Um "êxtase da História"

PorExpresso das Ilhas, Lusa,16 abr 2018 8:35

O Maio de 68, em França, começou em Janeiro, num levantamento dos alunos da Universidade de Nanterre, perto de Paris, que acabaria por chegar ao operariado, mobilizar dez milhões numa greve geral e levar à dissolução do parlamento.

Esse "êxtase da História", como o filósofo Edgar Morin o classificou, estender-se-ia até meados de Junho, encoberto por umas eleições gerais que davam continuidade aos dez anos de poder dos gaulistas, garantindo-lhes mais de três quartos dos assentos parlamentares. 

Para trás ficava a paralisação do país, durante grande parte de maio e primeiras semanas de Junho, manifestações diárias nos principais centros urbanos, barricadas no Quartier Latin e uma conjugação de protestos que juntou estudantes, operários e alastrou a todos os sectores da sociedade francesa. 

As reivindicações dos alunos de Nanterre somavam alguns anos, traziam sinais dos tempos e prendiam-se sobretudo com regulamentos disciplinares e as condições do 'campus', situado nos subúrbios, em plena 'cidade dormitório' da capital francesa. 

A actual Universidade de Nanterre era então uma extensão da Faculdade de Letras da Sorbonne, o estabelecimento de ensino superior mais afastado e mais pobre da região de Paris. O corpo docente, porém, contava com professores como Emmanuel Lévinas, Paul Ricoeur, Jean Baudrillard, Henri Lefébvre, Michel Crozier, Alain Touraine ou o jovem Étienne Balibar. Nem todos apoiaram as manifestações, mas havia posições comuns sobre a actualidade. 

Era partilhada a contestação à Guerra do Vietname, eram solidários com as lutas pelos direitos cívicos da população negra norte-americana, acolhiam os ideais feministas, criticavam a sociedade de consumo, irmanavam-se com os protestos de estudantes nos Estados Unidos, no Brasil, no México, na Alemanha, e contestavam ditaduras na América Latina e no Sul da Europa, em Portugal, Espanha e na 'Grécia dos coronéis'. 

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No dia 08 de Janeiro de 1968, durante a inauguração de uma piscina em Nanterre, o ministro da Juventude e Desportos, François Missoffe, foi vaiado pelos estudantes, depois de ter respondido à provocação de um aluno -- Daniel Cohn-Bendit, um dos protagonistas do futuro movimento. 

A reacção conjunta da academia foi o primeiro sinal dos levantamentos de Maio. Outro aconteceria um mês depois, quando o Governo não renovou o mandato do então director da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, fundador da instituição e um dos pioneiros da preservação da memória do cinema. 

Aos cineastas da 'nouvelle vague', como François Truffaut e Jean-Luc Godard, que se solidarizaram com Langlois, juntaram-se os estudantes de Paris, em manifestações e na ocupação da Cinemateca. 

No dia 22 de Março, a ocupação do edifício da direcção de Nanterre teve origem na detenção de quatro alunos, durante um protesto contra a guerra do Vietname. A faculdade foi fechada e os acontecimentos estão na base da criação do Movimento 22 de Março, liderado por Cohn-Bendit. 

A contestação alastrou de imediato à Sorbonne e a alguns liceus de Paris, que exigiram a reabertura da Faculdade de Letras de Nanterre, que viria a ser ocupada pela polícia, no início de Maio. 

O movimento deslocou-se então para o centro urbano de Paris, primeiro para a Sorbonne, que também viria a ser encerrada, depois para o Quartier Latin e para as ruas da capital francesa. 

Os protestos tinham entretanto reforçado a sua dimensão política, deixando de visar apenas o sistema de ensino superior, para se alargarem à presidência do general Charles De Gaulle - o herói da resistência francesa na II Guerra Mundial -, e ao seu Governo, no poder desde 1958. 

A partir de então foi a escalada. Levantaram-se barricadas no Quartier Latin -- que o ministro da Cultura, Andre Malraux, considerou uma "acção de teatro" -- e aos protestos dos estudantes depressa se juntaram os dos operários, que arrastaram as centrais sindicais para a convocatória de uma greve geral.  

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A 10 de Maio, aconteceram os confrontos mais violentos entre estudantes e polícia, desde o início da crise, depois de uma audição do ministro da Educação, Alain Peyrefitte, no parlamento. 

Em Cannes, abria o festival de cinema, que acabaria suspenso ao fim de poucos dias. 

A greve geral, marcada para 13 de Maio, acabaria por mobilizar cerca de dez milhões de trabalhadores, de acordo com números oficiais, afectar todos os sectores da economia e prolongar-se pelas primeiras semanas de Junho, já depois de dissolvido o parlamento e convocadas novas eleições. 

No dia 30 de Maio, uma manifestação de apoio a De Gaulle ocupou os Campos Elísios. Em Junho, com a primeira volta das eleições marcada para dia 23, os operários começaram a regressar às fábricas, a função pública aos seus postos e as escolas deram por findo o ano escolar. 

O movimento estudantil parecia dissolvido, e Cohn-Bendit, que tinha nacionalidade alemã, fora expulso do país. 

Parceiros sociais foram, no entanto, obrigados a negociar contratos colectivos de trabalho, horários semanais e salário mínimo, enquanto o Ministério da Educação teve de rever currículos e avaliações, contra as perspectivas admitidas antes dos protestos. Os resultados, porém, nunca corresponderam à "imaginação ao poder", reivindicada pelos movimentos de Maio. 

"O Poder é detido não pela imaginação, mas por forças políticas organizadas", disse o ministro da Cultura de De Gaulle, Andre Malraux, meses mais tarde, numa entrevista à revista alemã Der Spiegel. 

No último dia de Junho, na segunda volta das eleições, os gaulistas obtiveram uma votação de 46%, que se traduziu em 354 lugares dos 487 da Assembleia Nacional -- uma maioria de 75% no parlamento, a maior de sempre de De Gaulle -, a que se juntaram mais 42 assentos de outros movimentos de direita. 

A esquerda francesa resumiu-se à eleição de 91 deputados, repartidos pelo Partido Comunista (34) e pela coligação socialista liderada por François Mitterrand (57).

O Maio de 68 foi "a revelação de contradições e de novos conflitos" de uma sociedade que se mantinha "arcaica", incapaz "de pensar, organizar e promover mudanças" nas instituições, escreveu o sociólogo Alain Touraine, autor de "A sociedade pós-industrial", que por esses dias foi professor em Nanterre, no ensaio "O movimento de Maio e o comunismo utópico" (1972).

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,16 abr 2018 8:35

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  16 abr 2018 15:34

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