[Re] cortes no tempo: Sobre manuais escolares

PorExpresso das Ilhas,26 set 2017 6:00

Efeméride

No dia 13 de setembro de 1915, o jornal A Voz de Cabo Verde publicou um texto do professor José Maria Cabral de Azevedo sobre os livros de ensino:

“Há um outro obstáculo que tenazmente põe estorvo ao progresso da instrução nestas terras pobres onde o dinheiro parece que foge da gente, causando gravíssimos transtornos aos pais dos alunos: isto de o governo estar sempre com mudanças de livros de ensino. Por exemplo, um pobre pai sacrifica-se em outubro e compra livros para um filho, e sucede que depois de se sacrificar com uma despesa de 2$00 escudos, o governo manda distribuir circulares para os professores proibindo-lhes, sob pena de procedimento, ensinar por tais compêndios; ¿onde irá o pobre filho de Adão colher dinheiro para realizar a compra de novos livros? (…)

Atendendo à pobresa que é tão persistente em todo o Cabo Verde, os professores deveriam ser autorisados a suprirem os compêndios, contando que houvesse uniformidade, lembrando-se que tanto os que aprenderam a língua de Vieira pela gramática de Bento José de Oliveira como os que a estudaram pelas de Caldas Aulete ou Epifanio Dias, etc., todos, do mesmo modo, sabem igualmente o mesmo idioma e podem ensiná-lo por qualquer dos compêndios que vão aparecendo por cá.”

 

102 anos depois

Na semana da abertura de mais um ano letivo, os manuais continuam a ser componentes fundamentais do processo de aprendizagem, interferindo com todos nós – estudantes, pais, professores, Ministério da Educação, cidadãos atentos à causa educativa…

A centralidade do manual escolar tem a ver, antes de mais, com a sua existência nas escolas, nas mochilas dos alunos, nas mesas de trabalho.

O livro escolar de per si não opera o milagre da aprendizagem. Não é (não deve ser, muitas vezes é) a fonte de preparação das aulas pelos professores, nem deve ser transformado no recurso todo poderoso, cujo conteúdo é assumido como única verdade.

Porém, contrariando a utopia do professor José Maria C. de Azevedo (de uma escola em S. Nicolau em 1915), é um instrumento absolutamente indispensável no sistema educativo cabo-verdiano. Por definição é um instrumento de trabalho (impresso ou digital) do aluno, que visa contribuir para o desenvolvimento das capacidades e para a aquisição dos conhecimentos propostos nos programas em vigor.

Como referiu a Ministra da Educação (em entrevista a este jornal, na semana passada) “há crianças cujo único livro que têm é o livro da escola”. Esta a razão fundamental da importância do manual escolar no nosso país.

Congratulamo-nos com as novidades do ano escolar neste domínio: no início da escolaridade obrigatória (agora de 8 anos) “um novo currículo, com novas disciplinas e novos materiais, novo manual para LP com um CD interactivo (…), um caderno novo de Ciências Integradas e também uma nova disciplina que é a Actividade Científica (…), um guia do docente de Educação Artística e Cultura, (…) um novo manual, um guia do docente e um caderno de exercícios na disciplina de Matemática”.

O conhecimento destes e dos outros livros escolares é uma excelente forma de participação dos pais na escola e de compreensão do sistema educativo. Os manuais são (ou devem ser) uma amostra da acessibilidade, qualidade e eficiência do ensino, visível nos conteúdos (dimensão cientifica e pedagógica) e na materialidade (formato, tipo de papel, colorido, a preto e branco, peso, preço).

Não existindo ainda um sistema de certificação dos manuais escolares, esse escrutínio pode ser feito pelas famílias, pelos professores, pelos estudantes e investigadores dos Cursos de Ciências da Educação, tendo-se em atenção que “estes materiais novos são experimentais”.

 

Obs: O artigo está redigido de acordo com a nova norma ortográfica da língua portuguesa e os textos citados mantém a grafia original.  

 

1.  José Maria Cabral de Azevedo foi professor primário na escola de Praia Branca, na ilha de S. Nicolau. Foi correspondente nesta ilha do jornal O Futuro de Cabo Verde e colaborou nos jornais A Voz de Cabo Verde, O Popular, O Progresso, Defesa e Correio d’ África (in João Nobre de Oliveira (1998). A imprensa cabo-verdiana 1820-1975. Macau: Fundação Macau, pp. 694/695)

2.  O valor médio de um manual equivalia ao preço de um quilo de carne de carneiro, de um quilo de arroz «da Guiné» ou de um litro de petróleo (Tabela de preços máximos de géneros alimentícios e outros de primeira necessidade no concelho do Tarrafal. Boletim Oficial n.º 10, 8 de março de 1919, p. 65).

3.  In Expresso das Ilhas, n.º 842, de 13 de setembro de 2017, p. 21.

4. Ibidem, pp. 19 e 20.

 5. Ibidem, p. 20.

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 825 de 20 de Setembro de 2017. 

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Autoria:Expresso das Ilhas,26 set 2017 6:00

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

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