Retrospectiva 2013: Do caso Zé Catana à Lancha Voadora: Homicídio de José Pires chocou o país

PorElsa Vieira,4 jan 2014 0:00

Como bem ressalvou Casimiro Teixeira, o ano de 2013 foi marcado por “um pou­quinho de mau, um pouquinho de bom”. Entretanto, foi um ano marcado pelo julgamento do caso Lancha Voadora com a condenação dos principais cabeci­lhas do tráfico de droga que culminou com a apreensão de mais de uma tonelada e meia de cocaína e do mediático caso Zé Catana, o serial killer que matou, es­quartejou, comeu e vendeu a carne da sua vítima. A detenção de dois agentes da Polícia Nacional na Guiné-Bissau, depois de terem acompanhado uma ex-conde­nada, também marcou a actualidade.


Os vários crimes de assassi­nato em Cabo Verde nos últi­mos anos quer seja com arma branca ou de fogo, começam a ser visto com “naturalidade” pela sociedade, mas a 13 de Ju­nho de 2013, o país foi surpre­endido com um crime macabro que nunca antes fora registado na história do arquipélago e desta forma, Zezinho Catana, o suposto autor de quatro ho­micídios “com impressão digi­tal de um psicopata” devido ao nível de malvadez que utilizou para matar as suas vítimas, en­trou na lista das autoridades policiais como o primeiro serial killer cabo-verdiano.

Na altura, Zé Catana con­fessou à Polícia Judiciária que assassinou e esquartejou um colega de quarto, José Pires, mais conhecido por Djó Pe­dreiro, natural da ilha de Santo Antão. O presumível homicida revelou ainda que terá vendido a carne da vítima “tanto fresco como salgada” como se fosse carne de carneiro e porco, nos arredores de Terra Branca, Santaninha e Quartel de Esco­la, levando assim os praienses a comerem carne humana.

Há menos de um mês, a aná­lise do DNA comprovou que as ossadas encontradas são real­mente de José Pires, e o Tribu­nal da Comarca da Praia orde­nou que os restos mortais do malogrado fossem entregues aos familiares, que insistem em dar um funeral digno a Djó Pe­dreiro.

Aquando do acontecimento já não se falava em outra coi­sa, a não ser na morte de José Pires e nas pessoas que, pos­sivelmente, comeram a carne humana.

A Zé Catana foi traçado o perfil de um psicopata, que age de forma fria e letal, com uma ficha manchada nas ilhas de Santo Antão e São Vicente.

Em 1980, chegou a ser acu­sado de tentar matar um indi­víduo, na ilha de Santo Antão. O homem levou 75 pontos, mas conseguiu escapar da morte.

Três meses depois, come­teu um assassinato também na ilha de Santo Antão, onde teria esmagado a cabeça da vítima com uma pedra de 15 quilos. Na prisão, durante uma licença de final de semana, terá violado uma idosa de 94 anos.

 

Catana recusa cola­borar com a PJ

 

Nesta lista de criminalida­de praticada pelo serial killer, veio ainda ajuntar-se mais três casos, a de Maria de Alice e Amâncio que desapareceram sem deixar rastos e Maria de Chandim encontrada morta dentro de sua casa, todos os casos, cujas investigações con­tinuam sob a alçada de PJ em São Vicente.

No interrogatório da PJ na Praia, Zezinho Catana confes­sou que assassinou Alice em Julho de 2012, explicando que “apenas” a despedaçou e enter­rou nas imediações de Fernan­do Pó, mas que não comercia­lizou a sua carne e que no mês seguinte matara Maria Chan­dim.

Zezinho Catana que se en­contrava preso na Cadeia Cen­tral da Praia, foi transferido para Cadeira de Ribeirinha em São Vicente para provar a auto­ria dos crimes confesso.

O homicida que na cidade da Praia foi flexível em colaborar com a PJ, “dá uma de durão” em São Vicente e complica as investigações sobre onde terá depositado os restos mortais de Alice e Amâncio. Após vários interrogatórios Catana recusa em mostrar onde terá enterra­do as ossadas dessas vítimas.

Brevemente, o serial killer será transferido para a cidade da Praia, onde vai aguardar o julgamento do caso.

 

“Salvo por uma unha negra”

 

Enquanto a população la­mentava o crime macabro ocorrido no país, chegava a inesperada notícia de que dois agentes da Polícia Nacional afectos aos Serviços de Emi­gração e Fronteira que se des­locaram à Guiné-bissau numa missão de escolta de uma ex­-presidiária, a cidadã guine­ense Enide Gama, a quem foi aplicada a pena acessória de expulsão, estavam detidos na­quele território.

