Cabo Verde nas bocas do mundo

PorChissana Magalhaes,17 dez 2016 12:00

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A culpa é de Cesária Évora. E de Mayra Andrade, Tcheka, Lura, Carmen Souza, Teófilo Chantre…E de outros que, até mesmo antes destes, levaram os sons da música de Cabo Verde ao mundo. Estes embaixadores da música cabo-verdiana são os grandes responsáveis por um fenómeno que não nasce hoje, mas se intensifica nos tempos actuais: nomes sonantes da música internacional a interpretar temas nossos. Mas há também artistas de paragens distantes a cantar mornas, coladeiras e outros ritmos crioulos, por vezes nas suas línguas maternas.

 

Há poucos meses alguém partilhava na rede social Facebook um vídeo amador onde uma cantora surgia a interpretar “Mãe Carinhosa”, tema da autoria de Teófilo Chantre popularizado pela diva Cesária Évora, numa língua estranha. Com alguma pesquisa descobrirmos tratar-se de Eleftheria Arvanitaki, cantora grega que inclusive gravou este tema, na sua adaptação para o grego, antes mesmo de Cise.

“Conheci a cantora Eleftheria Arvanitaki em Atenas, quando lá estive para alguns concertos. Ela solicitou-me para lhe fazer algumas canções e foi assim que surgiu “Mãe Carinhosa”, que foi adaptada para o grego e que ela gravou em 2001 no seu álbum “Broadcast””, conta-nos Teófilo Chantre.

A canção viria a ser gravada por Cesária Évora alguns meses depois mas, segundo o músico e compositor radicado em França, ficou inédita até 2013 altura em foi lançada no disco póstumo da Diva dos Pés Descalços.

Cesária e Eleftheria chegaram a cantar e a gravar juntas o célebre tema “Sodade”. Este dueto está incluído no álbum da cabo-verdiana “Cesária &”. Aliás, só este disco seria suficiente para preencher este artigo de referências a nomes sonantes da música do mundo que, ao lado de Cesária, cantaram Cabo Verde. Desde o maliano Salif Keita ao cubano Compay Segundo, ao francês Bernard Lavilliers, à norte-americana Bonnie Raitt, passando pelos brasileiros Caetano Veloso e Marisa Monte.

Esta última, pelas mãos de Cesária, tem sido vezeira em interpretar música crioula. Já em 1998 num encontro memorável com a diva crioula e a portuguesa Dulce Pontes, emocionaram um Pavilhão Atlântico a arrebentar pelas costuras cantando temas do reportório de Cise.

O vídeo em que a cantora brasileira canta com a cabo-verdiana o tema “Mar Azul” num programa televisivo exibido em 2001 tem perto de 850.000 visualizações no Youtube e centenas de comentários nas mais diversas línguas.

Cesária é a incontestável rainha da internacionalização da música nacional e, através dela, composições de autores nacionais ganharam mundo e chegaram aos ouvidos de quem lhes quis dar o seu toque pessoal. Foi o que fez o guitarrista Carlos Santana que no seu disco de 2014, “Corazón”, traz pela voz da célebre cantora cubana Glória Stefan (que não envergonha a cantar crioulo de São Vicente) o tema “Beijo de Longe” de Gerard Mendes e Teófilo Chantre. O toque moderno e “rockeiro” da guitarra do mexicano e o intensificar da pitada de salsa que já sempre havia em “Beijo de Longe” ganharam mundo e encheram de orgulho cabo-verdianos que, através da internet, aprovaram a nova versão.

Os dois artistas latino-americanos viriam a interpretar uma versão espanhola do tema, com o título “Besos de Lejos”, no show “Corazón: Live from Mexico, Live to believe it”, que também se pode ouvir online.

Ainda que não sendo famosa como Santana e Stefan, a japonesa Mio Matsuda foi outra que registou em disco a sua interpretação de músicas cabo-verdianas. Em 2005 gravou no seu álbum “Atlântica” de 2005 os temas “Traz d’Horizonte”, de B. Léza, e “Sayko” de Ti Goy. Conforme o livro “Cabo Verde & a Música”, da jornalista e investigadora Gláucia Nogueira, Matsuda tomara contacto com a música cabo-verdiana em Portugal, quando estudava fado.                        

                               

Morna com Fado                                                             

O Youtube é um baú sem fundo no que toca a encontrar músicas de Cabo Verde interpretada por artistas internacionais, conhecidos e menos conhecidos. E, sem surpresas, os portugueses destacam-se neste namoro aos ritmos crioulos, não fosse Lisboa um dos caldeirões europeus onde há décadas se vem cozinhando muita da nossa música e dos nossos artistas.

Veja-se o caso da fadista Mariza que fez um mush up entre morna e fado com o tema “Beijo de Saudade”, de B.Léza, para o qual chamou Tito Paris. O tema, originalmente uma morna pura, ficou assim registado no seu álbum “Terra”, de 2008.

No entanto, foi Celina Pereira a primeira a deitar mão a esta morna bilingue - criada por B. Léza nos anos 30/40 aquando da sua participação na Exposição Colonial - para uma interpretação em dueto. Em 1999, a cantora boavistense grava-o com o fadista português Carlos Zel, com a particularidade de ser ele a cantar a lírica em Crioulo de Cabo Verde e ela a dar voz às partes em Português.

A relação de proximidade entre artistas nacionais radicados na diáspora com artistas lusófonos tem sido de tal intensidade que já os leva não apenas a querer interpretar temas cabo-verdianos como influencia a sua própria produção.

