Identidade crioula: Mindelo, a Mónaco dos trópicos e a Riviera Crioula (I)

PorJosé Almada Dias,11 out 2017 6:05

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O Príncipe Alberto II do Mónaco visitou Cabo Verde, recriando uma viagem oceanográfica que o seu antepassado Alberto I tinha feito a estas ilhas em 1901.

Apesar deste “link” antigo, as relações diplomáticas entre o Principado do Mónaco e Cabo Verde começaram há apenas 10 meses, segundo noticiou a imprensa local.

Pude assistir à cerimónia que decorreu aqui no Mindelo e pude ouvir a real e entusiástica intervenção do Príncipe, que me aqueceu o coração de cabo-verdiano e as minhas esquecidas costelas de biólogo marinho. Posteriormente vi referências na imprensa sobre as possibilidades de cooperação futuras entre o Principado e o nosso país, com foco na economia marítima e até no futebol, que o nosso chefe de Estado terá começado a equacionar de forma empreendedora e assumindo a sua quota-parte de diplomacia económica, o que merece os meus aplausos.

Em Dezembro de 2016 fui desafiado pela Câmara de Turismo de Cabo Verde a discorrer sobre o futuro do turismo das ilhas do Norte (ou Noroeste), ou seja, Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia a e São Nicolau, durante o VII Encontro Internacional de Turismo (EITU) que decorreu na cidade da Praia. Um desafio que aceitei, apesar da enorme responsabilidade subjacente.

Nessa minha intervenção, posicionei-me como agora é moda no ano de 2030 e retratei o seguinte, enviando um postal da região no futuro:

  • •A Região do Norte é uma região turística com cerca de 250 mil habitantes
  • •Recebe por ano 750 mil turistas = 3 turistas/habitante
  • •O PIB per capita da região situa-se nos US$15.000
  • •O desemprego situa-se nos 3%
  • •S. Vicente passou a ter duas cidades
  • •S. Antão e S. Nicolau reverteram a situação de perda de população de 2016
  • •Porto Novo tornou-se numa cidade-resort que duplicou a sua população - 25% são reformados europeus
  • •Ponta do Sol é uma cidade turística hoteleira
  • •Tarrafal de S. Nicolau é também uma cidade-resort – também duplicou a sua população, com 25% de reformados europeus
  • •Ribeira Brava é uma cidade turística e universitária
  • •Mindelo é mundialmente conhecida como a Mónaco dos Trópicos e possui a maior marina do mundo
  • •A região é conhecida no mundo como a Riviera Crioula.

Seguidamente justifiquei todo esse desenvolvimento com várias acções que foram decorrendo ao longo dos anos entre 2016 e 2030 e que levaram a esses resultados. Devo dizer, que das várias intervenções do tipo que já fiz em várias ilhas, esta na Praia foi a mais bem conseguida e a mais aplaudida, apesar de não estar a falar nem da Praia nem de Santiago.

Quase um ano depois vou agora concentrar-me em dois dos conceitos defendidos na altura: Mindelo, a Mónaco dos trópicos e a região norte como a Riviera Crioula.

Começo por explicar o porquê da utilização de nomes de outras regiões do planeta. A Riviera é hoje uma marca conhecida internacionalmente e associada a regiões com turismo de alto standing, ao glamour, ao turismo de lifestyle; trata-se de destinos turísticos que escolheram de forma inteligente uma estratégia de foco nos nichos de mercado de pessoas das classes altas e com alto poder aquisitivo, atraindo ricos e famosos, que por sua vez se tornam um magnete que atrai outras pessoas endinheiradas que querem estar onde acontecem as coisas, principalmente os novos-ricos deste mundo cada vez mais cheio de novos milionários e bilionários (russos, chineses, do Médio Oriente, da África, etc), que querem desfilar a sua riqueza onde possa ser vista. 

Inicialmente existia apenas a Riviera italiana, de onde o nome é originário. Seguidamente a vizinha e mundialmente famosa Côte d’Azur no sul da França, passou também a ser conhecida como a Riviera Francesa e a marca tornou-se sinónimo de sucesso no mundo do show biz, do lifestyle, significando em termos práticos turismo de altíssimo valor acrescentado (leia-se desenvolvimento) para as regiões que fizeram uma aposta nessa marca e nesse tipo de turismo.

Um dos exemplos é o México, que após décadas de turismo, criou em 1999 a Riviera Maya, numa extensão de costa de 130 km por iniciativa de um autarca local, num planeamento visionário para 20 anos. Note-se que a região começou por ser conhecida como “Cancum-Tulum Corridor”, utilizando a marca da já na altura famosíssima Cancun, mas acabou por ser rebatizada como Riviera Maya, para tirar partido das vantagens de ter associada a marca Riviera. Uma iniciativa de origem municipal que teve a bênção de todo o país.

Hoje a marca Riviera espalhou-se no mundo, em países como a Croácia, Suíça, Albânia, Áustria, Brasil, EUA e muitos outros; a zona entre Cascais e Lisboa é já conhecida como a Riviera Portuguesa.

