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        <title><![CDATA[Expresso das Ilhas]]></title>
        <description><![CDATA[Notícias de Cabo Verde]]></description>
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        <pubDate>Thu, 23 Apr 2026 08:57:00 GMT</pubDate>
        <copyright><![CDATA[Expresso das Ilhas on-line. Todos os direitos reservados.]]></copyright>
        <language><![CDATA[pt-pt]]></language>
        <item>
            <title><![CDATA[23 de Abril: Três Gestos, Um País]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Num tempo marcado
pela velocidade da informação, pela fragmentação da atenção e pela pressão do
imediato, esta data ganha um alcance acrescido. Falar de professores, de livros
e de autores é falar de permanência, de transmissão e de construção. É afirmar
que o futuro não se improvisa – forma-se. E forma-se, antes de tudo, na relação
entre quem ensina, quem escreve e quem lê. A escola, nesse quadro, não é apenas
um espaço de instrução. É um lugar de formação de carácter, de construção de
sentido e de preparação para a cidadania.</p><p>O <em>Depoimento
pelos 50 anos da Claridade</em> (1986), de Baltasar Lopes, ajuda a compreender
esse sentido. O autor revisita o surgimento da revista <em>Claridade</em> nos
anos 30, num contexto de censura e escassez de meios, e sublinha uma opção
decisiva: escrever a partir da realidade cabo-verdiana. A literatura deixa de
ser exercício distante e assume-se como instrumento de leitura do país. A
palavra passa a ter função, direcção e responsabilidade. A escrita deixa de ser
ornamento e torna-se acto.</p><p><strong>Raiz</strong></p><p>A <em>Claridade</em>
introduz uma mudança de fundo. A escrita passa a observar e a interpretar as
condições concretas do arquipélago – sociais, económicas e culturais. A seca, a
fome, a emigração, as formas de vida, os ritmos da insularidade deixam de ser
pano de fundo e tornam-se matéria central. Cabo Verde afirma-se como objecto de
reflexão e deixa de ser apenas cenário literário.</p><p>Esta mudança não é
apenas estética. É intelectual. A literatura ganha uma função de conhecimento.
A escrita torna-se uma forma de pensar o país e de o dar a conhecer a si
próprio. Nesse gesto, nasce uma consciência – ainda em construção, mas já
orientada para a afirmação de uma identidade própria.</p><p>É neste quadro que
se insere <em>Chiquinho</em>, um dos clássicos maiores da literatura
cabo-verdiana. O romance acompanha o percurso de formação do seu protagonista,
da infância à maturidade, num itinerário que é também o de uma geração. A
escola, a terra, a partida, o confronto com o mundo – tudo ali se articula numa
narrativa que dá forma à experiência cabo-verdiana.</p><p><em>Chiquinho</em> não é apenas um romance. É uma síntese. Ao transformar a
experiência em narrativa, fixa uma visão do país por dentro e aprofunda o gesto
da <em>Claridade</em>: olhar, compreender e dizer Cabo Verde com verdade.</p><p><strong>Fundação</strong></p><p>Ao centrar-se na
realidade cabo-verdiana, a <em>Claridade</em> contribui para afirmar uma
identidade própria. Sem adoptar um discurso político directo, a revista
desempenha um papel decisivo na construção de uma consciência colectiva. Ao
nomear o país, torna-o visível. Ao descrevê-lo, torna-o pensável.</p><p>Baltasar Lopes
reconhece, no seu depoimento, as limitações da época – falta de meios,
dispersão dos colaboradores, ausência de formação especializada –, mas destaca
a existência de uma orientação comum. Mais do que um programa, houve um
sentido. E esse sentido foi suficiente para abrir caminho.</p><p>Num contexto em que
a intervenção política era limitada, a escrita tornou-se um espaço de
afirmação. Ao descrever e interpretar o país, ajudou a estruturá-lo como ideia.
A literatura antecipou, nesse plano, aquilo que mais tarde se afirmaria como
projecto histórico.</p><p>A passagem dos 90
anos da <em>Claridade</em> confirma a actualidade desse contributo. O que ali se
iniciou como movimento literário é hoje reconhecido como um dos momentos
fundadores da modernidade cabo-verdiana.</p><blockquote><p>O 23
de Abril não é apenas uma data comemorativa. É um ponto de convergência entre
memória, educação e cultura. Um dia que lembra uma evidência simples e
exigente: um país constrói-se quando ensina, quando lê e quando se pensa</p></blockquote><p><strong>Herança</strong></p><p>O impacto da <em>Claridade</em>
prolonga-se no tempo. A “caboverdianização temática” atravessa gerações e
manifesta-se em diferentes linguagens – literatura, ensaio, música,
investigação académica. A escrita mantém-se como instrumento de reflexão e
responsabilidade pública.</p><p>O 23 de Abril
ganha, assim, um alcance particular. A data articula ensino, produção literária
e formação cultural, três pilares essenciais para o desenvolvimento do país.
Num tempo de novos desafios educativos e de concorrência à leitura, esta
convergência assume valor estratégico.</p><p>A escola continua a
ser o primeiro espaço de cidadania. O livro mantém-se como instrumento
insubstituível de aprofundamento. O autor organiza a experiência e transforma-a
em sentido. Juntos, formam uma base.</p><p>Neste quadro, a
aproximação de 2027, ano em que se assinalam os 120 anos do nascimento de
Baltasar Lopes, coloca um desafio claro: ler mais, ensinar melhor e pensar com
maior exigência. A efeméride deve traduzir-se em leitura efectiva, presença nas
escolas e debate público informado.</p><p>Baltasar Lopes
permanece como referência. A sua obra continua presente no sistema educativo,
no espaço literário e na reflexão sobre a identidade cabo-verdiana. Permanece
porque responde a uma necessidade: a de pensar o país com rigor, atenção e
responsabilidade.</p><p>O 23 de Abril não é apenas uma data comemorativa. É um
ponto de convergência entre memória, educação e cultura. Um dia que lembra uma
evidência simples e exigente: um país constrói-se quando ensina, quando lê e
quando se pensa – e afirma-se quando
transforma a palavra em acto. Como um livro aberto numa sala de aula, é aí que
o país começa todos os dias.</p>]]></description>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Manuel Brito-Semedo]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 23 Apr 2026 08:57:00 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Conversas Macaronésicas: Ilhas, Palavra e Futuro]]></title>
            <description><![CDATA[<p>A primeira edição realizou-se
em 2025, também nas Canárias, afirmando desde logo este encontro como um
projecto de continuidade no espaço macaronésico. Mais do que um encontro
cultural, estas Conversas retomam uma ideia antiga e sempre actual: a de que os
arquipélagos, na sua condição insular, não são margens do mundo, mas lugares a
partir dos quais o mundo pode ser pensado.</p><p>Ao longo de
vários dias, o programa cruza literatura, poesia, música e debate, colocando em
diálogo património cultural e desafios contemporâneos das sociedades insulares,
da gestão de recursos às tecnologias adaptadas ao meio atlântico. Num tempo em
que o mundo se interroga sobre novos modelos de desenvolvimento, a Macaronésia
afirma-se, assim, não apenas como espaço geográfico, mas como laboratório de
pensamento – um lugar onde a experiência histórica das ilhas se projecta como
possibilidade de futuro.</p><p>Estas Conversas
evocam ainda duas figuras maiores do pensamento insular atlântico – Baltasar
Lopes da Silva (1907–1989), nascido na ilha de São Nicolau, em Cabo Verde, e
Pedro García Cabrera (1905–1981), natural da ilha de La Gomera, nas Canárias –,
patronos de fundações culturais que, em contextos distintos mas convergentes,
afirmaram a centralidade das ilhas como lugar de criação, consciência e
liberdade. Ambos pensaram as suas ilhas não como territórios isolados, mas como
espaços de projecção universal, onde a experiência insular se transforma em
matéria de reflexão e criação.</p><p>Participam neste
encontro representantes dos quatro arquipélagos, reunindo escritores,
investigadores e agentes culturais num diálogo que cruza gerações e percursos.
Por Cabo Verde, marcam presença nomes como Leão Lopes, Luís Firmino, António
Apolinário, Valter Silva, Vanderley Rocha e Manuel Brito-Semedo, reafirmando a
centralidade do arquipélago no pensamento atlântico contemporâneo.</p><p style="text-align: center;"><strong>Ilhas em
relação</strong></p><p>É neste contexto
que a reflexão sobre a Macaronésia ganha nova densidade. Cabo Verde é uma
experiência atlântica singular. Integrado neste espaço, o arquipélago construiu
uma história própria, marcada pela crioulização, pela diáspora e pela
capacidade de transformar a insularidade em relação. A crioulidade macaronésica
surge aqui como chave interpretativa: não identidade fechada, mas processo
histórico e cultural que fez do Atlântico não um limite, mas uma casa.</p><p>A Macaronésia,
frequentemente entendida como simples agregação geográfica de arquipélagos,
revela-se, à luz destas Conversas, como uma construção histórica e cultural
mais profunda. Não se trata apenas de proximidade física, mas de uma partilha
de experiências, de desafios comuns e de respostas criativas à condição
insular. Neste sentido, os arquipélagos não são apenas pontos dispersos no
oceano, mas nós de uma rede de sentido que se constrói no tempo.</p><p>Cabo Verde
construiu, ao longo da sua história, uma identidade que ultrapassa as
fronteiras físicas do arquipélago e se afirma num espaço mais vasto: o
Atlântico. Nascido do encontro forçado e, mais tarde, recriado pela convivência
prolongada entre povos de origens diversas, o país transformou a distância em
relação, a escassez em engenho e a insularidade em horizonte – isto é, fez da
condição insular não um destino de limitação, mas uma forma de abertura.</p><p style="text-align: center;"><strong>A força
da palavra</strong></p><p>A condição
insular, marcada por limites naturais severos, não produziu apenas carência:
gerou cultura. A adaptação, a criatividade e a reinvenção constante do
quotidiano moldaram uma forma própria de estar no mundo, onde a escassez se
tornou experiência fundadora e a resposta nunca foi o isolamento, mas a criação
de formas de sociabilidade, de linguagem e de imaginação.</p><p>A terra falou – e
a palavra ficou. Antes da literatura, houve oralidade; antes do discurso
político, houve narrativa partilhada. A língua crioula tornou-se espaço de
pertença, e a palavra – cantada, dita ou contada – instrumento de memória e de
resistência.</p><p>Esta centralidade
da palavra não é apenas estética ou cultural; é também política e existencial.
