No principio da década de 1970, que sentimentos nacionalistas já se encontravam articulados entre a população de São Vicente?
No início da década de 1970 pode-se dizer que não havia uma consciência política no seio da população; era muito pouca gente que sabia que havia uma luta de libertação a ser desenvolvida por um partido sério – e não com o rótulo “terroristas” utilizado pelo regime colonial Português. Existia na sociedade de São Vicente dessa altura uma consciência de ser português, também muito ligada ao futebol, e não se discutia política. Quando vinham de Portugal certos grupos do partido é que havia alguma movimentação – a nível da contestação do regime colonial e da presença portuguesa em Cabo Verde – na tentativa de angariar alguns militantes para o PAIGC, ou para a luta.

Mas disse que este movimento ainda tinha muito pouco impacto na sociedade. Quando é que isso começou a mudar?
A partir do 25 de Abril houve uma movimentação, quase que espontânea, com elementos dentro do Liceu – a família Araújo, o Vítor Fidalgo, a Vanda Oliveira e outros – que saíram para a rua a dar vivas ao 25 de Abril, às forças armadas portuguesas e ao Spínola. Não se falava no PAIGC nas primeiras movimentações.
São vicente tinha algumas personalidades públicas fortes, não políticas mas culturais – Baltasar Lopes, António Aurélio Gonçalves – que tinham sido instrumentais no desenvolvimento de um certa consciência nacional. Qual acha que foi a relevância dessas figuras no movimento?
Eu talvez vá chocar com muita gente neste ponto (risos). O Baltasar Lopes especificamente era considerado um intelectual, um homem muito inteligente, pela sociedade Cabo-verdiana; mas não tinha expressão como político, e não se pronunciou a favor nem contra em qualquer momento. O Dr. Roque Gonçalves fazia a sua vida como intelectual, e não se metia nestas questões.
Mas ambos foram referências fundamentais para os jovens promotores do programa sobre a literatura Cabo-verdiana na Rádio Barlavento...
Sim, mas aquele programa não tinha peso político; o seu peso era intelectual. Era como intelectuais que eles se tentavam exprimir, não como políticos. Mas mesmo assim a política estava por trás mesmo desses jovens: nos seus contactos, nas suas leituras. eu posso dizer isso à vontade porque a maioria dos jovens desse tempo conhece a minha atividade na época.
Enquanto membro do PAIGC?
Não; enquanto indivíduo a favor da independência nacional. Não sei se posso dizer se alguma vez fui associado ao PAIGC. Outros é que o podem dizer. Eu tive contactos privilegiados com o Manuel Faustino a partir de 1968, mas não posso dizer que era militante do Partido. Só conheci o programa do Partido através de um indivíduo de quem ninguém fala em Cabo Verde: o Xima, o pai de Jorge Humberto, o cantor. Foi ele quem me deu algum material para ler, mas em 1974 a maioria esmagadora dos militantes não conhecia o programa do PAIGC, e não sei se o chegaram a conhecer depois.

Dá-se o 25 de Abril em Portugal. Quais são as repercussões e como é que elas chegam a Cabo Verde?
Na altura do 25 de Abril o pessoal do liceu saiu para a rua a contestar, mas sem programa; por isso é que davam vivas, com uma incongruência incrível, às Forças Armadas Portuguesas e a Spínola; e alguns – encabeçados por um indivíduo que diziam ser militante do PAIGC – foram para casa do Dr. Baltasar, julgando que ele seria o dirigente do Partido. Eu depois desloquei-me a casa dessa pessoa para lhe dizer que não deveríamos dar vivas às FA portuguesas e a Spínola, mas sim ao PAIGC, a Amílcar Cabral e à Independência de Cabo Verde. Porque era toda uma dinâmica – e só houve adesão porque as pessoas tiveram medo. E era necessário haver esse medo, porque senão a pequena burguesia Cabo-verdiana não aceitaria, de forma alguma, a Independência de Cabo Verde com pessoas desconhecidas.
