Mindelo em nome próprio

Estreia já esta sexta-feira a peça mais aguardada do Março Mês do Teatro, Crónicas do Mindelo. Até domingo, o Centro Cultural do Mindelo abre portas a mais uma produção do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português (GTCCP), a partir de um original de Rocca Vera Cruz.

Os 25 anos do mais influente grupo do teatro cabo-verdiano são assinalados ao longo de todo o ano, com algumas reposições e estreias absolutas, como é o caso destas Crónicas de Mindelo.

A peça, escrita por Rocca Vera Cruz e encenada por João Branco, é uma alegoria da cidade que lhe dá nome. Uma cidade de esquinas, botequins, bares, praças, segredos e gente sem papas na língua. Crónicas do Mindelo reúne num só palco 13 actores, de diferentes gerações.

Para João Branco todas as peças são especiais”, mas esta tem ‘um sabor diferente’.

Cada produção tem as suas particularidades, as suas novidades, as suas questões próprias que não existem em nenhuma produção anterior e que fazem dessa produção mais especial do que as outras. Esta é especial por várias razões. Porque está enquadrada na celebração dos 25 anos do nosso grupo, é um texto de estreia de um cronista muito conhecido da cidade, promove o regresso aos palcos de vários gerações de actores”, exemplifica.

Crónicas do Mindelo é um espectáculo construído a partir de um texto escrito por alguém que, habituado à crónica, tem um espólio vasto de histórias peculiares, quase sempre divertidas, nas quais encontramos o lado mais pitoresco do quotidiano mindelense.

“Na folha de sala que vamos entregar às pessoas eu faço uma comparação entre o Rocca e o Germano. Desde Germano Almeida que nunca mais tinha aparecido alguém que retratasse a cidade de forma tão feliz, tão irónica e tão inteligente, considera João Branco.

Zenaida Alfama é uma daquelas figuras incontornáveis do teatro Mindelense. Depois de “Mulheres na Laginha”, em 2016, regressa agora na pele de Zuleica, uma empregada de bar e hotel, comentadora informal dos acontecimentos da cidade.

“Gosto muito do texto, é divertido, quase a mesma linha de ‘Mulheres na Laginha’, onde falas à vontade das coisas de que as pessoas, às vezes, não gostam de falar mas gostam de ouvir”, diz a actriz.

Experiente e há muitos anos entregue às artes cénicas, Zenaida encara com bons olhos a diversidade geracional representada em palco.

“É gratificante, porque te permite ver como a visão das pessoas sobre este trabalho muda e também vais percebendo a evolução a nível do teatro. Cada dia que vês um espectáculo, uma encenação nova, sentes que as coisas estão a crescer e isto faz-nos sentir bem”, comenta.

Há uma década afastado dos holofotes, Ângelo Gonçalves, ou “Rank”, como é conhecido, regressa “do jeito que sempre quis” e garante que já tirou a ferrugem.

“Temos que nos desenferrujar à força, depois é meter óleo, massa e seguir em frente com os nossos colegas. Não podemos ficar para trás.

“Há muito que tinha dito ao João [Branco] que gostava de regressar aos palcos, de fazer uma peça e, sobretudo, comédia que é um género de que gosto muito. ‘Crónicas do Mindelo’ representa muito para mim. Primeiro, porque o Rocca é o meu menino, crescemos juntos, sempre com aquela amizade. Depois, como cronista, adoro as suas crónicas, porque ele transcreve toda a cidade do Mindelo”, conta.

Quem ainda não sabe nada grande coisa sobre o resultado final da pela é o autor. Rogério Vera Cruz, ou melhor, Rocca Vera Cruz, estreia-se na escrita para teatro, ele que é um dos mais emblemáticos cronistas mindelenses. Por opção, decidiu não acompanhar os ensaios, ansioso que está por ver o produto acabado.

“Tenho muitas crónicas escritas e há 2 anos o João Branco fez-me a proposta de escrever um texto para ele encenar. Por diversos motivos, o projecto foi adiado. Agora, em Outubro de 2017, o João disse-me que tinha chegado a hora e que iríamos avançar”, recorda.

“Crónicas do Mindelo” é uma homenagem à cidade.

“A minha inspiração é Mindelo. Não digo que me inspiro numa coisa concreta. “Posso passar dias sem escrever mas também posso passar um fim-de-semana inteiro a escrever”, assume.

Para já, a inspiração de Rocca sobe esta sexta-feira aos palcos. Em breve, lá para Dezembro, é provável que dê origem a um livro. “Sobre Mindelo”, claro.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 851 de 21 de Março de 2018.

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Mindelo

Autoria:Nuno Andrade Ferreira, Lourdes Fortes,23 mar 2018 20:06

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  23 mar 2018 20:06

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