Mindelo é “espinha dorsal” do desenvolvimento de Cabo Verde

PorJosé Maria Rosário,21 ago 2018 7:28

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José Maria Rosário
José Maria Rosário

​“ A Ideia é fazer de S.Vicente uma parte fundamental do desenvolvimento de Cabo Verde. Precisamos juntar a outra parte que é a sociedade mindelense” Ulisses Correia e Silva.

Dizia Germano Almeida que a Cidade de Mindelo tem uma capacidade natural de integrar, sumariamente, os seus residentes. De facto, essa é uma das suas virtudes nobres. Deambulando pelas artérias desse cantinho, que Cise tanto amou, tem-se a sensação de um vírus no ar que encanta qualquer cristão.

Talvez seja esta uma das razões que levou ao silêncio do Capitão Ambrósio, durante décadas de marasmo, e agora subitamente ressuscitado com o espírito dos Sokols.

Diz-se que Mindelo não só perdera o estatuto (estava prestes a ser instalada, antes da independência, a figura de Governador de Barlavento) como a ”própria voz”, episódio subsequente à tomada da Rádio Barlavento.

Mas quem tramou S. Vicente? De se tirar o chapéu ao poeta Dr. Onésimo Silveira que nunca se vergou face ao acantonamento da ilha, sempre avisando à tripulação “não conhecem o povo de Soncente”.

Será tarefa da história, de uma forma desapaixonada e distante, desvendar o porque de uma cidade pujante e próspera em 1975, com uma elite iluminada e crítica, tivesse sido transformada num mero posto administrativo, curvando-se de forma submissa ao ego dos então auto-intitulados “melhores filhos da nossa terra”.

Costuma-se dizer na “República de Santiago” que “tudo cuza tem sê hora”. Finalmente, chegou a hora de fazer justiça ao povo de Monte Cara.

Quem o assume é o Primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva: o governo encontrou solução para o desenvolvimento económico integrado de São Vicente e consequente criação de emprego, através do projecto da Zona Económica Especial.

O Chefe do Executivo (Expresso das Ilhas de 4/7/17) apontou algumas valências do projecto que vão desde o bunkering aos serviços especializados de apoio logístico, passando pelas operações de pesca, pelo turismo, ciência, educação especializada no sector do mar, transportes, operações portuárias, entre outras.

Um passo institucional de gigante foi dado com a instalação do Ministério da Economia Marítima em S. Vicente, cujo pragmatismo e resultados são por demais evidentes.

De se recordar, entretanto, que a Cabnave- Estaleiros Navais, representou um balúrdio em termos de investimento na década de 70 e foi uma visão ousada para uma ilha vocacionada para o mar.

Num país cujos estudos e repetição de estudos virou moda, a identificação dos pontos fortes e fracos do percurso dessa empresa trariam luzes e experiências gratificantes para opções estratégicas futuras.

A ZEE irá provocar uma disrupção no tecido sócio-económico da ilha. Nada será como dantes. A população de Mindelo poderá duplicar nas próximas três décadas.

A salvaguarda do perfil arquitectónico e histórico da cidade de Mindelo “um museu a céu aberto”, é “de jure” o requisito fundamental ao sucesso da ZEE- Zona Económica Especial.

A sanha imobiliária conjecturável e susceptível de descaracterizar a cidade deverá ser prevenida e contida, evitando consequências patrimoniais, ambientais e sociais desastrosas.

Em alternativa, uma nova cidade, a “Mindelcise”, em homenagem à diva dos pés descalços, deverá emergir. Uma urbe planificada de raiz e que crescerá, concomitantemente, com a total erradicação das barracas.

O impacto da ZEE –Zona Económica Especial

A dimensão e profundidade deste projecto ultrapassam a ilha e terá impacto de Santo Antão a Brava. A meta de empregos preconizada, pelo governo, será não só alcançada como ultrapassada.

Mindelo tornar-se-á, a par da Cidade da Praia, um centro atractivo de migração interna. Em nenhum canto do arquipélago haverá licenciados desempregados.

A tão propalada integração das universidades com o mundo empresarial e empregabilidade será uma realidade “tão vital quanto a água o é para peixe”.

Um Banco de Fomento Comercial e Industrial, para a Região Norte, será o braço financeiro da dinâmica económica expectável.

O Poder Local

O calcanhar de Aquiles dessa grande mudança reside no poder local. Que estruturas, quais poderes, que recursos? Acomodar-se de jeito que as acções-chave de planeamento, coordenação e investimentos sejam feitos à distância, seria o suicídio calculado.

Um redimensionamento do poder local é fundamental para o sucesso do empreendimento e governação da ilha.