Num território marcado pela escassez e pela incerteza, a palavra tornou-se
forma de organizar o mundo, de dar sentido à experiência e de projectar futuro.
É através dela que se constroem narrativas de pertença e se afirmam identidades
colectivas.</p><p>A revista <em>Claridade</em>
e a obra de Baltasar Lopes da Silva marcaram esse momento fundador, afirmando a
especificidade histórica e cultural do arquipélago e inaugurando uma forma de
pensar Cabo Verde a partir de si próprio.</p><p style="text-align: center;"><strong>O mar que
liga</strong></p><p>Se a terra impôs
limites, o mar abriu caminhos. Em Cabo Verde, o Atlântico nunca foi apenas
fronteira: foi via de comunicação, aprendizagem e sobrevivência. A diáspora
tornou-se extensão da nação, e o oceano, longe de separar, ligou – transformando
a dispersão em continuidade e a distância em relação.</p><p>Dessa experiência
nasceu uma crioulidade em movimento – aberta, relacional, capaz de habitar
vários mundos sem perder o sentido de pertença. Entre África, Europa e o
Atlântico, Cabo Verde construiu um equilíbrio aprendido, fazendo da travessia
uma forma de permanência e da relação uma forma de identidade.</p><p>Hoje, quando se
discute sustentabilidade, resiliência e inovação em contextos de escassez, os
arquipélagos oferecem um campo privilegiado de observação. A limitação de
recursos, longe de ser apenas obstáculo, tem funcionado como motor de engenho:
gestão da água, energias renováveis, agricultura adaptativa, economia do mar. A
experiência insular, aqui, não é apenas memória – é também método.</p><p>Neste quadro, as
Conversas Macaronésicas adquirem uma dimensão que ultrapassa o evento.
Funcionam como dispositivo de escuta e de tradução: escuta das experiências
locais e tradução dessas experiências para um vocabulário comum que possa
circular entre ilhas e para além delas. A literatura e a música abrem o
caminho; a reflexão e o debate consolidam-no.</p><p>Há, neste
encontro, uma pedagogia implícita. Aprender a pensar a partir de ilhas implica
reconhecer a escala humana dos problemas, a interdependência dos sistemas e a
necessidade de soluções situadas. Implica também recusar simplificações: nem
idealização romântica da insularidade, nem leitura deficitária que a reduza a
carência. Entre uma e outra, constrói-se uma terceira via – a da relação.</p><p>Essa via exige
instituições, redes e continuidade. As fundações que evocam Baltasar Lopes e
Pedro García Cabrera são, nesse sentido, mais do que homenagens: são
infra-estruturas de memória e de futuro. Ao ligar investigação, criação e
comunidade, tornam possível aquilo que as Conversas procuram: uma comunidade de
sentido que se reconhece na diferença.</p><p>É neste ponto que
a Macaronésia deixa de ser apenas mapa para se tornar projecto. Um projecto
aberto, feito de encontros regulares, de circulação de ideias e de práticas que
se testam no terreno. Um projecto que, sendo insular, é simultaneamente
universal – porque fala de como viver em limites sem perder horizonte.</p><p>A crioulidade
macaronésica, entendida como competência relacional, oferece aqui uma chave
adicional. Não apenas descreve um passado de misturas; propõe um modo de operar
no presente: negociar diferenças, construir pertencimentos múltiplos,
transformar fronteiras em pontes. Num mundo de tensões identitárias, esta
competência não é menor – é estratégica.</p><p>E talvez seja por
isso que estas Conversas importam: porque nelas se reconhece uma verdade antiga
e sempre adiada – a de que as ilhas nunca foram margens. Quando falam entre si,
tornam-se centro. E, por instantes, o mundo aprende a escutar a partir delas.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1272
de 15 de Abril de 2026.</strong></em></p>]]></description>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Manuel Brito-Semedo]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 20 Apr 2026 09:01:23 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Mindelo: a cidade que ainda se está a reconciliar consigo própria]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Durante décadas, consolidou-se uma dualidade urbana evidente:
de um lado, a “morada”, estruturada, planeada, dotada de infraestruturas e
intenção. Do outro, a chamada “fralda”, crescimento espontâneo, afastado,
marcado pela urgência e pela ausência de enquadramento urbanístico. Entre
ambos, mais do que distância física, instalou-se uma fronteira invisível -
social, económica e simbólica.</p><p>Importa reconhecer que esta realidade não é fruto do acaso.
Resulta de modelos de desenvolvimento que, direta ou indiretamente, aceitaram a
coexistência de duas cidades: uma formal e outra tolerada. E, como tantas vezes
acontece, o tempo não corrigiu essa fragmentação - antes a consolidou,
tornando-a estrutural.</p><p>Com a expansão urbana para além da Av. da Holanda, assistiu-se
a uma aproximação física entre estes territórios. Mas essa fusão espacial não
foi acompanhada por uma verdadeira integração urbana. Persistem diferenças
claras no acesso a infraestruturas, na qualidade do espaço público, na
valorização do território e, sobretudo, nas oportunidades disponíveis para os
cidadãos.</p><p>Mais ainda: a própria linguagem perpetua esta divisão. Termos
como “fralda” carregam consigo um peso simbólico que ultrapassa a geografia.
São etiquetas que influenciam perceções, moldam expectativas e, muitas vezes,
condicionam o próprio investimento público e privado.</p><p>Perante este quadro, torna-se evidente que o desafio de
Mindelo não é apenas urbanístico - é estrutural. Não se trata apenas de
construir mais ou expandir melhor. Trata-se de corrigir um modelo que, ao longo
do tempo, produziu e reproduziu desigualdades territoriais.</p><p>Experiências internacionais demonstram que este tipo de
fragmentação pode ser superado com visão e consistência. Cidades como , outrora
marcadas por fortes desigualdades territoriais, conseguiram transformar-se
através de estratégias integradas que combinaram mobilidade, espaço público e
investimento dirigido. Mais do que replicar modelos, importa retirar uma lição
essencial: a mudança acontece quando há prioridade política, continuidade e
foco nos territórios mais vulneráveis.</p><p>Mas a resposta para Mindelo não está na cópia - está na
interpretação inteligente da sua própria realidade.</p><p>Uma das chaves para essa transformação passa pela construção
de uma cidade policêntrica e interconectada. Em vez de reforçar um único centro
e perpetuar periferias dependentes, é fundamental criar e consolidar múltiplas
centralidades urbanas - bem equipadas, qualificadas e ligadas entre si. Isso
implica investir em mobilidade eficiente, redes de espaço público contínuas e
equipamentos estruturantes distribuídos de forma equilibrada pelo território.</p><p>Uma cidade policêntrica reduz desigualdades, aproxima
oportunidades e torna-se mais resiliente. Permite que diferentes zonas da
cidade deixem de ser apenas dormitórios e passem a ser territórios ativos, com
identidade, economia e vida urbana própria.</p><p>Neste contexto, a revitalização do centro histórico de Mindelo
assume um papel absolutamente estratégico. Mais do que um espaço simbólico, o
centro deve afirmar-se como motor económico, cultural e turístico da cidade. A
sua requalificação não pode limitar-se à estética - deve integrar habitação,
comércio, serviços, cultura e vivência urbana, garantindo permanência,
diversidade e dinamismo ao longo do dia e da noite.</p><p>Um centro histórico vivo tem efeito multiplicador. Atrai
investimento, gera emprego, valoriza a cidade e reforça a sua atratividade
internacional. Mas, sobretudo, pode funcionar como âncora de um sistema urbano
mais amplo, articulando-se com novas centralidades e contribuindo para uma rede
urbana mais equilibrada.</p><p>Mindelo tem uma vantagem clara: a sua dinâmica económica e
cultural já existe. O desafio não é criar do zero, mas sim estruturar,
potenciar e distribuir melhor essa energia. A economia local - ligada à
cultura, ao turismo, aos serviços e à criatividade - pode e deve ser usada como
alavanca de desenvolvimento integrado.</p><p>Para isso, é necessário alinhar planeamento urbano com
estratégia económica. Criar condições para o investimento, qualificar o espaço
urbano, melhorar acessibilidades e garantir que os benefícios do crescimento
são partilhados por todo o território.</p><p>A verdadeira medida do desenvolvimento não está na expansão da
cidade, mas na sua capacidade de integrar. Não está no número de novos bairros,
mas na qualidade das ligações que estabelece - físicas, sociais e económicas.</p><p>Mindelo não precisa de crescer mais depressa. Precisa crescer
melhor. Precisa de se tornar uma cidade mais contínua, mais equilibrada e mais
justa.</p><p>E, acima de tudo, precisa de se reconciliar consigo própria -
transformando as suas fraturas em oportunidades e a sua diversidade num
verdadeiro motor de desenvolvimento para toda a ilha de São Vicente.&nbsp;</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1272
de 15 de Abril de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/04/20/mindelo-a-cidade-que-ainda-se-esta-a-reconciliar-consigo-propria/102386</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[César Freitas]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 20 Apr 2026 09:00:29 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Entre listas e o futuro de Cabo Verde, o foco deve ser sempre as pessoas]]></title>
            <description><![CDATA[<p>As últimas semanas
da vida política cabo-verdiana ficaram marcadas por um tema que, sendo
importante, nunca deveria ter ocupado o centro do debate. A construção das
listas de candidatos às eleições legislativas de 17 de Maio, foi tema principal
quando o foco, há muito tempo, deveria ser o programa para Cabo Verde e para as
pessoas.</p><p>Como em qualquer
democracia, este é um momento relevante para os partidos, define equipas,
estabelece equilíbrios e projeta lideranças. No entanto, não é, nem pode ser, o
essencial. O essencial deveria estar noutro lugar, deveria estar nas pessoas, nos
seus problemas concretos, na sua qualidade de vida, e no seu futuro.</p><p>Quando o processo
de escolha de candidatos se transforma no principal assunto político do país,
há um desvio claro de prioridades. E quando esse processo é marcado por ruído,
contestação interna e sinais de desorganização, como se verificou nos dois