A utilização dessa marca insere-se pois numa estratégia de marketing de destinos turísticos ribeirinhos que pretendem um tipo de turismo de alto valor acrescentado e diametralmente oposto ao turismo barato e massificado de outras zonas costeiras.

Ou seja, não estamos a inventar a roda por cá, outros já o fizeram com sucesso antes.

A nossa Riviera deverá chamar-se Crioula, porque somos o primeiro país crioulo do mundo pós-Descobrimentos, um facto distintivo do qual podemos tirar partido quando estivermos a comunicar com os cultos turistas endinheirados de hoje e do futuro.

No VII EITU defendi que a cara da Riviera Crioula deverá ser Cesária Évora por muitas e boas razões, algumas das quais cito:

Nasceu, cresceu e aprendeu a cantar na ilha de São Vicente;

A mãe é de Santo Antão;

A sua música mais famosa diz: “Sodade de nha terra S. Nicolau”.

Cesária Évora, a Diva dos Pés Nús, a Rainha da Morna, ela em si mesma uma marca que este país já deveria estar a explorar seriamente e com enormes benefícios…

As Rivieras são zonas turísticas onde impera o glamour, e de glamour sempre viveu a cidade do Mindelo, a cidade dos eventos e capital cultural destas ilhas ricas em cultura. Um glamour diferente, um glamour crioulo cabo-verdiano.

As evidentes semelhanças entre o Mindelo e o Mónaco têm sido referidas por várias pessoas que por aqui passam; uma delas, o actor angolano com ascendência cabo-verdiana, Pedro Hossi, ao entrar no barco a caminho de Santo Antão exclamou: “eh pá, isto parece o Mónaco!” Quantas vezes já ouvi exclamações semelhantes em diversas línguas, vindas designadamente de conceituados consultores de turismo de várias proveniências.

O Mónaco nem sempre foi um Principado rico, nem tão pouco eram ricas e desenvolvidas as Rivieras italianas, francesas e outras.

No caso do Mónaco, houve uma estratégia inteligente de atração dos milionários para aí se instalarem e guardarem os seus luxuosos iates num lucrativo negócio de marinas onde se pagam preços astronómicos para ter um iate.

Por cá, a Riviera Crioula já tem o isco para atrair os bilionários deste mundo: a pesca desportiva de marlin, que pode ser feita a partir de duas marinas localizadas numa cidade que gosta e respira glamour e cultura e que está implantada numa baía cujo enquadramento paisagístico lhe valeu tornar-se membro do Clube das Baías Mais Bonitas do Mundo, à qual se juntam as paisagens e a autenticidade das ilhas vizinhas de Santo Antão e de São Nicolau, e o paraíso natural virgem que engloba Santa Luzia e os ilhéus.

Não fui convidado para o almoço com o Príncipe, por isso não pude transmitir-lhe ainda o sonho da Mónaco dos Trópicos e da Riviera Crioula, conceitos que venho trabalhando e apresentando há alguns anos.

Mas constou-me que o homem gostou das marinas do Porto Grande e terá dito durante o almoço no restaurante DOKAS, quando alguém lhe fez a inevitável comparação: “il a du potentiel ici”. Mais um a constatar o óbvio. Welcome to the club, dear Prince!

Continuaremos a nossa viagem ao futuro, analisando os caminhos para lá chegar.

PS: vai um abraço de solidariedade crioula para todos os povos crioulos das Caraíbas, Porto Rico e da Florida, vítimas dos furacões IRMA e MARIA, que fazem parte dessas temíveis tempestades apelidadas de “Cape Verde hurricanes”. Há muito que os cientistas vinham avisando para a possibilidade de aumento da frequência, mas sobretudo da potência desses fenómenos, transformados em verdadeiras armas de destruição maciça devido ao aquecimento global. Como é da praxe, os decisores políticos só tomarão medidas quando for tarde demais. E pode já ser tarde demais para os povos crioulos que habitam as turísticas ilhas caribenhas, que no curto prazo poderão tornar-se inabitáveis. A desgraça de uns é quase sempre a bonança de outros. Os devastadores efeitos que esses furacões irão ter na indústria turística dessas ilhas irmãs, constituem uma enorme oportunidade para o turismo cabo-verdiano. A vida é assim, infelizmente. Não aproveitamos convenientemente a Primavera Árabe, pode ser que sejamos obrigados a fazê-lo desta vez… Resta saber se o faremos com qualidade ou se seremos mais uma vez arrastados no canto de sereia de alguns por não sabermos o que queremos. Em honra e memória desses crioulos cujas vidas foram e continuarão a ser desgraçadas, e das nossas futuras gerações, temos o dever moral de ao menos tentar reproduzir por cá os bons exemplos de desenvolvimento arquipelágico que essas ilhas, umas independentes, outras não, já tinham alcançado.  

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 827 de 04 de Outubro de 2017. 

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Autoria:José Almada Dias,11 out 2017 6:05

Editado porRendy Santos  em  11 out 2017 10:22

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