Praia de São Francisco será transformada numa galeria de música electrónica

PorDulcina Mendes,20 nov 2022 7:52

A praia de São Francisco, situada a 12 quilómetros da cidade da Praia, acolhe nos dias 24 a 26 deste mês, o primeiro Festival Internacional de Música Electrónica, denominado “Terra Sagrada”. Cabo Verde será representado neste festival pelo DJ Hebraico. Sobre este festival, o Expresso das Ilhas conversou com uma das promotoras do evento, Anna Topliysky, que explicou como será o certame que acontece pela primeira vez em Cabo Verde e espera trazer artistas de 17 países.

Depois de frequentar alguns festivais de música electrónica na Europa, Anna Topliysky, sentiu necessidade de trazer um certame do tipo para Cabo Verde. 

“Quando uma pessoa viaja e adquire experiência nos festivais compreende que, além de ser um festival de música, é um momento de elevada consciência, as pessoas vibram numa mesma energia e tem um impacto muito forte. Quando a pessoa sai do festival tem uma vontade de fazer coisas e acho que dali saiu um pouco essa ideia”, salienta. 

E com isso, pensou logo na praia de São Francisco que é bonita, mas está completamente desaproveitada. “Falarmos com alguns amigos e decidimos fazer cá um verdadeiro certame. Sei que já foram realizados alguns eventos lá, mas queremos fazer algo que esteja mais conectado com a natureza. E não será chegar lá com carros e estacionar na praia, mas viver realmente a experiência”. 

“Surgiu a ideia de fazer este festival porque temos familiares na França que trabalham na área de eventos. Na Europa actualmente há muitos festivais desse tipo, mas são em zonas muito urbanizadas, pouco atractivas a nível do ambiente, e queremos valorizar ao mesmo tempo a praia de São Francisco. Cuidar dela melhor, mas também celebrar, sentir a energia dessa praia porque quando estamos a dançar, a celebrar, vamos ao mesmo tempo sensibilizar as pessoas com formação”, cita. 

Organizado pela 1456 Produções, o evento terá artistas de vários países, nomeadamente de Cabo Verde, Marrocos, Quênia, África do Sul, França, Luxemburgo e Estados Unidos da América. 

“Terra Sagrada”, segundo Anna Topliysky, será mais do que música, será uma experiência de festival com decoração, música durante 13 horas que não pára, com actuação de oito artistas de diferentes países por noite. 

“Será realmente uma nova experiência para as pessoas que nunca estiveram em nenhum festival do tipo lá fora e que não conhecem Boom Festival, Zam Festival México ou Tomorrowland de música electrónica que reúnem 400 mil pessoas por dia e vende os bilhetes em segundos” . 

Anna Topliysky salientou que “Terra Sagrada” será um pouco como o Burning Man, um festival que acontece no estado americano de Nevada, perto de São Francisco, num deserto. 

Artistas 

A partir do dia 23 vão chegar à cidade da Praia os artistas que irão participar neste festival. A organização indicou que a DJ alemã Lilly Palmer é o destaque do festival. 

Segundo Anna Topliysky, trata-se de uma artista número dois mundial em música techno e com mais de um milhão de visualizações nas redes sociais. 

Dos Djs, já estão confirmados nomes como Cosmic Boys, Boddhi Satva, Ivory Parra for Cuva, Fakear, Viken Arman, Egbert, Aero Manyelo, Amine K, Argia, Cincity, Coco Em, Dj Satelite, Floyd Lavine, Gabriel Soma, Markus Volker, Netty Hugo, Nure e Paulinska. 

“Teremos mais de 40 por cento de actuações de mulheres, isso também é algo importante, porque em Cabo Verde não tem havido muitas mulheres DJ, e isso serve para incentivar e fazer com que surjam mais mulheres nessa área”, explica. 

A mentora do evento confessa que foi difícil negociar com os artistas, porque muitos têm agenda cheia e é preciso negociar com eles e com seus agentes. 

“Tínhamos grandes cabeças de cartaz que não conseguimos ter no último momento porque tinham outro evento agendado”. 

“É claro que o artista leva a sua imagem e quando ainda não conhece o evento é sempre difícil convencê-lo, e está é a nossa primeira edição. Mas quando é um festival já muito conhecido as pessoas já sabem como é que vai ser, então é mais fácil convencer os artistas e os agentes e mostrar a seriedade do evento. Quando dizemos que nesta primeira edição vamos contar com artistas que tocam em Tomorrowland, um dos melhores festivais do mundo, é um desafio. Por isso, gostaríamos que cabo-verdiano apreciasse o trabalho que estamos a fazer para promover Cabo Verde”, explica. 

Conforme disse, o objectivo é fazer com que a praia de São Francisco faça parte desse circuito de festival de música electrónica e que pessoas viajem especificamente para este festival.

“Queremos que as pessoas usem táxi, fiquem em hotéis, comam nos restaurantes e que haja um turismo sustentável ligado à cultura, que já existe, porque temos o Kriol Jazz Festival, Atlantic Music Expo. Estamos certos de que estamos a trazer uma imagem positiva para Cabo Verde. Então é uma nova forma para atrair mais turistas”, assegura. 

