Recomendação para ouvir: O dia em que a Morna ganhou o seu espaço no calendário Cabo-verdiano

PorPaulo Lobo Linhares,11 mar 2018 15:27

​Esta semana, os discos abordados teriam de passar obrigatoriamente pela Morna.

A nossa rainha musical – digo e defendo esta designação, pois, com certeza, falamos do género musical mais transversal a todos os Cabo-verdianos e provavelmente (aqui a minha opinião pessoal) a que com maior facilidade entra por nós adentro e arremessa-nos para um estado de deleite que mistura emoção e um certo sentimento de pertença ao nosso país, sem aqui menorizar qualquer outro género musical Cabo-verdiano.

Voltando às palavras de abertura, o compositor Vasco Martins conseguiu levar a sua luta adiante e concretizar o seu sonho: um dia nacional reservado à Morna – conforme referiu numa frase muito feliz: “É a Morna na sua dignidade” e a Assembleia Nacional deu razão ao artista, nascendo assim o Dia Nacional da Morna – 3 de Dezembro, data também do nascimento do patrono desta homenagem – B.Leza.

Lembro-me que durante os anos que venho escrevendo para este espaço, toquei em 2 discos, que hoje fará sentido voltar a sublinhá-los…ouvir outra vez. Ambos dedicados à Morna.

Um pela sua grandeza, que vai da instrumentação à voz do cantor e do conceito ao resultado: refiro-me a “Nôs Morna” de Ildo Lobo.

O cantor dedica este momento...em forma de serenata, ao pai Antoninho Lobo. Nele, bebe a saudade, vindo então ao de cima a sua capacidade de trovador, de cantor de serenatas à imagem do pai, que tanto admirava. A voz de Ildo então transcende-se.

Desde a direcção artística, a cargo de Mário Lúcio Sousa, o repertório (momento alto com “Camponesa Formosa”, marca das serenatas de Antoninho Lobo e “Nha Testamento” (da autoria de Ildo Lobo), os compositores, a sua orquestração onde um sereno naipe de cordas nos embala, pormenores instrumentais sublimes num todo musical em que tudo tem um porquê, as diferentes gerações de músicos, os compositores… quase tudo neste disco é perfeito. A leveza e a dose de amor impressa por Ildo Lobo fazem deste álbum uma verdadeira serenata. Um tributo à “Música rainha di nôs tera”.

O outro também pela instrumentação e conceito, somando agora uma clara homenagem à luta de Vasco Martins – “Viagem no imaginário da Morna” interpretação da Orquestra de Centro das composições de Martins que se inspira neste género musical para compor os temas deste trabalho. Ao longo das composições propostas, Vasco Martins faz presente o que para ele são as várias influências da Morna, nomeadamente o Fado, ou a Modinha Luso-Brasileira.

Um autêntico mergulho nos esquiços desta sonoridade em … viagem, proposta por Vasco Martins. Conforme terá dito o compositor na altura, “ o meu testemunho como compositor à grandeza da Morna, a nível artístico, humano ou espiritual”…Partilha pura!

Pouco me resta dizer, senão saudar o dia 3 de Dezembro, esperando que desta iniciativa advenham muitas acções e materializações, sonhar com inspirações de artistas que nos tragam mais discos do nível dos que aqui falei e…gritar aos sete ventos…e com muitas notas musicais: Viva a Morna!

Proponho então, em estilo de comemoração, durante esta semana, ouvir os dois discos, em estado de calma absoluta e deixarmo-nos ser levados pelas ondas da Morna…

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 849 de 07 de Março de 2018.

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Autoria:Paulo Lobo Linhares,11 mar 2018 15:27

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  11 mar 2018 15:27

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