Inpharma. Fim de um ciclo, novos rumos

PorChissana Magalhães,13 out 2018 9:00

Joaquim Coimbra, Paulo Lima, Luís Vasconcelos
Joaquim Coimbra, Paulo Lima, Luís Vasconcelos

​A história começa em 1993, quando herda da Emprofac a valência de produção de medicamentos. Hoje, passados 25 anos, a Inpharma anuncia o fim de um ciclo e uma nova largada com horizontes mais vastos: a anunciada internacionalização vem a par da ampliação da cobertura do mercado nacional.

O nome que todos repetem e fazem questão de ressaltar quando lembram o percurso da Inpharma é o de Judite Lima. É nela que reside a origem deste empreendimento que há um quarto de século iniciou a aposta numa indústria à época praticamente virgem no país.

Farmacêutica no Hospital Agostinho Neto, onde já produzia em pequenas quantidades certos tipos de medicamentos, Judite Lima esteve também ligada à Emprofac, empresa importadora e distribuidora de medicamentos que desde o início deteve 40% do capital da Inpharma.

Esse projecto nasceu de um sonho e da teimosia de uma senhora chamada Judite Lima, farmacêutica primeiro no Hospital Agostinho Neto, onde começou a produzir medi­camentos, e que assumiu depois os destinos da Emprofac e através desta montou o sistema de importação de medicamentos que ainda hoje prevalece em Cabo Verde”, conta Luís Vasconcelos, hoje e desde 2013 PCA da Inpharma.

O mesmo ressalta a insistência da pioneira em como “independentemente de tudo, precisávamos fazer” e a sua visão ao escolher um parceiro estratégico que foi e continua a ser fundamental para o negócio: a Labesfal, na pessoa de Joaquim Coimbra, hoje accionista detentora de 43, 8% da farmacêutica.

“Conheci a Judite Lima em 1979. Na década de 80 passamos a ser fornecedores da Emprofac. Ela tinha essa ambição de iniciar uma indústria farmacêutica em Cabo Verde, e estava determinada a criar um laboratório farmacêutico no país e é assim que nasce a ideia. Em 1990 assinámos o protocolo entre a Labesfal, Emprofac e Ministério da Indústria, na altura. O protocolo já tinha por objectivo criar o laboratório e assim, em Janeiro de 1991, é constituída a parceria público-privada que viria depois a dar origem à Inpharma.

Coimbra, então jovem empreendedor, tinha vivido em Angola e Moçambique, países que em termos de população ofereciam um mercado mais amplo. “Mas foi aqui, um país pequeno, que vi a ambição de uma mulher corporizada num povo com muita vontade de afirmação na sua pós independência. Encontrei aqui o ambiente necessário para formalizar a vontade de contribuir um pouco para essa afirmação”, rememora o investidor.

Um dos aspectos desta parceria de 25 anos ressaltado por Luis Vasconcelos prende-se com o know how que a criação da Inpharma trouxe para o país. “Um projecto cujo know how é efectivamente determinante. Know how trazido e, neste momento, felizmente também dominado pela parte cabo-verdiana. E o que foi preciso foi conseguir depois foram as outras moléculas, como a molécula financeira”.

Paulo Lima, que em 2009 substituiu a mãe no cargo de PCA e hoje pertence ao Conselho Consultivo, reforça esta ideia do saber fazer adquirido pela equipa nacional como resultado da parceria.

“Parceria exemplar, trouxe know-how de fora para dentro e conseguiu-se formar uma equipa totalmente cabo-verdiana. Uma verdadeira transferência de conhecimentos do parceiro para Cabo Verde, sendo uma empresa de facto com uma força laboral completamente cabo-verdiana e cada vez mais especialista. Antes, o corpo laboral era essencialmente de farmacêuticos. Hoje temos economistas, gestores e gente de outras áreas”, sublinha.

Do histórico da Inpharma os três representantes dos accionistas apontam ainda a contribuição e apoio prestado à primeira universidade do país, a Jean Piaget, na criação do curso de licenciatura em Farmácia.

“Um contributo indirecto mas que deve ser realçado”.

Com a colocação da primeira pedra para edificação de uma nova unidade fabril, no passado dia 05, Luís Vasconcelos fala num ciclo que termina. E, na conversa que se segue, aborda o novo ciclo no qual ambicionam alavancar a produção de 3 para 10 milhões de embalagens e cobrir assim 50% do consumo de medicamentos no país.

No top 3 em Controle de Qualidade


A nova fábrica surge com a internacionalização como meta e com os países da CPLP como potencial mercado. Quando prevêem iniciar a exportação para este mercado e em que moldes?

A nova fábrica irá dar suporte à nossa ambição de aumentar o nosso grau de cobertura do mercado nacional, passando a representar 50% do valor total de medicamentos consumidos em Cabo Verde, e em simultâneo por consolidar a nossa estratégia de internacionalização criando relações comerciais duradouras com países da CPLP bem como desta região africana. A exportação terá por base um estudo prévio de cada um dos mercados, identificando as oportunidades, escolhendo os clientes a abordar e fixando objectivos claros, criando sinergias com os operadores desses países, traduzindo-se num relação win-win. São essas relações que são sustentáculo de um negócio a longo prazo. A nossa diferenciação será pela qualidade e pela assistência técnica que disponibilizaremos ao longo de toda a cadeia de distribuição.

Este é o único formato que essa internacionalização terá? Não se prevê a construção de unidades fabris fora de Cabo Verde?

