A decadência do Liceu Ludgero Lima de 1984 a 2014

PorExpresso das Ilhas,12 jan 2015 0:00

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Tem vindo a tornar-se hábito antigos alunos de liceus e universidades reunirem-se para confraternizar e relembrar épocas passadas. Tais reencontros são normalmente feitos à volta de datas simbólicas e acontecem com maior frequência quando os convivas vão avançando no irreversível processo da idade.

Esse tipo de encontros são muito frequentes lá fora, mas aqui nas ilhas verdianas não eram muito habituais até há alguns anos. Provavelmente, os obstáculos colocados a um povo que vive espalhado pelo mundo terão dificultado durante muitos anos esses reencontros, até que o advento das redes sociais combinado com mais alternativas de voo para regressar à terra-mãe possibilitaram esta recente tendência.

Para não fugir a mais esta regra mundana, fruto da globalização, eu e os meus colegas reunimo-nos no passado dia 27 de Dezembro para comemorar os trinta anos (como o tempo voa!) de finalistas do Liceu Ludgero Lima (LLL), aqui na cidade do Mindelo.

O ponto de encontro foi, como não podia deixar de ser, o nosso liceu, que na altura era o único na cidade, mas que hoje é mais um entre os três existentes.

À porta da entrada e à hora combinada foram muitas as emoções, entre abraços e exclamações. Apesar do pouco tempo de preparação do evento, veio gente dos States, da Noruega, da Suécia, de Portugal e, claro está, das várias ilhas. Antigos colegas de turma que já não se viam há precisamente trinta anos, outros que ninguém sabia onde estavam, outros ainda que não se lembravam de alguns colegas, etc. A excitação e a barulheira eram tantas que mais parecíamos finalistas de 2014 e não do longínquo ano de 1984 do século e milénio passados. Nesse particular, não fossem algumas franjas de cabelos brancos e uns quilitos a mais e ninguém diria que se tinha passado tanto tempo. Ainda bem que tudo aconteceu num sábado e em plenas férias, pelo que o ruidoso evento passou despercebido aos petizes a quem reprovamos hoje essas atitudes.

Passada a primeira meia hora de reconhecimento mútuo, partimos para uma visita guiada feita pelo actual director do liceu, mais jovem do que nós, e que teve a amabilidade de tirar uma manhã das suas férias para nos proporcionar estes momentos inesquecíveis.

Logo no início, começámos a notar o estado de degradação das portas, depois as várias partes do edifício a precisarem de manutenção e até reparação urgente, enfim, um cenário que a maioria não estava à espera de encontrar, apesar das notícias que se vão ouvindo da decadência deste que é um dos mais antigos liceus do país.

Os sorrisos foram paulatinamente desaparecendo e as exclamações de agradável surpresa de momentos antes foram sendo substituídas por interjeições de desagrado. O que aconteceu ao nosso liceu!? Como foi possível deixar este activo patrimonial chegar a este ponto de degradação!? Como é que se explica que um liceu frequentado por mais de mil alunos do ensino secundário funcione neste estado?

Acostumado a estas reacções, o director conduziu-nos para o pátio e, pausadamente, lá nos foi explicando a situação, contabilizando os montantes necessários para a reabilitação do liceu. Falou da contribuição que outros ex-alunos têm vindo a dar através de uma associação criada para esse efeito, entre outras explicações às nossas perguntas.

Mas o que custou ainda mais a acreditar, foi saber que este liceu já esteve pior do que está! Ali no meio do pátio, onde passámos parte de um dos melhores períodos das nossas vidas, olhávamos ao redor incrédulos, tentando imaginar esse estado pior do que estávamos a ver.

Pior foi imaginar o liceu a funcionar durante anos sem casas de banho, com janelas a caírem e com alunos lá dentro. Como foi possível permitir isso? Os pais, que são cidadãos deste país, cujos impostos financiam o funcionamento do Estado, recebem desse mesmo Estado que é de todos um serviço com esta qualidade: ter os filhos a estudarem num liceu sem casas de banho, em total estado de degradação, sem equipamentos, sem laboratórios!?

Que tipo de cidadãos podem ser formados numa escola nesse estado? Como exigir higiene sem casas de banho? Como ensinar que temos que conservar os nossos materiais, os equipamentos da escola e o próprio liceu num ambiente de degradação e abandono? Que respeito poderão ter esses futuros cidadãos por um Estado que não cuida minimamente do estabelecimento onde eles como alunos passam uma boa parte das suas vidas?

E depois falamos em perda de valores!

Alguém aventou a hipótese de que a parede exterior do ginásio estava carcomida pelo efeito cáustico de se ter tornado num urinol improvisado dos rapazes – ficou por desvendar o mistério de como as moças resolveram o seu problema durante todos esses anos...

