Estrangeiros na própria terra

PorJosé Almada Dias,26 jul 2017 6:27

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Fui visitar a bonita ilha da Boa Vista e passei lá uma semana. Há anos que não tinha essa oportunidade, tendo apenas passado pela ilha várias vezes na ida e regresso de Inglaterra, aproveitando os voos charter que o turismo trouxe.

Foi uma ocasião para rever velhas amizades e, mais uma vez, passar as festas do município, que se realizam a 4 de Julho, data ícone dividida com os Estados Unidos, embora os boavistenses emigrem pouco para a América.

Desenvolvi com as ilhas do Sal e da Boa Vista uma relação especial, que data dos primórdios da minha actividade empresarial. Em 1992, recém-chegado dos bancos da Universidade do Algarve, fui logo agraciado com duas funções, qual delas a mais importante: responsável nacional da pesca da lagosta e chefe da Divisão de Estatísticas do Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas (INDP). Bons tempos em que um recém-formado começava a sua actividade profissional a acumular cargos de chefia, obrigado a um crescimento pessoal e profissional prematuro. Volvidos 25 anos, este mesmo país colecciona recém-formados no desemprego, que já se contam aos milhares, e cujo número aumenta todos os anos nesta altura do ano.

As minhas elevadas funções levavam-me a viajar para essas duas ilhas numa base quase trimestral. Lembro-me da praia de Santa Maria com apenas dois pequenos hotéis e lembro-me da Boa Vista sem hotéis nem restaurantes. Ainda conto a experiência da primeira vez que viajei para a Boa Vista e de como passei fome nessa noite, porque à hora do almoço não encomendei logo o jantar... era assim a pacata ilha da Boa Vista há 25 anos, com os seus cerca de 3.500 habitantes.

Durante os 5 anos em que estive no INDP, criei estreitos laços com as gentes dessas ilhas, onde mantenho muito bons amigos. Vi com tristeza morrer mergulhadores da pesca da lagosta, por não observarem as regras de segurança dessa perigosa actividade. Orgulho-me de ter organizado o que terá sido um dos primeiros cursos de mergulho com o professor Munaya. Mas para muitos dos meus amigos mergulhadores já era tarde...

Já nessa altura, depois de ter passado 6 anos no Algarve e de ter assistido ao boom turístico da região, eu sonhava com turismo para as extensas praias que via das embarcações quando saía para o mar com os mergulhadores das ilhas do Sal e da Boa Vista.

Partilhei na altura esse sonho de ver hotéis nessas praias com algumas pessoas que se riram de mim: turismo nestas nossas ilhas? Quem quer ver estas “rotchas” nuas?! O cabo-verdiano, traumatizado com a falta de chuvas, julgava que turísticas só podiam ser paisagens verdejantes: ainda não se conhecia o Algarve nem as Canárias...

Ainda argumentei que, quando tinha 9 anos, havia acompanhado a minha mãe à Boa Vista quando ela lá foi fazer exames, uns dias depois da independência, a 5 de Julho de 1975, e que nessa altura levaram-nos à já famosa praia de Santa Mónica, mostrando-nos alguns resquícios de construções de investidores alemães que quiseram construir dezenas de hotéis e um aeroporto internacional na ilha. Reza a história que o ditador português Salazar lhes disse que não, que investissem no Algarve. Agastados, terão ido contactar outro ditador, Franco, de Espanha, que lhes abriu as portas das ilhas Canárias. E assim, mais uma vez, Cabo Verde foi ultrapassado, mais uma oportunidade perdida nos anais da história martirizada destas ilhas que alguém chamou de afortunadas.

Mas tive de me calar e meter no saco os meus sonhos de jovem imberbe. Hoje, muitos dos que troçaram de mim são grandes arautos do mau turismo que temos.