partidos do arco do poder, então o problema é duplo, não só se perde o foco, como
se transmite ao país uma imagem de instabilidade que não inspira confiança.</p><p>É importante
reconhecer que nenhum partido está imune a tensões internas. O próprio MpD já
enfrentou momentos exigentes ao longo da sua história e continuará, naturalmente,
a enfrentá-los. E mesmo o processo atual foi demasiado público e com algumas
fraturas. Isto acontece porque a política é feita de pessoas, e as pessoas trazem
consigo ambições, divergências e diferentes visões. O que distingue os partidos
não é a ausência de conflitos, mas a forma como os gerem.</p><p>E é aqui que,
infelizmente, ambos Partidos falharam. Um processo natural, organizado e
orientado por critérios claros acabou por se tornar um episódio de exposição
pública de divisões internas, com críticas abertas à liderança, denúncias de
exclusões e uma perceção generalizada de falta de coesão. Não é apenas uma
questão interna, é um sinal político. E os sinais políticos contam.</p><p><em>“O
preço da grandeza é a responsabilidade.”</em>
- Winston Churchill</p><p>Seria um erro
ficarmos presos a este tema. Cabo Verde não pode permitir-se esse luxo. O país,
e o Mundo, enfrentam desafios demasiado sérios para que a política se concentre
em disputas internas ou jogos de bastidores.</p><p>E sejamos
pragmáticos, as famílias cabo-verdianas não estão preocupadas com quem ficou ou
não ficou numa lista. Estão preocupadas com o custo de vida, com o preço dos alimentos,
com a dificuldade em pagar renda, eletricidade e água. Estão preocupadas com o
futuro dos seus filhos, com a qualidade da educação e com as oportunidades de
emprego. É aí que deve estar o centro da política. </p><p>Estamos num
momento particularmente exigente, marcado por um contexto internacional
instável, com impactos diretos numa economia pequena e aberta como a nossa. A
inflação global, as tensões geopolíticas e as mudanças nos fluxos económicos
internacionais afetam diretamente o dia a dia das famílias cabo-verdianas. E é precisamente
por isso que se exige da política mais responsabilidade, mais foco e mais
capacidade de resposta. </p><p>Cabo Verde
precisa, neste momento, de clareza estratégica. Precisa de políticas que façam
a diferença na vida das pessoas, de decisões que não sejam pensadas para ciclos
eleitorais, mas para o futuro do país. É neste contexto que importa re-centrar
o debate e apresentar caminhos concretos. Focar no essencial, governar para as
pessoas.</p><p>Em primeiro lugar,
é fundamental continuar a aliviar a pressão financeira sobre as famílias. Isso
implica reforçar medidas de redução do custo de vida, com especial atenção aos
bens essenciais. O Estado deve continuar a atuar de forma inteligente, quer
através de mecanismos de compensação, quer através de incentivos que permitam
estabilizar preços e proteger o poder de compra, sobretudo das famílias mais
vulneráveis e da classe média.</p><p>Em segundo lugar,
é essencial dar um novo impulso à educação: não basta garantir o acesso, é
fundamental elevar a qualidade, o sentido e a ligação ao mundo real, desde a
educação de infância até à formação ao longo da vida. O futuro exige um sistema
orientado para competências, pensamento crítico e cidadania ativa, capaz de
formar pessoas íntegras e responsáveis, preparadas para um mundo em rápida transformação.
Nesse caminho, a Inteligência Artificial deve entrar na escola sem medo, mas
com ética — ensinada de forma crítica, transparente e humana, ao serviço do
conhecimento, da igualdade de oportunidades e do bem comum. Aprender fazendo,
em contacto com a realidade, com projetos, experiência prática e inovação pedagógica,
é essencial para que a educação deixe de apenas transmitir conteúdos e passe,
verdadeiramente, a preparar cidadãos conscientes e capazes de construir um futuro
mais justo e pacífico.</p><p>Em terceiro lugar,
Cabo Verde dispõe de uma oportunidade única e estratégica que não pode ser
desperdiçada, o seu oceano. O mar não é apenas parte da nossa identidade
histórica e cultural, é um ativo de valor económico, ambiental, científico e geopolítico
ímpar. A Economia Azul, quando pensada de forma integrada e sustentável, pode
gerar emprego qualificado, atrair investimento e projetar Cabo Verde como um
verdadeiro farol no Atlântico, uma referência internacional em desenvolvimento
sustentável e governação marítima. Para tal, é necessária visão de longo prazo,
investimento em conhecimento e inovação, firme proteção ambiental e uma
estratégia clara que integre pesca sustentável, turismo responsável, energias renováveis
marinhas, investigação científica e a valorização das comunidades costeiras. O
oceano pode, e deve, afirmar-se como um dos pilares centrais do desenvolvimento
soberano, duradouro e globalmente respeitado do país.</p><p>Por fim, é
indispensável reforçar a confiança nas instituições e na própria política. Isso
faz-se com transparência, com seriedade e com resultados. As pessoas acreditam quando
veem mudanças concretas nas suas vidas. E é essa confiança que sustenta uma
democracia forte.</p><p><em>“A
esperança não é a convicção de que algo correrá bem, mas a certeza de que algo
faz sentido, independentemente do resultado.”</em>
- Vaclav Havel</p><p>O momento que
vivemos não é um momento qualquer. É um momento de escolha. E, mais do que
escolher partidos ou nomes, os cabo-verdianos serão chamados a escolher um
caminho para o país. Um caminho que pode ser de estabilidade, responsabilidade
e progresso, ou um caminho de incerteza e improviso.</p><p>É por isso que o
debate político tem de estar à altura deste momento, ser sério, esclarecedor e
verdadeiramente útil para o país. As listas estão feitas, e agora é tempo de
falar de ideias, de escolhas e do futuro que queremos construir em conjunto.</p><p>A democracia não
se esgota nos partidos, ela resulta com a participação de todos. No dia 17 de
Maio, cada voto conta, cada voz faz diferença. Votar não é apenas um direito, é
um dever cívico e um ato de responsabilidade para com o presente e com as
gerações que virão.</p><p>Termino com uma
nota pessoal. Após dez anos no Parlamento, que foi para mim uma verdadeira
escola de serviço público e um espaço de enorme honra, não integrarei as listas
destas eleições legislativas. Trata-se de uma decisão enquadrada num processo de
renovação que o partido entendeu promover e que respeito. Sinto um profundo orgulho
pelo caminho feito, pelas causas que defendi e pelo contributo que procurei dar
a Cabo Verde. Não acreditem, no entanto, que esta ausência das listas será uma ausência
nesta luta eleitoral. A política não se esgota em mandatos nem em lugares.</p><p>Este é um momento
crucial para o país, e estarei, como sempre estive, presente neste combate, ao
lado do MpD, com o mesmo compromisso, a mesma convicção e a mesma vontade de
servir Cabo Verde.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1272
de 15 de Abril de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/04/20/entre-listas-e-o-futuro-de-cabo-verde-o-foco-deve-ser-sempre-as-pessoas/102387</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Paulo Veiga]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 20 Apr 2026 09:00:19 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Espectro do populismo dissipado na Hungria e a acenar para Cabo Verde]]></title>
            <description><![CDATA[<p>De facto, a questão se deve renunciar ao cargo do
presidente da CMP ou suspender o seu exercício lembra o imbróglio criado à
volta do pagamento de cotas ao partido por essa mesma personalidade quando se
candidatava ao cargo de presidente do PAICV. Na altura, as dúvidas eram se as
cotas tinham ou não sido pagas e respeitado os prazos.</p><p>A impugnação junto
do Tribunal Constitucional que se seguiu, levou primeiro ao adiamento do
congresso do partido por mais de um mês e teve como desfecho a decisão do TC de
considerar improcedente o recurso e de  validar a candidatura. Uma
falha aparentemente menor que é o pagamento atempado de cotas serviu bem para
denunciar tentativas de ganho de eleições na “secretaria”. Também veio mesmo a
jeito para vitimizar-se perante o que seria o conluio das elites do partido para torpedear a sua
candidatura e para
sinalizar que está do lado dos
que, como afirma, “<em>pagar cota, diminui o que vai para a panela</em>”. Como
a vitimização de então deu frutos, com vitória folgada no congresso de eleição da liderança
do partido, é grande a tentação de repetir a proeza, agora para ser líder do país.</p><p>Aliás, outras
vezes no passado essas manobras surtiram efeito. Na câmara municipal depois de
fazer acusações graves aos colegas vereadores e ter, em consequência, perdido a
maioria no órgão, apresentou-se como vítima 
da minoria na oposição. Também depois de forçar a aprovação do orçamento
municipal sem prévia aprovação da proposta pela CM vitimizou-se perante actos
de fiscalização do Tribunal
de Contas e do Governo. Em antecipação a procedimentos judiciais para
determinar a legalidade dos actos da CM, pôs-se na condição de perseguido da
justiça. O facto de conseguir chegar às eleições e  anhar por uma maioria expressiva parece ter
demostrado o quanto vale fazer o papel de vítima na política. </p><p>A oportunidade
para voltar a vitimizar-se perece ter sido encontrada na lei eleitoral que no
artigo 404º, alínea a) estabelece que o presidente da câmara municipal é
inelegível no círculo eleitoral onde exerce a sua actividade. É claro que essa
inelegibilidade não é absoluta. O presidente da CM pode candidatar-se em
qualquer outro círculo sem renúncia ao cargo e o presidente do partido não é forçado
a apresentar-se no círculo da capital. Ao deliberadamente não explorar outra
via, está a
procurar um confronto directo com a lei. Querendo passar a impressão de que é
especialmente visado, ilude-se o facto que a lei se aplica a qualquer vereador,
membro da comissão instaladora do município, ministros de qualquer culto ou
religião e, no caso
dos círculos da
emigração, a qualquer funcionário diplomático ou consular. </p><p>O engenheiro António
Monteiro, eleito vereador da CM de S.Vicente, em 2004, teve de renunciar ao cargo para
ser candidato a deputado em 2006. Terá seguido o mesmo procedimento sempre que,
eleito para CM, voltava à disputa nas legislativas no círculo de S. Vicente.
