Negócios e revolução digital, o caminho da inovação

PorJorge Montezinho,22 set 2019 11:06

Produtos específicos para um mercado global, mas que ao mesmo tempo serve de tubo de ensaio para soluções globais, esta é a realidade do sector dos seguros em Cabo Verde. A Garantia, companhia que está prestes a cumprir o 28º aniversário (no próximo dia 1 de Novembro) explicou ao Expresso das Ilhas como a tecnologia e o mundo digital vieram revolucionar o sector.

“Inovar com base em tecnologia para que haja mais tempo para as pessoas, inovar nos produtos e serviços para que a vida não pare, ante os imprevistos”. A frase é repetida várias vezes durante a conversa com o Expresso das Ilhas por Victor Andrade, Director de Marketing da Garantia. Hoje em dia, qualquer empresa, dos mais variados sectores, recorre ao mundo digital para vender serviços, contactar os clientes, ou promover os seus produtos.

É o caso do website da seguradora. Alvo de frequentes atualizações, o garantia.cv mais do que um canal de promoção dos produtos e serviços apresenta-se como um canal de contacto e facilitação da vida aos clientes. Entre as valências, um serviço raro, mesmo a nível mundial, que permite efetuar pagamentos dos seus seguros e obter os comprovativos de pagamento na hora, que desde a implementação tem garantido um nível de cobrança na ordem dos 13.000 contos.

“Normalmente”, explica Victor Andrade, “as empresas de seguros desenvolvem esse tipo de serviços nas áreas reservadas. Ou seja, exigem o cadastro do cliente. Quando implementámos esse serviço não havia, como hoje há, obrigatoriedade do NIF, por exemplo, então implementámos esse serviço devido às características do próprio mercado, como as dificuldades em contactar as pessoas. Assim demos esta hipótese de todos os clientes, sem exigir cadastro prévio. No fundo, foram as condicionantes do mercado que nos fizeram avançar, e em cooperação com a SISP conseguimos completar este projecto”. 

Com a evolução do mercado, o próprio serviço vai agora desenvolver-se para um novo patamar: uma área reservada para clientes. “Com esse novo serviço, um cliente, como no internet banking, poderá aceder a todas as suas apólices, como consegue com o Garantia Mobile, mas em vez de ser com um aplicativo pode ser feito em qualquer dispositivo. Vai ser muito importante, por exemplo, para os emigrantes. Hoje, a tendência é deixar de usar as procurações para gerir os bens à distância, esta área reservada vem colmatar algum vazio, porque um emigrante já não precisará de ter aqui ninguém a gerir os seus seguros, poderá fazê-lo à distância. E quem diz os emigrantes, diz os residentes”, sublinha o Director de Marketing da Garantia. 

O próprio aplicativo – Garantia Mobile – tem uma história curiosa por trás. Começou em 2014, depois de três alunos do curso de informática terem batido à porta da empresa para propor uma oportunidade de trabalho com a seguradora. Com a equipa da Garantia, criaram o aplicativo móvel. “Começaram connosco e hoje têm a sua própria empresa, que já ganhou prémios. É um orgulho tê-los tido aqui a montar a primeira versão do Garantia Mobile, que também tem funcionalidades que não existem noutras paragens, como a participação de sinistros. Hoje, só para diferenciar, já temos uma segunda versão do aplicativo, com um software mais avançado, feito pela equipa interna da Garantia, com a equipa da Fidelidade, e também é um protótipo que depois será alargado para outras paragens porque tem facilidades de pagamento e uma série de outras vantagens como participação de sinistros, pagamento de apólices, pagamento de recibos, mensagens, etc”, refere Victor Andrade. 

Esta aplicação móvel da Garantia acabou por influenciar a tecnologia usada pela Fidelidade, a seguradora portuguesa – entretanto adquirida pela chinesa Fosun – que é detentora de 55,895% das acções da empresa cabo-verdiana. “O empreendedorismo po­de acontecer em qualquer lado e temos de acreditar”, sublinha Victor Andrade. “A Garantia, ao entrar no Grupo Fidelidade, é vista como uma empresa modelo, termos um mercado pequeno permite-nos apostar na inovação sem grandes riscos e temos feito essa aposta que serve como exemplo lá fora. Mesmo em termos de produtos, a ideia é ensaiar alguns produtos no nosso mercado. Cabo Verde tem características que favorecem a inovação; mercado pequeno, com uma alta taxa de penetração de internet, com pessoal qualificado e uma população com interesse no uso da tecnologia”. Mas a inovação não significa apenas inovação tecnológica, tem a ver também com os produtos que são colocados no mercado. Desafiado pelo Expresso das Ilhas, sobre que produtos têm potencial de provocar rupturas, o Director de Marketing da Garantia destacou o AUTO+, o seguro de vida Vida Proteção, o Plano Poupança Reforma, o seguro de saúde e a assistência em viagem na Europa 365 dias. 

