"Enquanto os outros dormem, nós temos de correr"

PorJorge Montezinho,20 abr 2018 9:04

Pedro Lopes, Secretário de Estado Adjunto para a Inovação e Formação Profissional
Pedro Lopes, Secretário de Estado Adjunto para a Inovação e Formação Profissional

​Pedro Lopes, Secretário de Estado Adjunto para a Inovação e Formação Profissional, foi o nome por trás do primeiro TEDx em Cabo Verde e é um dos rostos agora do CVNEXT, um encontro nacional da Ciência, Tecnologia e Inovação, que vai decorrer sexta e sábado na Cidade Velha.

O evento, que se pretende anual, servirá para apoiar e fortalecer o ecossistema de inovação e conectar as pessoas a partir de Cabo Verde e no exterior. Nas palavras do governo, acredita-se na colaboração, na impulsividade e, acima de tudo, no impacto. E pretende-se criar uma comunidade de milhares de pessoas inteligentes, curiosas e criativas. Pedro Lopes falou com o Expresso das Ilhas, para explicar esta visão e como se chega lá.

Começamos pelo CVNEXT, no fundo, quais são os objectivos do evento?

Primeiro que tudo, criar uma plataforma de ideias, onde damos oportunidade aos jovens cabo-verdianos para ouvirem especialistas na área. Nesta troca de ideias será possível gerar ainda mais ideias. Trazemos também a diáspora, que tem uma capacidade muito forte e que por vezes não aproveitamos. Portanto, é tempo de construir um Cabo Verde virado para o futuro, indo buscar conhecimento às nossas gentes fora do país, trazê-las, pô-las a interagir com os jovens, ajudando-os na concretização de ideias extraordinárias. Por outro lado, o CVNEXT também será uma plataforma para dar visibilidade ao que fazemos em Cabo Verde. Espero que esta marca traga para a realidade cabo-verdiana o tema da inovação, para que a possamos discutir, e que não seja só durante uma semana, que seja um objectivo do país.

No comunicado de imprensa é referido que se quer o CVNEXT transformado numa marca que mostra o caminho que se quer seguir. Que, presumo, seja esse da inovação.

Sim. Não podemos pensar de outra forma. Este é o caminho. Não podemos parar a rebentação das ondas com as mãos. Da mesma forma temos de estar preparados para o mundo digital, um mundo onde a automação, a digitalização, são as realidades. Ou seja, temos de mudar a forma como pensamos porque o mundo está a mudar também. Vamos ter novas profissões, vamos ter formas de comunicar diferentes e vamos ter novos negócios e novas formas de partilha de recursos. Este é o momento de Cabo Verde pensar também mais para a frente. Somos um país que precisa de ser inovador para continuar a triunfar. Isso é algo que também queremos com o CVNEXT, pensar um Cabo Verde virado para o futuro. 

Um Cabo Verde que não nega a sua identidade, mas que quer andar ao ritmo do mundo, a um ritmo acelerado.

Serão essas particularidades cabo-verdianas que, aliás, poderão marcar a diferença nas ofertas do país em relação ao resto do mundo. No fundo, pôr as raízes ao serviço da inovação?

Exacto. Com o CVNEXT também queremos isso. Vamos contar a história de Cabo Verde, em tempos uma plataforma para escravos, mas agora é também tempo de contarmos uma nova história e tornarmo-nos numa nova plataforma, desta vez de inovação. Queremos que Cabo Verde seja um espaço onde as ideias podem ser experimentadas, onde podem ser concretizadas e desmistificar a ideia que um país pequenino não pode fazer coisas grandes. É ver a realidade da Estónia, um país com pouco mais de um milhão de habitantes e onde foi criado o Skype.

A Estónia que, recentemente, foi considerado o país mais digitalizado do mundo.

Claro, a dimensão do país não pode ser um obstáculo. Temos de andar mais depressa e com uma visão de futuro. Com esta realidade do CVNEXT queremos trazer isso tudo para a discussão.