Para isso, bem serviu o acórdão 10/2008 do STJ, enquanto Tribunal Constitucional,
que lhe permitiu esquivar-se aos efeitos da renúncia e poder participar nas
duas eleições. A inelegibilidade para ser candidato a deputado no círculo em
que se é presidente da CM manteve-se provavelmente porque vai ao  encontro do espírito do nº 3 do artigo 56º da
Constituição que diz que a lei pode estabelecer “<em>inelegibilidades necessárias para garantir
a liberdade de escolha dos eleitores”</em>.</p><p>É interessante
notar que essa preocupação com a liberdade de escolha dos eleitores foi
manifestada pela primeira vez nas repúblicas modernas por George Washington na
sua famosa Carta de Despedida. Na ocasião, optou por retirar-se no fim do segundo mandato, para que <em>a
voz do povo nas urnas tivesse expressão mais distinta e clara</em>, criando o
precedente de dois mandatos para os presidentes da república, ou seja, tornando o presidente
inelegível para um terceiro mandato.  Compreende-se
que existe a
preocupação de estabelecer inelegibilidades relativas quando se trata do poder
local, considerando a relação de proximidade com titulares de  órgãos executivos nos municípios,
particularmente quando se tem presente que os níveis de escrutínio público nas
autarquias estão aquém do desejável.</p><p>Ao pôr em causa
frontalmente o que a lei estabelece e que tem sido prática após a adopção do
código eleitoral, além de procurar vitimizar-se e constranger os adversários
com acusações de querer ganhar na “secretaria”, percebe-se que se quer impor o princípio que é o
número de votos obtidos na urna que determina quem tem razão. Fê-lo durante o
mandato anterior da CMP. Foi então que se aprovou o orçamento do município na
base de uma interpretação do Estatuto dos Municípios e da lei das finanças locais
que nenhum outro município de Cabo Verde, independentemente da cor política e
ao longo dos mais de 30
anos do municipalismo democrático, subscreveu. Agora, com o actual
confronto, poderá
estar a sinalizar que pretende continuar na mesma linha. Por despacho, até
altera a lei estabelecendo que o substituto do presidente da CMP deve operar a
autarquia “<em>exclusivamente em regime de gestão corrente</em>”. </p><p>O problema é que
na gestão passada não se concluíram os processos de fiscalização e
responsabilização dos actos cometidos e, em sua substituição aos olhos do
público, ficou a avaliação do mandato dado pelo resultado nas urnas. Com isso,
pode-se estar a querer validar que a forma de exercício de poder não é aquela
que só é legítima se for conforme à Constituição e às leis, mas a que é imposta pela maioria.  Naturalmente que seguindo esse caminho é o Estado
de Direito democrático que se degrada e são as instituições que se
descredibilizam, não seguindo as normas e procedimentos existentes, mas sim a
vontade, a conveniência e a discrição de quem é maioritário. Também são os
indivíduos que se sujeitam a uma forte contracção dos seus direitos à medida
que a maioria, procurando impor a sua vontade, limita o poder judicial, restringe os mídia e reduz a autonomia
da sociedade civil.</p><p>No domingo passado,
no mundo democrático, houve uma explosão de alegria pela derrota de Viktor Orbán
e seu partido na Hungria. O país que tem sido visto como porta-estandarte da
democracia iliberal finalmente pôde dar uma volta a um processo que tem vindo a
minar  o Estado de Direito, a limitar os
direitos individuais e da imprensa e a revelar a  incapacidade de gestão da economia e de
combater a corrupção que os regimes populistas vêm demonstrando. O problema é que isso só
aconteceu após 16 longos anos. </p><p> A 17 de Maio, Cabo Verde também vai estar numa
encruzilhada. O espectro de um populismo - que por desafios à lei vigente,  por actos discricionários e arbitrários e por
propostas simplistas de resolução dos problemas complexos procura impor-se - estará
a pairar sobre o futuro da democracia e do desenvolvimento do país. É fundamental que todos tenham consciência
do que estará em causa nas próximas eleições.&nbsp;</p><p style="text-align: right;"><strong>Humberto Cardoso</strong></p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1272
de 15 de Abril de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/04/17/espectro-do-populismo-dissipado-na-hungria-e-a-acenar-para-cabo-verde/102354</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[A Direcção]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 17 Apr 2026 09:07:35 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Do Positivismo à Filosofia Analítica]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Em parte, o
modelo de Comte foi antecipado por Francis Bacon, o qual na <em style="background-color: initial;">Nova Atlântida </em>prefigurava uma sociedade
que, em vez dos filósofos de Platão, seria governada por cientistas e
tecnólogos. Estes recolheriam todos os saberes e invenções disponíveis, para os
colocar ao serviço da Humanidade. O futuro deve encaminhar-se para este mundo
novo, sendo assim proposta uma noção de <em style="background-color: initial;">progresso
</em>como característica da modernidade. Comte retoma de Bacon a ideia de
progresso, a de uma ciência baseada na experiência e a de uma articulação
enciclopédica das ciências<em style="background-color: initial;">: a filosofia
não pode ser substituída pelas ciências, ela tem uma dupla função própria, de</em>
<em style="background-color: initial;">“generalização” e de “sistematização dos
conhecimentos científicos” permitindo encontrar as</em> <em style="background-color: initial;">verdades mais importantes trazidas por cada ciência, e depois
classificá-las e hierarquizá-las (</em>Jean<em style="background-color: initial;">-</em>François
Braunstein). Enquanto as ciências tratam de domínios sectoriais da realidade, a
filosofia procede a uma visão de conjunto, ou seja, dá uma forma organizada aos
conteúdos fornecidos pelas ciências.</p><p>  O projecto filosófico de Comte
comporta duas vertentes: a epistemológica ou da filosofia da ciência, e a da
filosofia política, desenvolvidas respectivamente no <em>Curso de Filosofia Positiva </em>e no <em>Sistema de Política Positiva. </em>A ideia antiga e medieval de ciência
era baseada numa atitude <em>teorética</em>,
sendo a <em>theoria</em> um modo de
compreender e contemplar o mundo, enquanto a moderna  é prática, tornando o conhecimento numa forma
de <em>poder: Knowledge is power –
conhecimento é poder – </em>como já afirmava Bacon. As ciências adquirem poder
através da técnica, enquanto a sociologia incide sobre o poder ao nível
político e social. É preciso reorganizar a sociedade segundo os princípios da <em>ordem</em>, do <em>amor</em> e do <em>progresso</em>.</p><p>  A mais célebre concepção de
Comte consiste na lei dos três estados: <em>teológico</em>,
<em>metafísico</em> e <em>positivo</em>. O primeiro corresponde ao recurso aos mitos e religiões
para entender o mundo e a vida humana, ligando-os aos deuses, em torno dos
quais se produzem narrativas sobre o Universo e o homem. O segundo já recorre à
razão para explicar os fenómenos, mas o seu fundamento é ainda metafísico (a
referência é Descartes). Comte não considera que haja um mundo para além dos
factos ou fenómenos, ou seja, uma meta-física (para lá da física). O terceiro e
último é o estado positivo, que emerge com a ciência moderna galilaica e
newtoniana, e com o método experimental – sendo para este estado que tende o
futuro. Embora recusasse a ideia do Absoluto, a filosofia de Comte parece
apontar para um <em>fim da história </em>que
seria o estado positivo. A ciência, no estado positivo, atinge um ponto fixo e
definitivo na sua evolução: embora progrida integrando novas observações e
acumulando factos, o modo científico de pensamento atinge o seu acabamento, ou
seja, pode haver factos novos mas o seu modo de enquadramento mantém-se inalterável.
Rodolf Carnap veio clarificar os termos em que podemos definir o conceito de
ciência como correspondendo a um saber que pode ser provado ou infirmado pela
experiência, mas defende que é preciso deixar esse espaço do saber não fechado
de modo redutor, mas implicando ulteriores possibilidades de investigação.
