Depois do interregno ditado pelo acompanhamento do campeonato do mundo de xadrez, retomamos nesta edição a entrevista ao Mestre Ramiro Barbosa Vicente, uma das grandes referências do xadrez cabo-verdiano. Na primeira parte Ramiro, como é conhecido na cena xadrezística, falou-nos dos seus primeiros passos no jogo dos reis e da conquista do primeiro campeonato da modalidade, em São Vicente, ilha onde foi concluir o sétimo ano dos liceus e logo a seguir ingressou no quadro das Alfândegas. Nos vaivéns do desempenho da sua actividade profissional, é transferido, em 1965, para a ilha do Fogo e de seguida para S.Vicente onde revalida o título de campeão conquistado cinco anos antes. Na segunda parte desta entrevista, damos conta da sua transferência para a Praia, em 1972, a sua vitória no campeonato de Cabo Verde e os duelos que protagonizou com grandes figuras do xadrez praiense, entre eles, Baltazar Barros e Sá, Raúl Barbosa Vicente, Noel Pinto, Arménio Vieira, Sérgio Centeio e Daniel Pires.
Ramiro Barbosa Vicente – Regressei ao Fogo em 1965 para substituir um colega meu na Alfândega. Não havia então, em toda a ilha, ninguém que jogasse, parou o xadrez. Entretanto, sou recolocado em S. Vicente para substituir um colega que foi para São Filipe. Em S.Vicente disputei mais um campeonato, desta vez realizado no Hotel Porto Grande e sagro-me campeão outra vez. Entrementes, sou de novo transferido para dirigir a Alfândega do Fogo e também deixei de jogar xadrez. Em 1972, havia uma série de problemas na Alfândega da Praia, relacionados sobretudo com desvios nos armazéns, e sou chamado para a Praia. Meteram-me na boca do inferno, por assim dizer. Na Praia, encontrei muita gente a jogar xadrez. O Dr. Baltazar Barros e Sá que era reitor do Liceu Adriano Moreira [actual Liceu Domingos Ramos], o meu primo Raúl Barbosa Vicente, o Noel Pinto, o Arménio Vieira, o Neneni [Daniel Pires], o Sérgio Centeio e muitos outros. No primeiro campeonato organizado depois da minha vinda à Praia [1973] estava bem posicionado, mas acabei por perder justamente um jogo com o Torres do Banco [então Banco Nacional Ultramarino] com quem nunca havia perdido uma única partida. Aconteceu o seguinte: na altura estava a construir uma casa na Prainha e o Sr. Manuel Gomes dos Anjos [proprietário da casa do mesmo nome] ofereceu-me os materiais para cofragem e um dia antes desse jogo cancelou a oferta. Transtornado com essa situação, não pude me concentrar no jogo e ofereci sem nenhuma explicação a Dama ao meu adversário. Assim, em vez de ir à final com o Dr. Baltazar, foi ele. Nas vésperas da independência o eng. Renato Figueiredo organizou no Salão Paroquial, no Platô, um torneio de xadrez em que fiquei no primeiro lugar. Convém realçar que este torneio contou com a participação da quase totalidade dos participantes do torneio anterior. Este foi o último grande torneio realizado antes de 1975. Depois da independência, havia outras prioridades e foram escassos os torneios e campeonatos realizados. O último grande torneio em que participei foi tecnicamente um campeonato de Cabo Verde, porque participaram três dos melhores jogadores da Praia e de S.Vicente apurados, dois do Sal e um de Santo Antão. O campeonato foi realizado em S. Vicente e fiquei outra vez em primeiro lugar.
Qual foi o jogador que mais lhe marcou ao longo da sua carreira?
Seguramente o Dr. Baltazar com quem aprendi algumas coisas, porque ele conhecia muito bem a teoria do xadrez. Como na altura desconhecia os fundamentos do jogo, apanhei nele o essencial da teoria que me possibilitou a ganhar o tal Campeonato em S. Vicente. O meu primo Raulinho [Raúl Barbosa Vicente] jogava muito bem, mas o Dr. Baltazar dominava melhor a teoria. Acontece que depois da independência muitos quadros deixaram o país, rumo a Lisboa. Ali o Raulinho frequentou uma associação de xadrez e assimilou o essencial da teoria escaquística. Quando regressou a Cabo Verde passou a ganhar ao Dr. Baltazar e a todos os outros jogadores. Pena que tivesse aprendido a teoria relativamente tarde, porque ele tinha muito jeito para o xadrez.
É a ele que se atribuiu a máxima, quem ganha um peão…
É verdade, é dele. Ele dizia ‘quem ganha um peão, troca todas as peças e até o próprio Rei’. Obviamente que não se pode trocar o Rei no xadrez, mas o paradoxo que ele estabeleceu demonstra o profundo conhecimento teórico que trouxe de Lisboa. Este enunciado entrou na literatura do xadrez como teoria da simplificação de Capablanca. Raulinho deveu muitas das suas vitórias ao conhecimento desta regra de ouro que, de resto, nenhum dos adversários tinha na altura que aconselha a trocar as peças acessórias ao verdadeiro desnível da partida e manter em jogo só aqueles elementos que apresentam um desequilíbrio estratégico entre si. (Continua no próximo número)
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 784 de 07 de Dezembro de 2016.
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