Mais do que brinquedos ou peças decorativas, as bonecas são concebidas como pequenas narrativas sobre um continente, os seus povos e a sua diversidade. Cada criação procura representar diferentes formas de beleza, costumes e referências culturais africanas, numa proposta que cruza artesanato, memória, identidade e intervenção cultural.
A transformação ganhou uma nova dimensão em 2025, quando o projecto passou a assumir a identidade Alkebulanis. O nome tornou-se parte da própria mensagem da marca e traduz a intenção da artesã Edmara Cunha de colocar a ancestralidade africana no centro daquilo que cria.
Alkebulanis
“Alkebulan é um dos nomes mais antigos conhecidos para o continente africano. Significa terra dos povos negros, terra da origem, e também é traduzido como mãe da humanidade ou jardim do Éden”, explica a criadora na apresentação da marca.
A escolha do nome não é, por isso, apenas uma questão de identidade comercial. É uma declaração sobre a forma como esta criadora olha para o continente e para as suas raízes. Nas suas mãos, o tecido transforma-se em linguagem e a boneca em representação.

A história começou alguns anos antes. Edmara descobriu as bonecas de pano durante um workshop de Arte Criativa. O que começou como uma experiência paralela, inicialmente também com o objectivo de conseguir algum rendimento, acabou por ganhar espaço na sua vida profissional. As encomendas cresceram e as bonecas passaram a ser procuradas através das redes sociais. Antes da Alkebulanis, o projecto era conhecido como Sara Atelier.
Mas a artesã encontrou, progressivamente, uma dimensão que ultrapassava a produção de peças personalizadas. A boneca podia ser também uma forma de responder à ausência de representação, sobretudo quando se trata de crianças negras que nem sempre encontram brinquedos que reproduzam os seus traços, cabelos e referências culturais.
“Alkebulanis é a celebração da beleza africana para mim”, afirma Edmara Cunha.
É nesse princípio que a representatividade ganha centralidade. A maioria das bonecas apresenta pele negra, mas a marca trabalha também diferentes tons de pele, numa tentativa de traduzir a diversidade e a miscigenação presentes nas sociedades africanas e, particularmente, numa realidade como a cabo-verdiana.
Cultura, memória e afirmação
A própria criadora tornou-se parte da mensagem. Em imagens de divulgação da Alkebulanis, Edmara Cunha aparece com cabelo afro natural, semelhante ao das personagens que cria. A escolha reforça a relação entre a artista e a obra. Edmara Cunha não cria apenas para representar outras pessoas, mas também se reconhece naquilo que produz.
As bonecas são igualmente construídas a partir de referências à tradição. Tecidos africanos, cores, adornos e formas de vestir passam a integrar personagens que procuram estabelecer uma ligação entre o presente e uma memória ancestral, e ainda produz bonecas que homenageiam grandes nomes da história, tribos e costumes africanos.

“Da terra mãe, Alkebulan, nasce esta boneca africana — inspirada numa mulher real, cuja força e beleza ecoam na memória ancestral”, descreve a marca.
Essa relação entre objecto e memória atravessa todo o projecto. Edmara passou a utilizar as redes sociais não apenas para mostrar as suas criações, mas também para falar sobre cultura, ancestralidade e identidade africana. A marca começou a construir uma linguagem própria, na qual cada boneca pode contar uma história sobre beleza, resistência e pertença.
“Das raízes nasce a voz. Voz que lembra, cura e desperta. Somos herdeiros da sabedoria africana. Este é o início das Vozes do Alkebulan”, escreve a marca.
A ideia de dar “voz” às raízes aproxima o trabalho há uma dimensão de activismo cultural. A artista utiliza uma técnica artesanal para discutir questões que atravessam gerações, a forma como os corpos negros são representados, o direito à diferença, o orgulho na aparência e a necessidade de preservar referências culturais.
A missão, diz, passa por mostrar às crianças, desde cedo, a beleza da pele negra e permitir que se reconheçam naquilo com que brincam. A boneca torna-se, nesse sentido, uma ferramenta de autoestima e educação cultural.
“Para mim, tudo o que é feito à mão exige muito cuidado, exige muito amor, tem de ter algum propósito. E o meu propósito, como um dos agentes da sociedade é fazer algo para as pessoas, para a minha comunidade”, afirmou.
A dimensão cultural do trabalho ganhou também visibilidade fora das redes sociais. Em Julho de 2026, Edmara foi convidada do programa Bem-vindos, da RTP África, transmitido a partir de Lisboa e dedicado às culturas africanas e às suas comunidades. A participação aconteceu num episódio que contou também com a actriz Roberta Rodrigues e que abordou a representatividade dos artistas negros.
A presença no programa colocou a criadora cabo-verdiana num espaço mais amplo de discussão sobre identidade e representação. A sua história já não se limita ao universo das bonecas artesanais, cruza a criação artística com uma reflexão sobre o lugar da cultura africana e das comunidades negras na sociedade contemporânea.

Entre tecidos, cabelos, cores e pequenos corpos de pano, Edmara Cunha constrói personagens que carregam mais do que uma aparência. Carregam referências, memórias e uma ideia de pertença.
“As suas raízes também merecem ser vistas, celebradas e contadas.”
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1289 de 12 de Agosto de 2026.
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