A indústria verdiana do lazer e do entertainment – Oli Kavala Fresk Feastival, de alimento do povo à promoção de um roteiro gastronómico, cultural e turístico (II)

PorJosé Almada Dias,3 set 2018 7:14

Longe vai o tempo em que os eventos culturais em Cabo Verde nasciam por geração espontânea, baseados apenas no espírito criativo de alguns jovens sedentos de se divertirem e proporcionarem bons momentos de lazer e de cultura aos seus concidadãos. Foi o que aconteceu com a criação do Festival de Música da Baía das Gatas, do qual falámos na crónica anterior.

Hoje, sinal dos tempos, grande parte dos eventos já é pensada com objectivos bem mais ambiciosos, sendo desde a sua nascença trabalhados de forma profissional, não tivesse o país evoluído bastante de 1984 a esta parte.
É o caso do Kavala Fresk Feastival (KFF), um retumbante sucesso desde a sua primeira edição no ano de 2012, sucesso que se vem confirmando de forma crescente de ano para ano.
Um evento estruturado com cabeça, tronco e membros, de forma profissional, e até científica. Logo na sua quinta edição, o evento foi alvo de um estudo denominado “Impacto Socioeconómico do Kavala Fresk Festival”, levado a cabo por uma reputada empresa de consultadoria nacional, a PD Consult Lda., do não menos reputado economista Paulino Dias.
Um caso inédito, segundo a pesquisa feita por ocasião do referido estudo. Ou seja, pela primeira vez foi feito um estudo de impacto socioeconómico de um evento do tipo em Cabo Verde, o que diz muito da forma como olhamos para estes importantes eventos. E também diz muito sobre a forma como os promotores encaram esses mesmos eventos...
Afinando por este diapasão científico e profissional, que muito nos agrada, vejamos rapidamente algumas das principais conclusões do estudo, realizado durante a edição de 2017. O estudo foi feito com base em 404 entrevistas feitas por inquiridores durante o evento.
1. O KFF atraiu cerca de 40 mil participantes, dos quais 88% foram pessoas residentes em São Vicente, 8% pessoas provenientes de outras ilhas e estrangeiros 4%.
2. No total, os visitantes perfizeram cerca de 12%, percentual similar ao de outros festivais culturais que ocorreram em países como a Austrália, África do Sul, Espanha, etc.
3. Desses visitantes, uma parte significativa (30,6%) veio visitar a ilha de São Vicente exclusivamente para participar no evento! De entre estes, 48,3% vieram de Santiago, 18,8% do Sal e os restantes vieram das outras ilhas.
4. Dos inquiridos, 95% acreditam que o KFF tem efeitos positivos na promoção da cultura de S. Vicente, 92,3% acreditam num impacto positivo na economia local e 99% queriam que o festival se repetisse nos anos seguintes.
5. O consumo médio dos visitantes, em bebidas e alimentação (3 mil escudos em alimentação e 3,5 mil escudos em bebidas), foi superior aos gastos realizados pelos locais (1,1 mil escudos em alimentação e 1,5 mil escudos em bebidas).
É opinião geral que a edição de 2018 teve ainda mais participantes, o que não surpreende.
Considero interessante esta comparação com festivais culturais em outras paragens. Todos os países escolhidos são países com uma forte indústria turística. Ora, a ilha de São Vicente ainda não é um destino turístico consolidado, e o KFF realiza-se na época considerada baixa desse mesmo turismo ainda incipiente. Isso leva-nos a crer que esta percentagem poderá subir grandemente nos próximo anos, caso se materializem os inúmeros projectos hoteleiros previstos para a ilha e se resolva o problema da circulação entre as ilhas, podendo o KFF integrar pacotes turísticos que visem turistas que pretendam conhecer as ilhas e consumir uma oferta turística diversificada, designadamente de eventos culturais.
Quando isso acontecer, o impacto económico do KFF será exponencialmente maior, a julgar pela diferença de gastos que se comprovou entre visitantes e residentes (isto sem lembrar que os visitantes são, neste momento, na sua maioria cabo-verdianos vindos de outras ilhas).
É revelante o número já significativo de pessoas que se deslocam à ilha propositadamente para o KFF.
Finalmente, é de realçar o alinhamento da população com os objectivos do festival, nomeadamente no seu impacto na promoção da cultura da ilha e no impacto positivo na sua economia.

