Um [ p a r e n t h e s i s ] aberto para o diálogo reflexivo

PorChissana Magalhães,4 fev 2018 6:46

​Arte+Espaço+Diálogos. Assim, em adição. É o slogan ou, se preferir, o mote do espaço parenthesis (escreve-se assim, com minúsculas), criado há quase dois anos na cidade da Praia pela arquitecta e designer Patrícia Anahory e pelo artista visual César Schofield Cardoso. O propósito é promover trocas interdisciplinares e o diálogo crítico, partindo de conceptualizações e práticas criativas.

Queriam um espaço que fosse independente e lhes permitisse promover encontros e debates, realizar experimentações e reflectir.

“Este conceito, de espaço independente, faz falta em Cabo Verde, porque tudo é ligado ao Estado”, explica César Cardoso para logo de seguida especificar: “Todo o fazer da cultura é ligado ao Estado e o próprio Estado tem esse discurso - de que o Estado não pode fazer, tem é que facilitar - como também dos fazedores há essa sensação de que é preciso espaços independentes. Esta é uma das razões. Aqui a reflexão pode ser independe, o fazer pode ser independente, a experimentação também…”.

Patrícia Anahory sublinha que a independência do seu projecto é sobretudo ideológica, de abordagem, e de agenda. “Mas isso não significa que não queiramos colaborações e a vários níveis, entre várias pessoas. Incluindo instituições, sejam académicas ou outras. Talvez não aspiremos à presença do Estado directamente mas, ambicionamos ser interlocutores, facilitadores”.

Os encontros que o casal tem promovido com alguma periodicidade tanto podem revestir-se na forma de oficinas criativas, como palestras, residências, debates, imersão e outras formas de interacção criativa e transdisciplinar. Tarefa nem sempre fácil segundo Schofield Cardoso já que, da sua experiência, as pessoas tendem a manter-se desligadas umas das outras e presas à sua área de actuação e especialização.

“Estamos cada um na sua área, sem sair da zona de conforto. “Eu”, advogado não dialogo com o artista porque achamos que não temos nada em comum; “tu”, economista não falas com o geógrafo... Então quisemos criar este espaço onde nos libertamos dessas amarras formais, onde podemos estar mais descontraídos e ousados, sair da caixa e da zona de conforto e provocar alguma disrupção em alguns discursos que estão a ficar muito cimentados em Cabo Verde”, explica.

A disrupção pode também ser das práticas, além dos discursos. A César e a Patrícia interessa apostar em novas rotas na busca de teóricos e criativos a quem abrir um (o) parenthesis para novas abordagens. O Sul global, e África em particular, é uma rota que ambos têm seguido com frequência nestes quase dois anos que o projecto já leva e já antes, em separado.


Diálogos ao Sul

“Temos trazido pessoas de fora, de outros países do nosso continente. O nosso trabalho é muito voltado para o Sul porque acreditamos que é possível um diálogo ao Sul, com realidades muito parecidas à nossa”.

Uma realidade actual do continente africano é que muita arte e muito conhecimento se tem aí produzido e mantêm-se desconhecidos dos próprios africanos. César e Patrícia acreditam ser possível a partir de Cabo Verde conectar-se a estas redes. “É possível, e é necessário”, vincam.

E para já estão a conseguir. Pelo parenthesis já passou, por exemplo, o geógrafo Yousuf Al-Bolushi com o seu estudo sobre os movimentos sociais no Sul-global, particularmente sobre o seu impacto social nas democracias mais recentes, como a África do Sul. Falamos dele aqui no Expresso das Ilhas na série de reportagens “Desigualdade Social” (ed. nº 766 de Agosto de 2016).

A política não é um tema bem-vindo no espaço. Não na sua roupagem de disputa refractária. Querem ali ter pessoas “que consigam produzir um discurso acima da luta política. É possível, estas pessoas existem”.

“Temos tido aqui diálogos em que nos esquecemos da política. São temas políticos, porque falamos aqui de questões de interesse público, de interesse comum, que tocam sim as políticas culturais, de conhecimento. Mas não a luta política partidária”, esclarece o videoartista garantindo que o resultado dessa opção é animador já que “todos os que cá têm vindo saem daqui satisfeitos justamente porque é possível ter outro nível de discurso”.

Para além de Yousuf Al-Bolushi, outros nomes entre parenthesis no rol de convidados são os do tunisino Sélim Harbi, do alemão Peter Christensen, da madeirense Sara Anjo e da angolana Paula Nascimento. Entretanto, Patrícia Anahory ressalta que o leque de convidados não exclui de forma alguma convidados nacionais.

“A aposta em convidados internacionais é uma oportunidade que abraçamos e temos algumas condições de o fazer. Mas a intenção foi sempre, também, convidar os de cá, não só para participar nas actividades que promovemos, mas também juntarem-se a nós, trazerem propostas, ideias…Obviamente temos que estabelecer alguns critérios, tem que haver alguma curadoria, é certo. Mas, somos um espaço aberto. Não queremos nunca criar uma bolha”, assegura a arquitecta, que já trazia a experiência desse tipo de intercâmbios da sua passagem pelo CIDLOT (Centro de Investigação em Desenvolvimento Local e Ordenamento do Território da Uni-CV, que com a arquitecta brasileira Andreia Moassab coordenou entre 2009 e 2011).

