Mais uma apreensão de cocaína em Cabo Verde…

PorSara Almeida,11 ago 2019 7:32

É mais um caso que comprova aquilo que os especialistas têm vindo a alertar há vários anos. O arquipélago é ponto estratégico para a passagem de droga que vem da América Latina, e este sábado foram apreendidos mais 2256,2 kg de cocaína no interior de uma embarcação proveniente do Brasil. Na sequência da operação, foram detidas cinco pessoas, que se encontram já em Prisão Preventiva.

”Perpétuo Socorro de Abaete II”, o navio,jáestava a ser “observado”. E na sequência de troca de informação operacional com o MAOC – N (Maritime Analysis and Operations Centre – Narcotics), com sede em Lisboa, foi interceptado pelas autoridades nacionais.

Revistado, verificou-se conter a bordo mais de duas toneladas de cocaína. Não foi, porém, avançado como e onde estava escondida a droga, tendo sido apenas divulgadas fotos de dezenas de fardos envoltos em plástico, já fora do navio.

Esta operação, apelidada de “Operação Constância”, foi realizada pela Polícia Judiciária, em conjunto com a Guarda Costeira. A PJ contou ainda com a cooperação da Polícia Federal do Brasil “na busca, descarga, transporte, acondicionamento e guarda do produto apreendido”, explica, entretanto, a nota enviada este fim-de-semana à imprensa.

Durante esta operação, que surge no âmbito do combate ao tráfico transnacional de estupefacientes por via marítima, foram detidas cinco pessoas de nacionalidade brasileira. Os suspeitos foram presentes, na segunda-feira, ao Tribunal da Comarca da Praia tendo-lhes sido aplicada a Prisão Preventiva, informou ontem a PJ.

Operação Zorro

A apreensão de sábado teve também repercussão na imprensa brasileira, que recorda o caso dos três velejadores detidos em Agosto de 2017 por “transporte de cocaína”.

Nessa operação, conhecida em Cabo Verde como Operação Zorro, foi apreendida uma tonelada de cocaína, no veleiro onde seguiam três brasileiros e que teria como destino a Madeira (Portugal). A apreensão ocorreu no porto de Mindelo.

Os três velejadores foram condenados a 10 de prisão, por tráfico internacional de drogas, mas sempre alegaram ter sido incriminados injustamente. Um inquérito da Polícia Federal brasileira também os declarou inocentes, recorda a Globo. Nesse inquérito terá valido o testemunho do inglês Robert James Delbos, um dos suspeitos por esconder os 1157 quilos de cocaína no veleiro “Rich Harvest”, que garantiu que nem os três brasileiros, nem o francês Olivier Thomas, que fazia igualmente parte da tripulação, sabiam da existência da droga.

Delbos prestou estas declarações em Salvador, no Brasil, para onde foi extraditado após detenção em Espanha em 2018. No inquérito afirmou ainda que George Eduard Soul, também conhecido como Fox, alegado dono do veleiro seria o responsável pela carga de cocaína.

Entretanto, os três detidos brasileiros foram libertados em Fevereiro deste ano, cerca de 18 meses após a ordem prisão, por esgotamento do tempo de prisão preventiva e dias depois de o Tribunal da Relação de Barlavento, para onde tinham recorrido, ter procedido à anulação da sentença proferida em primeira instância. A juíza entendeu que houve desrespeito ao direito de defesa. Encontram-se actualmente no Brasil, onde aguardam em liberdade um novo julgamento em Cabo Verde.

… em ano de apreensões recorde

A 31 de Janeiro, foram encontradas 9,5 toneladas de cocaína a bordo de um navio no Porto da Praia. A maior apreensão de sempre no país e a segunda maior a nível mundial. Olhando o panorama internacional, este é apenas um dos recordes batidos este ano, a nível de apreensões cocaína, seja a nível da quantidade apreendida em cada operação individual, seja no somatório geral. Só no Brasil, por exemplo, a apreensão desta droga pela Polícia Federal cresceu quase 70%, em 2019.

A 31 de Janeiro deste ano, ocorreu no Porto da Praia a maior apreensão de cocaína no país, que seguia a bordo do navio ESER, de bandeira Panamiana, no porto da Praia. O navio tinha saído da América do Sul e teria como destino Tanger (Marrocos). A morte de um tripulante, que segundo a PJ, terá falecido de causas naturais, obrigou a uma paragem no porto da Praia. Foi então que o MAOC – N, que vinha monitorando o navio, alertou as autoridades nacionais. Nessa operação foram detidos 11 cidadãos de nacionalidade russa, que alegam terem carregado a droga sob ameaça.

O caso vem também confirmar Cabo Verde como ponto estratégico na rota de tráfico internacional de estupefacientes. Mas, apesar da sua localização geoestratégica, Cabo Verde não é caso isolado. Por todo o mundo, no somatório global, as apreensões de cocaína, têm vindo a crescer. Em 2017, de acordo com dados da UNODC, não só a fabricação ilícita global de cocaína registou aumento de 25% em relação ao ano anterior como a quantidade global de cocaína apreendida aumentou 13%, para 1.275 toneladas. “A maior quantidade já registada”, diz o Escritório da ONU.

Pelas recentes apreensões feitas, por todo o mundo, acredita-se que o ano de 2019 será um ano que vai quebrar todos os recordes, no geral. Como referido, Cabo Verde bateu recordes nacionais e regionais, com a apreensão de 31 de Janeiro. E também a Guiné-Bissau, conhecido também por fazer parte da rota de tráfico internacional fez a sua maior apreensão: 789 Kg de cocaína. “Trata-se da maior apreensão de cocaína no nosso país. Esta grande quantidade de produto estupefaciente tinha como destino o Mali para depois atingir outros mercados, com particular destaque para a Líbia e Europa”, afirmou a directora da PJ guineense, Filomena Mendes Lopes, à Euronews.

Na Europa, os números também aumentam. A Alemanha, por exemplo, apreendeu no passado dia 2 no porto de Hamburgo 4,5 toneladas de coca, num navio vindo do Uruguai. “Essa é a maior apreensão de cocaína da história do país europeu”, conta a DW.

Na América, em Março apreendeu-se no Porto de Nova Iorque/Newark a maior quantidade de droga dos últimos 25 anos: 1.455 quilos de cocaína. “A cocaína, nemesis da Nova Iorque nos anos ‘90, está de volta, mostrando a vontade dos narcotraficantes para construir uma base emergente de clientes, misturando cocaína com fentanil”, disse Ray Donovan, agente especial da DEA, citado pela AFP.

No Brasil, entre Janeiro e Maio de 2018 haviam sido apreendidas, pela Polícia Federal, 23,2 toneladas de Cocaína. Este ano, no mesmo período, a contagem ia já em 39,3 toneladas, em todo o país. Um aumento de 69,4%, aponta o G1.

Um aumento das apreensões que se interliga não só a um eventual melhor sistema de combate integrado ao narcotráfico como ao aumento da produção.

Na Colômbia, maior exportadora de Cocaína no mundo, os cultivos ilegais aumentaram 50% em 2016,segundo a UNDOC , citada pelo El País. Entretanto foi nesse país sul-americano que decorreu a maior apreensão de sempre (a da Praia, recorde-se, é a segunda maior): 12 toneladas apreendidas em finais de 2017.

Mas no somatório, 2019, como se está a prever irá bater recordes.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 923 de 7 de Agosto de 2019. 

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Autoria:Sara Almeida,11 ago 2019 7:32

Editado porFretson Rocha  em  14 out 2019 23:23

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