Zé Rui de Pina: “O que sou hoje é graças à música”

PorDulcina Mendes,8 fev 2026 10:02

Mais do que um músico, Zé Rui de Pina é um agente cultural e social. Com novos temas a caminho, o artista fala do seu percurso, do impacto do projecto “Abrasu Muzikal” e do seu empenho na valorização da música cabo-verdiana. Além da música, Zé Rui de Pina desenvolve projectos sociais, nomeadamente no apoio a alunos no acesso à formação superior. O músico é proprietário do espaço Djeu View Residencial, na Cidade da Praia, onde alia turismo, gastronomia e música. Em entrevista ao Expresso das Ilhas, Zé Rui de Pina fala do seu amor pela música e dos seus projectos sociais.

Natural da Cidade da Praia, Zé Rui de Pina iniciou-se na música aos 8 anos de idade. É familiar de músicos como Nhô Djonzinho Alves, seu tio, e Kim Alves, Kaku Alves e Tó Alves, seus primos.

“Desde os 8 anos que comecei na música. Somos uma família de músicos. Aos 15 anos fui para os Estados Unidos e, lá, participei em vários trabalhos, incluindo ter tocado com Norberto Tavares”, conta.

Zé Rui de Pina afirma que a sua carreira musical se deve muito ao trabalho social que faz, porque associa o trabalho social ao artístico.

Abrasu Muzikal

Durante a pandemia, Zé Rui criou o projecto social “Abrasu Muzikal” para ajudar colegas artistas que passavam por momentos difíceis.

“O ‘Abrasu Muzikal’ foi uma dinâmica que ultrapassou as minhas expectativas. Fiz o projecto para ser pequeno, mas as coisas explodiram. Graças a Deus, fiz o meu papel e o ‘Abrasu Muzikal’ é hoje uma marca minha”, garante.

Segundo Zé Rui de Pina, muitas pessoas ainda recordam o impacto do projecto, do qual fala com entusiasmo, mas também com alguma mágoa.

O músico confessa que ficou triste por sentir que, apesar de todo o esforço feito, pouco mudou no seio da classe artística. “Fomos os primeiros a parar e os últimos a retomar. Pensei que, com tudo isso, os artistas se iriam valorizar mais, mas infelizmente continuamos a tocar com a alma.”

Ainda assim, o projecto “Abrasu Muzikal” continua, com o objectivo de apoiar artistas na produção musical. “Vamos procurar artistas com talento que não têm meios para gravar e vamos produzir o seu trabalho.”

Zé Rui explica que a ideia é fazer diferente, apesar da mágoa em relação à classe artística. “Há pouco tempo criámos a Associação dos Artistas de Santiago, chegámos à votação, elegemos um presidente e ele desapareceu, sem dar qualquer satisfação.”

Segundo o músico, o grupo conseguiu chegar à parte mais difícil do processo, que foi a votação.

“Costumo dizer que, pela minha cultura, faço a minha parte até onde der. Quando não puder mais, digo: ‘Agora, fiz a minha parte’”, afirma.

Além do estúdio, Zé Rui adianta que, no seu espaço de música ao vivo, tem convidado artistas para actuarem, com o objectivo de ganharem visibilidade.

“A partir dali, passam a ser conhecidos. Tenho recebido muito feedback positivo. Alguns artistas acabaram por assinar com grandes empresas depois de actuarem lá. Só estou a fazer a minha parte”, sublinha.

Música

Zé Rui assegura que a música é a sua vida. “É mais fácil perguntar o que seria de mim sem a música. A música está em mim desde criança. O que sou hoje é graças à música.”

O músico revela que tem duas músicas prontas para lançamento este ano. “Tenho uma morna, um solo de cavaquinho, como quando tinha 10 anos, o primeiro instrumento que toquei. Muitas pessoas gostam de me ver tocar cavaquinho e nunca tinha feito um trabalho apenas com esse instrumento. Decidi que o próximo trabalho seria um solo de cavaquinho, em vez de uma música cantada.”

Além disso, tem duas canções já prontas e está a decidir qual lançar primeiro. Um dos temas poderá sair no mês de Junho.

