Tânia Tomé: Se um empreendedor não for bom líder é apenas um empresário

PorJorge Montezinho,25 mar 2017 6:55

Economista e empreendedora, CEO da Ecokaya, escritora, cantora, activista, performer. A jovem moçambicana, além de multifacetada, é igualmente multipremiada: entre outros, recebeu o Prémio de Mérito da Presidência de Moçambique, o Prémio Académico Portugal/África, atribuído pelo ex-presidente português Mário Soares e todas as representações diplomáticas dos PALOP em Portugal, foi considerada por Barack Obama uma das jovens líderes africanas e pela Global Banking (do Reino Unido) a jovem executiva líder. Licenciada em Economia e Pós-graduada em Auditoria e Controlo de Gestão, tem trabalhado nos últimos 4 anos dando suporte a empreendedores e pequenas e médias empresas, com plataformas, treinamentos, programas e conceitos para o empoderamento de empreendedores, com enfoque em jovens e mulheres. Tânia Tomé esteve em Cabo Verde, foi oradora no TEDx e numa palestra organizada pela Embaixada dos Estados Unidos da América. Entre um evento e outro, falou com o Expresso das Ilhas sobre economia, empreendedorismo e revoluções.

 


Há uns anos que cada vez que se fala da economia africana se usa a palavra boldness – audácia. Até onde pode ir o continente com esse arrojo?

Acho que essa palavra se não a enquadrarmos em um contexto é muito geral para conseguirmos identificar como algo novo que per si tanto a nível macro como ao nível das políticas económicas implique mudanças. Agora, a ousadia é necessária, porque significa tomar riscos, significa começar, significa não estar à espera, significa fazer acontecer. Pensando nisso nesses moldes, tanto a nível micro como a nível macro, é necessário que consigamos ser ousados, iniciarmos, acreditarmos quando ninguém mais acredita e fazer as coisas acontecerem, termos e atitudes que de forma planeada nos guiem para prossecução de objectivos. E quando se lança essa semente, ela pode e deve germinar e o desafio maior depois de iniciar é dar continuidade, em busca da sustentabilidade – o que é certamente mais desafiador.


Em termos práticos, isso significa o quê?

Significa que para as economias são necessários projectos, sejam eles pequenos sejam eles grandes, e que necessitamos de instituições fortes e que as instituições e as organizações dependem de pessoas. São essas pessoas que terão de ser ousadas e que terão de iniciar processos. É aí onde deve morar essa audácia, profundamente dentro. Depois é necessário que todos os outros elementos – que são factores importantes para conseguirmos fazer com que essa semente germine, dê frutos e possa replicar-se em alimentos – funcionem: falo da saúde, da educação, da justiça, recursos existentes, etc.


Falou nas pessoas, e há um dado curioso porque se considera uma humanista. Há lugar para o humanismo na economia, uma ciência, essencialmente, de números?

Agora está a provocar uma economista (risos). Nós pensamos que a economia é só números, mas a economia é uma ciência social, isso significa que não está alheia aquilo que são as necessidades de bem-estar geral da população. Habituamo-nos a falar da economia porque acabou por ser o meio que temos para conseguir suster todas as necessidades nas outras áreas e portanto exige que o Estado tenha a capacidade de criar e gerar rendimento para conseguir levar avante os projectos que existem, mas o fim último continua é o bem-estar da sociedade é o bem-estar do povo.


Por falar em números, a África subsaariana tem estado a crescer acima da média mundial, mas a verdade é que este crescimento não se traduz ainda nessa melhoria da condição de vida das pessoas, como falou anteriormente. Consegue-se explicar este fenómeno?

Nós conseguimos explicar o crescimento através das teorias de dinâmica económica. Na verdade as altas taxas de crescimento significam que estamos num ponto de não desenvolvimento e temos de chegar ao ponto de equilíbrio. Muitas vezes ficamos muito felizes e muito agarrados às taxas de crescimento, acontece que essas taxas são um reflexo do investimento que está a ser feito, seja investimento directo estrangeiro, seja investimento público, ou seja, não reflecte necessariamente um aumento da qualidade de vida, pode também não reflectir mudanças estruturais – e falo, por exemplo, do desemprego, das altas taxas de inflação, da pobreza. Portanto, são problemas estruturais que têm de ser mudados e não é por ter uma alta taxa de crescimento económico que as mudanças estruturais possam a estar acontecer. É necessário que haja um investimento de médio/longo prazo, com estratégias definidas, com a condição obrigatória de não haver corrupção, e não estarmos sempre a correr apenas para apagar fogos no curto prazo. Quando efectivamente mudarmos o nosso pensamento para esse planeamento a médio/longo prazo com acções concretas e consistentes ao longo do tempo, conseguiremos fazer mudanças estruturais e então sim poderemos dar alguma qualidade de vida a sociedade no geral é precisamente isso que chamamos de desenvolvimento, desenvolvimento sustentável. No entanto, é preciso também ver que esta questão da qualidade de vida é subjectiva, porque geralmente é desenhada tendo como comparação os indicadores ocidentais. Mas quando pensamos naquele pescador africano, que vive diariamente perto do mar, vai apanhar o seu peixe, só come o que pesca, descansa, não tem o stress da vida diária, vive com a família, não fica doente, não estará feliz esse pescador? Não terá de facto ele hoje, aquilo com que os ocidentais idealizam no futuro depois de ricos? Daí que seja sempre subjectivo falar em qualidade de vida. Porque encontramos muitas pessoas nas sociedades africanas genuinamente felizes.