No meio da discussão/debate que se seguiu, foi referido que a actual ministra da Educação, cujo ministério é o dono dos liceus públicos do país (incluindo o LLL), foi professora e directora desse mesmo liceu e que por essa razão há alguma esperança de que as coisas possam vir a melhorar.

Um dos nossos colegas que reside há 30 anos na Noruega, onde é sociólogo, puxou-me pelo braço e não conteve um desabafo: “o liceu tem que ser mantido não porque a actual ministra foi aqui directora, mas porque o governo tem que ter políticas que assegurem isso”. E eu a sentir saudades da Noruega... argumentos como esses não existem nessas paragens. Lá na fria Escandinávia, os Estados não brincam no serviço que prestam aos seus cidadãos; lá os governantes servem humilde e competentemente os respectivos povos, por cá exercem poder...

Normalmente, quando faço desabafos destes dizem-me que é porque esses países são desenvolvidos. Tenho opinião contrária: esses povos, que já foram pobres, desenvolveram-se por causa da forma responsável como se governam – o desenvolvimento é uma consequência, não a causa.

Regressando à nossa visita, disse-se que 800/900 contos seriam suficientes para pintar o liceu. Lembrei-me logo que uns dias antes o nosso Parlamento chumbou uma proposta de um partido da oposição (MpD) para a criação de um fundo para acudir as malogradas populações de Chã das Caldeiras na ilha do Fogo; o dinheiro para esse fundo seria proveniente de alguns cortes nas despesas menos prioritárias de vários ministérios; entre essas despesas estava uma verba de 20 mil contos para a renovação do parque automóvel do Ministério da Educação!

De seguida, ainda tivemos um momento de descontracção, quando entrámos numa sala de aulas onde as carteiras são as mesmas do nosso tempo, e aproveitámos para, com alguma dificuldade, matar saudades de nos sentarmos naquelas relíquias. Alguém fez o cálculo seguinte: o LLL foi construído na década de 1960; nós entrámos no ano de 1977/78 e encontrámos essas carteiras, que na altura eram relativamente novas. Uma vez que são as mesmas que usámos durante 7 anos e lá deixámos em 1984, significa que essas resistentes carteiras têm pelo menos a bonita idade de cerca de meio-século. Nada mau.

Os laboratórios onde estudámos ainda existem mas não funcionam, porque os equipamentos estão obsoletos. Eu e o pessoal do antigo 5º Grupo (Ciências) encontrámos lá os mesmos minerais e animais embalsamados do nosso tempo. Idem aspas para os laboratórios de física e química, cheios de equipamentos que devem ter custado uma fortuna na época e que hoje dariam um bonito museu, como se disse.

Quando fui estudar para Portugal com apenas o 7º ano dos liceus de Cabo Verde, sabia fazer experiências de química de que os meus colegas portugueses com o 12º ano (um ano a mais do que eu) nunca tinham ouvido falar. Outros contemporâneos meus saídos do LLL e que foram para os Estados Unidos na década de 80 davam explicações de Matemática aos seus colegas americanos!

Hoje, trinta anos depois e após um incontável número de reformas educativas, aos alunos verdianos são impostos testes de língua portuguesa nas universidades brasileiras porque não dominam adequadamente a língua de Camões, tão nossa como dos nossos irmãos de sangue brasileiros. Os meus ex-colegas portugueses dos tempos da universidade até hoje contam histórias de como eu os corrigia durante os trabalhos de grupo e de como me diziam: “e vieste tu lá das Áfricas para nos corrigir!”.

Somos um país de rendimento médio especialista em mobilizar verbas homéricas para portos, aeroportos, barragens e outras impressionáveis obras de vulto, mas que não consegue ter verbas para a manutenção de um dos mais bem concebidos liceus do país e que é uma referência histórica do ensino – em cujas salas tantas personalidades da nossa sociedade estudaram.

Em 1984, havia apenas dois liceus no país onde os alunos podiam completar o 7º ano: um na capital, Praia, e outro no Mindelo, o LLL. Havia no Sal um pequeno liceu que formava alunos até ao antigo 5º ano. Hoje, em 2014, temos 44 liceus espalhados por todas as ilhas e concelhos do país.

Só na década de 90 do século passado, foram construídos 29 liceus, numa avassaladora onda de betão destinada à educação, que à média de cerca de 3 liceus por ano espalhou o ensino secundário por estas ilhas que sempre se orgulharam de ter uma taxa de escolaridade acima da média do império português da época e, hoje em dia, da sub-região e do continente africano (o nosso novo benchmarking para tudo e mais alguma coisa).

Estou ansioso para ver em que estado estarão todos esses novos liceus daqui a uns anos. Os finalistas de agora vão ter a mesma desagradável surpresa que nós tivemos, quando daqui a alguns anos vierem de todos os cantos do mundo confraternizar nos seus liceus?

Eu não ficarei surpreendido, infelizmente.

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Autoria:Expresso das Ilhas,12 jan 2015 0:00

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

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