Como são os hábitos de leitura dos Cabo-verdianos? Lêem assim tão pouco como se diz? E que mecanismos podem ser usados para fomentar o gosto pelo livro? Foram estas as questões-base colocadas a várias personalidades ligadas, por diferentes laços, ao livro e promoção da leitura. Em suma: há que repensar a dinâmica que se move em torno do livro, apontam os entrevistados. Ora veja. Boa leitura…
Não há dados sobre os hábitos de leitura dos cabo-verdianos. Ou melhor, se os há, não se conhecem. Mas há percepções de quem, de perto, lida com livros e com a questão da leitura. E em Cabo Verde, embora pareça consensual que esses hábitos estão aquém do desejável, as opiniões dividem-se quanto ao patamar em que o país se encontra.
“Hábitos de leitura? Não há hábitos, logo, praticamente não há leitura”, avalia Marilene Pereira, directora do Centro Cultural Brasil – Cabo Verde.
A perspectiva da Presidente da Academia Cabo-verdiana de Letras, Vera Duarte, é outra. Com base em algumas iniciativas no meio escolar a tem que assistido e ao número de títulos esgotados de alguns autores nacionais, a escritora considera que “os cabo-verdianos estão a ler mais, ou melhor, há mais cabo-verdianos a lerem”.
Essa é também a opinião do editor de conteúdos e autor de livros infantis Odair Varela, que avalia que, apesar de não podermos dizer que estamos “bem”, estamos no melhor período de sempre em termos de leitura”.
“Aqui entendo a leitura como a textualidade com bases narrativas, muito mais ampla do que o próprio livro”, mas “mesmo quando se fala unicamente da leitura do livro, o cenário é francamente melhor”, diz.
Consideremos então que há mais gente a ler. Mas o hábito de leitura ainda não é algo enraizado.
“Transformar Cabo Verde num país de leitores não é tarefa fácil”, sublinha, por seu turno o poeta e fundador da editora Rosa de Porcelana, Filinto Elísio.
E para incentivar então esse gosto pela leitura, que é a base para criar hábitos, o que é preciso? “Mudanças de paradigma”, segundo o poeta.
“Creio que se deve dar mais relevo à leitura em sede da formulação das políticas públicas. Em verdade, precisamos de uma revisão profunda das políticas para o livro, a leitura e as bibliotecas”, resume.
Acesso ao livro
“Parece-me que o nosso hábito de leitura é condicionado pela oferta e acesso aos livros. Temos potencial para ter um maior número de leitores, tendo em conta a taxa de alfabetização, mas o acesso ao livro está num círculo reduzido”, opina a linguista Adelaide Monteiro.
De facto o acesso ao livro é muito limitado, por factores de vária ordem. A começar pelo económico. Muitos pais, como refere Marilene Pereira, não têm sequer “condições financeiras suficientes, para fazer do livro uma prática em suas casas, em suas vidas”.
“O custo do livro” é, também para Filinto Elísio, um aspecto que não se pode negligenciar. Da perspectiva de editor, refere que “a cadeia produtiva do livro é pesada e onerosa. Impõe-se reduzir o custo e, consequentemente, o preço do livro para que seja produto de primeira necessidade.”
“Sem isso não há verdadeiramente hábitos de leitura dos cabo-verdianos”, alerta.
Vera Duarte salienta igualmente que “o facto de o livro poder tornar-se mais acessível aos bolsos dos cabo-verdianos, constitui sem dúvida um extraordinário convite à leitura”.
Mas o acesso ao livro (como aliás à maior parte de outros produtos, com um preço, mas de valor essencialmente imaterial) não se resume à posse. É mais do que isso. É fruição. E nesse sentido, a circulação e acesso gratuito aos mesmos é também mecanismo fundamental.
Aqui surgem, claro, as bibliotecas.
Aliás, o papel das bibliotecas é consensualmente destacado nesta “luta” para incentivar a leitura. Mas não basta ter bibliotecas. É preciso que estas tenham um bom recheio, que esses livros estejam acessíveis e que tenham uma dinâmica que, de facto, promova a leitura.
Como realça Marilene Pereira é preciso ter bibliotecas, nomeadamente municipais, “a sério”.