Com pouco.

Com pouco. E estão felizes. Entretanto, podemos ter sociedades onde o rendimento per capita é extremamente alto, mas temos stress, doenças, um conjunto de outras coisas que fazem com que aquela pessoa não consiga viver de forma saudável. Tem mais dinheiro, mas não usufrui do dinheiro que tem, porque não tempo para aproveitá-lo, para goza-lo. E então a vida passa e ele não aproveita a vida. Portanto, é necessário desconstruir um pouco algumas noções que temos sobre o que é qualidade de vida, o que é o bem-estar. De qualquer forma, é necessário que as sociedades tenham um mínimo para viverem de forma digna, com acesso à saúde e à educação.


Falou em planos de médio e longo prazo, mas aí já estamos a entrar no campo da política, e geralmente o que acontece é vermos governos a tomarem decisões de curto prazo, imediatistas, porque são essas que dão os votos que os mantêm no poder. Resumindo, melhorar a qualidade de vida das sociedades obriga a que os governos mudem as suas formas de actuar?

É preciso uma revolução, na minha óptica. Não é fácil criar estas mudanças estruturais, mas acredito na capacidade de liderança. Temos de ter líderes que olhem para o povo como o seu objectivo último, como o seu foco, o seu propósito. Se isso não existir e continuarmos a ter o exercício de política como um meio de terem benefícios próprios não vamos conseguir. Precisamos de resgatar estes líderes políticos que têm uma visão de e para o povo. Porque, na verdade, o líder político é escolhido para representar o povo. E estamos a perder isso e é cada vez mais difícil encontrar políticos que só pensam no povo. Se isso existir, e temos de ser nós, os mais jovens, os que têm uma educação mais voltada para a ética, para o civismo, para o empreendedorismo, a dar a volta. E só assim talvez consigamos, nos próximos 20 a 30 anos, recriar esses líderes que nos vão representar condignamente. Se assim for, estas dinâmicas todas, como a corrupção, deixam de existir. Esses valores e esses princípios faltam-nos neste momento, perderam-se. E nesta sociedade de consumo, onde temos necessidades mas não temos valores nem princípios, a corrupção torna-se transversal, vai desde o pequenino até ao grande.


Acha que se este crescimento continuar a não criar emprego, ou a dar acesso à educação a todos, a coesão social e a estabilidade política – o pouco que se tem conseguido no continente – pode voltar para trás?

Essa é uma questão subjectiva. As análises têm de ser feitas com cuidado porque existem outros factores que podem fazer regredir os aspectos que referiu, de forma falaciosa, poderemos dizer que a causa é uma só porque está a acontecer no mesmo momento, mas a ignição que a originou pode ser outro. O que eu penso é que, eventualmente, sim. A verdade é que estamos a ter alguma regressão nos nossos países africanos, por um lado, porque estamos abertos à globalização, por outro, porque os valores e os princípios estão a perder-se. O que acontece? Temos um mundo aberto de informação ocidental e não estamos preparados para essa informação. O resultado é ficarmos totalmente alienados e é aí que pode gerar-se alguma regressão, problemas sociais – e muitos de nós estamos a viver isso in loco – e isso é um desafio. Veja-se o exemplo dos recursos minerais, podíamos usá-los para elevar o nível das populações, mas como não há valores não usufruímos deles porque há uma corrupção desenfreada. Além disso, quando temos um sistema de justiça que falha, as pessoas começam a acreditar que podem fazer tudo sem nunca serem responsabilizados. Quão justa pode ser uma sociedade onde quem tem poder acredita que está impune? É um perigo.


Como se muda essa mentalidade?

A educação é a chave, iniciando com uma educação primária muito forte. Como costumo dizer muitas vezes: precisamos de uma revolução.


Uma revolução em que sentido?

