Depois do sucesso de “Rancá da li Djack”, a cantora Jenifer Solidade brinda os cabo-verdianos com seu primeiro disco a solo “Um Click”. Em conversa com o Expresso das Ilhas, Jenifer fala do nascimento do seu hit “Rancá Djack” do seu disco de estreia, do projecto Cesária Évora Orchestra de que é uma das vozes femininas e dos planos para o futuro.
Expresso das ilhas - Estás na música há cerca de 15 anos e começaste a ser conhecida do grande público quando mudaste o teu nome de Jenifer Almeida para Jenifer Solidade. De quem partiu a ideia?
Jenifer Solidade - A sugestão da mudança do nome foi do meu pai. Almeida é apelido do meu pai e Solidade da minha mãe. Muitas pessoas pensam que Jenifer Solidade é um nome artístico, mas na verdade é meu nome mesmo. Antes de Jenifer Solidade só me chamavam Jenifer. Mas foi como Jenifer Solidade que gravei para o álbum “Olinôs” [em 2005]e ficou esse registro de Jenifer Solidade. Meu nome completo é Jenifer Solidade de Almeida.
Ainda sobre mudança do nome. O Dino que foi descoberto na Operação Triunfo III só se tornou conhecido também depois de ter mudado o seu nome para Dino D’Santiago. É mero acaso, ou recomendas esta estratégia a outros artistas?
Para mim foi mero acaso, mas para Dino D’Santiago não sei. Talvez tenha sido a forma de ele encontrar as suas raízes cabo-verdianas.
Porque é que levaste mais que uma década para gravar o teu primeiro álbum?
Não é levar uma década. Acho que quando se começa a fazer algo, devemos adquirir algumas experiências, aprender, ouvir opiniões e críticas. Tudo isso é construtivo e eu nunca tive pressa em gravar. Desde início disse que não tinha pressa, porque para fazer um disco a pessoa tem de saber o que quer, qual a linha que quer, porque entrar na linha tradicional e mantê-la não é fácil. Quando és muito jovem tens outras influências e eu nesta década fui adquirindo outras informações, tanto de estar no palco como também de cantar outros estilos musicais e fui-me encontrando ao ponto de fazer o disco independentemente de ser o Hernani Almeida produtor, porque ele também é muito contemporâneo, ele faz parte deste disco por completo como eu. Como disse, o disco marca um processo de encontro pessoal comigo mesmo.
Essa década foi o tempo ideal para fazeres a estreia a solo?
Sem dúvida. Para mim essa década foi fundamental, porque ao se começar cedo e gravar cedo há um risco de tudo correr bem no início, mas com o decorrer do tempo vais notando que te falta experiência em várias coisas: experiências adquiridas nos grandes palcos, também nos bares, restaurantes, convívio com músicos e agentes para saberes finalmente aquilo que tu queres fazer. Por isso acho que a melhor altura foi essa.
Disseste que o single “Rancá Djack” foi apenas para aguçar o apetite das pessoas. Como caiu no agrado do público?
“Djack” caiu muito bem e meu nome tornou-se Djack por onde passo, tanto para as crianças como para os adultos. O Djack foi um tiro de sorte ou coisa assim. É e foi bem aceite, não há ninguém que não me reconheça por causa do Djack, não há ninguém que diga que não gostou até agora. O Djack foi o pontapé de saída deste álbum e também para as pessoas que não me conheciam antes.
Acreditas que os outros temas do teu disco poderão ultrapassar “Rancá Djack” em termos de sucesso?
Não sei, o “Djack” saiu há um ano e tal e tem mais tempo que as outras músicas do meu primeiro álbum: foi uma forma de produção e promoção incríveis. Neste disco tenho por exemplo “Boka de Fiúza” e “Só go” que são do estilo de crítica como Djack. Há outra música que é “Cuidade na Click” que também é uma música interessante, que se pode comparar mesmo com o Djack.
“Rancá Djack” é uma versão crioula do swing “Hit the Road Jack”. Conta a história da sua adaptação.