E como é que esse medo foi produzido?
Com as pessoas mais necessitadas desta ilha; trazendo as pessoas mais necessitadas para a rua, (a burguesia) começou a dar vivas também. Não por consciência, por medo. Onde houve luta pela Independência nacional, a preocupação foi sempre a pequena burguesia. Surgiu um pequeno grupo – na minha opinião, apoiado pelo Governo Português – a UDC, a União Democrática de Cabo Verde, que no fundo queria seguir o modelo de região autónoma, à semelhança dos Açores e da Madeira. Agimos com eles de forma dura. Esse grupo era encabeçado sobretudo pelo ex-Cônsul no Brasil Aguinaldo Rocha. Chegou a São Vicente e reuniu-se com o pessoal chamado do Grémio, para tentar sabotar a Independência de Cabo Verde – que era praticamente irreversível. Esse pessoal do Grémio realmente tinha poder económico, tinha uma formação superior, mas não tinha expressão na sociedade Cabo-verdiana. Logo que surgiu um grupo de indivíduos capaz de enfrentá-los, eles ficaram num canto, ou foram para fora. Com a formação do Governo de Transição em 1974 a UDC desapareceu completamente.
Como foi a recepção dos combatentes do PAIGC que chegavam gradualmente e vinham com essa mística do mato, da luta armada pela Independência, e ligados a um partido altamente organizado?
Os indivíduos tinham a noção do poder. Viveram muito tempo em Conacri e eram os únicos em Cabo Verde naquela altura que tinham representação diplomática – nem o Dr. Baltasar nem nenhum outro intelectual tiveram tanto privilégio a nível internacional, como tiveram os indivíduos do PAIGC; para dar um exemplo, o Papa recebe Amílcar Cabral; e uma comissão especializada da ONU visita as zonas libertadas da Guiné. E eu digo-lhe com toda a sinceridade que, independentemente de todos os erros cometidos, sobretudo após a Independência, o PAIGC tinha uma luta séria na Guiné-Bissau. Agora, como o processo correu – como é que nós depois viemos a viver com este partido político – é outra coisa. Se houvesse na altura a possibilidade de fazer eleições entre partidos que apoiavam a claramente a Independência de Cabo Verde seria melhor; e se o Aristides Pereira tivesse ficado como Presidente supranacional dos dois países, também seria melhor e talvez não houvessem tantos problemas como houve. A eliminação do Rafael Barbosa: se ele é traidor, a história tem de provar que ele é traidor, porque não vou dizê-lo apenas porque outros o estão a dizer. A luta pelo poder pode eliminar homens, e o Rafael Barbosa foi eliminado por conveniência. Estes indivíduos já tinha muito tempo juntos, já tinha feito todo um processo – e surgiu uma figura carismática como o Rafael Barbosa, à frente como presidente do partido. Se ele surgisse em 1974 novamente... portanto, prenderam o indivíduo. Nunca mais o PAIGC teve um presidente. E aí foi dividido o poder: o Luís Cabral como Presidente da Guiné-Bissau, o Aristides Pereira como Presidente de Cabo Verde, os outros com distribuição segundo a conveniência o momento. A partir da formação do Governo de Transição, começou a haver, automaticamente, aquilo que se chama leitura pela mesma cartilha: não havia outra versão da História, não havia outra versão dos acontecimentos, nada disso. E era mal elaborada porque havia somente “unidade e luta”. Este discurso foi feito especificamente na altura da luta de libertação na Guiné-Bissau e em Conacri; quer dizer que havia um desfasamento grande entre a realidade que vivíamos e Cabo Verde, onde nunca houve luta de libertação; onde mesmo o trabalho político não era feito com uma estrutura bem montada. Por exemplo: em 1974 São Vicente não tinha um responsável do PAIGC. O último responsável do PAIGC em São Vicente tinha sido o Eurico Pascoal, que saiu em 1972 – e ele mal mexia no terreno.
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