Mindelo, a Mónaco dos Trópicos e a Riviera Crioula (II)

PorJosé Almada Dias,3 nov 2017 14:44

A 22 de Janeiro de 2018, as forças vivas da ilha de São Vicente decidiram aproveitar a vontade manifestada pelo Governo de Cabo Verde de criar uma Zona Económica Especial de Economia Marítima, reunindo-se com o intuito de decidirem o que queriam para o seu futuro, em concertação com as autoridades centrais. Após intensos debates, chegou-se a algumas conclusões:

·    O foco principal da ilha deve ser o turismo, receber pessoas;

·    A vocação da cidade do Mindelo passa de cidade-porto para cidade turística portuária;

·    A ilha posiciona-se para receber um turismo de alto valor acrescentado;

·    Em termos de marketing, a ilha irá posicionar-se como a RIVIERA CRIOULA, inspirando-se nas zonas de turismo de alto standing que ostentam essa marca;

·    A cidade do Mindelo deverá ser tratada como uma cidade-museu;

·    A baía do Porto Grande ambiciona tornar-se na maior marina do mundo;

·    A cidade do Mindelo posiciona-se para ser a Mónaco dos Trópicos;

·    A marca Cesária Évora deverá ser a cara da promoção internacional da ilha e da região.

Nessa histórica reunião de 2018 são apresentados os vectores do turismo da ilha:

·    Turismo urbano e cultural com forte ênfase em eventos culturais e desportivos de cariz internacional;

·    Turismo náutico com âncora principal na pesca desportiva de marlin e outros grandes pelágicos;

·    Turismo de sol e praia;

·    Turismo de golfe e ténis;

·    Turismo de conferências e eventos (MICE);

·    Turismo residencial ligado à saúde e bem-estar;

·    Turismo de cruzeiros;

·    Turismo de jogo (casinos);

·    Turismo científico e universitário.

Ainda em 2018, a Câmara de Turismo de Cabo Verde, em parceria com o Ministério da Economia e Emprego, a Câmara Municipal de São Vicente e a Câmara de Comércio de Barlavento, organiza o 8º Encontro Internacional de Turismo (EITU) na cidade do Mindelo. São convidados de honra:

·    Ministro do Turismo e da Cultura das Seychelles;

·    Governo Regional do arquipélago da Madeira;

·    Representantes das cadeias hoteleiras de luxo: Kempinsky, Minor, Six Senses, Mandarin, Jumeirah, Conrad (Hilton), Sofitel (Acor), Hyatt, IHG, Quorvos (Radisson), Meridien e Sheraton (Starwood);

·    Operadores turísticos e investidores especializados em turismo de luxo, MICE, golfe, desportos náuticos, pesca desportiva, turismo de aventura, casinos, etc.

As propostas arrojadas apresentadas na reunião de 22 de Janeiro são assumidas pelo Governo:

1.  A Cabnave será restruturada e transferida para o concelho do Porto Novo. Nos seus terrenos, considerados os melhores da orla marítima do Porto Grande para desenvolvimento turístico, será erguido, num período de 5 anos, um complexo hoteleiro-residencial com 6 torres, cada uma com um hotel de luxo de 5 estrelas com 250 quartos cada e vários andares de apartamentos. Só os 6 hotéis irão criar mais de 3000 postos de trabalho directos (2 empregos/quarto). Todos os hotéis terão salas de conferências e casinos. Será construída uma marina para iates de luxo, parques infantis, cinemas e outros equipamentos. Estima-se que todo o complexo irá gerar cerca de 6000 postos de trabalho directos.

2.  As instalações da Electra da Matiota e do Lazareto serão transferidas para uma central única localizada em Salamansa (melhor localização segundo os técnicos); no espaço da Matiota irá nascer um resort turístico de luxo.

