Jotacê conversa. “A nossa música mais tradicional está muito parada...” - Anísio Rodrigues

PorExpresso das Ilhas,3 ago 2019 9:09

Está na música desde muito novo. Toca, canta, compõe e produz com o talento dos predestinados e com a mestria dum profissional. O seu nome tornou-se sinónimo de alegria e animação. Sinónimo de Carnaval. É movido a paixão e intuição. Fenómeno crescente de popularidade, será hoje seguramente o “segredo mais mal guardado da música caboverdiana”. Assim é Anísio Rodrigues, na 1ª pessoa...

Recuemos um pouco no tempo para conhecer a tua história. Como foi o início na música?

Desde muito cedo, sendo oriundo duma familia fortemente católica, onde todos (a minha mãe e os meus irmãos) participavam no Grupo Coral da Igreja, fui acostumado a acompanhá-los aos ensaios. Um dia, enquanto as minhas irmãs estavam a cantar, eu brincava num canto. Embalado pela melodia, distraidamente comecei a fazer uma espécie de “2ª voz” do coral. A freira que fazia a direcção vocal ouviu e mandou-me chamar. Foi aí que tudo acabou por começar. Anos mais tarde, já mais maduro, comecei a cantar salmos eclesiásticos, fazendo solos vocais. Recebia muitos elogios pelas minhas performances. Já gostava de cantar por natureza, de modo que com o impulso da igreja e motivado pela receptividade das pessoas, comecei a encarar as coisas com mais seriedade. O meu processo evolutivo na música sempre foi autodidático, fui aprendendo sozinho ao longo dos anos, emobra o facto de vir duma família de músicos e de encontrar a música em casa, tenha ajudado muito.


Falando em família, qual foi a postura dos teus parentes mais próximos, relativamente ao teu interesse pela música? Apoiaram ou colocaram algum entrave?

Há sempre aquele estigma de que “vida de tocador não é vida”, mas a verdade é que sempre tive muito apoio da minha família. Nem poderia ter sido de outra forma. Tenho um irmão que foi músico profissional durante muito tempo. Residia no Luxemburgo e quando vinha de férias, incentivava-me a aprender. Outro irmão meu que vivia comigo em Santo Antão, ensinou-me muita coisa e a curiosidade levava-me a querer saber mais. Sempre tive muito interesse por tudo aquilo que dissesse respeito à música. Lá em casa havia sempre muitos discos dos grupos onde os meus irmãos tocavam. Isso também me fez querer enveredar por essa via e fui aprendendo violão, cavaquinho, um pouco de piano e sobretudo baixo, que muita gente desconhece, mas é a minha grande paixão. Tive também a felicidade de crescer num grupo de amigos, todos eles muito voltados para a música. Criámos na altura uma banda chamada Mix Cultura. Gravámos até um disco. A maior parte dos membros acabou por singrar profissionalmente na música. Temos o Helder Rodrigues, vulgo Pelada, um dos mais virtuosos guitarristas de Cabo Verde actualmente, o Titita, cavaquinista do Cordas do Sol e o Rui Salomão que trabalha como arranjador. Aliás, eu e ele sempre nos dedicámos muito à produção. Sempre me fascinou ser produtor. Com a ajuda do meu irmão, fui comprando equipamentos e montei uma espécie de home-studio, onde produzi entre outros, o single LIGRIA da autoria do Helder Rodrigues, um tema de música progressiva que esteve mais de um mês no Top CV Mix, e o Festa Prateód, a minha primeira incursão nos ritmos de Carnaval.


Algum dia te imaginaste a viver de música? Ser músico profissional?

Sempre foi a minha ambição maior. No tempo do grupo MIX CULTURA, viajei muito, fazendo digressões pela Europa, tocando em festivais em Cabo Verde, nomeadamente no Baía das Gatas. O convívio diário e permanente com a música terá até certo ponto alimentado a semente que já germinava há muito. A dada altura, mudei-me para São Vicente, para estudar na faculdade e quando “dei por mim” já tocava no Mindelhotel. Com o andar do tempo e dadas as dificuldades que existem em viver da música em Cabo Verde, fui colocando de lado o projecto de fazer formação superior de música, no Conservatório, e de me profissionalizar. Mas ainda não desisti por completo.


Quais são as maiores dificuldades ou obstáculos para viver de música em Cabo Verde?

O nosso mercado é muito pequeno e muito limitado. Sermos fragmentados em ilhas também não ajuda e a produção musical acaba inerentemente por decrescer. Veja-se por exemplo o caso de São Vicente que foi durante muitos anos o maior viveiro de talentos e o maior “fornecedor” de músicos para todo o país, o ventre musical mais fértil de Cabo Verde. Aliás, o mais dificil em São Vicente é encontrar alguém que não toque, cante ou dance. Hoje a ilha do Monte Cara perdeu muito fulgor e os músicos que brotam por cá, um pouco por todo o lado, são obrigados a sair para prosseguir com a carreira em outros mercados, como o Sal, a Boa Vista e naturalmente a Praia, hoje detentora duma vibrante cena musical. Como nunca quis sair de São Vicente, fui naturalmente deixando de pensar em viver de música.


Qual é a tua visão sobre o panorâma da música nacional actualmente?

