Fome aumenta no mundo e guerras ameaçam segurança alimentar global

PorExpresso das Ilhas, Lusa,14 out 2026 14:17

Após quase duas décadas de progressos, a fome no mundo aumentou face a 2018, afastando o objetivo de erradicar a fome até 2030, indica uma ONG. A presidente da Welthungerhilfe alerta que guerras são um dos fatores que contribuem para a crise alimentar global.

Após quase duas décadas de progressos, a fome no mundo aumentou face a 2018, afastando cada vez mais o objetivo internacional de a erradicar até 2030, indica hoje uma organização não-governamental internacional.

Para a presidente da Welthungerhilfe (Ajuda Mundial contra a Fome), Marlehn Thieme, a situação é alarmante, uma vez que as guerras são um dos fatores que contribuem para esta situação, salientando que os conflitos, apesar de terem um alcance regional, ameaçam a segurança alimentar à escala global.

Thieme falava na apresentação do relatório anual desta organização não-governamental alemã, elaborado em conjunto com o Instituto de Direito para a Manutenção da Paz e Direito Internacional Humanitário (IFHV) da Universidade de Bochum e a organização suíça Helvetas, em que é analisada a relação entre a fome e a segurança.

"As 645 milhões de pessoas que passam fome em todo o mundo são um sinal de alarme. Com demasiada frequência, a segurança é entendida apenas em termos militares. No entanto, a segurança alimentar é uma condição prévia para a paz e a estabilidade", salientou.

"As guerras provocam frequentemente fome, e a fome pode agravar ainda mais os conflitos. Ao mesmo tempo, os conflitos atuais ameaçam empurrar ainda mais pessoas para a fome, incluindo em regiões distantes das frentes de batalha", referiu.

A interrupção das rotas comerciais, a subida dos preços da energia e dos fertilizantes e a paralisação das cadeias de abastecimento põem em risco a alimentação de milhões de pessoas, mesmo longe das regiões diretamente afetadas pelos conflitos, acrescentou.

Thieme apontou como exemplo a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, uma vez que os dois países representam um quarto do comércio mundial de trigo.

Devido aos bloqueios às exportações no mar Negro e à redução das sementeiras nos dois países, o trigo escasseia cada vez mais em todo o mundo. Consequentemente, especialistas das Nações Unidas preveem aumentos de preços com consequências de grande alcance para muitos países do Sul Global.

Esta tendência é agravada pela guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão e pelas perturbações no tráfego marítimo no estreito de Ormuz e no estreito de Bab el-Mandeb, no mar Vermelho.

Segundo Thieme, estas situações estão a provocar a subida dos preços dos fertilizantes e do gasóleo e, consequentemente, dos custos energéticos para a economia e a agricultura, não só na Alemanha, mas sobretudo na Ásia e em África.

Por esse motivo, Thieme defendeu um alargamento do conceito de segurança, sublinhando que tal "significa mais do que força militar, proteção das fronteiras e capacidade de defesa" e que "começa onde as pessoas conseguem satisfazer as suas necessidades básicas".

"Quem combate a fome reforça também os alicerces da coesão social, da estabilidade e de uma paz duradoura. Sem segurança alimentar, não pode haver, em qualquer caso, segurança duradoura", afirmou.

Thieme assinalou que o Índice Global da Fome (GHI), que em 2018 se situava nos 17,6 pontos, subiu para os atuais 18,1 pontos. Acrescentou que é particularmente alarmante o facto de a situação da fome se ter agravado em 32 países desde então, enquanto noutros 20 os progressos estagnaram.

"Todos estes números mostram que nos estamos a afastar cada vez mais do objetivo internacional de acabar com a fome até 2030. É particularmente preocupante que, em 57 países, seja muito provável que, se a tendência se mantiver, nem sequer seja possível alcançar um nível baixo de fome até 2030", alertou Thieme.

foto: DEPOSITPHOTOS

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,14 out 2026 14:17

Editado porAndre Amaral  em  14 out 2026 17:30

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