Sei que há uma vontade grande de atrair todos os players para essa discussão, governo, empresários, sociedade. Mas estamos a começar de onde?

Primeiro, essa parceria é fundamental. Só assim conseguiremos caminhar em frente. Estamos a começar sabendo qual é o destino onde queremos chegar. Para atingirmos esse objectivo, precisamos de caminhar juntos. A sociedade civil, os jovens, as universidades, os empresários e o governo têm de estar juntos. Falamos do ecossistema de inovação como uma necessidade para Cabo Verde, mas para haver esse ecossistema ainda tem de haver uma sensibilidade das pessoas para esta área. É isso que estamos a criar. Ou seja, mostrar que é preciso estarmos juntos, que é preciso caminharmos a uma velocidade elevada e é preciso chegarmos a este Cabo Verde de futuro. Veja, o digital não exige chuva, não exige transportes, é esta a realidade da inovação e é onde queremos chegar. 

Queremos que os nossos jovens tenham essa capacidade de arriscar, mas que tenham também a capacidade de fazer tanto ou melhor do que se faz lá fora.

É curioso que tenha referido essa necessidade de se criar um espírito, digamos assim, de inovação. O ano passado tivemos o TEDx, onde se discutem ideias, agora o CVNEXT, onde igualmente se discutem ideias. Antes de mais, é preciso criar esse hábito? De discutir ideias?

É. Principalmente nesta área. São assuntos que terão de estar permanentemente na nossa realidade. Chamar os jovens, pô-los a olhar para o mundo e convencê-los que também o conseguem fazer. Dar-lhes essa vontade. Descomplexá-los. Em Cabo Verde falamos muito do capital humano, mas precisamos de concretizar esse capital humano. O mundo precisa de coisas concretas e a inovação é algo muito concreto. Agora, primeiro precisamos de debater. Precisamos de saber qual é o caminho. Como é que juntamos forças e conhecimento de várias áreas. Porque se apontarmos cada um para uma direcção diferente acabamos por não chegar a lado nenhum. E quando falo de convergência é para uma visão de futuro. Visão e acção.

Sabemos que é da discussão de ideias que surgem soluções, mas também é verdade que outros países já o fizeram, já estão um passo à frente. Portanto, é preciso uma certa rapidez de execução também.

É verdade.

E não é um problema apenas cabo-verdiano, é continental. Ainda recentemente, aquando da assinatura do acordo de comércio livre, o presidente do Ruanda, Paul Kagamé, disse que África está a mudar, mas tem de mudar mais depressa.

E tem de mudar mais depressa, sim. Enquanto os outros dormem, nós temos de correr. Enquanto os outros calçam sapatos, nós temos de calçar sapatilhas para chegar lá mais rápido. Digo isto num sentido figurado, mas se é verdade que o resto do mundo tem andado mais depressa do que o nosso continente, também é verdade que grande parte da inovação sai da necessidade. E há ideias disruptivas a sair do continente. África, hoje em dia, é líder em termos de mobile Money, lá está, uma solução que apareceu da necessidade de resolver problemas, e estes, o nosso continente, como sabemos, tem de sobra. É por isso que precisamos da inovação, e de jovens engajados. 

Porque inovação é diferente de invenção, a inovação é o que permite concretizar as nossas ideias e que apareça alguém disponível para pagar por elas – seja um serviço ou um produto. E estamos numa nova era, em que países pequenos podem encurtar distâncias.

Quando falamos de inovação, digitalização, troca de ideias, muitas vezes fica-se com a impressão que a mensagem é direccionada só para uma elite.