No sentido de fazer coisas diferentes, de ter a noção que o indivíduo é responsável, que não podemos estar à espera que o governo faça as coisas sozinho, que a sociedade civil deve ter atitude, que todos nós fazemos parte do sistema. Porque o mundo é um reflexo das nossas atitudes. Não podemos esperar do mundo aquilo que não fazemos por ele. É preciso acção, atitude, ética, conduta. Se eu faço isso dentro da minha família, dentro do meu grupo de amigos, eles vão multiplicar essa prática. O sistema é difícil de mudar? É. Mas, enquanto indivíduo, posso fazer o que é correcto, é isto que tem de mudar, porque a inércia deixa as pessoas desleixadas, como acreditam que não podem mudar o sistema, não fazem nada, não se responsabilizam pelos seus actos. Se eu mudar, de certeza que deixo essa atitude multiplicar-se e veremos resultados dentro de alguns anos. Mas temos de começar já.


Por falar em recursos, crescimento, formas de fazer políticas. Temos o exemplo do seu país – Moçambique – que há pouco tempo era apontado como uma das nações africanas emergentes, mas afinal assistimos apenas ao regresso da instabilidade política.

Tenho de dizer isto com alguma dor e choque, porque quando descobrimos que tínhamos recursos minerais acendeu-se uma luz no fundo do túnel. Dissemos na altura: hoje somos um país pobre, mas agora temos uma solução, podemos usar estes recursos para desenvolver as áreas necessárias: o processamento na agricultura, investir na educação, melhorar o acesso à saúde, e de repente apanhamos um golpe quando descobrimos uma dívida pública elevadíssima e escondida. É natural que os Estado se endividem, mas também é natural que esse endividamento tenha resultados visíveis e esse é que é o problema, porque a questão que pomos é: onde foi aplicado esse dinheiro? Hoje, com esta dívida, sabemos que a capacidade negocial em relação à exploração dos nossos recursos diminuiu, sabemos que parte dos rendimentos que deveriam servir para investimentos será usada para o pagamento da dívida e isso significa também – e já o estamos a sentir – aumento de impostos, fecho de empresas e, por fim, significa que não iremos sair desse círculo de pobreza onde já estávamos. É desesperante (pausa). Temos de continuar a acreditar que as coisas vão mudar e que somos nós, os jovens, que temos de influenciar o sistema. Sabe, temos de continuar a ser utópicos e sonhadores e continuar a acreditar que vamos ter o país que queremos. E mais do que sonhar, temos que ser os fazedores, praxis e superação. Como disse o Peter Drucker, a única forma de prever esse futuro é criá-lo.


Chegou a escrever que Moçambique precisava de 15 anos e tinha de ser rápido na acção: infra-estruturas, educação, competências técnicas, produção. Ainda acredita que será possível neste espaço de tempo?

Alguém andou a ler os meus artigos (risos). Bem, com isto tudo não posso acreditar que em 15 anos consigamos resolver os nossos problemas. Mas temos de começar já a criar mudanças, a discutir sobre o que é necessário. E há aqui uma coisa que precisamos de frisar, a governação, a sociedade civil, os media, todos os actores que são importantes no processo de desenvolvimento do nosso país têm de ser consistentes com o objectivo global final. E isso não acontece, cada um faz a sua luta sozinho. Como é que um país se desenvolve assim? Primeira lição, temos de nos integrar, temos de decidir o que queremos hoje, amanhã e nos próximos 40 ou 50 anos. Definir esses objectivos estratégicos, ter um plano de acção concreto e implementá-los, considerando, claro, que todas as variáveis estão no lugar: não há corrupção, não há uso do bem público para benefício próprio, não há falta de competências. Se estivermos consolidados nesses objectivos iniciais, poderemos caminhar passo a passo até recuperarmos. Temos de ter a consciência que o que estamos a fazer não é para nós, é para os nossos filhos, para os nossos netos, para os tataranetos, temos de ter esse conceito de bem público e ficarmos felizes por saber isso: que estamos a contribuir para o bem público. O que acontece hoje é o contrário, ninguém faz nada para o bem público.


Falta o pensamento solidário?

Exactamente. E mais do que isso, de participação activa e de colectividade, de união. Na verdade o verdadeiro conceito de nação e pátria.


Eu não quero levar esta conversa para o campo político, mas…

Eu também não (risos).


Acha que há espaço para essa nova geração que tem falado? Ou que, como se disse na Europa há uns anos, é preciso primeiro libertar-nos dos libertadores?

Isso é político sim (risos), mas também é subjectivo. Às vezes o problema não está aí, temos é de libertar o que está dentro, temos que conseguir conhecer-nos e mudar-nos. Eu tenho um conceito, que venho desenvolvendo, muito focado no indivíduo  que é o Succenergy: descobre o sucesso que há em ti, descobre o teu propósito. E acho que como nação é isso que também devemos fazer, descobrir de forma profunda esse propósito e lutar por ele, que é algo que que não fazemos, é como se tivéssemos desistido de lutar, é como se não estivéssemos casados com o nosso propósito, e devíamos estar. E devíamos lutar por ele de uma forma consistente. Todos os actores a lutar por esse objectivo comum. Quando isso acontecer estaremos no bom caminho.