A exposição afirma-se como um convite à reflexão, à emoção e ao reencontro com a essência da identidade humana e cabo-verdiana. Composta por 14 quadros, “Identity” conduz o visitante numa viagem profunda pela identidade cabo-verdiana, explorando vivências, cultura, história, memórias colectivas e o sentimento de pertença.
Em entrevista ao Expresso das Ilhas, Lito Silva explicou que o tema identidade nasceu da necessidade de reflectir sobre quem somos, mas também de mostrar que a arte transcende fronteiras culturais e toca o ser humano para além da origem ou da língua.
“A identidade vai por aí além e tem muito a ver com as minhas pinturas, porque acredito que a arte transcende as fronteiras culturais. A verdadeira identidade é aquela para a qual as pessoas não precisam necessariamente da cultura para se identificarem”, afirma.
O artista contou ainda que, durante o processo de criação das obras, não pensava num título específico para a exposição. Contudo, à medida que pintava, começou a reconhecer nelas momentos marcantes da sua infância.
“Curiosamente, estive a produzir as obras sem pensar num nome concreto, mas, ao fazê-las, comecei a identificar-me com momentos ricos e únicos vivenciados na minha infância. Isso levou-me à consciência de que a identidade é algo que nos marca profundamente e que vive dentro de nós”, explica.
Segundo Lito Silva, cada obra exposta carrega uma narrativa própria. “Cada quadro tem uma história. Tenho aqui uma colecção que resulta de um plano lançado há dois anos, quando estive na Cidade da Praia com o artista plástico Sidney Cerqueira. A partir daí, esse tema criou asas e ganhou vida, com muita conexão com o quotidiano”, refere.
Entre as peças em destaque estão “Mãe Guerreira”, que evoca a figura das mães e avós cabo-verdianas enquanto símbolos de resistência e transmissão cultural, e “Pilon”, que remete para práticas tradicionais profundamente enraizadas na memória colectiva. Já o quadro “O Som da Chuva” pertence a um cliente que autorizou, gentilmente, a sua inclusão na exposição.
Nos últimos tempos, o artista tem também incorporado borboletas nas suas obras, símbolo de transformação e metamorfose. Para Lito Silva, a borboleta representa uma mudança que acontece de dentro para fora, numa leitura espiritual e humana da vida.
“A verdadeira transformação é interior. A borboleta não está ali apenas como decoração, mas como expressão dessa renovação”, sublinha.
O artista revelou ainda que grande parte das obras expostas já foi vendida, algumas por encomenda e outras através das redes sociais, o que considera reflexo da forte conexão emocional que o público estabelece com o seu trabalho. As encomendas, segundo explicou, dão-lhe maior liberdade criativa, algo que valoriza profundamente.
“Gosto de criar de forma espontânea. As minhas obras levam tempo, são feitas em várias camadas, com uma técnica espessa, que exige dias de preparação e inspiração”, acrescenta.
Percurso artístico
Esta é a primeira exposição individual de Lito Silva em Cabo Verde, embora o seu percurso artístico inclua experiências anteriores no estrangeiro. O artista, que reside actualmente em Londres, iniciou o seu caminho expositivo em 2010, em Portugal, onde realizou a sua primeira mostra na antiga Casa da Morna, espaço cultural do músico cabo-verdiano Tito Paris.
“Foi lá que comecei a aprender, desde a montagem dos quadros até à relação com o público. A exposição foi muito bem aceite e consegui vender quase todos os trabalhos, o que é muito motivador para um artista que iniciou a sua carreira em 2010”, recorda.
Do ponto de vista técnico, Lito Silva define o seu trabalho como expressionista, embora não se prenda a classificações académicas. Influenciado pelo impressionismo, privilegia a emoção e a conexão acima da técnica.
“Para mim, a arte é conexão. Se não houver ligação entre a obra e quem a observa, a técnica, por melhor que seja, perde o sentido. Para algumas pessoas, a arte é terapêutica; para mim, é terapia no acto de criar”, afirma.
O percurso artístico de Lito Silva começou na infância. Cresceu num ambiente familiar marcado pelo desenho e pela criatividade, sem televisão em casa, o que estimulou a imaginação.
O avô fazia letreiros e a mãe, professora do ensino primário, desenhava para apoiar as aulas, enquanto o artista cedo começava a desenhar para colegas e familiares.
Embora tenha enveredado também pela música durante a adolescência, foi apenas aos 30 anos que decidiu dedicar-se de forma mais consistente às artes plásticas. Após um período afastado da pintura, marcado por responsabilidades familiares, regressou à arte com mais maturidade, experiência de vida e intensidade criativa.
“A arte não é só técnica, é vivência. Às vezes, uma pausa longa acaba por trazer uma nova dinâmica”, considera.
Projectos futuros
O artista revelou que tem alguns projectos em carteira, mas que, por estar no início deste percurso, depende de convites e apoios para a sua concretização.
“Estou a começar, este é o meu primeiro. Tenho um projecto para Outubro, mas ainda falta algum tempo”, afirmou.
Lito Silva adiantou também que existe a possibilidade de realizar uma nova exposição na Cidade da Praia, em Julho, embora sublinhe a necessidade de patrocínios e convites para a sua concretização.
“São coisas que estão a ser discutidas. Quero entrar em mais mercados, inclusive em Londres, mercados que dão maior abrangência e permitem alcançar novos públicos”, conclui.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1260 de 21 de Janeiro de 2026.
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