É uma das tendências actuais da rede: desenhar personagens clássicos da infância nas piores situações adultas.
Nas últimas décadas, temos testemunhado a implosão do halo de glamour e inacessibilidade que rodeava as monarquias ocidentais. Vimos o marido da princesa Stephanie do Mónaco a divertir-se com uma modelo numa piscina, o rei Gustavo da Suécia a reconhecer que participou em orgias ou o príncipe Harry, de Inglaterra, em fotos vestido de nazi ou simplesmente sem roupa.
Se os aristocratas de carne e osso demonstraram que as suas vidas podem ser tão vis como a de qualquer pessoa, porque seria diferente no caso dos nobres de ficção?
A internet tem sido inundada nos últimos anos por montagens que desmistificam os príncipes e as princesas da Disney: a Cinderela com um olho negro, como se fosse uma vítima de violência doméstica; Ariel a ser atacada sexualmente pelo seu pai; Bella imitando Miley Cyrus montada numa bola de demolição; a Branca da Neve completamente bêbeda ou o príncipe Aladdin envolvido num amor homossexual com Hércules.
Houve mesmo quem perdeu tempo a desenhar os príncipes da Disney a posar nus numa selfie. A lista de reinterpretações e perversões destas icónicas personagens infantis é maior do que se imagina e os internautas parece que não se cansam dela. Publicações como a Cosmopolitan ou a Jezebel têm links específicos para agrupar as informações e as montagens dedicadas à realeza Disney, que se converteu num género em si mesmo.
A pergunta que se coloca é: como é possível que continuem a despertar interesse e a ser consideradas provocações? “Ao termos crescido com o idílico mundo da Disney como objectivo a alcançar, é normal que a maioria das pessoas tentem desmistificar essa meta impossível de alcançar e, em certa maneira, vingar-se dessas personagens trazendo-as para a dura realidade”, reflecte Andrés Borque no El País. este DJ e agitador cultural, que é também especialista na iconografia Disney, organiza festas temáticas e chegou a compor canções sobre os contos originais em que se inspiram os filmes da multinacional.
É claro que é tentador, em termos narrativos, submeter esse mundo ideal a desgraças ou situações que fariam morrer de enfarto cardíaco os passarinhos azuis que ajudavam a Branca de Neve a limpar a cabana dos sete anões. Há pessoas para quem a Cinderela e restante comandita representam a encarnação de uma visão misógina e heteropatriarcal da sociedade. Quando as fazem transgredir os supostos valores de pureza e submissão que as definem estão, praticamente, a cometer um acto de reivindicação.
Por outro lado, esta desconstrução continua a funcionar porque os filmes Disney continuam a estar muito entranhados na cultura popular, mesmo que sejam considerados retrógrados e desfasados dos modelos que representam. “Estas personagens continuam a marcar a sociedade décadas de pois da sua criação porque ainda há meninos e meninas que querem ser o centro da atenção – o rei e a rainha da casa – e detestam quando os irmãos mais novos chegam para lhes arrebatar o trono. Qual é a menina que não gosta de usar uma coroa ou um vestido vaporoso de princesa?
Este é o primeiro contacto com a notoriedade que temos em pequenos e é normal que os consideremos ícones durante 365 dias por anos e não apenas no Carnaval”, argumenta Borque.
As receitas continuam a dar razão a este tipo de fundamento. O merchandising relacionado com os filmes de princesas Disney gerou, só nos Estados Unidos da América, vendas no valor de 1,3 mil milhões de euros no ano passado. Uma quantia superior à arrecadada pelas franquias Star Wars (cerca de 1,2 mil milhões de euros), segundo a revista Time.
Frozen, protagonizado pelas princesas Anna e Elsa foi o último grande sucesso da Disney em matéria de realeza. No entanto, estas irmãs já surgem com personalidades mais resolutas e seguras de si mesmas do que a sempre indefesa Cinderela. “Os tempos mudam e se a Disney não acompanhasse estas alterações estaria a cometer suicídio. Não consigo imaginar que as mães actuais aborreçam as suas filhas com histórias sem um fundo de superação”, sublinha Borque.
Nos EUA, Frozen lucrou quase mil milhões de euros só de bilheteira e a banda sonora foi, durante treze semanas, o disco mais vendido do país. Ou seja, pelo svistos a Branca de Neve tem herdeiras ao trono e com elas torna-se real a possibilidade de perpetuar esta moda das montagens com personagens Disney. Talvez dentro de uns 15 anos possamos ver imagens de Anna e Elsa a fazer sexting… E continuará a haver gente que vai sentir-se perturbada.

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