Porque não foi, de maneira nenhuma, o turismo que hoje temos que fazia parte dos meus sonhos. Nos 6 anos que vivi no Algarve, vi ser construído aquele que hoje é considerado um dos melhores destinos turísticos do mundo, aonde tenho sempre o prazer de regressar para constatar repetidamente que pode haver turismo com segurança, paz e tranquilidade nas cidades. Ainda hoje caminho à noite ou de madrugada em qualquer cidade algarvia com uma segurança que não tenho em muitas cidades do meu país. O Algarve tem 4.996 km2 (Cabo Verde, 4.033 km2); tem uma população de 444.390 pessoas e, em 2016, registou um recorde de 14,2 milhões de dormidas.

Na ilha da Boa Vista, com 15.533 habitantes, já temos assaltos à mão armada a turistas, quando há bem poucos anos ninguém fechava as portas das suas casas...

Nesta minha estadia, fui visitar o Hotel Marine Clube, um dos primeiros da ilha. Quando foi construído, esse hotel tinha uma grande interacção com a comunidade local. Era o lugar dos grandes eventos, um dos maiores financiadores do Festival da Praia de Cruz, na praia mesmo à frente do hotel. Tantas vezes fui lá almoçar e jantar nas férias. Ou apenas ir lá tomar um café com amigos. Desta vez, fui barrado à porta, porque o hotel foi convertido à modalidade all-inclusive, essa moda que invadiu Cabo Verde.

Enquanto fazia meia-volta, não pude deixar de me lembrar dos crioulos das Seychelles, que proíbem essa modalidade porque dizem que o turismo é para beneficiar primeiro as suas próprias populações. Nós constatamos isso, visitando vários hotéis naquelas ilhas crioulas africanas. Nem no meu tempo de estudante no Algarve eu tinha tido esta experiência de ser barrado à porta...

É assim, hoje, aos cabo-verdianos é vedado o acesso a um mundo à parte dentro do seu próprio país, onde só entram para trabalhar ou se forem clientes do hotel.

Naturalmente que nem tudo está mal na ilha da Boa Vista. Houve um enorme crescimento económico e demográfico, e hoje a ilha é um dos pólos mais dinâmicos do país. A questão é o gosto amargo que fica na boca quanto ao aspecto do desenvolvimento.

As estatísticas demográficas do INE mostram uma realidade que se pode ver no quadro seguinte.

 

Ano

1990

2000

2010

2016

Nº habitantes

3.427

4.209

9.162

15.533

 

Segundo o INE, em 2016, dos 15.533 habitantes, 56,1% são naturais de outra ilha e 12,8% são imigrantes. Ou seja, os boavistenses passaram a ser uma minoria na sua própria ilha.

A ilha possui apenas 2,9% da população do país, mas mesmo assim concentra 29,3% das camas turísticas de Cabo Verde e 40,7% das dormidas, o que diz muito do nosso planeamento turístico, num país em que todas as ilhas são turísticas e que possui 4 aeroportos internacionais. Mas a estatística que chama mais a atenção é que a ilha possui apenas 8,3% de pobres!

Deixei para o último dia para ir conhecer o famoso bairro de barracas, onde vive grande parte das pessoas que chegaram à ilha seguindo o atabalhoado boom turístico da mesma.

O referido bairro é bem pior do que eu imaginava... Ao aproximar-me de carro e entrar, fiquei chocado! Por momentos, fui transportado para os bairros limítrofes de cidades africanas que conheci bem dos meus tempos da Shell, como Dakar, Abidjan ou Accra. Barracas andrajosas, desalinhadas em becos, ruas sujas e nauseabundas, um mundo que nunca esperei ver no meu país!

Na ilha onde se gera o maior PIB per capita do país é onde as condições de vida dos cabo-verdianos são mais deploráveis; foi para isto que ascendemos à independência política? Foi para ter estes resultados que abrimos o país ao investimento externo?

Ao longo da história, os cabo-verdianos foram sempre pobres e viveram em casas humildes; hoje, trabalham em ambientes bem mais sofisticados do que debaixo do sol abrasador dos campos agrícolas, mas vivem de forma indigna em pleno século XXI.

