A tradição que ficou enraizada nas ilhas

PorDulcina Mendes,18 jun 2016 6:00

As Festas Juninas em Cabo Verde foram trazidas pelos portugueses, e desde então essas manifestações culturais passaram a fazer parte da cultura das ilhas, onde todos os anos milhares de pessoas reúnem-se para festejar esses santos.    

Estes eventos culturais já estão profundamente enraizadas nos costumes dos povos das ilhas, sendo que em cada ilha a festa é celebrada de uma forma, mas não perdeu a sua essência.  

Os santos juninos que se celebram em Cabo Verde são  Santo António, São João, São Pedro e São Paulo.

 Estas festas normalmente movimentam grande número de pessoas, apesar da estrutura da cultura cristã católica, o santo é caracterizado com uma certa dimensão, uma católica e outra meio pagã e profana.

Temos o caso do Santo António que é um santo considerado protector das famílias, muito acarinhado pelas pessoas e no dia em que é consagrado reúne sempre muitos fiéis.

Este ano, a festa de Santo António calhou na segunda-feira, 13, o que não impediu que os devotos celebrassem o seu santo padroeiro com toda a pompa e circunstância. 

Esta festa reverte-se de um cariz cultural muito forte pela sua antiguidade e pelas tradições que se desenvolvem à sua volta em várias ilhas. 

Santo António é um santo casamenteiro, São João está mais ligado aos actos mágicos, mas ambas são festas religiosas  com substratos  africanos. 

Para perceber melhor as Festas Juninas em Cabo Verde, o Expresso das Ilhas conversou com o geógrafo, José Maria Semedo.  

Segundo o investigador, as Festas Juninas, “são festas pagãs, associadas à tradição de cultos de deuses pagãos, que estão ligados ao ciclo do calendário solar do Verão. Geralmente são festas muito próximas do solstício de Junho”, explica.

José Maria Semedo afirma que a cultura cabo-verdiana construiu-se com base no catolicismo romano.

“É impensável a estrutura da cultura cabo-verdiana sem o calendário católico romano; agora há muitas religiões em Cabo Verde, mas a cultua cabo-verdiana foi construída à base de cristianismo católico romano”, apontou.  

Conforme aquele geógrafo, em Cabo Verde cada comunidade tem um santo simbólico, que assenta na interligação da sociedade onde é festejada.  

No caso de Santo António que é um santo casamenteiro, em Portugal essa tradição é muito forte. 

“Em Cabo Verde não vamos encontrar reminiscências pré-cristãs, como aparece na Península Ibérica, mas a cultura ibérica e africana, que participaram no povoamento de Cabo Verde vão construir uma cultura recente, onde aparecem segmentos  com muita força, porque o cabo-verdiano vê o seu santo como seu protector”, frisa Semedo. 

Conforme nos conta, em Cabo Verde, Portugal e Espanha a figura mais invocada é a da Nossa Senhora, o culto mariano, a Virgem Maria aparece como a santa medianeira, intercessora e a santa que está próxima, porque a Virgem é mãe e sendo mãe é a santa que é mãe. 

“Nas ilhas de Sotavento, as festas tem maior proporção, porque a cultura clássica está em Sotavento, pois as ilhas de Sotavento foram primeiras a serem povoadas”, refere. 

 

Para cada Santo existe um ritual 

De acordo com Semedo o povo tentou ligar as festas a determinada protecção, “os gregos tinham um Deus para cada momento e acto da vida, e o cristianismo tentou ligar os Santos às aflições”. 

“Exemplo disso, temos  São Roque para momentos de abandono e aflição, Santa Luzia para doença dos olhos,” diz o geógrafo.   

Também cada pessoa tem seu o seu santo protector, cada freguesia tem seu santo, que é evocado em momentos de crise e aflição. 

Em relação aos festejos, as Festas Juninas geralmente tendiam ao fogo. “Em Cabo Verde, nas festas de Santo  António fazia-se o lume maior que não era assaltado para assinalar o Solistício, já no São João fazem-se três lumes que são assaltados, com frases e actos mágicos”.

Conforme aquele investigador cultural, actualmente só se fazem fogo pelo São João, pois “em Cabo Verde essas festas têm decrescido. Se comparar essas festas na ilha de Santiago com Paraíba no Brasil, podemos dizer que a nossa festa acabou”. 

“No Brasil há muita fogueira e animação, qualquer aldeia mais remota do Nordeste do Brasil está completamente mais enfeitada e há muito barrulho em torno desses santos, por causa das tamboradas, das fitas e das fogueiras que se fazem”, acrescenta.  

Para Semedo, o decréscimo dessas festas em Cabo Verde podem ser por causa da pobreza. “Em Cabo Verde a festa perdeu o brilho completamente, por causa da pobreza, as pessoas desligaram. Já não fazem uma série de actos tradicionais que se faziam no passado”. 

Enquanto em Portugal durante as festas de Santo António é tradição a realização de vários casamentos, em Cabo Verde, com o passar dos anos, essa tradição quase desapareceu. 

Todos os povos têm o seu calendário e os africanos tentaram fazer mais uma adaptação da festa católica com rituais africanos como a Tabanca e Colá Sanjon. Já as bandeiras não mudaram muito em relação às tradições europeias.  

De acordo com José Maria Semedo a ilha onde o culto dos santos continuou mais perto da Europa é a ilha do Fogo. 

“A bandeira não mudou tanto como se fazia na idade média europeia, com as cavalhadas e os tambores ficou muito próximo da Península Ibérica”.

Para José Maria Semedo, a ilha de Santo Antão tem mais força africana, o Colá Sanjon é muito africano, já a ilha do Sal tem grande tradição das Festas Juninas sobretudo na zona onde vive uma comunidade de São Nicolau.  


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 759 de 15 de Junho de 2016.

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Autoria:Dulcina Mendes,18 jun 2016 6:00

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  20 jun 2016 8:22

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