Isso precisa de ser desconstruído. Hoje [segunda-feira] visitámos a Bonako [empresa de aplicação de jogos, incubada pela Ihaba] e temos jovens de todos os estratos sociais. Essa mensagem que a inovação é da elite, é exactamente o contrário. O governo tem de criar condições, e estamos a trabalhar nisso, para que a Internet chegue a todos e com velocidade, mas são os jovens que devem querer desconstruir essa realidade. Estamos num mundo novo, é importante reforçar, a juventude, geralmente colocada de parte, tem a oportunidade, sendo inovadora, de mostrar aquilo que faz e aquilo que vale. E cada vez mais vemos uma nova geração, que apesar de estar em Cabo Verde e querer continuar em Cabo Verde, está mais ligada ao mundo. Os jovens têm de ter ferramentas, mas também têm de as saber usar. Não ir à Internet apenas para postar nas redes sociais, mas usá-la para aprender línguas, para procurar mais conhecimento, mesmo linhas de financiamento. Hoje podemos fazer um curso à distância nas melhores universidades do mundo, muitas vezes de forma gratuita. Há a responsabilidade do governo de promover estas ferramentas e tem de haver uma resposta dos jovens.

Jovens, e não só, que ainda enfrentam uma série de constrangimentos, como acesso à banda larga, o preço da Internet, a própria literacia digital. Presumo que sejam os problemas a serem resolvidos no curto prazo.

Sim. Temos de apostar nos STEM [ensino de ciência, tecnologia, engenharia e matemática] e para isso temos um projecto que para Cabo Verde significa muito, mas também para o resto do continente, que é o WebLab. Vamos levar a todas as escolas secundárias do país um contentor de conhecimento, onde através da robótica, através da programação, de uma forma não obrigatória, os jovens podem ir aprender. Temos também o parque tecnológico a ser construído em Santiago, vamos ter também o lançamento da primeira pedra em São Vicente. Temos a plataforma do CVNEXT. Ou seja, o governo quer apoiar os jovens para que estes possam fazer coisas extraordinárias. Acreditamos nos jovens cabo-verdianos, queremos dar-lhes condições e agora cabe-lhes a eles também pegarem nessas ferramentas e construírem o seu próprio futuro.

Em temos realistas, quão longe, ou quão perto, estamos da criação deste Cabo Verde como um centro digital?

Acho que estamos a dar passos importantes. Colocar um timing relativamente a esta questão é difícil, até porque o mundo digital muda de um momento para o outro. Agora, sabemos para onde queremos ir. E a velocidade não será definida apenas pelo governo, será a de todos, governo, empresários, jovens. Todos são peças de um puzzle dinâmico que queremos que se encaixem. Quanto mais rápido isso acontecer, mais rápido chegamos lá. A história do nosso país é essa, nascemos de uma vontade extraordinária, construído pelas pessoas. Agora, é tempo dos jovens também deixarem o seu legado. Os nossos pais e os nossos avós tiveram o seu papel, e continuam a dar o contributo, mas chegou o tempo dos mais novos também mostrarem o que conseguem fazer. A força, eu sei que a têm. A direcção certa? Havemos de lá chegar.

Tem de se aprender a experimentar e a falhar?

O erro só nos aperfeiçoa.

Numa sociedade que não tolera muito bem o erro.

É verdade. Mas temos de responder de forma diferente. Como eu referi em relação ao tamanho do nosso país, também as questões culturais não devem servir de desculpa ou de justificação. Temos de pensar diferente, rasgar um dos lados do quadrado e criar realidades diferentes. Nada nos deve limitar. Se estamos rodeados de água por todos os lados, então vamos olhar para cima, como se diz: o céu é o limite. Queremos que haja essa vontade de construir. De criar um Cabo Verde de futuro. Inovador. O país que as pessoas querem visitar, vir às praias, provar a nossa gastronomia, mas também fazer negócio, comprar as nossas apps e visitar as nossas páginas na Internet. Se falharmos, devemos continuar. Até conseguirmos contar uma história bonita sobre as nossas ilhas, mas também cobrar o bilhete. E sermos sonhadores. O cabo-verdiano, por natureza, é sonhador. Então tenhamos sonhos, mas concretizemo-los. As palavras ajudam-se a pensar de forma diferente, há dias falei em ‘sonheiro’, que é o cabo-verdiano capaz de fazer dinheiro com os seus sonhos. Temos de criar mais ‘sonheiros’ em Cabo Verde.

