De acordo com o estudo, só no ano passado, uma em cinco crianças entre os 12 e os 17 anos que utilizam a internet foram aliciadas e exploradas nas plataformas digitais por pessoas que já conheciam ou conheceram 'online', sendo que apenas 1% dos casos foi comunicado às autoridades.
A investigação concluiu que estas crianças abusadas apresentavam quatro vezes mais pensamentos e comportamentos suicidas e quatro vezes mais probabilidade de se automutilarem.
Além disso, os seus níveis de ansiedade estavam cerca de 11 pontos percentuais acima do dos seus pares.
Admitindo estar profundamente preocupados com estas associações, os investigadores alertaram ainda que "os impactos profundos podem estender-se muito para além do incidente imediato, afetando a escolaridade, os relacionamentos e a vida quotidiana das crianças".
A maioria das situações de abusos (60%) aconteceu nas redes sociais, com destaque para Facebook (50%), WhatsApp (29%), Instagram (24%), Snapchat (13%) e TikTok (12%), mas uma parte importante (14%) acontece também em plataformas de jogos 'online'.
O estudo avisou ainda que estes resultados podem ser apenas parte de um problema maior, já que os cerca de 20 milhões de crianças afetadas representam apenas uma fração do mais de mil milhões de adolescentes no mundo.
"Há riscos presentes onde quer que as crianças se encontrem" e "o verdadeiro número global de crianças sujeitas a este abuso ascende certamente a dezenas de milhões", admitiram as organizações que elaboraram o estudo, sublinhando que "ignorar o problema não beneficia ninguém, a não ser aqueles que causam ou facilitam o dano".
O relatório especificou que dos 20 milhões de crianças afetadas naqueles países em 2025, 15 milhões foram expostas a conteúdos sexuais indesejados, nove milhões foram solicitadas a participar em conversas de natureza sexual ou a partilhar imagens sexuais contra vontade e quatro milhões tiveram imagens sexuais suas partilhadas sem permissão.
Em mais de metade dos casos (57%), o agressor já era um conhecido da criança e, em nove dos países, uma em cada quatro crianças foi explorada e abusada por outra criança.
Além disso, ficou demonstrado que o abuso é também influenciado pelo género, já que as raparigas são habitualmente ameaçadas com denúncias para as manter em silêncio e os rapazes veem os seus medos minimizados ou é-lhes incutida a ideia de que devem lidar com a situação sozinhos ou são ameaçados com revelações falsas sobre a sua orientação sexual.
Os investigadores concluíram ainda que o sistema não consegue apoiar as crianças que precisam de ajuda.
Mais de quatro em cada 10 casos não foram contados a ninguém e quando as crianças contam, o mais provável é que o façam a um amigo, a um irmão ou à mãe.
Menos de 1% referiu a experiência à polícia, a um assistente social ou a uma linha de apoio, avançou o estudo, explicando que em 25% dos casos o silêncio se deveu a não saberem para onde ir ou a quem contar.
"Isto é uma falha do sistema. Notavelmente, algumas crianças entrevistadas disseram que permaneceram em silêncio por medo de perder o acesso aos dispositivos ou plataformas, um lembrete de que o simples corte do acesso das crianças pode aprofundar o próprio silêncio que as deixa desprotegidas", alertou o relatório.
A investigação, denominada "Disrupting Harm", é um dos maiores estudos do género e foi realizada pelo Fundo da ONU para a Infância (Unicef), em parceria com a rede global de organizações não-governamentais dedicada a erradicar a exploração sexual de crianças ECPAT International e com a Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal) em 21 países de África, Ásia, América Latina e Caraíbas e Europa de Leste.
O estudo implicou inquéritos com representatividade nacional a cerca de 21.000 crianças utilizadoras da internet e entrevistas aprofundadas a mais de 100 jovens sujeitos a abuso sexual facilitado pela tecnologia durante a infância, mais de 500 profissionais da linha da frente e agentes da autoridade que trabalham diretamente com casos de abuso, revisões das políticas e legislação nacionais.
Foto: depositphotos
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