Cinema - O tempo de Pablo Milanés e os sonhos de uma geração

PorSara Almeida,28 out 2026 16:45

Durante mais de dez anos, Fabien Pisani filmou conversas com o pai, o cantautor cubano Pablo Milanés. O documentário que daí nasceu é um retrato íntimo de um homem e, ao mesmo tempo, de Cuba e de uma geração que sonhou mudar o mundo. Para vivir: El implacable tiempo de Pablo Milanés é exibido hoje, 28 de Outubro, na Praia, com a presença do realizador e actuações de Mário Lúcio e Mayra Andrade.

Para o mundo, Pablo Milanés é uma das grandes figuras da música latino-americana. Para Fabien Pisani, que começou a filmar conversas com ele em 2009, era, antes de tudo, o seu pai.

Entre o pai e a lenda, o filme procurou a medida certa. “Havia sempre a tensão entre contar o filme a partir da intimidade, da minha relação pessoal com ele, e, ao mesmo tempo, através da sua história, do seu canto e do seu espírito, tentar perceber a história de Cuba. (...) Então, havia sempre esse vaivém entre o registo íntimo e o fresco épico da grande História”, recorda o realizador.

De um lado, a relação pessoal. Do outro, a Revolução Cubana, as suas promessas e as suas contradições, de que Pablo foi símbolo, voz e testemunha, como parte de uma geração que “deu tudo por essa ideia de mudar o mundo”.

Na verdade, não é só o pai que o filho filma. “Para mim, é também uma homenagem a essa geração”, explica Fabien.

É, então, neste movimento entre o particular e o colectivo que o filme encontra o seu caminho. Pablo Milanés não é apenas o cantor cuja voz acompanhou a vida de tantos, nem somente o homem que teve de confrontar as suas convicções com a realidade política do país em que viveu. É também o pai, o companheiro, o homem para quem as separações amorosas foram “os momentos que mais o dilaceraram”.

Pablo

Pablo Milanés foi uma das vozes mais marcantes da música cubana e latino-americana. Co-fundador da Nueva Trova, movimento que aproximou a canção de autor dos ideais e das transformações políticas do seu tempo, a sua obra cruzou a canção de intervenção com o amor, a perda e as inquietações individuais. Morreu em Madrid, em Novembro de 2022, aos 79 anos.

Mas a sua história começa antes da lenda e vai muito para além dela. Fabien desenha-o em traços de infância dura e teimosia luminosa: menino negro e pobre de uma cidade pequena do oriente de Cuba, abandonado pelo pai e levado pela mãe, com quatro irmãos, para Havana, aos seis ou sete anos. A mãe morreu cedo e as responsabilidades chegaram-lhe também cedo demais. “Vai a concursos de canto na rádio e na televisão e começa a ganhá-los. Aos 15 anos, já sustentava a família e era músico profissional.”

Anos depois, vieram a Revolução, a prisão, a passagem pelas UMAP, campos de trabalho forçado criados pelo regime cubano, e as cerca de trinta operações a que foi submetido. Pablo atravessou todos esses obstáculos, “sem nunca perder o amor pela vida”, nem nunca se colocar na posição de vítima. Nem sequer por ser negro: via o problema, social e cultural da cor, mas “entendia que os homens são todos iguais” e pensava-o a partir do humanismo.

“Impôs-se sempre a todas essas dificuldades que a vida lhe foi pondo em cima, da sua saúde, da sua sorte, fosse raça, dinheiro, incompreensões políticas, administrativas ou institucionais em Cuba, o que fosse. Resolveu tudo isso com amor, não com ressentimento”, destaca o filho.

Essa maneira de estar ajuda a perceber a relação de Pablo com a Revolução. Saiu do campo de concentração e voltou a integrar-se no movimento revolucionário, não por oportunismo: por convicção. Também não abandonou Cuba, de onde só saiu por razões de saúde. O desencanto com o rumo do país não apagou aquilo em que acreditava.

O homem e o seu tempo

Como define o próprio realizador, o documentário é “a história de um homem, que navega pela vida a tentar ver sempre o lado bom, apesar desse tempo implacável, que é um tempo cheio de contradições, traições e conflitos. Era uma época muito complicada, em que parecia necessário tomar partido, escolher um lado e ter um discurso.”

Pablo não era, pois, uma pessoa ressentida. Porém, o compromisso político que marcou uma parte da sua vida não impediu que viesse a manifestar um profundo descontentamento com o rumo do país.