Também contribuiria para a formulação do empirismo lógico, ao afirmar que os
dados sensoriais e o campo da experiência não são suficientes para elaborar o
conhecimento científico, mas que este implica também um enquadramento lógico,
ou seja, que o conhecimento tem um conteúdo empírico e uma forma lógica. Para
se afastar de uma perspectiva redutora da ciência como aquisição de dados observacionais
e revalorizar o lugar da teoria, Carnap veio propor uma dupla articulação na
linguagem científica, entre observação e teoria, ou seja, entre linguagem <em>observacional </em>e linguagem <em>teórica. </em>Mas a própria prática
científica mostra é que as observações já são guiadas por um determinado quadro
teórico (tese conhecida como <em>impregnação
teórica </em>da observação) modificando-se a teoria em função de novos dados
observacionais. Por isso, filósofos como Davidson ou Putnam propõem uma
perspectiva <em>holista </em>da ciência, sem
nela separar a observação e a teoria, mas integrando-as interactivamente.  </p><p>  O <em>neo</em>-<em>positivismo</em> propõe
como critério de verdade a <em>testabilidade </em>ou
<em>verificabilidade </em>empírica das teorias
ou proposições, excluindo a metafísica por esta ultrapassar o campo da
experiência possível, continuando Comte, mas diferencia-se pela tónica colocada
na <em>lógica </em>e na <em>linguagem: a filosofia é uma tarefa de clarificação da linguagem. </em>(Wittgenstein).
Chegar a uma concepção científica do mundo e unificar as ciências era o
objectivo do chamado <em>Círculo</em> <em>de</em> <em>Viena</em>
onde, na esteira de Wittgenstein no seu <em>Tratado
Lógico-Filosófico</em>, o foco estava no <em>sentido</em>
das proposições, sendo as <em>verificáveis </em>as
que têm sentido. Contudo, mesmo tendo um conhecimento total da Natureza, <em>o essencial continuaria por explicar – </em>como
atesta Wittgenstein – porque temos sempre questões éticas que escapam à lógica
das ciências positivas. E a ideia de haver significações inexprimíveis
conduziria este filósofo à afirmação de um horizonte transcendente – o <em>místico. </em>Depois do <em>Tratado Lógico-Filosófico</em>, Wittgenstein renunciou a uma visão
unidimensional correspondente a uma <em>forma
lógica do mundo. </em>Nas <em>Investigações
Filosóficas</em>, não há uma lógica do mundo, mas múltiplas <em>formas de vida </em>diferenciadas e plurais. A pluralidade de modos de
viver e pensar o mundo não permite um procedimento que vise unificá-las num
único padrão e, com esta formuçação, Wittgenstein elabora uma visão
multicultural do mundo.</p><p>  Até que Kant viesse a formular o <em>método transcendental</em>, vulgarmente
chamado <em>empírico-racionalista</em>, a
filosofia dividia-se entre o <em>racionalismo</em>,
defendendo o primado da razão – desde Parménides a Platão, no mundo antigo, até
culminar na modernidade cartesiana, e o <em>empirismo</em>,
com Bacon e Locke. Se considerarmos o horizonte geográfico da filosofia, a
orientação racionalista e metafísica marca a Europa continental, enquanto a
orientação empirista radicaria na tradição filosófica britânica. Ainda hoje se
usa a designação de <em>filosofia continental
</em>para designar a tradição filosófica racionalista ou metafísica,
diferenciando-a da britânica e americana, de base empirista. Esta perspectiva
assinala a polaridade entre dois modos de ver o mundo, ou entre dois estilos de
pensamento filosófico, mas não é possível simplesmente ver o continente europeu
e o anglo-americano como blocos agrupando visões unilaterais. Trata-se antes de
redes conceptuais complexas, onde se desenvolvem modos complementares ou
opostos de configurar a experiência e a teoria, enquanto formas de
inteligibilidade do mundo.&nbsp;&nbsp;</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1271
de 08 de Abril de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/04/13/do-positivismo-a-filosofia-analitica/102285</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Carlos Bellino Sacadura]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 13 Apr 2026 09:06:10 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[A Última Cartada do “Morgado”]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Nela, o autoproclamado último
“morgado” da ilha do Fogo traça obsessivamente a sua genealogia, a construção
da casa, bem como, a origem material que serviu de base para o capital político
e social que gozou esta família ao longo dos tempos. No final ele termina com
uma frase lacónica: <em style="background-color: initial;">«Não teem filhos»</em>. Esta frase trágica e o facto de o
manuscrito estar fundido fisicamente com a casa servem de metáfora perfeita
para a nossa análise que se segue.</p><p>Mas, antes de avançar, convém elucidar
o leitor sobre duas categorias operacionais que iremos abordar: instituições
vinculares e “Casa”. Os vínculos, sejam morgadios ou capelas, eram figuras
jurídicas, ligadas sobretudo à nobreza, que visava a perpetuação e a reprodução
social das famílias de elite. O aparecimento desta instituição no arquipélago,
remonta aos inícios do século XVI, e até a sua extinção em 1864, marcou
indelevelmente a paisagem agrária em Santiago e no Fogo. Ao vincular terras,
escravos e gado, um instituidor gerava um conjunto de disposições que ditava
que a substância patrimonial deveria permanecer uno e indivisa e, ser
transmitida preferencialmente ao varão primogénito (excluindo da herança os
outros irmãos). Cabia a este herdeiro preservar a honra e o prestígio da
família, bem como cumprir obrigações pias — como missas e atos de caridade —
destinadas à salvação da alma do instituidor, que se acreditava estar no
purgatório.  </p><p>Por sua vez, a “Casa” no Antigo
Regime, não era apenas a família nuclear, mas um vasto corpo de dependentes ligadas
entre si por laços sanguíneos, afetivos e de trabalho. Nesta complexa estrutura
política e administrativa os membros inferiores estavam subjugados ao comando e
proteção do patriarca (<em>pater famílias</em>), o qual acumulava a potestade
marital, paternal e senhorial sobre a mulher, filhos e escravos,
respetivamente. Nesta senda, perceba-se, por exemplo, que os morgados tanto em Santiago
como no Fogo, definiam quem deveria casar e, obviamente, escolhiam o cônjuge
dando preferência a indivíduos de origem europeia como estratégia de “branqueamento
da raça”. É sob esta perspetiva que buscaremos responder as ânsias e motivações
que estarão por detrás deste manuscrito e, sobretudo, as suas omissões.</p><p>Ao tentar traçar a sua árvore
genealógica de forma imaculada, Francisco do Sacramento Monteiro foi, no
entanto, traído pelos séculos de distância (“bota não bate com a perdigota”). O
cruzamento de documentos arquivísticos, permite-nos observar que o autor buscou
simplificar a história, criando uma linha quase mítica até aos fundadores
originais. Talvez devido à homonímia geracional— pois o fundador da capela de
Pico Pires (1534) viu o seu nome repetir-se várias vezes ao longo dos séculos
—, o autor condensou três ou quatro gerações distintas numa única narrativa
simplificada. </p><p>Por outro lado, cruzamento deste
manuscrito com os documentos do arquivo revelam que as várias capelas foram
fundadas de forma isolada ao longo dos séculos XVI e XVII, acabando por se
aglomerar sob o controlo da sua família muito mais tarde, através de uma
intrincada teia de heranças, casamentos colaterais e apropriações. Este aspeto
concentracionário da terra estrutura-se como uma das maiores clivagens sociais
que percorreu Cabo Verde ao longo da sua história. Sem a base fundiária, o
acesso ao poder local — Câmara, Milícias, Misericórdia — estava vedado. </p><p>Ocultar este documento na estrutura
da casa foi, na verdade, um profundo ato de legitimação social e um grito de
nostalgia. Importa sublinhar que, quando escreveu a carta em 1897, a figura
legal do morgadio já tinha sido abolida por lei há mais de trinta anos. Juridicamente,
o autor já não era morgado, mas apenas um cidadão comum, destituído, em certa
medida, dos velhos privilégios. Porém, o peso do apelido e a herança imaterial
falavam alto. No tecido social e no imaginário da ilha do Fogo, a reverência à
velha "Casa" perdurava intacta, e a população continuava a tratá-lo
como o autêntico senhor da terra. O manuscrito é, assim, a sua derradeira
tentativa de eternizar na pedra um título e um prestígio que a legislação
liberal lhe retirara, mas que a tradição teimava em manter vivos.</p><p>Francisco do Sacramento Monteiro
quis passar uma imagem gloriosa e imaculada da sua linhagem. No entanto, há um
outro facto crucial que o autor do manuscrito omitiu e que jaz esquecido nos
arquivos. Ele buscou apagar da memória familiar o momento em que a sua gloriosa
"Casa" quase colapsou. Com efeito, António Barbosa Aranha, seu
antepassado e então administrador das capelas de Pico Pires, Fragoso, Cancela,
Penteada e Lagete, fez um termo de desistência em 1745, tentando abrir mão do
património. A justificação registada na época contrasta violentamente com o tom
de grandeza do manuscrito: “[...] <em>por cauza da seca estar a fazenda perdida
em firmeza de tudo</em>”.</p><p>Segundo o despacho da petição, o
escrivão da época confirma as alegações, atestando que as terras estavam
destruídas pelas secas cíclicas e desprovidas de escravos. Este silêncio no
documento de 1897 é absolutamente revelador. Para o "último morgado",
admitir que um patriarca anterior tentou devolver os vínculos por incapacidade
financeira seria destruir o mito de invencibilidade da família. O arquivo, no
entanto, expõe a fragilidade dessa narrativa, lembrando-nos que, em Cabo Verde,
até a aristocracia local vivia sob a ditadura implacável do clima.</p><p>Para finalizar, importa debruçar-nos
sobre uma questão fundamental: a sobrevivência biológica da “Casa”. O que está
em causa aqui é a impossibilidade de o casal ter descendentes, o que constituía
o pior pesadelo para estas famílias, pois significaria o fim da linhagem. Contudo,
análise genealógica revela que Francisco e Amélia não eram apenas primos pelo
lado paterno, mas as suas mães eram também primas entre si e, mais grave ainda,
ambos eram já filhos de casamentos entre primos. Tratava-se de um sistema
fechado, onde o sangue circulava em 'circuito curto' há mais de meio século,
potenciando drasticamente a catástrofe genética. </p><p>A frase final do manuscrito — «Não teem filhos» — não é apenas
uma constatação genealógica; é o atestado de óbito biológico de uma classe que,
por tanto querer preservar-se, acabou por extinguir-se. Contudo, por ironia do
destino, se a linhagem biológica pereceu, o corpus material resistiu: a velha
“Casa” mantém-se de pé e imponente, cumprindo hoje o seu papel não apenas como
espaço museológico, mas assumindo-se como a última e mais duradoura testemunha
do legado do último “morgado” do Fogo.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1271
de 08 de Abril de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/04/13/a-ultima-cartada-do-morgado/102286</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[EDSON BRITO]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 13 Apr 2026 09:05:00 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Tempos conturbados para a democracia representativa em Cabo Verde]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Também o facto
de não se conhecer se houve renúncia ao cargo do presidente da Câmara da Praia antes da sua apresentação como candidato
a deputado, considerando a inelegibilidade prevista na alínea a) do artigo 404º  do código  eleitoral, pode trazer problemas mais à frente. De qualquer forma
este ciclo eleitoral já se mostra fértil para o tipo de conflitos na democracia
que resultam do constante e deliberado desafio às regras e procedimentos
democráticos.</p><p>A turbulência nos
partidos e na feitura das listas de deputados tem vindo a crescer à medida que
se torna mais arreigada a crença que os deputados da nação afinal são
fundamentalmente representantes do círculo eleitoral pelo qual foram eleitos.