Tenho dito várias vezes que a nossa música de raíz, a nossa música mais tradicional está muito parada. Digo isto com alguma mágoa e dôr, pois sou apaixonado pela música de Cabo Verde e é essa vertente que pretendo explorar. Acho que precisamos refletir e actuar conjuntamente para resgatar a nossa tradição e a nossa identidade musical, sob pena de um número cada vez maior de jovens preferir a via fácil do sucesso rápido com a música comercial. Os nossos compositores têm de compôr muito mais e têm de fazê-lo pela arte, por paixão e não para fazerem fama e fortuna.


Em termos de influências musicais, quais são as tuas maiores referências?

Sempre ouvi um pouco de tudo. Aprendi a gostar de música romântica com os meus irmãos mais velhos, música brasileira, reggae e até mesmo hip-hop. Pouca gente sabe, mas trabalhei durante muitos anos com diversos grupos de hip hop, fazendo as linhas melódicas e os backing vocals dos temas que eles gravavam. Hoje em dia, estou naturalmente voltado para os ritmos de Carnaval, de modo que fui conhecendo melhor e aprendendo a gostar dos maiores mestres nacionais, e não só, deste segmento musical. Mas na verdade, se for música de qualidade, provalmente há-de chamar a minha atenção e acabo naturalmente por gostar.

Tens algum ídolo na música?

Na verdade, dada a minha formação religiosa e índole pessoal, nunca me permiti cultuar qualquer tipo de ídolo, mesmo na música. Há sim músicos de quem gosto muito, como o Hernani Almeida, o próprio Bau, o Zé Paris, que foi quem me fez apaixonar pelo baixo e sobretudo o Tcheka, de quem bebi muito musicalmente. Desde os tempos do MIX CULTURA, sempre toquei muita música do Tcheka e sempre o admirei muito. Curiosamente, da primeira fez que fomos actuar na Praia, por ocasião da inauguração do 5ªal da Música, sob gerência da D. Ália, ele estava lá. Fizemos questão de lhe dizer que éramos apaixonados pela música dele e cantámos um dos seus temas mais famosos. Enfim, exuberância da juventude. Hoje, para ser sincero, trabalho tanto na música que quase já não tenho tempo para ouvir música.

Tens um perfil multifacetado na música. Cantor, instrumentista, compositor? Qual destes epítetos te define melhor?

Eu gosto de música. Talvez por atrevimento e curiosidade, acabo por querer mexer com um pouco de tudo. Tenho trabalhado muito e tenho dedicado muito tempo a aperfeiçoar tudo aquilo que faço, para que me possa sentir satisfeito comigo mesmo. Sou acima de tudo, e como já disse, um apaixonado pela música. A composição hoje ocupa um lugar de relevo, por causa do Carnaval e por causa da frequência com que componho, acabei por moldar o meu estilo de trabalhar. Sou sobretudo um melodista e como gosto de fazer tudo com perfeição, obrigo os meus parceiros a fazer letras bonitas, porque sei que vou esforçar-me em fazer a melhor melodia possível, pelo que o casamento para poder acontecer, tem de ter ambas as componentes à altura.

Tens feito muito sucesso como músico, devido sobretudo ao Carnaval. Como é que tem sido conviver com esta popularidade súbita? As pessoas já te param na rua para te falar sobre a tua música?

O Carnaval realmente tornou-se parte intrinseca do meu perfil, como músico. Fico muito feliz com tudo o que tem acontecido ao longo destes anos. Confesso que me agrada, quando as pessoas me abordam e me dão parabéns por tudo aquilo que tenho feito. Tento encarar as coisas com a maior naturalidade possível, mas é realmente muito gratificante ver que hoje sou associado directamente ao maior evento cultural do nosso país. O Carnaval, de facto, tem sido bastante generoso comigo, permitiu-me entre outras coisas compôr e gravar com um dos grandes ícones do samba, a nível mundial, o Dudu Nobre. Isso motiva-me bastante e faz-me acreditar cada vez mais no meu potencial.

Quais são os teus projetos a médio prazo e até onde queres chegar na música?

O Céu é o limite. Chegarei onde puder chegar, fazendo sempre por elevar o nome da nossa música tradicional. Em termos de projetos propriamente dito, tenho ideia de compilar as minhas músicas de Carnaval num CD e quero voltar a produzir mais fora desse âmbito restrito. Tenho muita coisa composta, ainda sem gravar, de modo que vou estando atento às movimentações dos nossos melhores artistas, para lhes poder oferecer material. Há pouco mais de um ano tive um tema de minha autoria gravado pela Cremilda Medina, no primeiro CD dela, Folclore e pretendo gravar com outros intérpretes num futuro próximo, para além, é claro, de lançar o meu próprio DVD ao vivo.


Quem é Anisio Rodrigues fora do mundo da música?

Sem música não sou ninguém. Vivo para a música. Falando um pouco mais a sério, fora da música sou uma pessoa voltada sobretudo para a família. Por causa das vicissitudes da vida, já morei em vários pontos do país e estou há muitos anos longe da minha familia. Tanto da minha mãe como da minha filha de 3 anos, que onde quer que vá, quando ouve música, pede sempre para tocarem música do pai dela. De modo que fora da música, procuro passar tanto tempo quanto possível, com a minha família.


Uma mensagem final para os músicos de Cabo Verde...

Nô fazêl bnit, cada um de sê manêra. Nô respeitá música. Música sempre por paixão e devoção, nunca por fama e fortuna.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 922 de 31 de Julho de 2019. 

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:Expresso das Ilhas,3 ago 2019 9:09

Editado pormaria Fortes  em  4 ago 2019 9:46

pub.
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.