Arlindo Martins lança “Espera pa bô” e retoma percurso musical

PorDulcina Mendes,10 jan 2026 8:57

Após anos a guardar composições na gaveta, o músico cabo-verdiano regressa ao estúdio, incentivado pela família. Este incentivo levou Arlindo Martins a começar agora a mostrar ao público as canções que guardou durante décadas, num regresso discreto, mas carregado de significado.

A música “Espera pa bô” nasceu de forma inesperada, num momento de inspiração solitária. Sozinho em casa, com a guitarra nas mãos, Arlindo Martins começou a escrever sem grandes planos, deixando que as palavras surgissem naturalmente.

“Nem sei bem como terminei”, confessa o músico, ainda admirado com a rapidez com que a letra foi composta.

Só após parar para descansar é que percebeu o tema que tinha criado. “Fui ver o que tinha escrito e achei que a letra ficou boa. Fiquei admirado, porque foi tudo muito rápido”, recorda.

O resultado é uma música, lançada no final de 2025, que já está a conquistar os ouvintes e que marca um novo capítulo na sua ligação com a música.

Este lançamento, segundo o músico, em entrevista ao Expresso das Ilhas, representa um primeiro passo num regresso feito com calma e maturidade.

“Posso continuar a escrever, embora a minha idade já não permita meter-me totalmente na música. Apesar de ter começado muito cedo no mundo musical, cheguei a entrar em estúdio, mas acabei por largar tudo. Mais tarde, a minha família, os meus filhos e a minha esposa incentivaram-me a fazer alguma coisa. Foi então que comecei com esta música, dedicada à família e aos amigos. Depois deste tema, pretendo fazer as coisas com calma”, assevera.

Com esse resultado, Arlindo Martins já se encontra novamente em estúdio, embora admita estar, por agora, numa fase de descanso. Ainda assim, o plano é continuar ligado à música.

“Os meus filhos e a minha esposa disseram-me para fazer alguma coisa. Foi aí que nasceu esta música, dedicada à família e aos amigos”, relata.

Arlindo Martins conta que o trabalho foi gravado no estúdio de um amigo, Vítor, conhecido artisticamente como Cucs.

A estratégia passa por lançar os temas gradualmente e, mais tarde, reuni-los num CD. “Vamos fazer tudo com calma”, sublinha.

Morna e coladeira

Desde muito cedo, Arlindo Martins nutre uma grande paixão pela morna e pela coladeira, dois estilos musicais cabo-verdianos da sua preferência.

“Foi com essas sonoridades que comecei a fazer serenatas, acompanhado do irmão e de amigos. São os estilos de que gosto mais”, afirma.

O acolhimento positivo do primeiro lançamento reforçou a motivação para investir nessa área. “Sinto-me feliz. Dá-me vontade de trabalhar mais, porque sinto que está a ser bem aceite e que abre portas para outros trabalhos”, diz.

Durante muitos anos, Arlindo compôs e tocou as suas próprias canções, guardando-as sem as divulgar. Apenas uma delas chegou a ser cantada por Damião Martins, irmão da sua mãe, com quem chegou a gravar um tema. “De resto, ficava tudo na gaveta”, admite.

A decisão de gravar surge agora como resultado de um incentivo familiar e de um desejo antigo de partilhar o que foi criando ao longo do tempo.

França

Além da música, Arlindo Martins trabalha na área da pintura, em França, país onde vive desde os anos 90. Ainda assim, mantém uma ligação forte com Cabo Verde, para onde viaja sempre que pode.

“Gosto de ir à minha terra, ver a família e os amigos. A idade está a chegar e queremos aproveitar para estar mais próximos da nossa origem”, afirma, sem esconder o desejo de um regresso definitivo no futuro.

Defensor do formato físico, o músico confessa continuar a valorizar o CD numa era dominada pelo digital. “Gosto de ter o CD nas mãos, saber quem participou naquele trabalho, para falar com conhecimento”.

Por isso, disse que sempre que regressa ao país, a Cabo Verde, faz questão de comprar os CDs mais recentes para levar consigo para França.

Inspiração

Entre os muitos artistas cabo-verdianos que admira, Arlindo Martins destaca Paulino Vieira como a sua maior referência.

“Mesmo as músicas mais antigas, estou sempre a ouvi-las”, afirma, reconhecendo que cada artista acaba por ter um ídolo.

Sobre o uso da inteligência artificial na música, o artista assume uma posição equilibrada. “Hoje é mais fácil fazer música; não sou contra, mas prefiro ficar com o meu passado”, diz, reforçando a sua preferência pelas sonoridades de outros tempos.

Futuro

O próximo single poderá ser uma morna, embora o artista também aprecie outros géneros tradicionais, como o funaná, o batuque e a tabanca. No entanto, deixa claro que a morna e a coladeira continuam a ser o seu porto seguro.

“Gosto de morna e coladeira. Isso não quer dizer que não goste de ouvir outros estilos musicais da nossa terra. Costumo ouvir tabanca, funaná e batuque, mas a minha preferência continua a ser a morna e a coladeira”, destaca.

Quanto aos palcos, Arlindo Martins não ambiciona grandes espectáculos para apresentar o seu trabalho.

“Não tenho ideia de lançar os meus trabalhos em grandes espectáculos. Se estiver num lugar e me pedirem para cantar, canto. Mas organizar espectáculos, não. Posso, no entanto, cantar em bares ou restaurantes”, afirma.

Para o músico, a música é parte essencial da sua vida. “Posso dizer que a música é 90% de mim. Adoro música. Ouço todo o tipo de estilos, embora tenha as minhas preferências. Se for um trabalho novo, ouço com tranquilidade, mas sou daqueles que ouvem a música do início ao fim. Gosto de ouvir, apreciar e dar sempre palavras de incentivo para a pessoa continuar”.

Martins cresceu rodeado de instrumentos e de músicos na família, uma herança que continua a marcar o seu percurso.

Sobre a vivacidade da música cabo-verdiana, disse que as coisas estão um pouco difíceis, mas que há grandes compositores e músicos. “Espero que melhore ainda mais”.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1258 de 07 de Janeiro de 2026.

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Autoria:Dulcina Mendes,10 jan 2026 8:57

Editado porAndre Amaral  em  10 jan 2026 11:29

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