Por outro lado, o bom senso político desaconselha perseverar o erro do passado. A questão da regionalização não anda nem desata. Está-se longe do consenso, com cada cabeça uma sentença, em termos de agrupamento das ilhas.

A alma da regionalização é o consenso. Não o havendo dever-se-á ultrapassar a psicose de ideias, e passar para uma outra etapa, ou seja, definição de critérios sócio-económicos como base de definição “com ciência e coerência” do modelo que melhor serve o país.

O processo deve começar lá onde é necessário e não na lógica do igualitarismo. Existem problemas concretos e localizados que precisam ser resolvidos.

O que se pretende é o desenvolvimento e não uma panaceia de regiões e pavões, em que o BMW aparece antes de trazer felicidade para as pessoas.

Opções a montante e a jusante

De acordo com o Chefe do Executivo “o tempo aqui será o tempo necessário para podermos fazer as coisas como devem ser feitas. É programar, é desenvolver bem o projecto, o estudo de viabilidade que vai ser desenvolvido”.

As forças vivas, o poder local, as instituições, profissionais liberais, o empresariado e as suas representações deveriam já estar com as mãos na massa;

O programa de formatação dos recursos humanos, que será a seiva do mega projecto, era para começar “ontem”, pois, jamais o milho germinou sobre betão;

A Escola Industrial e Comercial é um activo que carece de uma reforma profunda, devendo transformar-se num Instituto Superior Politécnico com um leque variado de formação média, técnica, superior e profissionalizante;

O ISECMAR – finalmente reconciliar-se-á com a sua missão – terá um papel vital na formação, treinamento e superação de uma nova geração de quadros, abrangendo toda a área de economia marítima, bem como abraçar a “investigação, ciência e tecnologia náutica”;

O projecto de um Campus Universitário é uma opção que não deve morrer com o Campus Universitário da Uni-CV na Praia. Em vez de se chorar “o leite derramado” dever-se-á conceber um novo campus, com uma estratégia de internacionalização e captação do público estudantil dos PALOP e CDAO;

.A vocação universitária do Mindelo, para além de histórica é um capital valiosíssimo, que não pode ser desperdiçado;

O ambiente do negócio imobiliário vai superar todas as expectativas. Alojamentos, residenciais, escritórios terão que estar disponíveis à demanda que se avizinha;

Na nova urbe uma atenção especial é reservada à diáspora: áreas adequadas ser-lhe-á afecta e novas avenidas de Holanda verão à luz do sol;

Igual tratamento poderá ter um bairro chinês, se esta comunidade, como é tradição, assim o desejar;

A integração económica regional exige um ambiente de negócios especializado: informações de mercado, radiografia socioeconómica dos países membros e demais dados estatísticos, comerciais e industriais;

Não é possível fazer negócios com um espaço complexo e concorrência feroz, vendo-se para a lua. Fala-se muito do grande mercado da CEDEAO e andamos a dar tiro no escuro, ignorando o labirinto que é preciso contornar;

Porque não o BCV – Banco de Cabo Verde – assumir este processo com um Departamento, descentralizado, de Estudos Económicos e Estatística Regional, dando algum alento à vontade política de regionalização.

Como não há bela sem senão, o momento é, igualmente, de se desenvencilhar do ilusionismo das regras e peneirar os riscos, pois, quem nos garante que o tráfico, seja lá do que for, já não esteja à espreita por trás do Monte Cara, “enquanto vemos pássaros a passar entre os dedos.”

O foco principal da ilha não “deve ser o turismo, receber pessoas”, segmento que é reservado um papel importante, mas sim o mar, serviços, comércio e indústria.

A juventude crioula está dando mostras, só não vê quem está com os olhos vendados, que tem ambições maiores do que contentar-se com o simples ofício de camareira.

Com a livre circulação na agenda política, é, também, jus que os flagelados do vento leste, hoje na era digital, aspirem e sonhem com lua-de-mel romântica na Riviera do Mónaco.

Se Mindelo tem à partida melhores condições do que tinha Singapura (antiga aldeia de pescadores), não é de se esconjurar que as novas gerações aspirem a apartamentos em arranha-céus, em vez de se contentarem com um pedaço de chão, na Ribeira de Craquinha, para construir um rectângulo insalubre de bidão.

Curiosamente, há dias dizia o professor que tais “bidon villes”, uma vez retocadas podiam até virar algo artístico: é de se dizer que mesmo em coisas sérias, o mindelense gosta de meter humor.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 872 de 14 de Agosto de 2018.

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Autoria:José Maria Rosário,21 ago 2018 7:28

Editado porFretson Rocha  em  21 ago 2018 9:24

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