Ora isso contraria frontalmente o regime político estabelecido na Constituição da democracia
representativa em que a Assembleia
Nacional é o órgão de soberania que representa todos os cidadãos, todo o
povo. A proibição explícita na constituição de <em>partidos regionais ou locais</em>
ou que se proponham <em>objectivos programáticos do mesmo âmbito</em> devia  ser razão suficiente para os partidos não
incentivarem esse tipo de sentimento
nas suas fileiras. </p><p>Infelizmente, não
é o que acontece e as consequências no partido, na sociedade e no país não
deixam de ser graves e mesmo alarmantes. Aliás, o que se passou nas últimas
semanas no processo de feitura das listas de deputados, e está à vista de todos,
é bastante elucidativo. Não é algo que começou agora, mas é evidente que tem
vindo a acelerar e os efeitos já se fazem sentir no sistema político, pondo em
causa a sua imagem, estabilidade e eficácia. Os partidos são entidades
políticas essenciais para a democracia tanto na criação de alternativas de
governação e na formação e mobilização da vontade democrática como também na
disponibilização de futuros governantes e de outros titulares dos órgãos de
poder político. É  fundamental que mostrem lealdade à Constituição,
que sigam os princípios democráticos do pluralismo, que mantenham o sentido de Estado e da unidade
nacional e que se vejam como instrumentos para a realização do bem comum. </p><p>Como diz Edmund
Burke, o grande teórico dos partidos e da democracia representativa, “<em>o partido</em><em>,
enquanto instituição, não é meramente o agregado dos seus membros actuais, mas
confeciona uma memória, uma história e um espírito próprios, qualidades que
alimentam uma conversa de maior riqueza, facilitam a integração social e,
assim, servem para impedir a sua degeneração em facção ou esclerose teórica”</em>. Nesse sentido,
acrescenta ainda que “<em>o partido deve ser visto como forjando não apenas um
continuum social e político, mas também moral, transpondo as virtudes de carácter
do plano local e privado para o plano público, «para que sejamos patriotas»</em>”,
ou seja, para que se tenha sempre na mira a defesa do interesse público. </p><p>A implosão da vida
interna dos partidos, que se mostra, por um lado,  na crescente centralização do poder nos
presidentes e, por outro, na  perda de
protagonismo dos órgãos colegiais e a rarefação do debate interno, tende a fugir desse
caminho e abrir espaço para a formação de grupos de interesse tanto locais como
nacionais. O processo é acelerado quando conjugado com o exercício do poder nos
municípios, particularmente se se está perante uma câmara municipal mais
próxima politicamente. A acrescentar ao poder acumulado por esses grupos veio agora
a competência formal estatutário ou informal, que as estruturas locais passaram
a ter, de propor candidatos para os cargos de deputado nacional. </p><p>É verdade que já
era prerrogativa dos órgãos locais do partido propor candidatos para as câmaras
e assembleias municipais. Faz todo o sentido, considerando a proximidade das
populações, as propostas programáticas de âmbito local a serem apresentadas e
as escolhas de candidatos com base no seu activismo cívico e na capacidade de
influenciação de pessoas, que, enquanto munícipes, podem ser sensíveis a certas
abordagens dos problemas específicos da sua localidade. Tratando-se, porém, de
deputados da nação, o perfil exigido do titular deve ser mais ajustado ao que é
o âmbito da actuação do parlamento, seja na fiscalização das políticas
nacionais ou na produção da legislação de aplicação geral no país. E não é ao nível das
estruturas locais que se está em melhor posição para selecionar candidatos. </p><p>O argumento de
ligação territorial ao círculo eleitoral não colhe porque, sendo as eleições
nacionais, o voto, quando se trata de listas plurinominais fechadas
fundamentalmente, é no partido. Como já foi comprovado em estudos feitos em
realidades eleitorais próximas do sistema cabo-verdiano, para a escolha dos
primeiros das listas de deputados, conta mais é o percurso político e a notoriedade e
competência demonstradas no tratamento das questões nacionais. Se também for
originário do território do círculo, o voto no partido poderá beneficiar do
orgulho e simpatia que o candidato gerar nos eleitores. Não devia passar pela
cabeça de ninguém que o candidato vai ser o representante do círculo no
parlamento ou uma espécie de lobista do seu território de nascimento ou de
residência no parlamento ou no governo. </p><p>Infelizmente é
essa a imagem que muitos candidatos estão a projectar apresentando-se como
representantes em alguns casos de freguesias e de concelhos que anteriormente
foram círculos eleitorais, e noutros casos até de bairros de centros urbanos como
S. Vicente e Praia. É evidente o que se perde em conhecimento do funcionamento
do sistema político parlamentar existente em Cabo Verde com esse tipo de
desinformação feita junto à sociedade. Perde-se também em termos de eficiência
e eficácia nos trabalhos parlamentares com os deputados em confrontos políticos
que mais se adequariam ao debate nos municípios e em protagonismo individuais
para “reforçar” a ligação com o seu círculo. Perde-se ainda na qualidade de fiscalização
política e no trabalho legislativo do parlamento porque os deputados não veem
muito ganho em dedicar-se a matérias de carácter nacional. Pode-lhes acontecer
que, quando chegar o momento de eleição, deparar-se com rejeição dos colegas do
partido por não ser suficiente representante do círculo. </p><p>Com essa
descaracterização do jogo político descredibiliza-se o parlamento,
compromete-se o equilíbrio de poderes e diminui-se a competência política e
técnica exigida a governantes e dirigentes do Estado. O poder local também é
prejudicado, entre outras razões, porque a política municipal, tornado tema de
confronto na esfera pública nacional, não tem o necessário escrutínio dos
munícipes que no seu quotidiano sofrem as suas consequências. Daí o caciquismo
local que tende a instalar-se e que com seu peso político no partido e alianças
outras, num círculo vicioso, vai servir-se do poder dado às estruturas locais
para influenciar quem é escolhido deputado, reproduzindo a situação inicial. </p><p>É evidente que que
num sistema político unicameral em que o número de deputados por círculo
eleitoral corresponde à distribuição da população pelo território nacional, sendo
os deputados representantes de todo o povo, a assunção explícita da representação
territorial pode criar efeitos perversos. Nos sistemas políticos onde há o
reconhecimento da representação territorial, o parlamento é bicameral com uma segunda
câmara, o senado, em muitos casos com o número igual de representantes por
território para equilibrar a primeira câmara. Quando se procura misturar os
dois sistemas, como aparentemente está a acontecer, corre-se o risco de perder
o sentido nacional do Estado unitário sem que se assuma a existência real de
outras entidades territoriais com competências e poderes próprios. </p><p> Aí abre-se a porta a outros desenvolvimentos
em que a desigualdade de representantes no parlamento unicameral pode tornar-se
uma base de poder sobre outros territórios menos representados. Desigualdade
essa que pode manifestar-se de várias formas, pois, ao perder-se o sentido de nação única, quem mais
poder tiver monopoliza cargos, selecciona investimentos e premeia quem é seu cúmplice
em manter a hegemonia. E ninguém deve reclamar porque parece que todos
concordam com a falácia que na democracia representativa de Cabo Verde <em>os
deputados representam os círculos por que foram eleitos.&nbsp;</em></p><p style="text-align: right;"><strong>Humberto Cardoso</strong></p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1271
de 08 de Abril de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/04/10/tempos-conturbados-para-a-democracia-representativa-em-cabo-verde/102273</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[A Direcção]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 10 Apr 2026 15:10:19 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Entre a Paridade e a Realidade - 
O que mudou, de facto, para a mulher comum?
