João Medina considera que Cabo Verde deve olhar para além da fome do passado e discutir os problemas que persistem na actualidade.
“Cabo Verde tem esse estigma do passado, que tem a ver com a fome, e a fome que não se quer. Anunciamos a fome do passado, mas não queremos falar dos problemas famélicos da actualidade”, afirma.
João Medina chama a atenção para a divulgação de informações falsas por pessoas sem formação médica, que podem influenciar as decisões dos cidadãos e comprometer a saúde pública.
O investigador estabelece uma ligação entre a fome e a desinformação, ao considerar que a pobreza e a falta de preparação para avaliar informações podem facilitar a propagação de informações falsas.
“No fundo, são duas pandemias. Se temos, no mundo, mais de 600 milhões de pessoas que passam e enfrentam ainda problemas de fome, temos também problemas com o excesso do uso da desinformação para promover aquilo a que chamamos agnotologia, que é uma nova espécie de ignorância. Veja que a fome leva-nos à ideia de miséria, e a miséria leva à falta de informação ou de preparação para filtrar as informações. É nesse nicho que se aproveita também para espalhar informações falsas. É nesse nicho que também têm grande impacto as notícias falsas, as incertezas e as dúvidas que se lançam, ao ponto de se acreditar que o universo não é redondo, mas plano”, sublinha.
Para João Medina, cabe aos investigadores aprofundar estas questões e apresentar dados que apoiem decisões capazes de responder aos desafios do presente e do futuro.
A segunda Conferência Internacional de Enfrentamento à Fome e à Desinformação decorre hoje e amanhã, no Centro Cultural do Mindelo.
O evento reúne investigadores de países como Cabo Verde, Portugal, Brasil e Moçambique e pretende promover a partilha de conhecimento e contribuir para a definição de políticas públicas nas áreas da saúde, educação, tecnologia e comunicação, segundo a organização.
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