
fora e escolhem voltar porque sabem que há aqui algo que não existe em mais
lugar nenhum. Está nos emigrantes que constroem a casa antes de precisar dela
porque nunca perderam a certeza de que pertencem a um sítio.</p><p>Essa energia merece
cidades à sua altura. Habitação que a fixe em vez de a expulsar. Espaços
públicos que a celebrem em vez de a ignorar. Uma arquitectura que olhe para o
território não como problema a gerir mas como oportunidade a construir, com as
mãos e o conhecimento que cá estão.</p><p>A cidade que ainda não
construímos não é uma utopia. É um projecto. E como todos os projectos que
valem a pena, começa com uma decisão e com quem a toma a sério.</p><p><em>A natureza não dá saltos, dizia
Leibniz. E de facto, nenhuma grande transformação acontece de uma vez. As
nossas cidades cresceram assim, camada sobre camada, decisão sobre decisão,
erro sobre acerto. O que os Tubarões Azuis nos mostraram é que quando um povo
decide construir com método e com alma, o mundo acaba sempre por reconhecer o
que foi feito. As nossas cidades merecem essa mesma determinação. Esse mesmo
cuidado. Esse mesmo tempo.</em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/07/08/a-cidade-que-ainda-nao-construimos/103552</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[César Freitas]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 08 Jul 2026 17:20:39 GMT</pubDate>
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