A oposição ganhou uma nova dimensão esta quinta-feira, depois de a UEFA e as suas 55 federações nacionais anunciarem que poderão boicotar futuras competições da FIFA, incluindo os Mundiais masculino e feminino, caso o projecto avance. A confederação europeia considera que a proposta ultrapassa uma “linha vermelha” ao permitir que investidores privados tenham participação económica numa competição que considera pertencer ao património do futebol mundial.
“O Mundial não pode ser tratado como um produto de investimento”, defenderam a UEFA e as suas associações nacionais, numa declaração conjunta em que rejeitam a transferência de interesses económicos do Campeonato do Mundo para investidores privados.
A proposta de Infantino prevê a criação da FIFA Forward Enterprise, uma subsidiária destinada a concentrar operações comerciais e direitos associados às competições da FIFA. Segundo a organização, a nova estrutura permitiria aumentar significativamente os fundos destinados ao desenvolvimento do futebol mundial, com financiamento adicional para as 211 federações membros. A FIFA garante que manteria o controlo sobre regras, calendário, competições e decisões desportivas.
No centro da polémica está um grupo de investidores liderado pela Thrive Capital, empresa associada a Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente norte-americano Donald Trump. O grupo estará interessado numa participação minoritária numa entidade avaliada em cerca de 20 mil milhões de dólares.
UEFA acusa FIFA de falta de transparência
A UEFA considera que uma operação desta dimensão não poderia avançar sem uma consulta profunda às confederações e federações nacionais. Os europeus criticam sobretudo o processo de decisão, alegando falta de transparência e ausência de debate adequado antes da apresentação da proposta.
A confederação europeia argumenta que o Mundial é resultado de décadas de construção colectiva por jogadores, selecções e adeptos, não podendo ser parcialmente transformado num activo financeiro controlado por investidores externos.
A ameaça de boicote coloca pressão directa sobre Infantino, que pretende manter-se no cargo de presidente da FIFA e preparar uma eventual recandidatura em 2027. Uma ausência das principais selecções europeias teria um impacto enorme na relevância desportiva e comercial das competições da FIFA.
CONCACAF rejeita proposta e questiona necessidade de investimento privado
A oposição alastrou rapidamente à América do Norte, América Central e Caraíbas. A CONCACAF e as suas 41 federações filiadas anunciaram igualmente a rejeição da proposta da FIFA.
Num comunicado, a confederação afirmou ter “profundas preocupações” relativamente ao processo, apontando para um prazo considerado demasiado curto, ausência de análise pelos órgãos competentes da FIFA e falta de informação suficiente sobre as consequências do acordo.
A CONCACAF questionou ainda por que razão a FIFA necessita de investimento privado depois do que classificou como o Mundial mais lucrativo da história. A organização defendeu que os recursos existentes da FIFA deveriam ser utilizados para aumentar os programas de desenvolvimento do futebol, sem necessidade de abrir espaço a investidores externos.
Ao contrário da UEFA, a CONCACAF não anunciou um boicote às competições FIFA, mas a rejeição representa um golpe importante para Infantino, uma vez que a região foi uma das que mais beneficiou do crescimento comercial da FIFA nos últimos anos.
AFC junta-se às críticas
A contestação chegou também à Ásia. A Confederação Asiática de Futebol (AFC), até agora considerada próxima da liderança de Infantino, manifestou preocupação com a forma como a proposta foi apresentada. O presidente da AFC, Salman bin Ibrahim Al Khalifa, criticou a ausência de consultas e pediu mais tempo para analisar os impactos financeiros, jurídicos e de governação.
A posição asiática é particularmente relevante porque reduz o apoio internacional ao projecto da FIFA e mostra que a oposição não está limitada ao futebol europeu.
CAF e CONMEBOL mantêm-se mais próximas de Infantino
Enquanto UEFA, CONCACAF e AFC levantam reservas, a posição de África e da América do Sul tem sido mais favorável ao presidente da FIFA.
A Confederação Africana de Futebol (CAF) tem sido tradicionalmente uma aliada de Infantino, sobretudo devido ao aumento do financiamento através do programa FIFA Forward e ao crescimento do número de vagas africanas no Mundial. O aumento dos apoios financeiros prometidos pela FIFA é visto por várias federações africanas como uma oportunidade para acelerar investimentos em infraestruturas e formação.
Também a CONMEBOL mantém uma relação próxima com a actual liderança da FIFA, embora a discussão sobre a FFE esteja a provocar uma divisão mais ampla dentro do futebol mundial.
FIFA tenta travar a crise
Perante a contestação, a FIFA defende que a proposta foi mal interpretada e garante que continuará a controlar todas as decisões relacionadas com o futebol. A organização afirmou que o processo de consulta aos membros continua e que os investidores não terão poder sobre regras, competições ou calendário.
Infantino argumenta que a FIFA tem potencial comercial ainda não explorado e que a entrada de capital privado permitiria aumentar os fundos distribuídos pelas federações nacionais.
Mas a reacção das confederações abriu uma batalha sobre o futuro modelo de governação do futebol mundial. Pela primeira vez desde que assumiu a presidência da FIFA, em 2016, Gianni Infantino enfrenta uma oposição coordenada de alguns dos principais blocos continentais, numa disputa que poderá marcar o futuro do Campeonato do Mundo e da própria estrutura de poder do futebol internacional.
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