O epicentro das competências da INPHARMA, foi, é, e sempre será Cabo Verde. Ou seja, todos os nossos investimentos em capacidade industrial serão sempre no território nacional e com know-how nacional. A base industrial estará sempre em Cabo Verde; quando muito poderemos vir a ter empresas de distribuição em outros países, à semelhança do que aconteceu em São Tomé e Príncipe com a EMPHARMA STP.

A nova fábrica foi um investimento de seis milhões de euros. De quanto será efectivamente o aumento da produção? Falou em 50% dos medicamentos consumidos a nível nacional.

A nova unidade fabril irá permitir responder às novas exigências do sector, encarar o futuro com muita confiança e continuar a ser um factor de desenvolvimento económico e social do país. Para além de ir alargar a produção de novas moléculas e consequentemente novos medicamentos, iremos aumentar a nossa capacidade de produção de 3 para 10 milhões de caixas de embalagens nas diferentes formas farmacêuticas. Este significativo aumento sustentará o crescimento do peso da INPHARMA nos medicamentos consumidos no território nacional passando dos actuais 35% para mais de metade do mercado nos próximos 5 anos. A capacidade excedente da unidade fabril será para servir a exportação.

Produzem actualmente 85 tipos de medicamentos (sólidos, líquidos e pastosos). Quais serão as novidades nos próximos anos? Alguma possibilidade de se iniciar a produção de vacinas?

Iremos introduzir 6 novos medicamentos em 2019, aumentando o portefólio para 91 medicamentos. As vacinas não farão parte do portefólio previsto devido à massa crítica necessária para esses produtos de produção massiva. Mas, não fechamos as portas ao futuro nesta área.

Para além de produção de medicamentos dedicam-se às consultorias e análises de qualidade. Esta vertente também é para incrementar?

O nosso Laboratório de Controle de Qualidade, que tem a certificação ISO 17025 (a mais relevante a nível internacional para esta área), foi identificado como um dos 3 melhores desta região, sendo responsável pelo muito importante controlo de qualidade do stock de Anti-retrovirais do Fundo Global da Organização Mundial da Saúde em muitos Países desta região. Fomos escolhidos em concurso internacional concorrendo com laboratórios internacionais, o que fala por si. Para além disso, o INLAB dá suporte na implementação da Segurança Alimentar (área fundamental num país de grande vocação turística), certifica produtos e faz o controle das águas, desempenhando um papel fundamental para a certificação da qualidade nas águas das piscinas ligadas ao turismo. Para além da Farmacotecnia, estamos igualmente qualificados para ensaios físicos, físico-químicos, microbiológicos, estabilidade, esterilidade, biodisponibilidade in vitro, metais pesados, etc. Somos, sem dúvida, o laboratório de referência no país.

Disse-me antes que a empresa tem cerca de 60 trabalhadores. É uma das mais sólidas do mercado. Seria de esperar que criasse mais empregos.

A dimensão da empresa está adequada à dimensão do mercado nacional e em linha com o nível de mecanização padrão da indústria farmacêutica. Deve-se olhar para a quantidade de emprego qualificado que a INPHARMA gera numa indústria de ponta e o impacto que a mesma tem em termos de criação de competências nacionais. Não se pode comparar com a indústria ligeira, essa sim geradora de mão-de-obra intensiva. O emprego qualificado gerado pela INPHARMA traduz-se imediatamente em termos de massa salarial média muito superior aos da indústria ligeira, sendo a nossa capacidade técnica reconhecida pela OOAS (Organização Regional da OMS) com um centro de excelência técnica e profissional desta região. Já que toca no aspecto da solidez financeira aproveitaria para informar que há cinco anos, quando assumimos este Conselho de Administração, tivemos de encarrar a difícil situação de estarmos cerca de 17 anos sem uma revisão dos preços dos medicamentos que são fixados pelo Regulador. Foram mais de um década e meia de aumento dos custos das matérias-primas, de subida dos custos de produção com especial enfoque no custo da energia (que ao longo desse período mais do que quadruplicou). Essa situação obrigou-nos a uma gestão financeira rigorosa e a uma mudança de estratégia no que toca à exportação, apostando em mercados previamente estudados e estabelecendo os mecanismos de segurança nos processos de pagamento das vendas para esses países, aprendendo com os erros anteriores. A fixação dos novos preços em 2016 permitiu recolocar os custos de exploração no nível adequado podendo-se assim projectar, com segurança, o investimento na nova unidade fabril.

Cerca de 125 mil cabo-verdianos no país (1/4, portanto) admitem adquirir medicamentos no mercado ilegal. Isso é algo que o surpreende?

Mais do que nos surpreender, preocupa-nos pois é a saúde dos cabo-verdianos que está em causa. Com agravante de muitos desses supostos medicamentos serem falsificados, muitas vezes placebos sem verdadeira eficácia medicamentosa. Há situações graves, como por exemplo os associados a fármacos do mercado ilegal indevidamente utilizados para as interrupções de gravidez, que devem merecer uma acção vigorosa pois estão-se a pôr vidas em risco. As últimas apreensões realizadas pelos serviços das alfândegas dão sinais de reforço da vigilância desta preocupante situação, sendo necessário agora uma acção inspectiva no terreno de forma a travar esse fenómeno que põe em causa a saúde dos cabo-verdianos.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 880 de 10 de Outubro de 2018.

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Autoria:Chissana Magalhães,13 out 2018 9:00

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  13 out 2018 18:29

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