3.  As instalações da ex-Interbase e da FIC na Laginha irão dar lugar a um complexo hoteleiro com centro comercial, salas de conferência, auditórios para espectáculos, espaços para grandes feiras e estacionamentos subterrâneos.

4.  A praia da Laginha será duplicada em tamanho, estendendo-se até à ex-Cabnave, utilizando-se a areia proveniente da dragagem para a construção do Terminal de Cruzeiros;

5.  A baía do Porto Grande posiciona-se para passar a ser “A Maior Marina do Mundo”, mantendo a sua vocação marítima com foco na náutica de recreio;

6.  Será identificado um importante investidor externo para, em parceria com empresários locais, investir num estaleiro na zona da Onave, para a construção e exportação de iates e pequenas embarcações de recreio;

7.  O turismo de luxo é assumido descomplexadamente como o futuro da ilha de S. Vicente;

8.  A baía do Porto Grande irá preparar-se para ser uma das capitais mundiais da pesca desportiva e das grandes competições da náutica de recreio;

9.  É assumida pelas autoridades a requalificação das praias da Laginha e Baía das Gatas, numa primeira fase, e da Cova de Inglesa/Galé e Calhau, numa segunda, seguindo os estudos técnicos já existentes;

10. Toda a área do Clube de Golfe de São Vicente será transformada num resort de golfe.

Na sequência dessa reunião, a Câmara Municipal de São Vicente acelera o processo de finalização do PDM da cidade do Mindelo, abrangendo toda a orla marítima da baía do Porto Grande, e contrata especialistas para elaborar o master plan turístico de toda a ilha.

Para financiar toda esta transformação, é lançado na praça financeira do Luxemburgo um fundo de investimento de €150 milhões que irá investir capital de risco nos projectos turísticos. O financiamento bancário complementar é garantido pelo Fundo Soberano de Garantia criado pelo Governo de Cabo Verde.

No âmbito da criação da Zona Especial de Economia Marítima, e da Sociedade de Desenvolvimento de São Vicente, o Governo de Cabo Verde mobiliza junto dos parceiros internacionais os montantes necessários para a construção das infra-estruturas, requalificação das praias e transferência da Electra e da Cabnave.

A cidade do Mindelo passa a ser tratada como uma cidade-museu, e é criada uma rede de museus na cidade que contam a sua rica e diversificada história e do seu porto, com realce para o Museu Cesária Évora na casa da falecida cantora.

O calendário de eventos da cidade é assumido oficialmente, e os eventos passam a ter o estatuto de utilidade turística, vindo a ser organizados por profissionais com vista a torná-los vendáveis internacionalmente. A cidade não pára ao longo do ano: Fim do Ano, Carnaval, Março – Mês do Teatro, Festas Juninas, Kavala Fresk Feastival, Mindel Summer Jazz, Festivais de música da Baía das Gatas e da Laginha, Carnaval de Verão, Mindelact, Halloween, etc. tornam-se eventos de referência internacional, atraindo público e turistas nacionais e estrangeiros.

O Eden Park, que alberga a primeira sala de cinema do país, é restaurado e classificado como Museu Nacional do Cinema, onde todos os anos acontece o Festival de Cinema Crioulo, atraindo realizadores e produtores crioulos de todo o Novo Mundo e de outras regiões crioulas.

O projecto do Oceanário do Mindelo é recuperado, tornando-se um importante atractivo turístico que ajuda a viabilizar o turismo de cruzeiros, que aumenta exponencialmente com a construção do Terminal de Cruzeiros do Porto Grande.

Em 2021, fruto de todos estes investimentos, o Mindelo passa a fazer parte do quinteto das Cidades Maravilhosas do Atlântico para passar a Passagem do Ano – Lisboa, Funchal, Las Palmas, Mindelo e Rio de Janeiro.

