Tempestades da desgraça e da bonança - Da Erin ao Gonzalo, a chuva que salva colheitas também destrói cidades

PorMário Cardoso,12 out 2026 8:27

Mário Cardoso, Engenheiro e Gestor de Sistemas de Informação
Mário Cardoso, Engenheiro e Gestor de Sistemas de Informação

​Cabo Verde tem sido, durante anos a fio, maltratado e acariciado pelas chuvas das tempestades do Atlântico. Já ceifaram vidas, já salvaram vidas. Deixaram prejuízos a montante e a jusante e, por vezes, salvaram milagrosamente a época agrícola nas ilhas.

Fred, Erin, Gonzalo, René, entre outras, vieram raivosas e com muita água, num país que passa de nove a dez meses por ano à espera da chuva. Num futuro próximo, dificilmente veremos situações diferentes e a ciência diz-nos que cada tempestade tenderá a trazer mais água.

O arquipélago precisa de se preparar, com estrutura, cooperação, coordenação e muita ciência. O primeiro passo é a prevenção, e aqui a Erin deixou uma lição que não podemos esquecer.O INMG tinha previsto trovoadas para o Barlavento e não emitiu qualquer alerta. Em sete horas caíram 287 milímetros em Calhau, mais do dobro da precipitação que São Vicente costuma receber num ano inteiro. O Instituto justificou-se com o famoso "radar" que não temos, mas o radar mede a chuva que já está a cair e não decide se um aviso sai ou não. As imagens de satélite mostravam a onda desde a manhã da véspera, e houve cidadãos que a anunciaram nas redes sociais com uma aplicação gratuita no telemóvel. Faltou o procedimento que transformaria uma previsão num alerta à Proteção Civil, e até hoje ninguém apurou porquê. O radar deve vir, independentemente do custo, porque a tecnologia preventiva pode ser o “1% de chance” que salva vidas e não só. Não obstante, sem procedimento, nem o melhor radar do mundo faz tocar uma sirene.

Este ano, na penúltima semana de setembro, o Gonzalo trouxe muita chuva e rajadas de vento. Vejam como a barragem de Principal transborda de água. Linda esperança! Mais a Nordeste, em contraste, a nossa maior cidade turística, Santa Maria, fortemente encharcada pelo mar e pela chuva. Triste sina!

Hotéis, clubes de praia e passeios que avançaram sobre o areal que era do mar ficaram debaixo de água. A lei diz que os primeiros 80 metros a contar da linha da máxima praia-mar são domínio público e que ali só se constrói por concessão, com estruturas amovíveis. Legal ou ilegal, não sei. Sei que o mar não lê licenças.

Este contraste faz-nos pensar no quão sortudos de azar somos. No final do verão, a chuva vem trazer feijão e destruição. Como reagir? Como prevenir? Como solucionar?

Gostaria de ver este nosso torrão mais resiliente e criativo, tal como é na nossa música e na nossa arte, para construirmos estruturas que perdurem no tempo e na utilidade humana e material, como o Delgadinho, na Estrada da Corda, em Ribeira Grande de Santo Antão, de pé há mais de meio século. Devemos rejeitar a tentação sedutora de pensar que compensa não ter infraestruturas estruturantes e em equilíbrio com a natureza, pois o tempo de retorno do investimento nas ilhas turísticas é hoje mais longo do que o intervalo entre as grandes tempestades. Em treze meses tivemos três.

Não é preciso inventar. Há soluções testadas lá fora que servem à nossa realidade. A primeira seria o alerta. A Organização Meteorológica Mundial tem um modelo de avisos baseados em impacto, onde o alerta não depende de saber quantos milímetros vão cair, mas do que acontece se caírem. Cabo Verde lançou em dezembro de 2025 a iniciativa das Nações Unidas de “Alertas Precoces”, com um roteiro que seria validado este ano. Que esse roteiro diga, preto no branco, quem emite o alerta, com que critério e em quanto tempo, e que seja público. O INMG, por sua vez, deve modernizar-se com o que já é padrão lá fora: avisos digitais, publicados num formato normalizado e num mapa público, em tempo real.

No arquipélago das Bermudas a lei obriga cada edifício a captar 80% da chuva que lhe cai no telhado e a guardá-la numa cisterna. Com seis vezes mais chuva do que cá, ainda assim o princípio serve-nos. Na noite da Erin, um telhado de 100 metros quadrados no Mindelo teria recolhido o dobro da água de um ano normal em São Vicente. Essa água não teria descido pelas ruas e captar a chuva obrigaria a ter telhados impermeáveis, o que resolve outro problema recorrente aqui na tapadinha, que são as infiltrações nas casas mais vulneráveis das nossas cidades. Esta pode ser uma segunda via.

A terceira é a drenagem. Nenhuma rede urbana, em lado nenhum, é feita para levar 224 milímetros de precipitação em sete horas, como caíram no Mindelo. É feita para as chuvas frequentes. O excesso vai sempre para as ruas e para as ribeiras. Por isso a regra testada em todo o mundo tem três partes: reter a água a montante, com diques e bacias que já sabemos construir; manter livre os leitos das ribeiras, realojando com dignidade quem lá vive; e aproveitar a jusante a água que chega. O Governo anterior tinha anunciado em janeiro 3,5 milhões de contos para drenagem e saneamento em São Vicente, incluindo levar parte da água das chuvas para a ETAR e usá-la na rega.

A quarta é o litoral, e Santa Maria é o caso mais urgente. O Sal já tem o seu Plano de Ordenamento da Orla Costeira, mas falta pô-lo a trabalhar. Em Portugal, os planos de ordenamento das orlas costeiras marcam as faixas que o mar pode reclamar em 50 e em 100 anos, e dentro delas decide-se, caso a caso, recuar ou proteger. Por cá, o primeiro passo custa pouco, é só fazer cumprir a lei, que nos 80 metros do domínio público só admite estruturas amovíveis, e rever as concessões quando chegam ao fim. O segundo é reforçar a defesa natural do areal, e temos no nosso caso recursos para o efeito. Desde 2013, cada turista paga uma contribuição por noite, e o Sal é a ilha que mais recebe desse fundo. Parte desse dinheiro devia proteger o areal que atrai esse mesmo turista.

A última seria termos meios prontos a usar antes dos desastres. Cabo Verde já recorreu a linhas de crédito contingente do Banco Mundial. O passo seguinte é avaliar um seguro paramétrico, como os que o African Risk Capacity oferece a países africanos, que paga em dias quando a chuva passa um limiar, sem esperar por avaliações de meses.

De todo modo, as águas das chuvas que correm nas ribeiras das cidades devem ser também aproveitadas. Não faz sentido que um país que dessaliniza a maior parte da água que bebe continue a deixar a chuva correr para o mar e a viver com eternos contratempos no fornecimento de água potável.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1297 de 07 de Outubro de 2026.

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Autoria:Mário Cardoso,12 out 2026 8:27

Editado porAndre Amaral  em  12 out 2026 8:27

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