O futuro poeta nasceu pobre, em casa de pobre, pobre começou a crescer, com um irmão e uma irmã, mais a mãe Cidália da Cruz, que morreu Corsino nem chegara aos 12 anos.
Pobre, ainda, mas já concluído a 4ª classe, Corsino Fortes começou a trabalhar como aprendiz de ferreiro na Companhia Ferro, que transportava água do Tarrafal de Monte Trigo, em Santo Antão, para São Vicente, para o abastecimento do Mindelo.
Pagavam-lhe, então, nove escudos por semana, recordou nesta sexta-feira, no Mindelo, a irmã Rufina, de 73 anos.
Quando já contava 12 anos, Corsino perdeu o pai, António Fortes, com quem já então vivia, no Monte Sossego.
Pobre de recursos financeiros, sem pais, o futuro poeta e político ficou entregue à sua sorte, mas o gosto pela instrução nunca o abandonaria. O que queria era estudar, estudar.
Aos 23 anos, andava então no Liceu Gil Eanes, o poeta saiu do anonimato, com a publicação de poemas no jornal do 3º Ciclo.
Nunca mais abandonou a poesia, que escreveu até vésperas da sua morte, em 24 de Julho de 2015, no seu Mindelo natal, aos 82 anos.
Os seus poemas foram surgindo nos anos 1960, em publicações como a revista Claridade e a antologia Modernos Poetas Cabo-Verdianos, mas seu primeiro livro só viria a publicar-se em 1974, Pão & Fonema, que com Árvore & Tambor (1986) e Pedras de Sol & Substância (2001) formou a trilogia A Cabeça Calva de Deus, que o consagrou como o maior poeta épico de Cabo Verde, segundo Vera Duarte, presidente da Academia Cabo-Verdiana de Letras, de que Corsino Fortes foi igualmente líder.
O poeta formou-se em direito na Universidade de Lisboa, em 1966, tendo sido depois juiz do Tribunal do Trabalho em Luanda e Benguela, porém sem nunca ter posto de lado a poesia.
A independência de Cabo Verde, em 1975, fez do poeta diplomata, ao torná-lo no primeiro embaixador do país em Portugal (1975/1981), de onde representava também Espanha, Islândia, Noruega e França, depois em Angola (1986/1989) e São Tomé e Príncipe, de onde alargava a sua acção à Zâmbia, Moçambique e Zimbabwe.
Secretário de Estado para a Informação e ministro da Justiça até 1991, presidiu ao Conselho Geral da Fundação Amílcar Cabral, criou a Associação de Escritores Cabo-verdianos e constituiu a seguradora privada Ímpar.
O último livro de poemas de Corsino Fortes é Sinos de Silêncio: Canções e Haikais, saído a apenas dois dias de o poeta se finar, em casa da sobrinha Aurora, no Monte Sossego, para onde havia sido transferido, a seu pedido, de Lisboa, onde tratava um cancro dos ossos.
Nesta sexta-feira, 12, Rufina da Cruz, moradora na Vila Nova, bairro do Mindelo, dez anos mais nova que o poeta, verteu uma lágrima por Corsino, o irmão que ia directo do aeroporto cumprimentá-la, sempre que desembarcava em São Vicente.
Neste domingo, o estúdio 1 da Televisão de Cabo Verde, a estação pública que o poeta criou em 1984, recebe o nome de Corsino Fortes.
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