Aqui chegados, vale a pena fazer um break para descrevermos os objectivos do KFF almejados pelos promotores da MARIVENTOS Lda:
I Objectivos Gerais
• Criar um produto à imagem da ilha de São Vicente, realçando as suas potencialidades turísticas e privilegiando um espaço de produção que contribua significativamente para o desenvolvimento socioeconómico da ilha.
II Objectivos Específicos
• Criar um produto gerador de rendimento.
• Promover São Vicente como destino turístico incontornável em Cabo Verde.
• Promover a gastronomia como produto cultural e turístico.
• Promover a participação dos jovens, o trabalho em equipa e o empreendedorismo.
• Mostrar o papel que as actividades culturais têm no desenvolvimento turístico e no crescimento económico da ilha de São Vicente.
Não julgo que sejam necessários comentários, a não ser para elogiar o profissionalismo e também para felicitar a organização por ter alcançado em tão pouco tempo tão ambiciosos objectivos.
Os gastos com a organização da edição de 2017 foram 9.176.510 ECV, dos quais uma grande parte (3,5 mil contos) foi para a contratação de artistas, incluindo chefs de cozinha.
Um dos argumentos mais utilizados pelos detractores da proliferação dos festivais em Cabo Verde é que são eventos onde se desperdiça dinheiro sem ganhos significativos para as regiões e para o país.
Os dados do estudo elaborado pela PD Consult provam de forma científica o contrário, pelo menos no que toca ao KFF. Segue a transcrição de uma das conclusões do referido estudo:
“O impacto económico total do festival na economia de São Vicente (utilizando o multiplicador de 2,5) é de 436,6 mil contos no cenário I e 302,4 mil contos no cenário II. Os dados indicam que o valor total do “novo dinheiro” gerado (directa e indirectamente) na economia local é 45 vezes superior (sem incluir os próprios gastos da organização) ao custo da organização do evento no cenário I e 30 vezes superior no cenário II.”
Ora, significa que o “novo dinheiro” gerado na economia de São Vicente é entre 30-45 vezes superior ao dinheiro investido na organização do mesmo. Sublinho a palavra investido porque é de investimento que se trata!
A organização do KFF está de parabéns por ter criado um evento que consegue injectar tanto dinheiro na economia mindelense, mas, sobretudo, por o conseguir com uma enorme produtividade, num evento que dura pouco mais de um dia!
E a esse impacto económico é preciso adicionar o enorme impacto económico futuro que a presença anual deste evento trará para o cartaz turístico da ilha, e que é incomensuravelmente maior.
Mas há ainda mais! Estamos a falar de um evento totalmente inovador no panorama nacional, que eleva, e de que maneira, a auto-estima dos cidadãos da ilha. É o primeiro festival gastronómico de referência internacional no país. Mais uma criação mindelense, feita por cidadãos desta cidade criativa, e mais uma iniciativa totalmente privada, sem nenhuma intervenção de qualquer tipo de autoridade pública, seja ela regional ou nacional. É o Mindelo no seu melhor, fazendo o que melhor sabe: criar, inovar e dar o exemplo.
Quantos festivais gastronómicos já apareceram pelo país fora após o sucesso deste? E quantos mais irão aparecer? Espero que muitos, pois se as ilhas todas são turísticas, devem ter os seus respectivos cartazes turísticos repletos de eventos. Um turista que venha a S. Vicente, e assista ao KFF, não estará preocupado se em S. Nicolau existe um Festival de Atum, muito pelo contrário.
E aqui importa realçar mais um “pormaior” muito importante: o KFF foi pensado desde a primeira hora como evento cultural e turístico, transformando a nossa gastronomia num produto turístico sofisticado.
Neste caso, transforma um produto que sempre foi a base da alimentação da população, particularmente das camadas mais carenciadas, num produto sofisticado, com o qual chefs locais e internacionais criam receitas imperdíveis, qual delas a mais criativa e saborosa, proporcionando um verdadeiro banquete para milhares de pessoas. Por isso, sabiamente, a organização denominou este evento feast (banquete) e não apenas festival.
É por isso que a anatomia do KFF possui um rico programa de actividades, assim descrito pela organização:
Dividimos o evento em seis partes autónomas, mas que se articulam entre si criando uma dinâmica própria do festival:
1. Gastronomia (Mercado Gourmet, Peixe na Brasa, Peixe no Prato)
2. Info (Livro de Receitas, Show-Cooking, Workshop de Culinária e Rádio Kavala)
3. Play (Competição de Natação, Corrida de Bote, Aulas de Surf, SUP Paddle, Kayak)
4. Cultura (Exposições/Instalações, Kavala na Mei d’Mar, Música na Praça Dom Luís, Kavala Party e Karnavala)
5. Lab (Visitas de Sensibilização, Amostragem Biológica, Workshops, Palestras)
6. Família (Passeio de Bote para Crianças, Teatro Infantil, Recreio)
Hoje, a tão menosprezada cavala de outrora (comida do povo), tornou-se dos nomes mais sonantes e das marcas mais bem estabelecidas deste pequeno país atlântico, a nível nacional e internacional.
Apesar de ser um festival jovem, o KFF já foi convidado para vários eventos internacionais, a saber... Em 2014, marcou presença no Slow Food em Itália, em 2015 esteve em Portugal para o lançamento do Livro de Receitas do Kavala Fresk na FNAC – Colombo, com a apresentação do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Em 2017, foi convidado pela DOCA PESCA para o Peixe em Lisboa, e a Slow Food convidou o KFF para o Slow Fish 2017, para além de ter estado também no World Food Championship 2017 nos EUA e, em 2018, foram novamente convidados pelo Slow Food para o evento Terra Madre – Salone del Gusto (Itália) a ser realizado em Setembro.
Relativamente aos chefs que já marcaram presença no KFF contam-se profissionais de Portugal, China, EUA, Índia, Macau, Marrocos, Egipto e Brasil, naquilo que a organização chama de “Diplomacia Gastronómica”.
É caso para dizer: ai cavala, quem te viu, quem te vê!

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 874 de 29 de Agosto de 2018.

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Autoria:José Almada Dias,3 set 2018 7:14

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  3 set 2018 7:14

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