Os 3 pólos de maior dinâmica económica estão pejados de bairros de barracas – Praia, Sal e Boa Vista; ou seja, onde a nação cabo-verdiana conseguiu imprimir algum crescimento económico significativo, o resultado para as populações é desastroso num dos aspectos mais fundamentais para os seres humanos: o direito a habitação condigna e condições de vida saudáveis, sobretudo para as crianças.

Não aguentei percorrer o bairro, hoje denominado de “Boa Esperança” (o nome só pode ter sido escolhido como brincadeira de mau gosto!), inverti a marcha e procurei sair de lá o mais depressa possível.

No caminho de saída, passei por uma jovem crioula cabo-verdiana toda bem fardada (e certamente perfumada), a caminhar pelas ruas húmidas de água suja, dirigindo-se para o centro da cidade para ir trabalhar nos hotéis; fiquei a pensar quantas centenas de pessoas fazem todos os dias esse percurso sobre aquele piso de terra nauseabundo a caminho dos hotéis onde trabalham – onde está a higiene? É este o turismo de qualidade que pretendemos?

O INE diz que apenas 8,3% da população residente na Boa Vista é pobre; para isso utiliza indicadores que aplica (indevidamente) a todo o país.

Num tempo em que se fala a nível mundial de economia da felicidade e de outros conceitos para além dos tradicionais indicadores economicistas, eu diria que os que vivem nas barracas, que constituem a maioria da população da outrora limpa e arranjada ilha da Boa Vista, não vivem realmente na pobreza, vivem na mais pungente miséria humana.

Um gueto habitado maioritariamente por gente vinda da ilha de Santiago, um autêntico submundo que não se mistura com o resto da população residente de uma ilha dividida em mundos estanques: turistas nos hotéis, população autóctone rodeada de barracas de imigrantes, por sua vez rodeados de casas sociais desabitadas do famoso programa Casa para Todos.

Uns dias antes da minha viagem, perguntei a uma grupo de 5 alunas da Boa Vista, de uma das minhas turmas universitárias, se a influência do crioulo de Santiago não se estava a fazer sentir no crioulo da ilha delas e na sua engraçada forma de falar. Responderam-me que não, porque os santiaguenses viviam no bairro de barracas... ao que parece, a inclusão social entre cabo-verdianos na ilha das dunas é por enquanto uma miragem.

Agora percebo melhor o pavor que vi e ouvi na ilha do Maio há 2 meses em relação à hipótese de se repetir na ilha o que se passa hoje na vizinha ilha da Boa Vista.

Quem foram os responsáveis pelo crime humanitário, urbanístico, social e ambiental que se abateu sobre a ilha da Boa Vista? Uns dirão que foi a Câmara Municipal, por não ter travado a proliferação das barracas; sem dúvida, mas não foi a autarquia quem autorizou a construção de hotéis de centenas de quartos numa ilha com pouco mais de 3 mil pessoas. O Governo de Cabo Verde, liderado durante 15 longos anos por José Maria Neves, o homem do amor à terra, foi quem deixou que isso acontecesse. Um governo de um partido que se diz de esquerda, que defende o humanismo, etc., etc. Já imaginaram se eles não fossem de esquerda?!

Custava assim tanto ter negociado com os investidores contrapartidas em termos de habitação social, em troca dos incentivos previstos no estatuto de utilidade turística? Certamente que os investidores seriam os primeiros interessados em evitar que na ilha se criasse um gueto desses.

Regressei da Boa Vista profundamente envergonhado e revoltado. Este não é o Cabo Verde com que sonhei, não foi esse o turismo que desejei e muito menos foi esse o impacto que imaginei ver. Quando o avião descolou, pude constatar do ar o autêntico desastre que se abateu sobre a ilha, e fiquei a pensar que é essa a última imagem que os turistas levam de uma das mais bonitas ilhas de Cabo Verde, um país que gosta de acreditar que é uma referência em África e no mundo...

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 816 de 19 de Julho de 2017

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Autoria:José Almada Dias,26 jul 2017 6:27

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  21 jul 2017 12:44

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