Em 2022, o Ministério da Cultura consegue que o Carnaval do Mindelo e o da Ribeira Brava passem a ser considerados património da UNESCO, e os ritmos carnavalescos cabo-verdianos são igualmente agraciados como Património Imaterial da Humanidade, à semelhança dos ritmos carnavalescos de Pernambuco, no Brasil, e de Barranquilla, na Colômbia.

Em 2024, São Vicente possui 4 campos de golfe, tornando-se um destino turístico de golfe. O Open do Mindelo passa a acontecer todos os anos no centenário campo da cidade, rodeado pelo Mindelo Riviera Resort, atraindo golfistas de topo mundial e aficionados da modalidade. Idem aspas para o “velho” e cheio de história Clube de Ténis do Mindelo em termos de competições internacionais de ténis.

Em 2025, o Porto Grande passa a acolher as grandes regatas internacionais e competições de vela de todas as categorias. A organização da America’s Cup anuncia que a prova de 2030 será realizada entre o Porto Grande e Porto Novo, garantindo um investimento de mais de €100 milhões no Porto Grande.

Nas praias da ilha, existe uma intensa actividade ligada aos desportos náuticos, designadamente provas de wind-surf, kite-surf e body-board, aproveitando as boas condições de vento e de ondulação. O mergulho de observação e a caça submarina são praticados em toda a região, com especial acompanhamento pelo INDP em Santa Luzia e nos ilhéus Raso e Branco.

A modalidade rainha, a pesca desportiva de marlin e de outros grandes pelágicos, atrai uma endinheirada clientela que participa nas provas internacionais, que são organizadas anualmente, acrescentando glamour à cidade durante todo o ano.

O Mindelo gemina-se com as cidades de Cardiff (País de Gales), Newcastle (Inglaterra) e Oslo (Noruega), cidades com quem divide um passado comum dos tempos do carvão e da pesca da baleia. A Noruega e a Grã-Bretanha passam a atribuir bolsas de estudo a jovens mindelenses na área das pescas, marinha mercante, energias renováveis, turismo, saúde, etc.

O Mindelo passa a ser uma cidade universitária de referência, recebendo estudantes e professores de várias proveniências e o turismo científico e universitário torna-se mais um vector de desenvolvimento da ilha. O ISCEE mobiliza parcerias financeiras e transforma-se numa Business School de referência atlântica. Os curricula possuem equivalência de universidades britânicas, americanas e escandinavas, e os cursos são ministrados em língua inglesa. O ISECMAR torna-se uma universidade autónoma, recuperando o prestígio internacional como Escola do Mar que sempre foi desde os anos 80, e retomando a antiga cooperação científica e de formação de quadros com a Noruega e a Suécia. O M_EIA torna-se uma escola de referência internacional nas artes, design, arquitectura, cinema e outros cursos relacionados, e a Universidade do Mindelo é uma referência a nível da CPLP para os cursos de Enfermagem, Medicina e Energias Renováveis.

A 22 de Janeiro de 2025, as autoridades e forças vivas da ilha de São Vicente deliberam, com o apoio do Governo de Cabo Verde: que se deverá criar uma nova cidade na ilha, dado o acelerado crescimento do turismo na sua zona norte, com empreendimentos desde Salamansa, Baía das Gatas, Praia Grande e Calhau. Essa cidade será apelidada de Santa Cruz de Salamansa, em homenagem à primeira povoação da região e à matriz cristã que faz parte da nossa identidade crioula cabo-verdiana. A ilha de São Vicente passa assim a dispor de duas cidades turísticas voltadas para o mar – Mindelo, uma cidade turística de grandes eventos, glamour, lifestyle e entertainment, e Salamansa, uma cidade turística do tipo resort para relaxe e turismo balnear e de saúde. As duas cidades passam a ser ligadas por um túnel rodoviário.

O sonho comanda a vida... quem não sonha, não alcança!

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 831 de 31 de Outubro de 2017. 

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Autoria:José Almada Dias,3 nov 2017 14:44

Editado porAndré Amaral  em  3 nov 2017 17:06

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