“Têm sido exigências do mercado e temos procurado dar respostas. Não temos uma postura de vender o que temos, mas de colocar à disposição o que o mercado precisa. A nossa essência é proteger e se há uma necessidade de proteção procuramos ir lá. O AUTO+ surge porque o seguro normal só cobre danos a terceiros, a pessoa em si ficaria desprotegida, por isso avançamos para este produto em que a pessoa tem a cobertura da viatura própria, tem carro de substituição, ou cobertura de ocupantes. O Vida Proteção Garantia é porque os seguros de vida são tradicionalmente caros e o prémio varia à medida que as pessoas envelhecem, não sendo de fácil contratação para a população de baixa renda, numa óptica de proteção social, criámos este produto que tem um capital fixo de mil contos e uma pessoa paga um premio mensal de cerca de 400 escudos, um valor irrisório e que é importante principalmente para quem tem filhos, porque vimos muitas situações em que a pessoa falece e a família fica completamente desprotegida. O PPR é o que chamamos de produto campeão, é o único produto financeiro em que se consegue a partir de mil escudos começar a fazer um pé-de-meia com taxas de 4 por cento”, explica o director de Marketing da Garantia.

“Depois temos o seguro de saúde, que é um complemento à segurança social. Normalmente, dizem que é um seguro caro, mas o nosso seguro é mais direcionado para a possibilidade de haver uma doença grave. Tendo seguro de saúde não precisa de esperar pela junta médica, no plano mais baixo cobrimos 2.750 contos para o internamento hospitalar, no plano extra é 5.500 contos e no VIP é 27.500 contos para gastar num ano, por isso é um produto que garante muitos tratamentos e depois põe à disposição a nossa rede médica em Cabo Verde e a rede Multicare em Portugal. O seguro 365 dias para a Europa, surgiu porque cada vez mais Cabo Verde envia estudantes para a Europa e foi um produto pensado para eles, porque enviamos os alunos para a Europa e depois não têm qualquer proteção, além dos sistemas de saúde de cada país. No ano passado criámos um seguro 120 dias, mas não era suficiente, dava para o período escolar, mas muitas vezes as pessoas ficam lá o ano todo. Então pensámos neste produto que também é raro a nível mundial, porque uma deslocação não se faz normalmente por 365 dias. Dá cobertura também aos trabalhadores sazonais e às pessoas que pretendem acompanhar doentes”, refere Victor Andrade. 

Cada produto lançado por uma empresa seguradora obedece a certos trâmites, por exigências legais não são artigos que se lancem e que podem ser retirados após um período experimental, até porque, no mínimo, cada contrato tem a duração de um ano. E envolve uma série de áreas, normalmente começa pelo marketing, passa pelo jurídico, pela área de sinistros, comercial, área informática, faz-se documentação de suporte, dá-se formação e só depois chega ao mercado. 

“Depende do tipo de produto”, sublinha Victor Andrade, “por exemplo, de Abril a Julho estivemos à volta do novo seguro automóvel e tudo começou com uma mudança na legislação. Ou seja, partimos da legislação para configurar um produto e pô-lo no mercado no tempo legalmente exigido pela lei. O seguro de saúde já foi uma iniciativa nossa, começámos a pensar o produto, desenvolvemos e submetemos o conceito para a apreciação do BCV, que é o regulador do sector, e foi implementado”. 

Regulação e inovação nem sempre andam lado a lado. É conhecida a estratégia norte-americana para as empresas tecnológicas, por exemplo, primeiro inovem, depois regula-se. Num sector como o dos seguros, não é assim tão fácil. 

“Nos últimos tempos, tem havido abertura do regulador, já foi mais difícil”, diz Victor Andrade. “Às vezes queremos inovar, mas encontramos barreiras burocráticas e temos de aguardar. Mesmo quando queremos liberalizar os seguros no digital ainda temos uma serie de barreiras que temos de enfrentar, mas como disse, nos últimos tempos tem havido uma abertura do regulador”.

“Ao nível da inovação, acredito que estamos a cons­tituir as bases para o mercado ideal. Durante os 28 anos da companhia, as próprias seguradoras não tinham o potencial de desenvolvimento tecnológico e hoje estamos a desbravar o caminho. Não diria que a legislação está obsoleta, está adequada, precisa apenas de um ou outro ajuste”, conclui o Director de Marketing da Garantia.

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Autoria:Jorge Montezinho,22 set 2019 11:06

Editado porJorge Montezinho  em  22 set 2019 14:03

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