]]></title>
            <description><![CDATA[<p>Lembrei-me do mercado
do Plateau, Terra Branca, Achadinha e Sucupira. Um padrão transversal nos
grandes centros urbanos. Sectores pilares, uma cadeia que sustenta a saúde de
tantos de nós, passando direto pelas mãos delas.</p><p>Em Cabo Verde, a
mulher sustenta mais do que a própria vida. Sustenta casas, mercados, famílias
e comunidades. Acorda antes do sol para vender no mercado, regressa à noite,
depois da labuta, para cuidar dos filhos, organiza a casa, ajuda vizinhos, luta
por um melhor bairro. Muitas vezes é mãe e pai, trabalhadora formal e
empreendedora informal, estudante e cuidadora ao mesmo tempo. </p><p>Ainda assim, continua
a lutar por reconhecimento pleno, ou melhor, por afirmação plena num espaço
que, por direito e por esforço, já lhe pertence.</p><p style="text-align: center;"><strong>Março, números e narrativas&nbsp;&nbsp;</strong></p><p>Março chega e, como
acontece todos os anos, regressa o discurso da representação, das percentagens
e das conquistas. A política gosta de números porque eles organizam a narrativa
do progresso. No entanto, o progresso não se mede apenas em cargos ocupados,
mede-se na realidade concreta da vida das pessoas.</p><p>Nos últimos anos, Cabo
Verde viu crescer a presença feminina no poder. Já tivemos governos com maioria
de mulheres, ministérios determinantes estiveram sob liderança feminina, o
Parlamento e os Órgãos Municipais tornaram-se mais equilibrados, com a
introdução da Lei da Paridade. À primeira vista, o cenário parece alinhado com
a promessa de transformação social.</p><p>Mas há uma pergunta
que nenhuma estatística consegue responder, e ela persegue-me desde que deixei
Mindelo: o que mudou, de facto, para a mulher comum?</p><p>Para a que acorda cedo
para vender no mercado, sem proteção contributiva. Para a que trabalha no setor
informal e não sabe se terá rendimento no mês seguinte. Para as que realizam um
trabalho colossal na proteção florestal de Santo Antão a Brava, enquanto as
políticas ambientais ignoram o trabalho invisível que fazem.</p><p>Para a que entra numa
maternidade com a expectativa de sair com o filho saudável nos braços, sem
sobressaltos. E nem falemos das denúncias recorrentes sobre condições de
higiene em algumas unidades hospitalares, que continuam a preocupar
profissionais e utentes.</p><p style="text-align: center;"><strong>Cuidar da Saúde</strong></p><p>Maio de 2023, sete
recém-nascidos morreram num curto espaço de tempo no Hospital Baptista de
Sousa, em São Vicente. Falou-se em sepse neonatal, o caso motivou a abertura de
um processo-crime. </p><p>Fevereiro de 2025,
cinco bebês morreram no Hospital Agostinho Neto, na Praia. Poucas semanas
depois, surgiram denúncias da morte de mais oito prematuros novamente em São
Vicente, também sob suspeita de infeção.</p><p>São vinte vidas
interrompidas em episódios concentrados, em dois dos principais hospitais
centrais do país. Num contexto em que mais de 95%<a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201270%20DE%2001%20DE%20ABRIL%20DE%202026/OPINIAO/JO%C3%83O%20CARDOSO%20Entre%20a%20Paridade%20e%20a%20Realidade%20(1).docx#_ftn1"><sup><sup>[1]</sup></sup></a>
dos partos ocorrem em unidades de saúde, estes acontecimentos não podem ser
tratados apenas como episódios isolados, pois expõem fragilidades que exigem
uma análise profunda e respostas institucionais consistentes e contínuas.</p><p>A mulher que trabalha
no setor informal, que não tem licença de maternidade garantida, que não sabe
se terá rendimento no mês seguinte, é a que mais teme este momento. E aqui
reside o paradoxo: quanto mais precisa de proteção, menos a tem.</p><p style="text-align: center;"><strong>Números a falar na primeira pessoa</strong></p><p>Cabo Verde teve
avanços significativos registados ao longo das últimas duas décadas em matéria
de proteção da mulher. Houve reforço da legislação contra a violência baseada
no género, expansão da licença parental, planos nacionais de igualdade,
melhorias nas infraestruturas de maternidade e iniciativas voltadas para a
dignidade menstrual. Esses progressos são reais e devem ser reconhecidos, mas
isso não significa que se devam ignorar limitações.</p><p>A maioria das mulheres
cabo-verdianas continua a viver na informalidade, com rendimentos instáveis e
sem enquadramento pleno no sistema contributivo. Estudos<a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201270%20DE%2001%20DE%20ABRIL%20DE%202026/OPINIAO/JO%C3%83O%20CARDOSO%20Entre%20a%20Paridade%20e%20a%20Realidade%20(1).docx#_ftn2"><sup><sup>[2]</sup></sup></a>
recentes mostram que quase 9 em cada 10 mulheres realizam trabalho não
remunerado ligado aos cuidados domésticos e familiares, um esforço invisível
que sustenta a economia social mas raramente se traduz em proteção social
efetiva. </p><p>O setor informal tem
uma face marcadamente feminina, no entanto, essa presença não se traduz em
igualdade económica. Dados do Instituto Nacional de Estatística<a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201270%20DE%2001%20DE%20ABRIL%20DE%202026/OPINIAO/JO%C3%83O%20CARDOSO%20Entre%20a%20Paridade%20e%20a%20Realidade%20(1).docx#_ftn3"><sup><sup>[3]</sup></sup></a> indicam
que mulheres inseridas na economia informal auferem, em média, cerca de 40%
menos rendimento do que os homens que operam no mesmo segmento. A desigualdade
não está apenas na representação política, está na estrutura económica onde a
maioria dessas mulheres vive e trabalha.</p><p>Muitos dos modelos de
proteção social que estruturam as políticas públicas foram desenhados à imagem
de economias formalizadas, e diga-se de passagem, europeias, o que deixa à
margem quem vive de atividades precárias ou sazonais. </p><p>Por que o incentivo à
bancarização da economia informal não vem acompanhado de um verdadeiro
alargamento da proteção social? Por que a dignidade menstrual não é uma
política pública real, e não apenas cosmética de campanha?</p><p>Quando a realidade
económica não corresponde ao modelo institucional, cria-se um desfasamento que
atinge sobretudo as mulheres na sua diária labuta.</p><p>Em vários países da
América Latina, como o Brasil e o Uruguai, onde a informalidade também é
elevada, foram criados regimes contributivos simplificados, que permitem a
vendedores ambulantes, trabalhadoras domésticas e pequenos comerciantes aceder
gradualmente à proteção social, incluindo cobertura de saúde e subsídios de
maternidade. </p><p>Aqui no arquipélago, a
título de exemplo, o REMPE permitiu que o número de microempreendedores e
trabalhadores segurados associados a micro e pequenas empresas passasse de
cerca de 330 em 2015 para mais de 25 mil em 2023<a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201270%20DE%2001%20DE%20ABRIL%20DE%202026/OPINIAO/JO%C3%83O%20CARDOSO%20Entre%20a%20Paridade%20e%20a%20Realidade%20(1).docx#_ftn4"><sup><sup>[4]</sup></sup></a>.
