O futuro das telecomunicações em Cabo Verde

PorEmílio Fernandes Rodrigues,9 jan 2018 6:19

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Emílio Fernandes Rodrigues
Emílio Fernandes Rodrigues

​“ENABLING THE INTERNET OF THINGS” Certamente já todos sabem das conceptualizações teóricas do Internet of Things (IoT). Mas será que já sabemos tudo? Onde é que estamos hoje em Cabo Verde? Convido-o a raciocinar comigo, sem pretensões conclusivas, mas apenas a pensarmos juntos.

Certamente já todos sabem das conceptualizações teóricas do Internet of Things (IoT). Mas será que já sabemos tudo? Onde é que estamos hoje em Cabo Verde? Convido-o a raciocinar comigo, sem pretensões conclusivas, mas apenas a pensarmos juntos.

Podemos dizer que seja verdade em como hoje as telecomunicações evoluíram bastante em Cabo Verde. Pelo menos no acesso, no tocante aos custos dos serviços básicos, repito, nos serviços básicos apenas (mero acesso) foi e está bem democratizado. O preço pode ser entendido como acessível para qualquer cidadão ter um telefone e televisão em casa. Com apenas 499$ posso falar na rede fixa e ter um serviço básico de televisão a cabo. Nos telemóveis, com apenas 250$ conseguimos hoje falar na mesma rede por uma semana. Na Internet, pacotes a partir de 990$ garantem o acesso básico e navegação na web. Tudo isto é Positivo? Sim, é muito Positivo!!! Todavia é Suficiente? Não, não é! Venha comigo e vamos juntos procurar entender o porquê!!

Segundo a ANAC em finais do mês de junho de 2017 tínhamos em Cabo Verde 65.708 assinantes de telefone de linha fixa. Estes geram cerca de 18 milhões de minutos de chamadas. Mas a tendência é decrescente, representando mesmo -6% em relação ao primeiro trimestre do ano 2017 e -17% em relação ao período homólogo do ano passado. No serviço de Internet via tecnologia ADSL existiam em junho de 2017 cerca de 14.400 assinaturas. Diminuição de -0,5% em relação ao primeiro trimestre de 2017 e -4% em relação ao período homólogo do ano transacto. Na Televisão por Assinatura, mesmo com dois operadores licenciados, o negócio não há meios de se descolar, contando com crescimentos quase nulos. Em todo o país só existem cerca de 9.809 assinantes. Este número é produto ainda de um decréscimo de -0,4% comparado ao primeiro trimestre de 2017 e -13% em relação ao ano anterior. A taxa total de penetração no final segundo trimestre de 2017 é 1,8%, sendo que o total em média não ultrapassou nunca os 3%. Não obstante aos avultados investimentos da CVMultimédia em plataformas de ultima geração e à presença e difusão de conteúdos de direitos duvidosos na BoomTV. Quando olhamos para o “wireless”, isto é os telemóveis, constatamos que pese embora o número total de cartões SIM activos no mercado tenham sido em junho de 2017 de 632.464, este representa números similares ao ano anterior, com aumento de +1% em relação ao primeiro trimestre e de +1,2 quando comparados ao período homólogo 2016. Telemóveis que já contam com uma taxa de penetração de 118% do mercado. Portanto há mais telemóveis do que pessoas em Cabo Verde. Todos estes dados, quando analisados seus impactos no bottom line dos players e numa perspectiva temporal, evidenciam claramente um estágio de maturidade, onde os crescimentos são nulos e cada vez mais as margens serão reduzidas, com tendência do declínio já evidente em pelo menos num dos serviços. Mostram ainda alguma apatia do sector. Enquanto por outro lado as OTT (Over The Top) continuam a alargar seus números de clientes e claro está a sua base de negócio. Pela via do Data Science and Analytics montado por de trás. As empresas nacionais reclamam e clamam a si um negócio de telecomunicações que existiu à décadas a atrás. Falam de uma convergência física dos meios passivos de conectividade apenas, quando a verdadeira convergência é conectividade mais conteúdo. Este último é ainda tabu. Os mercados maduros e na crista da onda estão anos à frente, liderando e possibilitando hoje, e não amanhã como muitos podem pensar, o IoT (Internet of Things). Ou se quisermos em português: a Internet das Coisas.