E também as bibliotecas escolares são fundamentais. Mas, mais uma vez, é preciso que de facto funcionem. Que “tenham à frente gente responsável, e não pessoas que foram tiradas das salas de aula por razões menos nobres ou porque estão à espera da aposentação, como é feito actualmente”, aponta a directora do CCB-CV.
Escolas promotoras da leitura
“Cabo Verde dispõe de 526 estabelecimentos de educação ou ensino pré-escolar, 420 unidades de Ensino Básico e 50 do Ensino Secundário que podem e devem ser usados como espaços de leitura através de programas de pequena escala e itinerantes e criação e reforço das bibliotecas escolares”, explaneia Dai Varela. Essas escolas, acrescenta, devem “incentivar o professor a aperfeiçoar a sua formação na literatura nacional para conhecer e depois alargar o leque de leituras do aluno”.
Na mesma linha, mas numa abordagem mais crítica, Marilene Pereira aponta que a falta de incentivo à leitura parte, em primeiro lugar, do próprio exemplo dos professores, que pouco ou nada lêem. Pelo menos é isso que revela ter registado no seu trabalho nas escolas e escolas de formação de professores. “Sendo assim, como passar o gosto pela leitura aos alunos?”, questiona.
Para a directora do CCB-CV, é importante começar, pois, pelos docentes. Um dos mecanismos poderia ser que “na avaliação dos professores primários, que é feita com base em subjectivismos, fosse integrado o item quantos livros leu naquele ano”, sugere.
O papel das escolas na promoção de bons hábitos de leitura, pois, é referido por praticamente todos os entrevistados. E como referido, alfabetizar é fundamental, mas não basta.
Criar leitores
Historicamente, o retardo da alfabetização é tido como um forte entrave. Basta ver que, como relembra Dai Varela, a imprensa apenas chegou a Cabo Verde “em 1842” e só “em 1935 se cria a primeira escola de ensino primário”. “Em 1917 a taxa de analfabetismo rondava os 93%” e aquando da “Independência a exclusão do ensino formal era enorme e a taxa de analfabetismo situava-se entre os 60 a 90%.”
“Logo, nossa experiência como povo com a leitura, principalmente com a literatura, sofreu (e sofre) de vários condicionantes e mesmo de experiências com contornos traumáticos”, observa.
Hoje o “analfabetismo ronda os 13%” e há “uma população com um nível de ensino em franca expansão.” Entretanto, os jovens vão dando mostras de preferir uma literacia digital – um outro tema que mereceria destaque.
Mas reitera-se essa alfabetização não é suficiente para criar leitores.
“A escolarização não está focada para a produção de leitores, nem as metas curriculares, sem respaldo dos manuais escolares e de livros complementares, induzem para a capacitação leitora”, critica Filinto Elísio, para quem é necessário um reposicionamento por forma a “melhorar as competências dos cabo-verdianos na leitura e na escrita e para incentivar os hábitos de leitura desde a primeira infância”.
Algumas medidas em curso
“Começar a ler nos “bancos da escola” é o início mais auspicioso para termos uma população cada vez mais dada a leitura”, defende, igualmente, Vera Duarte.
E se, por um lado, o papel das escolas na promoção do livro tem sido deficiente, por outro, é de destacar que há “um trabalho cada vez mais consistente de muitos professores” no sentido de pôr os alunos cada vez a ler mais autores cabo-verdianos, aponta a escritora.
Como exemplo refere a publicação de trabalhos literários de alunos da Escola Secundária de Salineiro, na Cidade Velha, com o apoio da Comissão Nacional de Cabo Verde para a UNESCO. Esse livro foi fruto de um projecto (“Desbravando a escrita de Vera Duarte”) em que se procedeu à leitura de algumas das suas obras. “E isto é algo que vem acontecendo também com outros autores”.
Além do exercício ‘Desbravando a escrita de …’, (“em que se procede ao estudo da obra de um determinado autor para depois os alunos procederem à sua própria criação, em intertextualização com o autor em referência”), projectos como “Olimpíadas de português” e “Vamos terminar este conto” (“em que se dá aos alunos o início de um conto para eles concluírem”) podem ser mecanismos interessantes para criar esse gosto pela leitura.
E quando se gosta, nascem os hábitos.
Um outro projecto, dado como exemplo para a promoção da leitura por Marilene Pereira, é “levar histórias às escolas com base em ‘contação’ ou peças teatrais, como tem sido feito um pouco em São Vicente. Isso motiva, depois, para a leitura da história no papel”.