Essa adaptação nasceu de um improviso. Estava a cantar num bar o original americano, quando me deu um Blackout completo. Não me lembrava da letra em inglês e de repente vejo um velho amigo entrar pela porta do bar. Talvez porque não o tivesse visto há muito tempo, de repente deu-me um click e comecei a improvisar a letra em crioulo. Na parte do refrão e a parte onde falo, foi criada aqui em Cabo Verde, porque ao chegar a Lisboa comecei a prestar atenção na vivência das pessoas tanto próximas de mim, até nas palavras que as pessoas dizem de forma engraçada e foi assim.
Dizes que “Rancá Djack” é uma versão que satiriza os homens cabo-verdianos e brinca com a forma como as mulheres lidam com eles: mandámo-los embora mas esperando que eles voltem sempre. Há elementos autobiográficos na letra desta música?
Não, essa música lembra um pouco o meu pai, mas o meu pai não era um “Djack” que desaparecia algumas semanas sem deixar rasto. Mas pronto, gostava de sair com os amigos e minha madrasta não gastava. Enfim, tanto o homem como a mulher cabo-verdiana gostam dessa parte onde a mulher briga, manda embora e depois aceita. Mas nunca tive um “Djack” graças a Deus.
Tens previsto outras adaptações crioulas de temas estrangeiros?
Tenho, mas ainda não quero avançar. Só bateu uma ideia, mas ainda não está feita.
Vais te dedicar agora só à tua carreira a solo ou vais continuar com os duetos?
Estou a investir muito na minha carreira a solo, mas faço também parte do projecto Cesária Évora Orchestra e não vou sair, porque acho que dá para conciliar as duas coisas, apesar de serem projectos completamente diferentes. Portanto vou continuar no projecto Cesária Évora Orchestra e vou continuar o meu trabalho a solo e vamos ver o quê que acontece futuramente.
Falando agora do teu primeiro álbum a solo. Como é que surgiu o título “Um Click”?
“Um Click” surgiu de repente, ao ver uma cena e deu-me literalmente um click. Foi num café perto da minha casa e vi uma cena e repensei tudo aquilo, no prejuízo que iria dar à pessoa que estava a ser fotografada sem se dar conta e de como as pessoas às vezes não pensam e não se dão conta do perigo da internet de clicar uma foto. Posso tirar uma foto de ti e depois fazer algo que te pode prejudicar, e foi isso que me deu um click. Também às vezes as coisas acontecem de um click.
Qual foi a participação do produtor Hernani Almeida no teu primeiro álbum?
Hernani Almeida fez tudo; fez todos os arranjos musicais e tem algumas composições também. Ele fez ainda outras coisas no disco como o piano em algumas músicas e algumas linhas no cavaquinho. Digamos que ele fez um pouco de tudo nesse disco, para além de ser o produtor musical e um dos compositores das músicas que cantei.
Quais são os temas inéditos do álbum?
O disco é formado por temas como “Um Click”, “Só go”, “Boka de Fiúza”, “Largam da Mon”, “Sta na Tempo”. E tem uma música da minha autoria que é “Kasá ma mi”.
Como é que foi a reacção do público ao seu novo álbum?
Ainda não percebi de todo qual foi a recepção, mas o pouco ou muito que tenho percebido é que as pessoas gostaram. Felilicitam, enviam-me mensagens e até ligam do exterior. E o melhor teste foram crianças. Elas gostaram de algumas músicas, outras não entenderam bem, mas as de linguagem mais fácil intenderam. Espero bem que seja bem aceite por todos.
O primeiro lançamento aconteceu em São Vicente, como é que foi?
Foi muito bom, no início estava muito nervosa e quando estou nervosa tento descontrair. E a forma que encontrei foi conversar com o público. Foi giro, porque consegui estabelecer logo no início do show uma empatia com público e a partir daí fiquei mais descontraída. Foi giro, a sala estava bonita e os músicos foram excelentes.
Durante a sua apresentação tiveste alguma surpresa?
Não, tirando a Ceuzany que sabia que estava presente, a emoção dela e falava com ela e ela respondia, o público achou muito engraçado e foi de facto divertido. Foi um concerto giro e muito intimista.