Actividades paralelas

A praia de São Francisco vai receber também, em paralelo com o festival, campismo, zona comercial, bar e restauração. Haverá actividades como aula de yoga no acampamento, massagem durante o festival, mergulho submarino, viagem de bote à Baía do Inferno, trekking em São Domingos e street-art tour em Achada Grande Frente, na Praia. 

Para Anna Topliysky, será uma experiência para viver no seu todo. As pessoas podem comprar o bilhete para um dia e ter todo o serviço incluído, “entendo que o preço possa parecer elevado, mas o que pretendemos é que a pessoa tenha uma experiência total de ficar na praia, ouvir música e partilhar com os amigos e ter tudo lá como casas de banhos, chuveiros e tudo o que seja preciso”.

Bilhetes 

Os bilhetes custam 3.700 escudos, por dia. A mentora do festival disse entender que o bilhete possa estar por um valor elevado, mas que tudo foi pensado nos mínimos detalhes, como logística, transporte, cachê dos artistas e outros. 

“Estamos a falar de um bilhete de 3.700 escudos. A primeira razão é que não há transporte para a praia de São Francisco, a segunda é porque é um festival ambiental pelo que queremos dar possibilidade a todos os que comprarem o seu bilhete participar nesta causa e não ir no seu carro pessoal”, explica.

E explica que os transportes têm que ser organizados, as casas de banho também, com canalizações, chuveiros e cacifos seguros. “Teremos uma zona artística, que tem que estar bem organizada, porque estamos a trazer artistas com mais de um milhão de seguidores nas redes sociais a nível internacional. Temos a número dois da música techno do mundo connosco, então essas pessoas têm pedidos elevados de cachê e de hotel, tipo de carro, de como é que deve ser o seu camarim, enfim, há muitos pedidos. Uma logística incrível, teremos também restauração que tem que ser trazida e preparada e as pulseiras, e tudo isso tem um custo”. 

Além disso, disse que a praia de São Francisco vai ter durante o festival o 4G para que as pessoas se possam comunicar. “Vamos levar o gerador, porque não há electricidade na praia de São Francisco. A água tem que ser trazida, cinco dias de campismo, segurança 24 horas. Então quando a pessoa começa a ver tudo isso, deve compreender que realmente não estamos a ganhar, mas sim a cobrir de uma forma ou de outra todos os custos, porque temos uma visão e achamos que vale a pena investir nesta visão, mas que é só numa ideia comercial. A ideia comercial é sempre boa, porque o projecto precisa de uma sustentabilidade financeira porque senão não vai sobreviver”. 

Na mesma linha, disse que esse festival foi idealizado também a pensar de que forma podem ajudar as pessoas a criar o seu próprio emprego para dinamizar a economia local e criar um turismo mais sustentável. “Mas estamos a apostar na parte social, trabalhar com as comunidades”. 

De acordo ainda com a mentora do projecto, 10 por cento da receita deste festival ecológico destina-se à plantação de árvores em São Francisco e formação na comunidade local. 

As pessoas que quiserem ir ao festival terão três pontos de hiaces: uma no Plateau, outra em Palmarejo e outra ao lado do Hotel Pérola. 

Conforme disse, quer aproveitar a idealização deste festival para dar mais visibilidade internacional a Cabo Verde, pois “considera que a música electrónica, a terceira melodia mais ouvida do mundo, seguida da música pop e de rock, tem o seu público específico e leal”. 

Lixo 

Sobre o lixo, Anna Topliysky garantiu que estão com empresas e a Associação Lantuna que já se disponibilizaram para fazer a reciclagem de alguns materiais que vão ser utilizados no festival. Durante o festival o lixo vai ser todo separado, para depois ser reciclado. 

“Tudo que é plástico será transformado pela empresa Caboplast, que o vai reutilizar. O vidro vai para a comunidade de São Francisco onde fazem areia. Sabemos que temos muita apanha de areia e falta de areia nas praias, então com essa reciclagem é uma oportunidade de pensar se não podemos de outra forma criar areia”, indica. 

A mentora do festival “Terra Sagrada” explica que com isso estão a criar uma pequena economia circular, “a empresa que está a produzir plástico, está a dar o seu contributo. A associação Latuna está a criar rendimento e, nós, claro, estaremos contentes, porque o nosso lixo vai ser reciclado. Temos a estratégia e o plano de gestão de resíduos e de sustentabilidade dos riscos ambientais, das tartarugas que desovam. Temos impacto mas estamos a minimizá-los”. 

Por outro lado, Anna Topliysky explica que querem continuar a apostar nesse festival, mas que tudo vai depender da primeira edição. “A partir da primeira edição é que vamos decidir, se vamos continuar ou não, temos todo o gosto em continuar”.

Texto publicado originalmente na edição nº1094 do Expresso das Ilhas de 16 de Novembro

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Autoria:Dulcina Mendes,20 nov 2022 7:52

Editado porAndre Amaral  em  3 dez 2022 14:20

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