Estava desgostado, e muito. Admirava Fidel Castro, “que foi fundamental para o seu despertar ético, o seu pensamento político e para o seu devir revolucionário”, mas considerava que a Revolução fora traída pela “ambição pessoal e pela falta de grandeza política”.

A falta de liberdade e de espaço para outras vozes, a precariedade da vida e a incapacidade de reinventar o projecto social e nacional cubano, sobretudo depois do fim do bloco socialista, acentuaram o declínio do processo revolucionário. As gerações formadas pela própria Revolução chegaram à idade de assumir responsabilidades, e não encontraram espaço para participar na transformação do país.

O que nos salva

Uma pergunta que atravessa o documentário é precisamente, o que resta dos sonhos de quem acreditou que podia transformar o mundo?

E há uma frase de Chico Buarque, aí entrevistado, que resume o sentimento: ‘enquanto houve um sonho, sonhou-se’.

O sonho não desaparece só porque a tentativa de o concretizar falhou. Pablo nunca largou o sonho: “pensava que as razões estão para continuar a sonhar ainda existem”, conta o realizador. Falhou-se, sim. Não quer dizer que o sonho não tenha tido sentido, nem que deva ser abandonado.

A conversa sobre a experiência cubana leva, pois, também a olhar para o presente. “Vivemos actualmente um momento muito reaccionário, mas também um momento com um grande potencial revolucionário”, analisa, por seu turno, Fabien.

Porém, há uma diferença em relação à geração retratada: hoje, “imaginamos qualquer projecto de transformação como um projecto de transformação individual e a nossa imaginação política estreitou-se”.

A tecnologia, as redes sociais, o dinheiro e a própria organização da vida terão certamente contribuído para essa dificuldade em pensar o colectivo, que não é necessariamente o colectivo comunista ou socialista. É mais simples: a arte de estar juntos.

“O que nos vai salvar é o amor, é a nossa capacidade de continuar a partilhar e a viver em comunidade.” E acrescenta: “A capacidade de conversar, de estar e ser felizes juntos e de reinventar novas maneiras de estar juntos e de partilhar. É aí que está a luta.”

A pergunta deixa, assim, de ser apenas o que aconteceu aos sonhos dessa geração. Passaria a ser, hoje, o que somos capazes de imaginar.

A perda

Ontem e hoje. O tempo é implacável e Pablo Milanés sabia-o desde muito jovem. Quando escreveu, por exemplo, El tiempo, el implacable, el que pasó e Para vivir (duas canções que se cruzam no título do documentário), tinha pouco mais de 20 anos e já se interrogava sobre a morte, a passagem do tempo, as mudanças nas relações humanas e aquilo que se perde quando a vida avança.

No fim, o filme registou também essa passagem irreversível dos dias no corpo e na voz do protagonista, até à sua morte. Fabien editou o filme com o pai a olhar para ele do outro lado do ecrã, todos os dias. “Era extremamente doloroso”, confessa. Mas deu-se conta de outra coisa. Também “era um privilégio, uma sorte muito bonita que tinha: continuar a conversar com ele.”

Entrevistas ficaram por fazer. Pablo era um homem púdico, “e não entendia que se falasse necessariamente da família e da intimidade de forma directa, e não de maneira figurada ou poética, como fazia nas canções”. Aliás, só quando percebeu que o filho, através dessas conversas, queria também falar de Cuba, se entusiasmou. Com o tempo, começou a falar mais naturalmente também da parte pessoal, porém, houve diálogos que não chegaram a acontecer.

“A morte dele obrigou-me a trabalhar com o que tinha, e tinha, claro, muito”, refere.

A primeira versão tinha cerca de três horas; a final ficou reduzida a 106 minutos. Cortar exigiu perceber não apenas o que era importante contar, mas o que o próprio filme dispensava. Uma parte mais extensa, dedicada à complexidade política dos anos 1970, acabou por ficar de fora. Não por falta de importância histórica, mas porque tornava o conjunto demasiado pesado e afastava-o da simplicidade que o realizador procurava.

“Queria que o filme tivesse a simplicidade de uma canção, que se desenvolvesse com a naturalidade e a lógica de uma canção ou de um poema”, explica.

A montagem foi, assim, também um exercício de contenção. A vida de Pablo Milanés daria para muitos filmes, admite Fabien. Mas este tinha de encontrar o seu próprio conteúdo e voz.