Este episódio criou um cli­ma tenso entre os dois países, e gerou enorme ansiedade no seio dos familiares e da nação crioula, que não parava de cla­mar pela justiça, com as autori­dades guineenses a manterem um braço de ferro com o go­verno cabo-verdiano, ao acusar os dois agentes de espionagem e crime contra a Segurança Interna e Externa do Estado, avançando com um processo­-crime contra os dois junto do Tribunal Militar Regional.

Não sendo possível provar os factos que lhes eram impu­tados, o processo foi remeti­do para o Ministério Público, onde foi arquivado provisoria­mente.

Os dias se passavam, o nos­so ministério da Administra­ção Interna admitia“eventuais falhas” na comunicação com as autoridades de Bissau no processo do repatriamento da referida cidadã guineense, en­quanto outras entidades na­cionais mexiam os cordelinhos para uma rápida libertação dos agentes, afinal não se tratava de um processo fácil e muito  menos de um país onde a justi­ça e a paz fala mais alto.

Após duas semanas de an­gústia e preocupação, final­mente Júlio Centeio Gomes e Mário Varela Brito pisaram o solo da terra mãe.

Após terem deixado o terri­tório guineense, o Chefe de Es­tado Maior das Forças daquele país acusou Cabo Verde de ter assassinado a cidadã guineense Enide da Gama, realçando que “os agentes cabo-verdianos de­viam ser levados à justiça para serem julgados mas, mais uma vez, deixámos escapar Cabo Verde. Não gostei nada dis­so. Não só violaram as nossas fronteiras como a rapariga que disseram que trouxeram não foi vista. Ela foi morta”, acusou.

 

Arguidos do processo “Lancha Voadora” esperam decisão do STJ

 

O mediático caso do pro­cesso “Lancha Voadora” que começou em 2011, ainda pro­mete fazer correr muita tinta e em Abril de 2014 terá o seu desfecho.

Recordando que na altura o arguido Paulo Pereira, a figu­ra central deste esquema, foi condenado a 22 anos de prisão e Carlos Gil, considerado o seu braço direito, foi sentenciado a 17 anos.

Quirino dos Santos recebeu como pena 15 anos, Ernestina “Nichinha” Pereira, 13, Luís Ortet e António Semedo, 12, Ivone de Pina Semedo, 11, Ve­ríssimo Pinto, nove anos e seis meses, e Jacinto Mariano, 9 anos de prisão.

Por falta de provas que sus­tentem as ligações de Djoy Gonçalves, José Teixeira, José Oliveira, Nilton, Sandro, Niri­na e das empresas TecnoLage, AutoCenter, ImoPraia, Editur e a Aurora Internacional aos cri­mes que lhes eram imputados, foram todos absolvidos, mas as três primeiras foram multadas.

A condenação pela primei­ra Instância e o confisco da maioria dos bens pertencentes a estes réus não agradou nem os advogados da defesa, nem ao Ministério Público. A acusa­ção discordou totalmente das absolviçõese da não dissolução das empresas, bem como da não aplicação da multa à Imo­praia.

Por sua vez, a defesa queria a absolvição dos seus clientes. Ambos recorreram ao Supre­mo Tribunal de Justiça (STJ) e o MP pediu agravamento de pena dos arguidos, de 24 para Paulo Ivone, 20 para Carlos Gil, 17 para Ivone, Ernestina e Quirino, Luís Ortet e António Semedo 18 anos, Veríssimo Pinto 14 anos e seis meses de prisão.

Em 2014 será conhecido o desfecho do caso da maior apreensão de drogas de sempre em Cabo Verde.


Agentes da BAC numa saia justa

 

Ainda com processos nas costas encontram-se 13 ele­mentos da polícia acusados de roubo de mais de dois quilos de cocaína nas instalações da Bri­gada Anti-Crime (BAC). Nove dos agentes envolvidos foram condenados com penas que os­cilam de 7 a 13 anos de prisão e quatro foram absolvidos.

Após a decisão da primeira Instância, mediante um habe­as corpus 7 foram colocados em liberdade, mas em contra­partida foram demitidos da corporação. Os acusados vão agora aguardar uma decisão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ).

Nestes casos estão impli­cados os agentes Dulce Vaz, acusada de planear em cum­plicidade com outros colegas da profissão, também arguidos neste processo, condenada a 11 anos de prisão, assim como Daniel Alberto Lopes Furtado Fernandes.

A Edson de Pina, que tam­bém se encontrava em prisão preventiva, desde de Julho de 2011, foi aplicado a pena de 12 anos de prisão.