É o caso de um dos novos meninos bonitos da música portuguesa, António Zambujo, que esteve em meados deste ano em Cabo Verde. O artista [começou fadista mas foi evoluindo em influências, de onde hoje sobressai a da MPB] admitiu que o seu disco “Quinto” (de 2012) é influenciado pelas mornas de Cabo Verde. Aliás, reconhece a influência não só no trabalho citado mas na sua construção enquanto músico.

A simpatia pela morna é uma afinidade partilhada com a colega fadista Ana Moura com quem interpretou no palco do Coliseu de Lisboa “N’Cria Ser Poeta”, de Paulino Vieira, e “Lua Nha Testemunha” de B. Léza, ajudados pelo cavaquinho de Jon Luz, músico e compositor natural de Santo Antão radicado em Lisboa.

Já que falamos de Zambujo, aproveite-se para referir que os caminhos deste cruzam-se com o de Mayra Andrade, e se no caso deste encontro é a cabo-verdiana quem acaba a cantar fado e bossa nova, do encontro da intérprete de “Tunuka” (e outros temas de Orlando Pantera) com a cantora brasileira Mariana Aydar, foi esta última que se rendeu ao sonido da música que ouviu à cabo-verdiana.

 

De Portugal a Brasil

Aydar contou ao programa televisivo brasileiro Ensaio que passou um ano em França, onde a música de Mayra Andrade teve grande influência nela. E num crioulo de Santiago quase sem sotaque interpreta no referido programa “Tunuka” à capela.

Terá sido também pela voz de Mayra Andrade que outros temas de Orlando Pantera [“Lapidu na Bo”, “Regasu”…) e “Lua”, de Princezito, chegaram a Dayana Núñez, brasileira de origem paraguaia. Cantora, pianista e organista, ela compõe, pesquisa e interpreta estilos musicais sul-americanos, africanos e populares brasileiros, acompanhada do músico Jefferson Nefferkturu com quem compõe um duo chamado Yahá Morabéza.

Gláucia Nogueira, que há anos proferiu uma palestra no Centro Cultural do Brasil sobre as ligações entre música cabo-verdiana e brasileira fez lembrar na altura, que estes encontros já são antigos. Por exemplo, Carlinhos Brown gravou em 1998 no seu disco “Omelete Man” uma adaptação da morna “Direito de Nascer”, de Manuel d’Novas, em Português e com o título “Mãe que eu Nasci”.

E há também o caso do agrupamento Quinteto Violado que tem todo um LP em vinil exclusivamente com temas cabo-verdianos, entre eles “So sabe”, “Nho Jon” e “Fidjo Maguado”. O álbum chama-se “Ilhas de Cabo Verde” e é de 1989. Portanto, décadas antes do actual interesse pela música nacional. Segundo o site da revista brasileira “Continente” o líder desta banda de cordas, Marcelo Melo, tomou contacto com a música cabo-verdiana em 1969 quando vivia na Bélgica, onde passou a conviver com a comunidade cabo-verdiana aí residente e que descreveu como “unida e engajada na mobilização contra o domínio colonial” então vivido por Cabo Verde.


Zouk/Kizomba, também

Contudo, os encontros da música cabo-verdiana com as vozes do mundo não se ficam pelos géneros tradicionais. O zouk cabo-verdiano, igualmente chamado de cabo-zouk, zouk-love ou mesmo cabo love, e que na sua génese tanto bebeu do zouk das Antilhas, também influenciou de maneira inegável a evolução do kizomba angolano, antes de dar-se o processo inverso e serem os artistas crioulos a buscarem a sonoridade agora conseguida por aquelas bandas. Pode-se pôr a questão nestes termos: o que veio antes, a galinha ou o ovo? Na resposta pode estar a chave para o mistério que se tornou a identidade de Nelson Freitas, um dos embaixadores deste género cuja origem se questiona nas redes sociais, se angolano ou cabo-verdiano [humor a parte, a bem da verdade diga-se que Freitas nasceu e cresceu na Holanda, filhos de pais cabo-verdianos].

Que Freitas é um dos que já pôs muitos artistas angolanos e não só a cantar em crioulo, não há dúvidas. E para muitos, sendo zouk/kizomba e na língua di terra, é música cabo-verdiana.

Impactante nesse meio é a presença de Kaysha (Edward Mokolo Jr.). Natural da República Democrática do Congo, segundo o “Cabo Verde & a Música - Dicionário de Personagens”, este cantor, compositor e produtor musical emigrou para França ainda criança e ali, anos depois, teve contacto com o cabo love de Philip Monteiro.

Hoje, Kaysha é referência no kizomba, canta em crioulo (como em “Flam ki n ta sta Sempre”) e compõe para artistas cabo-verdianos, como Ricky Boy e Djodje, a quem já produziu várias músicas. 

Muitos mais casos há que poderíamos ainda aqui trazer. Mas importa também referir que esta moda da música cabo-verdiana entre artistas estrangeiros tem não tem apenas o lado positivo, do reconhecimento e da visibilidade da nossa música e do país em si. Casos há em que têm surgido cantores e grupos a anunciarem-se como intérpretes de ritmos cabo-verdianos e que numa audição atenta não passam no “teste”. Ou seja, o que cantam dificilmente pode ser reconhecido como qualquer ritmo cabo-verdiano. Mas a publicidade é que conta.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 785 de 14 de Dezembro de 2016.

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Autoria:Chissana Magalhaes,17 dez 2016 12:00

Editado porFretson Rocha  em  18 dez 2016 8:51

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