“O filme é como um ente e tem o seu próprio coração, vai traçando o seu próprio caminho, com o seu próprio biorritmo…”

A morte trouxe, assim, um fim que Fabien não esperava ter de enfrentar durante a realização do documentário. Sabia que o pai estava debilitado, mas julgava que ainda teriam mais tempo juntos.

“A nossa relação com a morte de alguém que amamos é completamente irracional”, diz. “Estava convencido de que ia durar muito mais tempo, de que íamos continuar a caminhar juntos.”

Fabien

E Fabien Pisani? Fabien tinha dois anos quando Pablo Milanés, seu pai adoptivo, entrou na sua vida. Viveu com ele 16 anos, até os pais se separarem, mas a ligação entre ambos manteve-se. “Sempre foi muito importante para mim”, diz.

Nascido em Havana, em 1971, Pisani vive no México desde 2018. Antes de se tornar realizador, foi músico e compositor. A música foi ficando para trás “em grande medida por causa da dor da separação dos meus pais”. Saiu de Cuba e foi estudar filosofia para Paris. Foi aí, a meio de um doutoramento, que a decisão de fazer cinema surgiu numa encruzilhada:

“Comecei a perguntar-me que relação queria ter com o conhecimento. Queria fazer parte da academia, da administração do saber, ou queria ter uma relação dramática com o saber, no sentido criativo? Uma relação que me permitisse contar histórias. Escolhi esta segunda via.”

E o cinema foi a linguagem escolhida, nem sabe “bem porquê”.

Mas a música nunca deixou de ser uma referência.

Antes de Para vivir, assinou En La Caliente, sobre o reggaeton em Cuba: dois filmes, de gerações diferentes, que procuram compreender o país através da música.

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“A música é chave na maneira como entendo as relações pessoais e como leio o mundo”, reconhece.

Actualmente, está a trabalhar em Mientras el sueño, um título que surge da já citada frase de Chico Buarque: “Mientras hubo un sueño, se soñó”. O novo projecto, que cruza documentário e ficção, já não se passa em Cuba nem tem ligação à música. “É sobre a insurreição, sobre a guerrilha, num lugar da América Central.”

Para o preparar, tem lido diários de guerrilheiros africanos e latino-americanos.

Mas a ideia parece prolongar uma das questões centrais do trabalho de Pisani: como contar histórias de pessoas e de gerações que acreditaram na possibilidade de mudar o mundo.

Recepção

Ainda Para vivir. A sua recepção tem surpreendido Fabien Pisani. Depois de passar por festivais internacionais, o documentário chegou às salas de cinema no Chile e prepara a estreia em Espanha. O que mais o emociona, conta, é a reacção de espectadores que lhe agradecem por ter feito o filme. “É um filme sobre a minha família, é sobre mim, sobre nós”, dizem-lhe. Apesar de partir de uma relação íntima entre pai e filho, a história de Pablo Milanés acaba por despertar uma memória colectiva, que atravessa fronteiras e gerações.

Em Cuba, porém, o documentário não integrou a programação oficial do Festival de Cinema de Havana, em 2025, tendo sido exibido na Embaixada da Noruega. Pisani diz nunca ter recebido uma justificação para a decisão, que considera uma forma dissimulada de censura. “Temos de ser capazes de ter essas conversas difíceis”, defende, sublinhando a importância de assumir a história recente do país e de discutir as suas contradições.

O filme chega agora a Cabo Verde. Para o realizador, o regresso ao arquipélago, que já conhece bem, é também uma oportunidade de reforçar os laços culturais entre os dois países e de contribuir para a circulação de histórias e experiências. “Tenho muito orgulho em fazer parte dessa ponte”, afirmou ao Expresso das Ilhas.

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Para vivir apresentado em Cabo Verde

O documentário Para vivir: El implacable tiempo de Pablo Milanés, de Fabien Pisani, será apresentado a 28 de Outubro, às 20h00, no Auditório Jorge Barbosa, na Praia. A sessão inclui um diálogo com o realizador e uma homenagem musical a Pablo Milanés, com Mário Lúcio e Mayra Andrade.

Durante a sua passagem por Cabo Verde, Fabien Pisani terá também uma conversa aberta com estudantes, na Mediateca da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), no dia 29, às 9h30.

Esta iniciativa dedicada à vida e ao legado de Pablo Milanés está integrada no Mês da Cultura e das Comunidades e conta com a vinda do realizador a convite de Dina Curado. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1300 de 28 de Outubro de 2026.

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Autoria:Sara Almeida,28 out 2026 16:45

Editado porClaudia Sofia Mota  em  30 out 2026 17:19

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