Em entrevista à Inforpress, Maria dos Anjos Lopes assegurou que mais importante do que identificar situações pontuais é desenvolver mecanismos de vigilância contínua que permitam acompanhar a evolução da qualidade das águas costeiras e apoiar a tomada de decisões com base em evidências científicas.
Considerou, por outro lado, que esta problemática deve ser estudada através da monitorização sistemática da qualidade da água, recorrendo a indicadores microbiológicos, físico-químicos e ambientais que permitam avaliar, com maior precisão, os potenciais riscos para a saúde pública.
No caso específico da Praia da Gamboa, a eventual descarga inadequada de águas residuais pode representar um importante factor de risco ambiental e sanitário, sobretudo porque se trata de uma zona utilizada para actividades recreativas e balneares.
Conforme salientou aquela investigadora, a exposição a águas contaminadas está frequentemente associada ao aumento da incidência de doenças de origem hídrica, incluindo infecções gastrointestinais, dermatológicas e respiratórias.
“Não devemos limitar a análise à questão de saber se a água apresenta um aspecto visualmente aceitável. Uma água pode apresentar-se aparentemente limpa e, ainda assim, conter microrganismos patogénicos ou outros contaminantes”, advertiu.
Maria dos Anjos Lopes disse ainda que a Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) tem desenvolvido estudos relacionados com a qualidade das águas balneares, contribuindo para o aprofundamento do conhecimento científico nesta área.
Contudo, considerou que existe ainda a necessidade de reforçar a investigação aplicada, através da implementação de programas permanentes de monitorização ambiental que permitam avaliar a qualidade das águas ao longo do tempo e de forma continuado, de modo a possibilitar a identificação das principais fontes de contaminação, a análise da influência da sazonalidade, a avaliação dos padrões de circulação das águas.
No entanto, lembrou que a investigação científica exige recursos para acesso a bibliografia e bases de dados, aquisição de equipamentos e materiais, deslocações, recolha e tratamento de dados, participação em conferências e publicação dos resultados, o que muitas vezes tem limitado este tipo de trabalho científico.
Por essa razão, considerou que a cooperação científica internacional é “extremamente importante”, frisando que a investigação científica contemporânea não deve ser feita de forma isolada, salientando que os problemas relacionados com água, saneamento, alterações climáticas e reutilização de águas residuais são problemas globais, o financiamento constitui um factor determinante para o desenvolvimento da investigação aplicada.
“Porém, precisamos igualmente de produzir conhecimento próprio, porque uma solução desenvolvida para outro país não pode simplesmente ser transferida para Cabo Verde sem adaptação. As nossas condições climáticas, insularidade, dimensão territorial, características hidrogeológicas, estrutura agrícola, disponibilidade energética e condições socioeconómicas exigem investigação contextualizada", indicou.
É neste particular que defendeu a importância da universidade que pode desempenhar um “papel fundamental” na criação do conhecimento local e, simultaneamente, estabelecer pontes com centros de investigação internacionais na produção de conhecimento adaptado às necessidades do país.
“A produção de conhecimento científico só adquire verdadeiro significado quando os resultados da investigação são transferidos para a sociedade e incorporados nos processos de tomada de decisão. Por essa razão, considero que a investigação deve desenvolver-se através de uma abordagem colaborativa e participativa, capaz de estabelecer uma ligação efectiva entre a academia, as instituições públicas, o sector privado e a sociedade civil”, precisou.
Enquanto professora e investigadora da Uni-CV, considerou que a água constitui um recurso estratégico para o desenvolvimento económico, social e ambiental de Cabo Verde e que a sua gestão deve assentar nos princípios da sustentabilidade, da eficiência, da inovação e da responsabilidade ambiental, pelo que a investigação deve estar orientada na procura de soluções que respondam aos desafios concretos do país.
Autora de estudo que avaliou a qualidade da água destinada à irrigação agrícola proveniente de duas estações municipais de tratamento de águas residuais da ilha de Santiago, com especial enfoque na análise dos parâmetros químicos e dos resíduos farmacêuticos, Maria Lopes, manifesta a sua total disponibilidade em encontrar soluções viáveis para este tipo de casos.
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