O fim anunciado da Corrida da Liberdade — uma morte política premeditada

PorAntónio Lopes da Silva,9 jan 2026 11:14

A Corrida da Liberdade, criada há 17 anos, não morreu por acaso. Foi assassinada lentamente. O seu fim não resulta de fatalidade, desinteresse popular ou esgotamento natural. Foi o produto de um processo consciente, gradual e politicamente orientado, iniciado no primeiro ano do mandato de Francisco Carvalho como Presidente da Câmara Municipal da Praia e agora consumado sem pudor.

Durante quase duas décadas, a Corrida da Liberdade foi um dos mais fortes símbolos cívicos e desportivos da capital. Integrada nas celebrações do 13 de Janeiro, representava a democracia, a liberdade e a participação cidadã. Chegou a mobilizar entre 8.000 e 10.000 participantes, com a presença de atletas nacionais e internacionais de enorme prestígio. Eusébio, Rosa Mota e Nuno Delgado, Luisão ex-jogador do SLB, referências mundiais do desporto — são apenas alguns dos nomes que dignificaram esta prova, projetando a Praia além-fronteiras.

Nada disso parece ter pesado para o atual Presidente da Câmara.

Ano após ano, a Corrida da Liberdade foi sendo deliberadamente esvaziada. Cortes no apoio, ausência de promoção, desinteresse institucional e uma gestão claramente negligente conduziram ao colapso anunciado. A participação caiu drasticamente: de milhares para centenas, depois para escassas dezenas. Não foi o público que abandonou a corrida — foi a Câmara Municipal da Praia que abandonou a corrida. Quando o poder público retira suporte a um evento desta natureza, o desfecho é óbvio. Este ano, o golpe final foi desferido: a Corrida da Liberdade deixou de existir.

No seu lugar, surge a chamada Corrida dos Heróis Nacionais, marcada para 20 de janeiro, integrada na Semana da República. Uma prova nova, criada à custa da eliminação de outra, numa data politicamente carregada e nada inocente. Não se trata de inovação; trata-se de substituição ideológica. Não se trata de ampliar a oferta desportiva; trata-se de apagar uma tradição incómoda.

Janeiro é um mês fundamental para a história democrática de Cabo Verde. O 13 de Janeiro celebra a liberdade e a democracia; o 20 de Janeiro celebra os heróis nacionais. São datas distintas, complementares e igualmente relevantes. Não havia qualquer impedimento para manter ambas as corridas. A decisão de eliminar uma para impor outra não foi técnica nem financeira — foi política.

Essa opção torna-se ainda mais grave quando se recorda que Francisco Carvalho acumula o cargo de Presidente da Câmara com o de líder do PAICV e candidato a Primeiro-Ministro. A destruição de uma prova associada à democracia plural e a sua substituição por outra com forte carga simbólica partidária levanta sérias suspeitas de instrumentalização do desporto e do espaço público para fins políticos. A Câmara Municipal da Praia deixou de ser árbitro institucional para se comportar como agente político.

Mais grave ainda foi o silêncio. Não houve diálogo, auscultação ou transparência. Atletas, clubes, associações e cidadãos foram simplesmente ignorados. Uma corrida que pertencia à cidade foi retirada por decisão unilateral, sem explicações convincentes, como se o património coletivo fosse propriedade pessoal do Presidente da Câmara. Como bem resumiu um dirigente associativo: “as corridas pertencem à cidade, não às agendas partidárias”.

A Câmara Municipal da Praia tinha a obrigação de unir, preservar e valorizar o que é de todos. Em vez disso, optou por dividir, apagar e reescrever tradições ao sabor de conveniências políticas. Num país que se orgulha do seu percurso democrático, decisões como esta não são neutras. São atos políticos claros. E são, para muitos cidadãos, profundamente errados.

A democracia constrói-se também no quotidiano, no respeito pela memória coletiva e nas escolhas do poder local. O fim da Corrida da Liberdade não é apenas o desaparecimento de uma prova desportiva. É a prova do desaparecimento de uma visão plural, inclusiva e democrática da cidade. Foi uma escolha. E Francisco Carvalho é o seu principal responsável.

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Autoria:António Lopes da Silva,9 jan 2026 11:14

Editado porAndre Amaral  em  9 jan 2026 11:14

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