«Noca, meu amor» é a sua primeira obra de ficção?
É o primeiro romance que publico, mas a escrita acompanha-me há muito tempo. Comecei este livro numa máquina de escrever, deixei-o amadurecer e regressei a ele várias vezes. A publicação chega agora, mas a vontade de contar esta história é antiga. Entretanto, tenho pronto para edição Diálogos com a História — Por detrás da entrevista, e escrevi Hanina com H, um romance em que me afastei mais livremente do meu método de jornalista.
Podia falar da génese do livro?
Começou com uma inquietação familiar: havia pessoas próximas de mim cuja vida eu conhecia apenas por fragmentos. Quis perceber quem eram e por que razão certas perguntas tinham ficado sem resposta. À medida que procurava, apareceram outras histórias: a partida dos marítimos, a guerra, as cartas que ligavam quem estava longe a quem ficava em São Vicente. O livro cresceu quando compreendi que não podia contar a minha família sem olhar também para a geração a que ela pertenceu.
Quem foi Noca e por que dá título ao romance?
Noca foi minha avó. Durante muito tempo, foi para mim sobretudo um nome ligado a uma ausência. Escrever levou-me a procurá-la nas lembranças de outros, a imaginar a sua vida e a perceber melhor o que a sua história significou para a minha mãe e para mim. Dei-lhe o título porque queria chamá-la pelo nome e dar-lhe o lugar que não teve enquanto eu crescia. No fim desse percurso, o amor que senti por Noca tornou mais nítida a falta que ela e a minha mãe me fazem.
Onde termina a memória familiar e começa a ficção?
Essa fronteira existe, mas não é uma linha traçada a meio do livro. Há lembranças que me chegaram pela família, acontecimentos que pude pesquisar e vidas que tive de construir como romancista. Procurei tornar visível ao leitor a natureza de cada passagem: há narrativa ficcional, capítulos de enquadramento histórico e documentos reunidos em anexo. A invenção ajuda-me a formular perguntas sobre o que as pessoas sentiram; não substitui o que os documentos podem confirmar.
Por que escolheu ligar Mindelo, Guileje e Lisboa na mesma narrativa?
Porque a vida das personagens não parou nas fronteiras de Cabo Verde. Um amigo foi para a guerra, outro seguiu o mar, outros ficaram a receber notícias e a lidar com as suas ausências. Guileje e Lisboa não são desvios de uma história passada no Mindelo: são lugares para onde a vida mindelense se prolongou. Ao seguir esses percursos, pude mostrar como decisões políticas e acontecimentos distantes chegavam às famílias, alteravam relações e, por vezes, acompanhavam as pessoas no regresso.
O que quis dizer com este romance e o que deve permanecer na memória dos leitores?
Gostaria que o leitor guardasse primeiro as pessoas, porque a vida das personagens não parou nas fronteiras de Cabo Verde. Cada uma responde à sua maneira ao que recebeu da família e ao que lhe aconteceu no mundo. Gostaria também que se lembrasse de quem esperou, escreveu cartas e manteve uma casa de pé sem entrar nos relatos da guerra ou da independência. O romance deixou-me uma convicção que espero partilhar: podemos tentar compreender os que vieram antes de nós, mesmo quando discordamos das suas escolhas. O que aconteceu não muda. A maneira como vivemos com essa herança pode mudar.
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