Alberto Gomes 13 anos, José da Silva 9, Elder da Veiga, Eu­clides de Mello e Odair Ramos condenados a 7 anos.

Joaquim Pires, Elso Rocha, Alexandro dos Santos e Danil­son Lopes foram absolvidos.

Pedro Vaz, que também aguardava o julgamento em prisão preventiva foi condena­do a 2 anos de prisão, suspenso por 4 anos.

Recorda-se que o caso aconteceu em Julho de 2011, altura em que foi encontrada no litoral da Calheta, conce­lho de São Miguel, uma gran­de quantidade de droga a flu­tuar no mar.

 

Morte ou prisão

 

Presa por tráfico de drogas, mas por ter colaborado com a justiça durante o julgamento que conduziu à condenação de Zé Pote e José Jorge, a barone­sa Zany Filomeno que fora con­denada a oito anos de prisão, após cumprir parte da pena re­clamava a tempo e hora por sua liberdade. Cansada de espe­rar resolveu colocar a boca no “trombone” e exercer a pressão sobre a justiça.

A “pressão” exercida deu certo e entrou numa guerra declarada com o Procurador­-geral da República, Júlio Mar­tins.

Sem ver cumpridas as exi­gências da baronesa, numa ma­nhã, e quando menos se espe­rava, abriu-se a cela da Cadeia Central da Praia e Zany Filo­meno foi colocada em liberda­de, sem a mudança de identi­dade e novos passaportes para ela e familiares mais próximos.

Desde esse dia não se ouviu falar mais da baronesa e muito menos no seu paradeiro.


Quadrilha desarmada

 Outro destaque do ano foi a detenção por parte da Polícia Judiciária do grupo de delin­quente os “Titanic”.

Durante as buscas que con­duziram à detenção da rede cri­minosa, a PJ apreendeu diver­sas armas de fogo, de calibre 6,35 e 7,35, munições de 9mm, uma metralhadora, viaturas, entre outros objectos e mais de três mil contos em dinheiro provenientes das práticas ilíci­tas do grupo.

Conforme sublinhou a nossa fonte, trata-se de uma quadri­lha altamente perigosa que an­dava a causar pânico na cidade da Praia. É composto por 9 in­divíduos, suspeitos dos crimes de associação criminosa, ho­micídios, execuções, assaltos à mão armada e sequestros.

No grupo David Golias é tido como cabecilha. Enquan­to chefe e cabecilha de todo o esquema, era quem recebia dinheiro para executar pesso­as e distribuía tarefas a cada elemento, conforme a habili­dade que apresentavam. Cada um tinha o seu “trabalho” es­pecífico: assassinato, roubo, extorsão, etc.

A rede é acusada de autoria de vários homicídios ocorridos na capital, como o do cambis­ta Agnelo Varela, do professor Miguel Fernandes, que era es­poso de uma outra cambista, e Peixinho, e é suspeito terem morto João David, o assassino de Peixinho que também era um dos elementos do grupo.

Como medida de coação, o Tribunal da Comarca da Praia­ decretou prisão preventiva a David Golias, Eme, Elizandro e o cambista Zé Pedro. Os res­tantes vão guardar o julgamen­to em liberdade.

“Assassino de Es Terra continua a monte”


 Como nos anos anteriores, os homicídios continuam a marcar negativamente a socie­dade cabo-verdiana e a impo­tência das autoridades em pa­rar esta onda criminosa é evi­dente. A capital registou vários homicídios, entre outros, o do empresário Emanuel Spencer e a recente execução de “Zé Es Terra” que puseram a nu o ní­vel de insegurança que se vive actualmente em Cabo Verde.

A figura  cabo-verdiana de 2013


 É nesta onda de tanta tris­teza e marginalidade em 2013, que surge um homem para alegrar o coração dos cabo­-verdianos. Antes desconheci­do, Casimiro Teixeira deu uma pequena entrevista, baseando na sua opinião sobre a justiça em Cabo Verde, o que rendeu a popularidade e a fama.

As suas palavras: “I no, gres­sives paah, sei lá, tou lá tou cá”, ganharam notoriedade e passa­ram a ser usadas em qualquer circunstância ou classe social.

Casimiro agora se sente tão famoso, alegando que estão a roubar-lhe o direito do autor e que não autorizou a ninguém usar as suas palavras. O senhor agora ficou “gressives paah”.

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Autoria:Elsa Vieira,4 jan 2014 0:00

Editado porDulcina Mendes  em  5 jan 2014 20:42

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