Um Plano Nacional
Unificando todas as iniciativas, há necessidade, realçam também os entrevistados, de avançar com o Plano Nacional de Leitura.
É preciso tirar a conversa em torno do mesmo do papel, defende Marilene Pereira. Ou, como aponta Filinto Elísio, “será função primordial do Estado criar um plano nacional de leitura que envolva envolve sobretudo a comunidade escolar, com alunos, professores, educadores, encarregados de educação e bibliotecas”.
Também Dai Varela considera que é preciso trabalhar no Plano, “e isso tem que ser um trabalho conjunto entre os Ministérios da Educação e o da Cultura e das Indústrias Criativas, com contribuição da sociedade civil.” Esse Plano Nacional de Incentivo à Leitura e ao Livro poderá inclusive ser feito com parceria de entidades estrangeiras, sendo que há sinais positivos de apoio a esse nível, diz. Fundamental é mesmo a vontade política.
E uma das coisas que é preciso ter em conta é que “estamos a falar da leitura das formas das artes e produções criativas como um plano interdisciplinar que leve em conta não só aquilo que os alunos devem ler, mas também aquilo que querem ler”, reflecte Dai Varela.
Histórias daqui
Hoje assiste-se, na realidade, a um crescimento em termos de publicações (não só de livros como de sites, páginas nas redes sociais, revistas, jornais, etc), criando-se “as condições para ler-se muito mais agora do que na época dos Claridosos. Principalmente nas camadas jovens”, diz o autor.
Em termos de mercado editorial, aponta Vera Duarte, temos assistido a “um verdadeiro boom no nosso país nos últimos tempos em que editoras como a Pedro Cardoso, a Rosa de Porcelana entre outras, vêm revolucionando o mercado editorial nacional com o aumento considerável de títulos editados”.
A longo prazo, acredita, “isto, terá o seu impacto” na promoção dos hábitos de leitura.
Mas apesar do melhor panorama há ainda hiatos. Marilene Pereira defende, aliás, como mecanismo para incentivo à leitura, “a publicação de livros, que tenham cheiro e cor da realidade nacional, para uma faixa etária em que os escritores ainda não chegaram. Crianças dos 12 aos 15 anos”, faixa etária onde considera haver uma “espécie de buraco”.
Assim, reconhecem todos os entrevistados há aqui um papel fundamental dos escritores cabo-verdianos e também dos editores e livreiros.
“Estes são de facto os grandes intermediários da promoção da leitura e os grandes interlocutores dos leitores”, ressalta Filinto Elísio.
Mas na realidade, “todos devemos fazer a nossa parte”, diz o editor, congratulando-se com o “arrojado e consequente o apelo do Presidente da República à leitura”, recentemente feito.
De qualquer forma, ler é um bichinho inato…
“Quando devidamente motivadas, as crianças gostam, sim, de ler. Isto é o que eu tenho visto todos os dias. Encantam-se, sobretudo, pelas bandas desenhadas”, diz Marilene Pereira.
… e os livros, algo fundamental.
“A literatura é tão importante para o desenvolvimento integral, que já há teóricos que defendem que entre os quadros permanentes das escolas primárias deveria haver contadores de histórias”.
Em defesa do empréstimo pelas bibliotecas
Um mecanismo que pode ser usado para promover a leitura é “retornar aos hábitos de empréstimos de livros pelas bibliotecas”. A linguista Adelaide Monteiro defende esta medida e explica as (felizes) consequências que pode ter esse passo:
“O facto de termos uma data para devolver o livro, compromete-nos com a leitura e aumenta a curiosidade em ir devolver o livro e vasculhar o que levamos a seguir, para além de proporcionar, momentos de conversa à volta do que se leu, com outros leitores, pois sempre se cruza com alguém que foi fazer o mesmo. Muitas vezes, a indicação para o próximo livro, surge dessas conversas. Pode-se controlar isso, enviando lembrete para devolução do livro via email, sms… já que todos os jovens, para não dizer toda a gente tem um número de telefone, hoje. E, para disciplinar o bom uso e cumprimento das normas, aplica-se uma multa monetária para os atrasos ou extravios. Esta modalidade continua a funcionar em todos os países e por que não aqui?”
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 803 de 19 de Abril de 2017.
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