Deste também um concerto de lançamento na Praia. Qual é a próxima estação?
Depois da Praia, ainda não sei, porque tenho que confirmar com a Harmonia, porque desde o mês de Julho que estou num ir e vir com o projecto Cesária Évora Orchestra. Fiz um clipe de “Um Click”, estive em festivais e só agora estou mais livre.
A que palcos pretendes levar esse disco?
Para todos que forem possíveis, para o mundo. Não vou mentir a minha ambição não é só Cabo Verde. Estou a começar aqui, mas não quero ficar por aqui, quero conquistar o mundo.
És uma cantora com uma bela voz e uma presença muito forte nos palcos. Isso vai continuar, ou alguma coisa vai mudar?
Claro que vai continuar, isso não vai mudar, porque no palco sou eu não há nada de extraordinário. Acho que não vai mudar, porque as pessoas já me disseram que sou muito expressiva e de facto sou, mesmo a falar e gesticular. Se estou contente nota-se, porque a minha cara já se transforma. Acho que já faz parte de mim, pelo menos as pessoas já me vêem assim e já me conhecem por esses tiques ou gestos.
Qual é tua paixão?
Gosto de dançar, embora haja muito tempo que não o faço; tenho mesmo essa paixão, gosto mesmo de dançar.
Além da música, o que fazes nos teus tempos livres?
Posso dizer que se tenho algum tempo livre, nesse tempo livre converso com as minhas amigas, passeio, vejo filmes, mas o meu tempo livro é mais dedicado à minha filha e ao meu marido. Gosto também de estar em casa. Com o tempo vou-me mudando mas gosto de estar sempre com os meus amigos.
O que achas da cena musical feminina cabo-verdiana?
Está cada vez mais forte, com mais poder. Acho que nós nem sequer damo-nos conta. Estou a falar de uma sociedade machista à qual todas nós pertencemos, embora não tão machista como antigamente. Temos o poder de convencer e mostrar às outras mulheres que os sonhos são capazes de se tornar realidade e que não há ninguém, quer seja cantora, bailarina ou exerça outra profissão que não acredita ou que não luta pelo seu sonho. Nós mulheres estamos em força não só a cantar, mas também já temos compositoras, músicos no feminino e isso é muito bom, porque quebra alguns tabus. Para mim é optimo e é bom, não sou feminista, mas acho que temos a mesma capacidade de criar e fazer as mesmas coisas tanto assim que há certas profissões em que as mulheres quando exercem a profissão que supostamente é masculina fazem-na melhor, isso é muito bom. Tenho notado um crescimento bem grande das mulheres com dom e com a paixão pela música, dança, teatro, entre outras vertentesculturais.
Cantora de “Rancá Djack” deixa público da Praia com água na boca
A cantora do sucesso “Rancá Djack”, com uma presença forte e sempre bem-disposta, acompanhada pela banda de Hernani Almeida fez a festa ao apresentar na cidade da Praia seu disco de estreia “Um Click”.
Jenifer Solidade tem habituado o público com a sua presença e voz deslumbrante. A emoção e alegria que transporta com apresentação de cada tema do seu novo álbum deixou o público da Praia encantado.
A apresentação do disco aconteceu na passada sexta-feira, 11, num dos hotéis da capital, numa plateia bem composta e bem animada.
Jenifer cantou, dançou e brincou com o público com os lindos temas de “Um Click”. Trouxe momentos fantásticos para mostrar aos praienses várias canções tradicionais que marcam a sua estreia a solo.
A cada tema que apresentava, Jenifer interagia com o público para aquecer o ambiente.
Depois de mostrar os temas frescos do disco, a cantora cantou “Rancá Djack” um dos temas que também faz parte do CD, que tem feito muito sucesso. Mas “Rancá Djack” foi sem dúvida a música mais aguardada da noite.
A plateia que esteve sempre animada desde o início do show ficou à espera de ouvir mais músicas da cantora, mas por enquanto só vão ouvir comprando um CD, que esteve à venda no local do espectáculo. Depois da música foi a vez da contara distribuir autógrafos para aqueles que compraram o disco.
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