O companheiro no actual projecto chama a atenção para as limitações que os temas sobre os quais incidem trazem. Para Schofield Cardoso o conhecimento e a arte são campos complicados de abordar em Cabo Verde já que “estão presos a vários complexos”.

“O debate do conhecimento está preso ao complexo da academia, onde ele é canónico. Aí reside a importância de um contexto do Sul global onde a academia, na sua tradição europeia, está a ser desconstruída, e é necessário ser desconstruída porque é necessário incorporar outros saberes, inclusive saberes tradicionais, no campo da arquitectura, do urbanismo, da arte, etc.”

“É a descolonização do pensamento”, resume Anahory, deixando transparecer uma vez mais a sintonia de ideias e de pensamento que caracteriza a dupla.

Público

Normalmente, recorrem ao seu network mas os eventos são abertos a qualquer pessoa que queira participar.

“ Temos tido um crescimento. O público tem aumentado e diversificado. Mais interessante é que já há vários desdobramentos aos encontros que temos tido aqui. Tivemos aqui um grupo de jovens que saiu agora da universidade, estiveram aqui em massa e formamos um grupo junto ao nosso projecto Storia Na Lugar, e cada um deles já está engajado em algo para o qual os direccionamos. Uns ligados à arte urbana, outros a fazerem mapeamentos, projectos ecológicos… tudo saído daqui. Somos, literalmente, um espaço físico para reflexão e não temos uma proposta de, ao fim de cada encontro, obrigatoriamente haver um plano de intervenção mas, temos visto que o que acontece é que estas discussões despertam à acção e conseguimos mapear estas acções a partir daqui. E isso é extraordinário”.


Sustentabilidade

“É algo que estamos a trabalhar, que ainda estamos a abordar entre nós”, admite Patrícia. Já têm tido algumas parcerias, como foi com o evento mais recente, o Praia/Exchange, financiado por uma intuição alemã, e antes com O Instituto Pedro Pires. “De resto temos apostado na nossa network para trazer essas pessoas. Até certo ponto, é um investimento pessoal nosso enquanto criadores e teóricos, para termos um espaço de reflexão que futuramente pode vir a nos ajudar no nosso trabalho”.

César acresce: “O Estado, enquanto promotor de bons ecossistemas, seja no campo do conhecimento, da economia, ou outro… um dos seus papeis fundamentais é provocar um bom ambiente para se viver, para se estar, fazer negócios, etc. E, nesse sector cultural muito em especifico, o Estado já tem um discurso nesse sentido. Então tem que facilitar um ecossistema de criação e de pensamento, e este ecossistema tem que ser financiado mas, o Estado não pode usar esse financiamento como um instrumento de dependência. Tem que financiar e…ponto. Tem que haver mecanismos de financiamento, claro, e cada projecto deve ter a sua linha conceptual e desenvolver a sua linha conceptual dentro de determinadas balizas. Temos que começar a provocar este espaço e o Estado, nomeadamente o Ministério da Cultura, tem que se libertar cada vez mais do papel de fazedor e deixar para a sociedade e para os agentes sociais fazer, sem nenhuma tentação de orientação. Desde que seja um projecto de interesse público, que seja financiado”.


Temas

No parenthesis a diversidade de temas trabalhados é grande. Desde geografia urbana e movimentos sociais à realidade virtual e realidade aumentada, abordagem participativa de intervenção comunitária e resgate de histórias e de identidade cultural. Mas a cidade é uma temática de fundo, um chapéu comum nos diálogos mantidos.

“Em geral, são pessoas ou temas disruptivos; pessoas que estão a experimentar, a questionar, a propor novas abordagens com o intuito de maior justiça social, mais experimentação”, analisa a designer.

“Há algo que nos une que é a cidade, enquanto construção cultural, conceptual e que engloba muitas coisas. Como fazemos, como habitamos, mas também como a cidade permite a criação, como permite troca de ideias”, completa o fotógrafo.

“Por exemplo, a Praia interessa-nos desde Palmarejo até Achada São Filipe. Olhamos para a nova demografia da Praia como uma oportunidade extraordinária. Também temos esse discurso de olhar para a cidade não como um problema mas como uma oportunidade. E as pessoas que nos têm interessado, têm em comum isto de olhar para a cidade como geradora de cultura, de novas texturas, novas formas, novo pensamento e identidade”.

Patrícia reforça: “Não excluímos outros contextos, mas a cidade como um campo comum, onde reconhecemos vários processos, é uma oportunidade a ser analisada e questionada e não olhar para a cidade como algo a regulamentar”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 844 de 31 de Janeiro de 2018.

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Autoria:Chissana Magalhães,4 fev 2018 6:46

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  4 fev 2018 6:46

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