Jogos de rifa - Um meio de subsistência para rabidantes que funciona à base de confiança

PorAnilza Rocha,5 set 2026 7:37

No Mercado Municipal da Praia, pequenos comerciantes têm recorrido às rifas para conseguirem um rendimento extra. Entre os perfis entrevistados há quem tenha nesta actividade a única fonte de subsistência. Cada vez mais presente no quotidiano do mercado municipal, a modalidade funciona numa relação de confiança entre rabidantes e fregueses e já ultrapassou os limites das bancas, chegando às redes sociais e a clientes noutras ilhas e na diáspora.

Em pequenas folhas de papel, com vários nomes escritos, os prémios das rifas vão desde géneros alimentícios a dinheiro. Para as rabidantes, as rifas transformaram-se num meio de subsistência, que exige uma perseverança diária das mesmas.

As rifas fazem parte do quotidiano de Tixa há mais de dez anos. O que começou como uma forma de obter rendimento acabou por se transformar no seu principal meio de ganhar a vida e hoje ajuda a garantir um dinheiro para as despesas.

Já Suely iniciou-se neste ramo ainda muito nova. Aos 13 anos, acompanhava a mãe ao mercado e começou a vender pequenas rifas de 20 escudos para se manter ocupada.

Ju dedica-se às rifas há dois anos, depois de procurar outros empregos. Trabalhou num bar, que acabou por fechar um tempo depois. Seguiu para venda de peixe, mas as vendas eram escassas e, a partir daí, chegou ao mercado e hoje não se vê mais fazendo outra actividade que não sejam as rifas.

O dia-a-dia

A rotina das vendedoras de rifas começa cedo. Depois de organizarem os produtos e prepararem as folhas de rifa, passam grande parte do dia a circular pelos arredores do Mercado do Platô à procura de clientes, enquanto deixam alguém responsável por vigiar as bancas.

De acordo com as entrevistadas, trata-se de um trabalho exigente, que requer paciência, persistência e capacidade de lidar com as incertezas das vendas. Os rendimentos variam de dia para dia e nem sempre o esforço realizado resulta como o esperado.

Ju reconhece que há dias em que consegue obter um bom rendimento e outros em que as vendas são fracas. Ainda assim, garante que continua a trabalhar diariamente e a procurar clientes, apostando na persistência para garantir o sustento. Segundo Ju, as apostas começam por volta das 8 horas da manhã, mas a cobrança dos valores e o encerramento das rifas só acontecem, muitas vezes, durante a tarde, por volta das 15 horas, quando procuram fechar os jogos.

Com mais de uma década ligada à actividade, Tixa admite que a rifa é um trabalho complicado, mas afirma que continua dedicada à profissão. Segundo ela, nem sempre é fácil, uma vez que a actividade depende da relação constante com o público e da capacidade de conquistar a confiança dos participantes.

Como funciona

O funcionamento das rifas é relativamente simples, segundo explicam as entrevistadas. As organizadoras compram folhas de rifa, geralmente vendidas no próprio mercado, e definem um prémio que pode ser em dinheiro ou em produtos diversos.

Conforme explicou Tixa, compram uma folha de rifa por 50 escudos e estipulam um preço para jogar. As folhas contêm vários nomes e cada participante escolhe aquele em que pretende apostar.

"No meu caso, neste momento tenho uma rifa em que cada nome custa mil escudos e o vencedor leva 40 mil escudos", frisou esta vendedora.

Ju também, no seu caso, as rifas incidem sobretudo sobre produtos alimentares, uma opção que considera mais atractiva para os clientes.

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"Normalmente rifo mais arroz, óleo e caixa de perna. Coloco, nestes tempos, preços que variam entre 80, 110, 150 até 200 escudos, porque agora temos rifado menos. O número dos colegas de rifa também cresce diariamente, por isso não dá para estipular um preço muito elevado".

Existe ainda a possibilidade de quem estiver longe não ficar de fora dos jogos, funcionando as rifas também à distância. Caso o cliente esteja de passagem pelo mercado e quiser arriscar levar o prémio, segundo Tixa, basta deixar o contacto telefónico e caso ganharem, são informados.

Ju explica que, para jogar à distância, basta ter o aplicativo do Banco no telemóvel e fazer a transferência através do NIB da conta indicada. De acordo com a mesma, o processo funciona à base de confiança, já que muitas pessoas participam mesmo sem estarem presentes no mercado municipal.

O lucro

Num negócio em que os ganhos dependem do número de participantes, definir o preço a ser pago pelos clientes, torna uma das principais estratégias para garantir o lucro.

Tixa admitiu que o “ganho” varia conforme o tipo de rifa e o valor cobrado aos participantes.

"Para tirar lucro depende de como estipulamos o preço das rifas. Às vezes jogamos por 30, 40, 250 ou 500, escudos", reforçou.

Apesar dos anos de experiência, admite que os ganhos nem sempre são garantidos. Em média, diz conseguir um ganho entre 4 mil e 5 mil escudos por dia, dependendo do preço da rifa.