Sobre a sua carreira, descreve o momento como muito positivo. “Há três meses fui aos Estados Unidos, a convite de um museu de cabo-verdianos nascidos lá, onde dei um workshop sobre o cavaquinho e a música de Cabo Verde.”

Apesar de não ter actuado em grandes palcos recentemente, garante que se mantém activo. “Tenho tocado sobretudo na minha casa, no Djeu View Residencial, mas isso não quer dizer que não goste de grandes palcos.”

Morna

“Ora, hoje a morna é património e está no lugar onde sempre deveria estar. Para mim, a morna sempre foi património”, afirma.

Segundo o músico, a morna toca a alma das pessoas. “Ainda ontem, a 20 de Janeiro, tive no meu espaço um grupo de portugueses que foram lá apenas para ouvir morna.”

Zé Rui destaca que todas as quartas-feiras promove a “Noite de Morna” no seu espaço, como forma de contribuir para a valorização desse género musical.

“Estou muito contente, porque sei que estou a fazer a minha parte. A morna merece mérito. Não basta ter o título de património da humanidade, é preciso elevá-la e mostrá-la mais.”

Defende ainda que a morna deveria ser ensinada nas escolas, para que os alunos aprendam a escrevê-la e a compreendê-la melhor. “Como artista, continuo a fazer a minha parte.”

O músico recorda que, recentemente, recebeu cerca de 24 senadores dos Estados Unidos da América, que foram acolhidos com batuque. “Expliquei-lhes tudo sobre o batuque, até porque alguns são descendentes de cabo-verdianos. Isso também faz parte do turismo.”

Segundo Zé Rui, Cabo Verde precisa de investir mais no turismo cultural. “Muitas vezes, os turistas chegam e não encontram onde ouvir música, apesar de pensarem que aqui há música em todo o lado.”

Conta que, certa vez, recebeu um grupo de Israel e fez questão de tocar em vários locais para mostrar a diversidade musical do país. “A nossa maior riqueza é a cultura”, frisa.

Polémica do dueto com Bana

Sobre o polémico dueto inédito com Bana, no tema “Amor Sofredor”, Zé Rui afirma estar de consciência tranquila.

“Estou confiante no que fiz. Não sou pessoa de cometer erros desse tipo, sobretudo quando se trata de um artista do nível de Bana”, garante.

Segundo explica, o dueto foi um pedido feito directamente a Bana. “Ele próprio disse que eu demorei a fazer esse pedido.”

Zé Rui esclarece que só lançou o tema agora por considerar que era o momento certo. “Quando surgiu a reacção de uma advogada que diz representar a família, também consultei os meus advogados, porque o Bana foi comigo ao estúdio para gravarmos a música.”

Acrescenta que, se fosse uma música já gravada, poderia haver problemas, mas trata-se de uma obra inédita, cuja letra Bana aprendeu para gravar.

Afirma não se arrepender do lançamento e garante que actuou com o consentimento do artista. Até ao momento, diz ter recebido apenas uma mensagem a informar da intenção de levar o caso a tribunal e de retirar a música do YouTube.

“Não retirei a música e estou à espera da notificação do tribunal”, afirma.

Zé Rui lamenta a situação, mas sublinha que a polémica também trouxe o nome de Bana de volta à memória colectiva. “O Bana cantou Cabo Verde de A a Z e merece muito mais reconhecimento.”

Projectos sociais

Além da música, Zé Rui desenvolve vários projectos sociais. Através da sua associação nos Estados Unidos, financia a formação universitária de alunos desde o primeiro ano até à conclusão do curso.

Todos os anos, o músico selecciona um aluno para apoiar no ensino superior. “Visitamos as escolas, escolhemos alunos necessitados, mas com bom aproveitamento escolar.”

Zé Rui de Pina é ainda embaixador das Aldeias S.O.S. de Cabo Verde, uma associação dedicada à protecção e acolhimento de crianças. 

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Autoria:Dulcina Mendes,8 fev 2026 10:02

Editado porSheilla Ribeiro  em  8 fev 2026 11:00

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