O número de negócios formalizados cresceu rapidamente e isso mostra que
instrumentos de formalização podem funcionar, mas também evidencia que a
integração entre formalização económica e proteção social ainda precisa
acompanhar melhor a realidade de quem vive fora dos circuitos formais laborais.</p><p>Na área da saúde
materna, vários sistemas introduziram auditorias clínicas independentes sempre
que ocorrem mortes neonatais, transformando tragédias em aprendizagem
institucional, bem como a alocação de orçamentos específicos para proteger e
reforçar esta área. No continente, temos um bom exemplo do Quénia, onde
produtos de saúde menstrual passaram a integrar programas públicos de
distribuição gratuita, reconhecendo que dignidade também é política pública.</p><p><strong><em>A janela está
aberta, mas teremos coragem para alargá-la?</em></strong></p><p style="text-align: center;"><strong>Espaços de decisão&nbsp;</strong></p><p>A presença feminina
nos espaços de decisão é relevante, porque corrige desigualdades históricas de
representação. No entanto, a representação não substitui governança técnica,
fiscalização eficaz, planeamento orçamental rigoroso e adaptação das políticas
à realidade social concreta.</p><p>Uma mulher no poder
não representa automaticamente todas as mulheres. Representa, antes de tudo, um
projeto político. E projetos políticos não têm género, têm prioridades. Se
essas prioridades não se traduzirem em melhorias perceptíveis na segurança e
qualidade de saúde materna, na proteção das trabalhadoras informais, na
qualidade dos serviços públicos e na estabilidade económica das famílias, então
a paridade permanecerá como símbolo importante, mas insuficiente.</p><p>Talvez o desafio não
seja escolher entre representação e políticas estruturais, mas compreender que
a primeira só faz sentido quando conduz à segunda.</p><p>Enquanto mães
continuarem a atravessar hospitais com insegurança, enquanto trabalhadoras
informais permanecerem vulneráveis e enquanto a proteção social não alcançar
quem mais precisa, o debate sobre paridade continuará inevitavelmente
incompleto.</p><p>A igualdade, afinal,
não se esgota na ocupação de espaço institucional. Ela revela-se na forma como
os sistemas funcionam no quotidiano das pessoas.</p><hr><p><a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201270%20DE%2001%20DE%20ABRIL%20DE%202026/OPINIAO/JO%C3%83O%20CARDOSO%20Entre%20a%20Paridade%20e%20a%20Realidade%20(1).docx#_ftnref1"><sup><sup>[1]</sup></sup></a><a href="https://www.governo.cv/cabo-verde-tem-uma-taxa-de-partos-institucionalizados-de-mais-de-95-em-todas-as-ilhas/">https://www.governo.cv/cabo-verde-tem-uma-taxa-de-partos-institucionalizados-de-mais-de-95-em-todas-as-ilhas/</a></p><p><a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201270%20DE%2001%20DE%20ABRIL%20DE%202026/OPINIAO/JO%C3%83O%20CARDOSO%20Entre%20a%20Paridade%20e%20a%20Realidade%20(1).docx#_ftnref2"><sup><sup>[2]</sup></sup></a><a href="https://inforpress.cv/pt/mulheres-continuam-a-assegurar-maior-parte-do-trabalho-sem-remuneracao-em-cabo-verde-estudo">https://inforpress.cv/pt/mulheres-continuam-a-assegurar-maior-parte-do-trabalho-sem-remuneracao-em-cabo-verde-estudo</a></p><p><a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201270%20DE%2001%20DE%20ABRIL%20DE%202026/OPINIAO/JO%C3%83O%20CARDOSO%20Entre%20a%20Paridade%20e%20a%20Realidade%20(1).docx#_ftnref3"><sup><sup>[3]</sup></sup></a><a href="https://expressodasilhas.cv/economia/2024/11/11/mulheres-na-economia-informal-recebem-menos-40-que-os-homens-ine/94155">https://expressodasilhas.cv/economia/2024/11/11/mulheres-na-economia-informal-recebem-menos-40-que-os-homens-ine/94155</a></p><p><a href="file://nas-mediacom/EXPRESSO/PAGINACAO/PAGINA%C3%87%C3%83O%202026/JORNAL%201270%20DE%2001%20DE%20ABRIL%20DE%202026/OPINIAO/JO%C3%83O%20CARDOSO%20Entre%20a%20Paridade%20e%20a%20Realidade%20(1).docx#_ftnref4"><sup><sup>[4]</sup></sup></a><a href="https://expressodasilhas.cv/economia/2024/02/07/segurados-do-rempe-aumentam-de-330-em-2015-para-mais-de-25-mil-em-2023/89892">https://expressodasilhas.cv/economia/2024/02/07/segurados-do-rempe-aumentam-de-330-em-2015-para-mais-de-25-mil-em-2023/89892</a></p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1270
de 01 de Abril de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/04/09/entre-a-paridade-e-a-realidade-o-que-mudou-de-facto-para-a-mulher-comum/102176</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Mário Cardoso]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 09 Apr 2026 09:02:00 GMT</pubDate>
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        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Crioulidade: a chave para entender Cabo Verde - 
Uma leitura histórica do país
]]></title>
            <description><![CDATA[<p>A
escravatura marcou o trauma da origem, mas não explica a sociedade que se
construiu depois. Para compreender o Cabo Verde de hoje – na língua, nas
relações sociais e nas formas de pertença – a chave mais fecunda continua a ser
a crioulidade, entendida como processo histórico, social e cultural, e não como
mito ou slogan identitário.</p><p>Durante décadas, a noção
de “raça” foi tratada como dado natural, inscrito no corpo e transmitido como
herança. A antropologia contemporânea mostrou de forma clara que essa leitura
assenta numa confusão entre diferença biológica e diversidade cultural. Como
demonstrou Claude Lévi-Strauss, as diferenças observáveis entre grupos humanos
não explicam desigualdades históricas, sociais ou civilizacionais. A raça não
constitui uma categoria científica válida para compreender as sociedades;
funciona sobretudo como construção ideológica usada para legitimar domínios,
hierarquias e exclusões.</p><p>Poucos países o
confirmam de forma tão evidente como Cabo Verde – um país que nasceu da
história e das relações sociais, e não do sangue.</p><p>Ainda assim, persiste um
equívoco recorrente: explicar Cabo Verde apenas a partir da escravatura. A
escravatura foi central na nossa história e marcou profundamente o passado do
arquipélago. Mas, por si só, não explica a sociedade que se construiu depois.
Ajuda a compreender o ponto de partida e a violência inicial; não ilumina o
processo social que se lhe seguiu. Para isso, a chave é outra: a crioulidade.
Não como negação da escravatura, mas como processo histórico que emerge em
tensão com ela e ultrapassa a sua função explicativa exclusiva.</p><p style="text-align: center;"><strong>Quando as explicações
ficam curtas</strong></p><p>A ideia de raça pertence
a um tempo em que se procurava explicar o mundo através de categorias simples,
rígidas e hierarquizadas. Serviu para dar aparência natural ao que era
histórico e social. Apesar de ultrapassada no plano científico, continua a
circular como atalho explicativo, sobretudo quando faltam leituras mais
exigentes da realidade.</p><p>Algo semelhante acontece
quando se reduz a história cabo-verdiana a um único eixo interpretativo.
Converter a escravatura em chave total empobrece a análise histórica e apaga os
processos que lhe sucederam. A escravatura explica o início do drama, mas não o
percurso nem a forma de sociedade que se consolidou ao longo do tempo.</p><p>Ao contrário de outros
espaços do Atlântico, como o Brasil ou várias ilhas das Caraíbas, onde a
herança da <em>plantation</em> – enquanto sistema económico e social baseado na
escravatura de larga escala e na racialização do trabalho – prolongou divisões
raciais rígidas e duradouras, Cabo Verde construiu-se cedo como sociedade
maioritariamente crioula. Isto significa uma sociedade com língua, práticas
culturais e referências simbólicas comuns, e não uma soma de grupos racialmente
segregados. A escravatura marcou a origem do trauma, mas não definiu o modelo
social que se consolidou.</p><p style="text-align: center;"><strong>Uma sociedade que se
construiu a si própria</strong></p><p>A identidade
cabo-verdiana não resulta de uma simples mistura biológica, nem pode ser lida
como prolongamento directo da escravatura. Resulta de um processo histórico
próprio. Cabo Verde nasceu num território sem população autóctone, marcado pela
escassez, pela irregularidade climática, pela mobilidade constante e pela
necessidade permanente de invenção social.</p><p>Foi nesse contexto que
se estruturou uma sociedade crioula, assente menos em divisões raciais e mais
em relações sociais, culturais e simbólicas. A crioulidade não foi um projecto
deliberado, mas uma resposta prática às condições concretas da vida insular. A
coerência da sociedade cabo-verdiana construiu-se historicamente, através da
convivência quotidiana, da adaptação e da partilha de referências comuns.</p><p>A língua crioula é
central neste processo. Não surgiu como língua de resistência tardia, mas como
língua de fundação social: língua do quotidiano, da organização da vida prática
e da comunicação entre todos. Onde noutros contextos atlânticos a escravatura
cristalizou fronteiras raciais persistentes, em Cabo Verde a crioulidade
funcionou como princípio de dissolução dessas fronteiras, substituindo-as por
pertenças culturais e relacionais.</p><p style="text-align: center;"><strong>Racismo sem matriz
racial</strong></p><p>Esta realidade levanta
uma questão inevitável: Cabo Verde é ou não uma sociedade racista? A resposta
exige clareza e rigor. Falar de racismo sem matriz racial significa reconhecer
que a discriminação pode existir sem assentar numa ideologia biológica da raça,
operando antes através de hierarquias sociais, simbólicas ou culturais.</p><p>Cabo Verde não se
construiu como sociedade racializada nos moldes clássicos do mundo pós-escravatura.
A língua comum, a convivência quotidiana e a ausência de fronteiras raciais
institucionalizadas limitaram a formação de um racismo biológico estruturado.
Isso não equivale a negar práticas discriminatórias concretas, nem invalida
experiências individuais de exclusão ou estigmatização.</p><p>Existem desigualdades,
estigmas e hierarquias, mas estas tendem a organizar-se sobretudo em torno da
classe, do capital cultural, do território e da posição social, e não da raça
enquanto categoria biológica. A crioulidade não é um álibi moral; é um dado
histórico decisivo. Ao favorecer a relação e a permeabilidade das pertenças,
limitou a transformação da diferença em destino biológico rígido.</p><p>Reconhecer isto não é
negar problemas. É evitar diagnósticos errados que importam categorias externas
e as aplicam mecanicamente a uma realidade com trajectória própria.</p><p style="text-align: center;"><strong>Pensar o presente sem
atalhos</strong></p><p>Pensar Cabo Verde com
chave crioula tem implicações no presente – no debate público, na educação e na
forma como se fala de identidade e pertença. A crioulidade lembra que a
sociedade cabo-verdiana se construiu mais por relação do que por separação.
Recorda que a identidade não é um dado fixo, mas um processo histórico em
curso.</p><p>Num tempo em que
discursos simplificadores ganham espaço – ora exaltando a raça, ora reduzindo
tudo ao passado escravocrata – a crioulidade exige uma leitura mais rigorosa,
mais histórica e menos ideológica. Não apaga a violência do passado; recusa
apenas que ele funcione como explicação totalizante.</p><p>Pensar Cabo Verde com
chave crioula é reconhecer a sua singularidade atlântica: uma sociedade
pós-escravatura sem racialização estrutural tardia, uma nação feita mais de
invenção cultural do que de herança directa da <em>plantation</em>. Talvez por
isso esta leitura incomode. É precisamente por isso que ela importa.</p><p>A escravatura explica o
trauma; a crioulidade torna inteligível o país.</p><p><em><strong>Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1270
de 01 de Abril de 2026.</strong></em></p>]]></description>
            <link>https://expressodasilhas.cv/opiniao/2026/04/06/crioulidade-a-chave-para-entender-cabo-verde-uma-leitura-historica-do-pais/102175</link>
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            <category><![CDATA[Opinião]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Manuel Brito-Semedo]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 06 Apr 2026 08:59:03 GMT</pubDate>
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        </item>
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