“Às vezes também não consigo tirar 5 mil escudos certos, num dia, porque vendemos os nomes, a pessoa não paga, abrimos a rifa sem estar totalmente preenchida, o cliente joga e diz que não consegue pagar naquele dia, prometendo pagar depois. Então vivemos um dia de cada vez", afirma Tixa.

Para Ju, o aumento do número de pessoas dedicadas à actividade tem obrigado as organizadoras a adaptarem os preços para conseguirem vender todos os números. Considerou que apostar em valores mais altos pode afastar os possíveis fregueses.

"500 escudos, nesta altura, é muito arriscado, não dá para tirar bem o seu lucro. Então, se estipularamos o preço em torno de 80 escudos, conseguimos obter um pequeno ganho, no final do dia, e sustentar a casa", ressaltou.

Também Suely diz recorrer a estratégias para evitar perdas, sobretudo quando os participantes não cumprem o pagamento.

"O que faço é, quando alguém não paga, eu deixo outra pessoa jogar no mesmo nome de quem não pagou, assim eu evito algum prejuízo", sustentou.

Consoante Suely, entre as práticas que acontecem no mercado está a venda de “nomes comprados”, uma situação que, segundo explica, ocorre quando faltam poucos nomes para completar uma rifa.

“O que também tem acontecido é, por exemplo, jogar em nomes comprados, ou supostamente comprados. Quando faltam dez nomes para terminar a rifa, aqui no mercado as rabidantes riscam os dez nomes e assinam como se os nomes já tivessem sido jogados e vendem esses nomes. Isso porque muitos acreditam que os nomes comprados têm mais chance de vencer”, explicou.

Em geral, de acordo com as entrevistadas, a crescente concorrência por parte das “rabidantes” e a diminuição do poder de compra dos clientes têm tornado mais difícil obter lucro.

“Antigamente as minhas rifas eram mais baratas, porque a situação económica era melhor, mas hoje são mais caras, para poder tirar algum lucro”, frisou Tixa, que se encontra há mais de 10 anos nesta actividade.

A base da confiança

A confiança, nesse tipo de trabalho, tem um papel central para que o negócio flua.

Tixa explicou que a confiança tem de existir dos dois lados. Segundo ela, há situações em que clientes habituais pedem para pagar mais tarde, por não terem dinheiro no momento da aposta. Nesses casos, dependendo da relação construída ao longo do tempo, aceita aguardar pelo pagamento, embora admita que nem sempre isso é possível.

A vendedora garantiu que, ao longo dos anos em que se dedica à actividade, nunca foi acusada de fraude. Conforme assegurou, procura sempre ser honesta, conduz as rifas com transparência e assegurar que os vencedores recebam sempre os prémios anunciados.

“Trabalho sempre com honestidade. Quem for o vencedor recebe obrigatoriamente o seu prémio. Eu vou lucrar na mesma, há dias em que ganho mais e dias em que ganho menos”, salientou.

A mesma ideia é partilhada por Ju, que considera que a actividade funciona essencialmente com base na confiança.

Enquadramento legal das rifas

As rifas realizadas em Cabo Verde estão enquadradas no Regime das Modalidades Afins dos Jogos de Fortuna ou Azar, previsto no Decreto-Lei n.º 73/2005, de 7 de Novembro.

Conforme referiu a Inspecção-Geral de Jogos (IGJ) ao Expresso das Ilhas, as rifas fazem parte das modalidades previstas na legislação cabo-verdiana, por envolverem a participação do público e a atribuição de prémios com valor económico.

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A entidade esclareceu ainda que a realização de rifas está sujeita a autorização prévia das autoridades competentes e ao cumprimento das condições legalmente estabelecidas para a sua realização. Independentemente da forma como são organizadas, incluindo através de meios informais, estas actividades estão sujeitas às regras previstas na lei.

Na prática, de acordo com a mesma fonte, iniciativas informais promovidas por particulares ou pequenos comerciantes podem apresentar maiores desafios de acompanhamento e fiscalização, sobretudo quando ocorrem de forma dispersa e sem divulgação formal.

“Contudo, isso não significa que estejam fora do alcance da lei”, garantiu, acrescentando que a exploração habitual de rifas como fonte de rendimento e a atribuição de prémios em dinheiro, suscitam questões de conformidade com o regime legal aplicável, razão pela qual a sua realização não pode ser entendida como uma atividade livre de enquadramento ou controlo.

A percepção da IGJ é que muitas dessas iniciativas resultam do desconhecimento das exigências legais e não necessariamente de uma intenção de incumprimento. Por essa razão, instrui que para além da fiscalização, é importante reforçar acções de informação e sensibilização junto da população sobre o regime legal aplicável, sobretudo, às rifas e sorteios, promovendo assim uma cultura de cumprimento da lei e de proteção dos participantes.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1292 de 02 de Setembro de 2026.

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Autoria:Anilza Rocha,5 set 2026 7:37

Editado pormaria Fortes  em  5 set 2026 8:28

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