Será possível que as novas tecnologias de conectividade possam destravar as oportunidades ao longo da cadeia de valor da IoT com uma gestão da rede básica a continuar na mão de um grossista-retalhista? Podemos pensar na IoT com a conectividade “controlada” por um player grossista e retalhista simultaneamente, num ambiente competitivo?. Julgo que temos que fazer com que os retalhistas do sector actuem em pé de igualdade, abrindo ainda portas a outros negócios e movimentações de empresas, que podem e devem criar planos detalhados para aproveitar todo o potencial da Internet das Coisas.

A Internet das Coisas (IoT) não é mais do que a rede de dispositivos “inteligentes”, conectados, que se comunicam perfeitamente através da Internet. A Internet of Things está a transformar a forma como os cidadão, instituições e negócios vivem e trabalham. Por exemplo, nas explorações agrícolas, sensores IoT sem fio podem transmitir informações sobre humidade e nutrientes do solo para especialistas agrícolas, assim como nos sistemas de alarme IoT, equipados com baterias que duram por anos, podemos oferecer aos proprietários uma protecção de longo prazo. Outro exemplo básico são os dispositivos de fitness wearable (itens que podem ser usados) para pessoas e animais de estimação. Estes podem monitorizar os níveis de actividade e fornecer feedback sobre a frequência cardíaca e a respiração, fornecendo os dados aos Médicos responsáveis em tempo real. Embora esses aplicativos atendam a diferentes propósitos, todos eles compartilham uma característica comum e fundamental para a IoT: dependência de conectividade. Mas um conectividade que seja de qualidade, forte e confiável.

Se Cabo Verde já tem acesso, é verdade, falta agora a qualidade, a força e a confiabilidade da conectividade. As partes interessadas na IoT que procuram soluções de conectividade têm de poder escolher de entre diferentes opções de conectividade com diferentes recursos de largura de banda, alcance, custo, confiabilidade e gestão de rede. Enquanto por aqui estamos no 3G, o mundo já está a operacionalizar as suas redes celulares 5G (em afinação), para eventualmente se tornar uma solução universal para a conectividade IoT. Embora algumas redes globais de telecomunicações e aplicações industriais já estão a usar o 5G, é verdade que esta tecnologia não será ainda amplamente disponível para já. Mas só precisa de mais uns 3 a 5 anos. São sim altos custos de desenvolvimento e implementação, mas os benefícios económicos anuais que podem ser relacionados à Internet das Coisas estima-se que deverá chegar de entre USD $3,9 trilhões a US $11,1 trilhões, até 2025.

Cabo Verde não pode se dar ao luxo de adiar os seus investimentos tendentes à IoT. Temos que ter a certeza em como as empresas e partes interessados na IoT ao contemplar as suas opções de conectividade precisam de soluções de quatro categorias: sem licença; baixa potência, ampla área de cobertura. As designadas de LPWA (Low Power, Wide Area). Para um mercado nacional com capacidades de ofertas a este nível, a rede básica, e toda a infraestrutura passiva devia estar aberta para os retalhistas, em pé de igualdade, montarem os seus activos de rede e desenharem soluções e serviços com essas tecnologias necessárias. Só assim podemos sonhar com IoT, que apresenta requisitos específicos para largura de banda, qualidade e confiabilidade da conectividade.

Finalizo como comecei. Será que já sabemos tudo? Estou certo que não. Mas julgo que poderá concordar comigo em como mais importante do que onde é que estamos, precisamos é fazer a pergunta: A onde é que queremos estar? Queremos permanecer como meros Users ou podemos ambicionar em ser Makers?


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 839 de 27 de Dezembro de 2017. 

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Autoria:Emílio Fernandes Rodrigues,9 jan 2018 6:19

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  14 jan 2018 17:23

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