Maio de 68: O "psicodrama" universitário antes das férias de verão

PorExpresso das Ilhas, Lusa,24 abr 2018 8:08

O historiador britânico Tony Judt na obra 'Pós-Guerra' considera que as revoltas estudantis de Maio de 1968 em França foram um "psicodrama" que entrou na mitologia popular "quase de imediato" como objecto de nostalgia.

"O que os escritores de 'slogans' de Maio de 68 nunca fazem é apelar aos seus leitores que prejudiquem gravemente alguém. Até mesmo os ataques a De Gaulle o tratam como um pensionista muito bem pago do que como um antagonista político. Sugerem irritação e frustração, mas muito pouca raiva. Esta iria ser uma revolução sem vítimas, o que afinal significa que não era revolução nenhuma", conclui Tony Judt (1948-2010). 

O escritor e historiador britânico na obra 'Pós-Guerra -- História da Europa desde 1945' dedica um capítulo aos acontecimentos de Maio de 1968 (páginas 450-484) destacando o estilo "aparentemente revolucionário" dos tumultos estudantis.  

Os "acontecimentos de Maio" começaram no outono de 1967 em Nanterre, "um desolador subúrbio a ocidente" da capital francesa e onde se localizava uma das extensões "construídas à pressa" da antiga Universidade de Paris.  

Judt recorda que os dormitórios dos estudantes de Nanterre albergavam uma multidão variada de estudantes inscritos, "radicais clandestinos", um pequeno número de vendedores e consumidores de drogas e que não pagavam renda. 

Havia também um "considerável movimento nocturno de um lado para o outro" entre os dormitórios masculino e femininos, apesar "das rigorosas" proibições oficiais. 

"Em Janeiro de 1968 expulsaram um 'ocupante ilegal' e ameaçaram com medidas disciplinares um estudante 'legítimo' Daniel Cohn-Bendit, por ter insultado um ministro", explica o historiador. 

O ministro da Juventude na visita a Nanterre é abordado por Cohn-Bendit que pergunta a François Missofe por que motivo nada era feito para abordar as disputas de dormitório referindo-se a "problemas sexuais". 

O ministro respondendo à provocação sugeriu que se Cohn-Bendit tinha problemas sexuais, devia saltar para a piscina nova construída no campus. 

"Isso é o que a Juventude Hitleriana costumava dizer" respondeu o franco-alemão Cohn-Bendit ao que se seguiram manifestações e a formação de um 'Movimento' contestatário estudantil. 

Duas semanas depois, o campus de Nanterre foi fechado após confrontos de estudantes com a polícia tendo as acções mudado para os "veneráveis" edifícios da universidade à volta da Sorbonne, no centro de Paris. 

"Vale a pena insistir nos temas paroquiais e caracteristicamente próprios que desencadearam os acontecimentos de Maio, para que a linguagem ideologicamente carregada e os ambiciosos programas das semanas seguintes não nos induzam em erro", sublinha o historiador. 

Para Tony Judt, a ocupação da Sorbonne pelos estudantes, as barricadas e os confrontos, nomeadamente nas noites de 10 e de 24 de maio foram conduzidos por representantes da Jeunesse Communiste Révolutionnaire (trotskista) assim como por funcionários dos sindicatos estabelecidos de estudantes e de professores assistentes. 

"Mas a retórica marxista que a acompanhou disfarçava um espírito essencialmente anarquista cujo objectivo imediato era a remoção e a humilhação da autoridade", refere. 

Nesse sentido, afirma Judt, o Partido Comunista Francês desdenhava "com razão" que "aquilo era uma festa e não uma revolução (...) tinha todo o simbolismo de uma revolta francesa tradicional", mas nenhuma substância. 

"Os jovens homens e mulheres das multidões de estudantes eram esmagadoramente de classe média -- na verdade, muitos eram da própria burguesia parisiense: 'fils à papa' (meninos do papá) como o dirigente do PCF, Georges Marchais ironicamente lhes chamava", refere o historiador. 

"Quando chegou a altura podia contar-se com a polícia, especialmente a polícia de choque, recrutada entre os filhos dos camponeses provincianos pobres e nunca relutantes em rachar as cabeças da juventude privilegiada parisiense", sublinha. 

Por outro lado, o historiador reconhece que os protestos laborais que eclodiram na mesma altura foram os "maiores da história moderna de França" afirmando que os trabalhadores estavam genuinamente "frustrados com as suas condições de vida". 

As greves e manifestações sobretudo o sector industrial que acompanharam os confrontos - provocando uma crise política ao governo de Pompidou -, os acontecimentos estudantis "tiveram um impacto psicológico fora de todas as proporções do seu real significado" e dirigidas por jovens telegénicos, atraentes e eloquentes, mas que não destacaram figuras femininas. 

"Não havia mulheres entre os dirigentes estudantis (...). A revolta juvenil de 1968 falava muito de sexo, mas não estava preocupada com as desigualdades de género", escreve Judt concluindo que no final quem vence as eleições são os mesmos conservadores que mantinham o poder.

"Nas eleições parlamentares que se seguiram, os partidos gaulistas governantes obtiveram uma esmagadora vitória, aumentando a sua votação em mais de um quinto e garantindo uma impressionante maioria na Assembleia Nacional. Os trabalhadores voltaram ao trabalho. Os estudantes foram para férias", escreve Tony Judt acrescentando que as reivindicações dos estudantes, "apesar dos punhos cerrados" eram perfeitamente acessíveis.

O historiador refere ainda que os acontecimentos foram "curiosamente" pacíficos e que "nenhum estudante foi morto em Maio de 1968" e que exceptuando a fractura interna no ensino superior nenhuma instituição foi seriamente questionada.

Por oposição, no continente europeu, o autor destaca a importância dos factos ocorridos na Checoslováquia, e que levaram à invasão soviética, e as lutas laborais em Itália assim como as manifestações estudantis na Alemanha, em 1968. 

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,24 abr 2018 8:08

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  25 abr 2018 0:24

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