Carlos Alberto Pereira Lopes, nome de baptismo de Bino Branco, morreu na noite de sábado, 29 de Agosto, nos Estados Unidos da América, onde se encontrava em tratamento médico desde 2025, devido a uma doença oncológica grave. Tinha 56 anos e completaria 57 em Dezembro.
A sua morte encerra uma carreira de cerca de 30 anos ligada aos Ferro Gaita, grupo de que foi membro fundador e uma das principais vozes. Ao lado de Eduíno e Paulino Preto, Bino Branco ajudou a construir, a partir de 1996, uma das formações de referência na interpretação e divulgação do funaná tradicional.
Mais do que a voz, Bino Branco tinha um estilo único de estar em palco. O ferrinho, a energia, a animação e a simplicidade faziam parte da sua presença. Para quem o acompanhou ao longo dos anos, era difícil separar Bino da sonoridade dos Ferro Gaita.
“Estamos todos consternados com esta perda”, disse à Inforpress Emanuel Tavares, conhecido por Manel di Tilinha, percussionista e voz de coro do grupo. Sabiam que o estado de saúde do colega era grave, mas a notícia da morte, admite, foi recebida com choque.
Manel di Tilinha fala de Bino como “um grande artista”, alguém que entregava à música “o que de melhor há no funaná”, mas também como um homem divertido, alegre e simples. “Os Ferro Gaita não perderam apenas um músico. Perderam um amigo e um irmão”.
Uma carreira feita de raízes
Bino Branco cresceu artisticamente num período em que o funaná ganhava novas formas de chegar ao público. Nos Ferro Gaita encontrou um espaço onde a tradição podia dialogar com uma abordagem contemporânea, sem perder aquilo que lhe dava identidade.
O ferrinho, instrumento que se tornou uma das imagens associadas à sua presença, acompanhava uma voz que ajudou a dar personalidade ao grupo. Ao longo de três décadas, essa combinação passou por diferentes palcos e contribuiu para que a música nacional chegasse cada vez mais longe. Foi também nessa capacidade de levar as raízes consigo que se construiu parte importante do seu percurso.
O Ministério da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto reagiu à morte com uma nota de pesar, considerando Bino Branco uma figura de grande relevância para a música e para a cultura nacional.
Na mensagem, o ministério destaca o contributo do artista para a valorização e divulgação da música e considera que o seu percurso permanecerá na memória de quem ama e valoriza a cultura do país.
O ministro da Cultura, António Duarte, lamentou a morte do músico. Segundo o governante, o Estado acompanhava com preocupação o seu estado de saúde e já tinha conhecimento da gravidade da situação.
“Perde-se mais um artista. A cultura perde parte da sua referência”, afirmou.
Para António Duarte, os Ferro Gaita ficam mais pobres e o funaná também perde uma das suas referências. Aos 56 anos, Bino deixa, assim, um percurso marcado por uma relação profunda com um dos géneros musicais que mais facilmente identificam o país dentro e fora das ilhas.
“Não há substituição, há uma adaptação”
A doença de Bino já vinha obrigando os Ferro Gaita a preparar o futuro do grupo. Segundo o produtor e manager David Vieira, há cerca de um ano que estavam a ser criadas condições para a entrada de novos talentos.
Eduíno, líder da formação, vinha assumindo maior protagonismo nos espectáculos, enquanto músicos mais jovens começavam a integrar o projecto. A intenção, explica David Vieira, nunca foi substituir Bino.
“Não há substituição, há uma adaptação, para não deixar o trabalho morrer”, afirmou à Inforpress.
A frase ganha agora outro peso. O grupo que Bino ajudou a fundar terá de continuar sem uma das suas figuras centrais, levando consigo uma história construída ao longo de 30 anos. David Vieira recorda o músico como alguém que se entregava por inteiro ao que fazia. No palco e fora dele, diz, dava sempre “cem por cento”.
É também essa entrega que fica na memória de quem acompanhou os Ferro Gaita. Bino tinha uma forma descontraída de estar, mas quando entrava em palco a música tomava conta. O ferrinho marcava o compasso, a voz conduzia e o funaná fazia o resto.
Agora, o grupo prepara-se para continuar. A ideia é manter vivo o trabalho construído e chegar a mais lugares, apostando em novos intérpretes.
Uma voz que fica
A morte de Bino Branco acontece num momento em que a música nacional continua a ser uma das principais formas de ligação entre quem vive nas ilhas e quem está fora delas.
Ao longo da carreira, o músico fez parte dessa ligação. Cantou as raízes, levou o funaná a outros públicos e ajudou a manter vivo um som que, para muitos, é imediatamente reconhecível como sendo de casa.
Por isso, a sua ausência será sentida não apenas pelos Ferro Gaita, mas por todos os que cresceram com a música do grupo e que reconheciam naquela voz e naquele ferrinho uma parte das suas próprias memórias.
Bino Branco parte, mas deixa uma obra que continuará a ser tocada. Deixa também uma geração de músicos que com ele partilhou estrada e palco e que agora terá a responsabilidade de continuar o caminho. Cada vez que o ferrinho voltar a soar e a voz de Bino surgir numa gravação dos Ferro Gaita, haverá quem reconheça ali mais do que uma canção. Reconhecerá uma época, um grupo e uma forma de levar o funaná pelo mundo sem deixar as raízes para trás.
Bino Branco morreu nos Estados Unidos, mas a sua música ficou no mundo e deixa vivos um legado e uma marca na história e na cultura de Cabo Verde.
*Com Inforpress
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1292 de 02 de Setembro de 2026.
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