Morreu o nosso Poeta. Morreu Corsino Fortes

PorExpresso das Ilhas,24 jul 2015 9:59

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Morreu Corsino Fortes. O poeta partiu esta sexta-feira, depois de uma luta contra o cancro.

Corsino Fortes escolheu morrer no Mindelo, cidade à qual regressou, na fase terminal da doença, a seu pedido, para que em São Vicente se despedisse da vida material, porque eterna e imortal será para sempre a sua obra.

Corsino António Fortes nasceu em São Vicente, em 1933. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Lisboa (1966), tendo integrado vários governos em Cabo Verde. Foi presidente da Associação dos Escritores Cabo-verdianos e presidente da Academia Cabo-verdiana de Letras, desde a sua fundação em 2013. 

Publicou os primeiros poemas no Boletim dos Alunos do Liceu Gil Eanes, no Boletim de Cabo Verde e na revista Claridade. Com a publicação de Pão & Fonema em 1974 estabelece-se como uma das vozes mais válidas da poesia cabo-verdiana. A originalidade tanto formal como artística que patenteou logo no primeiro livro de poemas viria a ser confirmada em duas outras obras, Árvore & Tombor (1986) e Pedras de Sol & Substância (2001), que fecham a trilogia. Também em 2001 publica A Cabeça Calva de Deus que reúne os três livros anteriormente publicados. Numa entrevista concedida na altura, explicou assim a essência da sua trilogia poética: 

 “Acaba por ser todo o projeto de independência do povo de Cabo Verde, em que Pão & Fonema representa, de facto, os símbolos daquilo que é fome, daquilo que é a realidade de Cabo Verde durante séculos, e, por outro lado, a exigência pela palavra, liberdade e cultura. Em Árvore & tambor já há a materialização do “pão”, no sentido dos instrumentos de produção do país e toda a comunicabilidade do arquipélago com África e o mundo. Pedras de sol & substância é a substancialização solar desta realidade. Há uma materialização de aspectos, não só de ordem literária, mas também de ordem pictórica e musical. É tudo aquilo que pode significar a identidade deste espaço, e dos que o habitam, dentro e fora do arquipélago.”

Corsino Fortes foi, em diversas ocasiões distinguido pela sua actividade político/diplomática, mas só recentemente recebeu uma das poucas distinções da sua já longa carreira poética: o prémio literário 40º Aniversário de Independência de Cabo Verde, no valor de 500 mil escudos.

De resto, Corsino Fortes preocupou-se mais com os valores imanentes da sua obra do que com qualquer falso brilho a que os prémios literários estão muitas vezes associados, como revelou numa entrevista concedida no ano passado ao Expresso das Ilhas:  

Expresso das Ilhas – É um dos expoentes máximos da literatura cabo-verdiana, mas a sua obra raras vezes foi premiada. A que se deve este paradoxo?

Corsino Fortes – O fundamental para mim é nós reconhecermos os valores que temos em Cabo Verde. Somos um pequeno país e se aparece uma pessoa ou instituição interessada na divulgação da nossa literatura é necessário colaborar. Nos fóruns internacionais temos feito todos os possíveis para que também escritores cabo-verdianos sejam mais conhecidos. Fico satisfeito por ter sido convidado há uns anos como jurado do Prémio Camões e com a minha presença e com ajuda dos outros jurados consegui que o prémio viesse para Cabo Verde, tendo sido atribuído a Arménio Vieira [2009]. Rejubilo-me com isso”.

Aliás foi nesta entrevista que o poeta anunciou em primeira mão a publicação do livro Sinos de Silêncio, cujo lançamento aconteceu esta quarta-feira, na Biblioteca Nacional, na Praia, um dia depois de ter sido apresentado no Mindelo, em São Vicente.

 

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Autoria:Expresso das Ilhas,24 jul 2015 9:59

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  24 jul 2015 16:44

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