Pedreiros, ferreiros, carpinteiros, canalizadores, condutores, manobradores e encarregados estão entre os profissionais que têm deixado o país, sobretudo com destino a Portugal, à procura de melhores salários e condições de vida.
O engenheiro Hernano Santos acompanha de perto esta realidade e assegurou à Inforpress que, nos últimos dois anos, o sector perdeu uma parte significativa da sua mão de obra.
“Temos tido muitas dificuldades em arranjar pessoas para as frentes de obra”, afirmou, ao considerar que o problema já assumiu uma dimensão nacional.
A consequência mais imediata é visível no ritmo das construções, com menos trabalhadores disponíveis e as empresas com dificuldade em formar equipas e cumprir os prazos previstos.
Mas a escassez de profissionais está também a mexer com os custos.
Para conseguir manter trabalhadores no país, as empresas estão a aumentar os salários, numa tentativa de competir com as oportunidades oferecidas no exterior.
Segundo Hernano Santos, o preço da mão de obra aumentou cerca de 15 por cento (%) nos últimos dois anos, contribuindo para o encarecimento das obras.
“Quando há escassez, quando há muita procura, a tendência é o preço aumentar”, diagnosticou.
O engenheiro entende que os efeitos da emigração não ficam pela construção civil, porque quando um trabalhador qualificado deixa Cabo Verde, perde-se também capacidade produtiva e uma parte da contribuição desse profissional para a economia nacional.
“Perdemos gente, perdemos mercado, perdemos força produtiva. O país é que perde, não são só as empresas”, sustentou.
A questão, aconselhou, exige políticas públicas capazes de tornar o mercado nacional mais atractivo.
Entre as respostas apontou uma aposta maior na formação profissional, sobretudo em áreas específicas da construção civil.
Mais do que formar técnicos de construção, entende que Cabo Verde precisa de formar directamente pedreiros, carpinteiros, electricistas e outros profissionais procurados pelas empresas.
A formação no próprio local de trabalho, com apoio das entidades públicas, surge também como uma alternativa para aumentar rapidamente o número de trabalhadores disponíveis.
Enquanto uns partem, quem fica procura formas de preencher os lugares deixados vagos.
Como é o caso de Rodrigo Martins, que tem deparado com o problema, tanto como vereador da Câmara Municipal de São Vicente, mas também como alguém que tem procurado profissionais para obras pessoais.
Conforme a mesma fonte, já tentou encontrar trabalhadores para responder a necessidades concretas e não conseguiu.
A situação, afirmou, não é exclusiva das pequenas empresas, mesmo empreiteiros de maior dimensão encontram dificuldades em constituir equipas capazes de garantir o cumprimento dos prazos.
Na execução de obras municipais, assegurou, algumas empresas contratadas estão a recorrer a trabalhadores estrangeiros, nomeadamente provenientes do Senegal, para compensar a falta de mão de obra nacional.
A presença de trabalhadores da costa africana na construção civil, entretanto, não é nova em Cabo Verde, verificando-se há vários anos noutras ilhas, mas agora está a ganhar maior visibilidade em São Vicente, devido à emigração massiva.
Rodrigo Martins alertou que a falta de trabalhadores já se sente em vários sectores e a explicação, na sua leitura, está em parte na procura por melhores condições de vida.
A seu ver, Portugal e Espanha, por exemplo, continuam a apresentar oportunidades para profissionais de várias áreas, enquanto em Cabo Verde uma parcela significativa dos trabalhadores continua a receber salários baixos.
“Não se consegue reter um funcionário com um salário mínimo”, afirmou.
Para o autarca, a questão coloca um desafio ao país para criar condições em que ficar seja uma opção tão atractiva quanto partir.
Edilson Silva, trabalhador da construção civil, conhece esse dilema.
Reconhece que emigrar pode representar uma oportunidade para quem procura melhorar a vida, mas também sente, no dia a dia, os efeitos da saída de profissionais experientes.
“Estamos a perder pessoas que estão com mais formação, com mais tempo de trabalho aqui”, lamentou.
Contudo, o apontador admitiu que, perante uma boa oportunidade no estrangeiro, ele próprio poderia considerar partir, embora com olhos postos numa outra área, a música.
Para quem parte, contudo, a emigração não é necessariamente encarada como uma perda, mas como uma oportunidade. Quem o diz é António Jorge Mota, canalizador, que deixou São Vicente há cerca de cinco anos e vive actualmente em Portugal.
Quando decidiu partir, trabalho não lhe faltava em Cabo Verde, mas procurava por outra coisa, melhores condições de vida e um futuro diferente para os filhos.
“Procura de novas aventuras, um futuro melhor para os meus filhos”, resumiu.
Em Portugal, garante que a sua profissão é melhor valorizada e além do salário fixo, realiza trabalhos extras que, por vezes, chegam a ultrapassar o vencimento base.
A diferença, garantiu, é significativa.
“É muito mais do que ganhava aqui em Cabo Verde. De longe”, afiançou.
António Mota confirmou que quer regressar um dia, mas não para simplesmente retomar a vida profissional que deixou, mas sim a intenção é voltar depois de reunir condições para criar a própria empresa.
Em termos de políticas governamentais, deixa a dica de que uma maior valorização salarial poderia fazer diferença na decisão de muitos jovens.
“Se aumentarem o salário, dá mais condições para os jovens. Nem todos iam sair daqui”, acredita.
Uma medida que parece estar a ser ponderada pelo actual Governo, uma vez que o ministro revelou recentemente à imprensa que se pretende realizar, em parceria com o Instituto Nacional de Estatística (INE), um estudo para determinar o défice quantitativo e qualitativo de mão de obra no sector da construção civil.
Para o ministro Carlos Tavares, conhecer as necessidades concretas do sector permitirá ao país formar os profissionais certos, no momento certo, e preparar melhor os recursos humanos necessários para acompanhar o desenvolvimento das infraestruturas e da habitação em Cabo Verde.
Mas, por enquanto mantém-se uma questão mais profunda, como construir o futuro de Cabo Verde quando parte dos trabalhadores necessários para o construir decide fazê-lo fora do país?
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