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Antes do CVNEXT, tivemos o TEDx, um evento similar. Um ano depois, já se pode avaliar que impactos teve o TEDx em Cabo Verde?

Nós medimos isso nas conversas que temos com os jovens, nas aplicações desenvolvidas, na forma como se utiliza a Internet. Tudo isto, seja o TEDx seja o CVNEXT, são plataformas para dar visibilidade ao que se faz na área da inovação. Trazem pensadores que tratam estas temáticas. E a única medição será a maneira como estamos presentes no mundo digital. É isto que queremos. É importante que este tipo de iniciativas aconteça em Cabo Verde com regularidade.

Para que não haja apenas fogachos de entusiasmo?

Não queremos criar sound bite. O objectivo é que o entusiasmo seja convertido em chama que dá aos jovens a vontade de acender o fogo do negócio. É óbvio que não podemos ter impacto sobre todos os jovens de Cabo Verde, mas se tivermos sobre alguns, já será positivo.

Quais são hoje os principais obstáculos que enfrentam as empresas cabo-verdianas do sector tecnológico?

Temos sempre o obstáculo do acesso ao crédito, mas para além dos obstáculos prefiro focar-me no que nos pode levar mais longe. Penso que querer construir e pensar de forma diferente é o mais importante. Temos de sentir que a inovação não pode estar refém de uma visão político/partidária, nem do presente. Para construirmos a inovação hoje, e para podermos marcar a diferença, temos de pensar num horizonte de 15/20 anos. Esse é o grande desafio, pensar a longo prazo. E é um desafio que temos de ultrapassar. Queremos construir o Cabo Verde 2.0, mas precisamos dessa visão de pôr o 2 ao lado do 0. No fundo, construir o futuro no presente. Esse, repito, é o grande desafio, a capacidade de antecipar. 

Não somos adivinhos, nem temos essa pretensão, mas se encontrarmos as soluções para o futuro no presente, teremos sucesso.

Tive várias conversas com empresários ligados à tecnologia em Cabo Verde, e o que eles dizem é que o sector está a crescer, mas não ao nível desejado. Como se pode inverter esse cenário?

Mais uma vez, a velocidade do crescimento terá sempre o ritmo que lhe quisermos dar. Temos de mudar paradigmas, temos de trabalhar mais para encurtar a distância com o mundo. Para crescermos de forma mais rápida precisamos de ir todos na mesma direcção. É óbvio que isso se conseguirá com políticas públicas direccionadas para as necessidades do sector – e queremos construir esse ecossistema amigo das empresas, para que o Estado não seja visto como um obstáculo, mas como um catalisador – mas a responsabilidade tem de ser partilhada.

  • Pedro Lopes | Com uma pós-graduação em Estratégia, Marketing e Comunicação, pela Universidade de Coimbra, Portugal e um Mestrado em Resolução de Conflitos Internacionais, na Universidade de Bradford, Reino Unido, Pedro Lopes tem uma licenciatura, em Relações Internacionais, feita na Universidade de Coimbra, em Portugal.
    Foi vencedor do prémio “Somos Cabo Verde - os melhores do ano”, na categoria inovação e empreendedorismo, pela organização do primeiro TedX Praia.
    Entre 2010 e 2011 foi gestor de projectos e gestor de negócios internacionais, no grupo Catarino, em Coimbra, Portugal. Colaborador na Embaixada de Cabo Verde em Portugal, dava apoio à comunidade cabo-verdiana na área de aconselhamento social, jurídico e financeiro.



Texto originalmente publicado na edição impressa do
Expresso das Ilhas nº 855 de 18 de Abril de 2018.

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Autoria:Jorge Montezinho,20 abr 2018 9:04

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  20 abr 2018 15:25

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