Entre o vício e a necessidade de sobreviver na era tecnológica

PorAdilson Pereira,22 abr 2018 8:05

​Por detrás da necessidade de estar conectado à Internet alimenta-se a dependência dos dispositivos móveis, com consequências negativas não só para a saúde, mas também para os relacionamentos sociais, profissionais e interpessoais.

Poucos admitem a dependência, até acham normal passarem grande parte do tempo no espaço virtual, publicando selfies, comentários, memes, em troca de pequenos prazeres psicológicos com os likes, views, ‘corações’, nas redes sociais. Não se consideram viciados, mas dizem-se incapazes de estar sem os aparelhos ligados à rede.

Ivanisa Furtado, formada em Ciências da Comunicação, admite que já não consegue ficar sem o telemóvel. Para onde quer que vai leva-o consigo. É o item indispensável da sua bolsa. “Sou uma pessoa viciada, viciada e viciada”, enfatiza Furtado. A dependência tem-lhe valido muitas críticas do parceiro. “Uso [o telemóvel] muitas vezes quando estamos juntos e ele reclama por causa disso”, diz.

Nomofobia define-se como o medo mórbido de ficar sem um aparelho de comunicação móvel conectado à rede. Sabe-se que se tem esta dependência perante a impossibilidade de se comunicar através de um telemóvel ou qualquer outro dispositivo conectado à Internet, ou quando estes falham por algum motivo. O conceito é novo e surgiu da aglutinação dos diminutivos No-Mo, (ou No-Mobile – sem telemóvel) com a palavra fobia.

João Almeida (nome fictício), 22 anos, teve seu primeiro telemóvel, oferta do pai, na adolescência. Hoje, possui dois telemóveis, um tablet, um computador portátil e um outro desktop e não desperdiça o seu tempo fora da Internet. Preenche todos os requisitos de nomofóbico. Longe dos aparelhos, Almeida fica aborrecido e mal-humorado. “Nada me satisfaz”, conta. Não sabe precisar quantas horas por dia passa a mexer nos dispositivos, mas já acorda com o telemóvel na mão “para ver notificações das redes sociais”. “Aproveito também para matar algum tempo a mais na cama e navegar na Internet”, diz.

O telemóvel anda-lhe sempre colado à mão durante o dia, em qualquer actividade. Entretanto, o uso intensifica-se a partir das 18horas. “A partir desta hora é que há mais adesão de amigos nos chats e nas redes sociais”, justifica. Acrescenta: “Às vezes, mesmo de madrugada e com muito sono, não quero dormir para não perder esse tempo precioso.”

Normalmente, Almeida larga os aparelhos só depois das três horas da madrugada, mas para satisfazer o vício, várias vezes já passou a noite em claro. “Nas redes sociais procuro manter contacto com pessoas e amigos que estão fora do país”, diz Almeida. Jogos virtuais e músicas também o mantêm preso ao ecrã.

Nem a presença dos amigos, da namorada ou dos pais e familiares o convence a desligar-se dos dispositivos móveis. “Prefiro falar com pessoas nas redes sociais do que pessoalmente”, confessa. E faz saber que esta dependência não lhe prejudicou a saúde e que nas redes sociais ou jogando sente-se mais feliz.

As críticas vêm dos pais e familiares. “Os meus amigos e a minha namorada já se acostumaram e já nem ligam”, diz. Mas até ao momento em que os ignora completamente e se isola no mundo virtual.

Por uma única vez, Almeida tentou passar um dia sem telemóvel. “Não deu certo, saí de casa para que não caísse em tentação e fui ver amigos, mas estava a sentir-me incompleto”, conta. A tentativa não só fracassou como redundou em aborrecimentos e brigas com os amigos.

Abdulay Fonseca, gestor informático, considera-se “um pouco nomofóbico”. Sem eufemismo, foi categórico em afirmar que não consegue ficar sem estes aparelhos, pois não gosta da experiência de estar desligado do mundo virtual.

“É simplesmente desconfortável. Não consigo saber o que fazer sem os dispositivos móveis”, afirma Fonseca, acrescentando que muitas vezes não resiste em usá-los quando está na companhia dos amigos.

Marlice Correia, dona de casa, adoptou os dispositivos móveis para a sua vida, principalmente o telemóvel, para a entreter. Mas o telemóvel adquiriu, hoje, outra importância no seu dia-a-dia. “Sem ele sinto-me parada e longe de tudo”, revela.

Para ela não se trata de um vício. “É uma necessidade”, prefere apelidar assim a relação que tem com os aparelhos móveis de comunicação. Uma necessidade da qual ela já não consegue libertar-se, conforme adiantou.

A fronteira do vício e da necessidade esbate-se também para a finalista do curso de jornalismo, Mila Borges. Descarta a possibilidade de ser viciada em dispositivos móveis. Razões mais profissionais, nunca o vício, impedem-na de se separar deles.

“Preciso estar sempre conectada ao mundo. Sou estudante de jornalismo. Mas não é nenhum desespero se não poder ter”, afirma a futura jornalista, sem esconder que se sente desconfortável quando não tem acesso aos dispositivos.


Técnicos acreditam que já existem nomofóbicos no país

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O fenómeno é recente mas já é um problema de saúde pública na Coreia do Sul, Japão e China, onde já existem centros de reabilitação. Em Cabo Verde, acredita-se que a dependência já é uma realidade, mas ainda faltam dados oficiais e uma atenção das autoridades para a nomofobia. Técnicos aconselham agir enquanto é tempo.

“Acredito que já existem pessoas com esta dependência”, diz Samuel Santos, professor na Escola Secundária Manuel Lopes, cidade da Praia. Além de professor, é formado em Ciências da Educação, vertente Tecnologia da Educação, e acumula experiência em trabalhos nas comunidades e com grupos de jovens.

O que falta é um diagnóstico que possibilite relacionar os casos de insucesso escolar com essa dependência. “Com base na nossa observação do dia-a-dia, desconfiamos que sim”, frisa Santos tomando como exemplo a comunidade educativa do liceu onde lecciona.

Para o informático Luís Furtado, Cabo Verde tem terreno propício para brotar casos de nomofobia. “Se ainda não houver essa dependência em Cabo verde, devido às tendências, pode-se dizer que estamos a caminhar nessa direcção”, entende Luís Furtado.

O próprio informático já identificou amigas que demonstram sintomas da nomofobia. “Ficam preocupadas por estarem desconectadas da Internet, sem bateria no telemóvel ou por terem de ficar incontactáveis por um período de tempo, sentindo assim efeitos como ansiedade, stress”, frisa.

O relacionamento interpessoal é o mais prejudicado pela nomofobia. “A própria pessoa não tem estado a dar conta dessa perda do relacionamento interpessoal”, diz Santos, salientando que muitos jovens e adolescentes nunca experimentaram um relacionamento interpessoal. São os nativos digitais.

E esta lacuna no relacionamento interpessoal começa a formar-se dentro da própria família, com a ausência dos pais por causa do trabalho. A geração dos mais novos encontrou refúgio no mundo virtual onde há uma grande variedade de ofertas. Actualmente, convencer os jovens a participar nas actividades fora do mundo virtual, onde a não utilização de aparelhos electrónicos é regra, tornou-se numa missão quase impossível.

Escapar à nomofobia… é possível?

A prescrição para combater a nomofobia assenta em três princípios: disciplina para os adultos, limites para as crianças, as mais vulneráveis, e consulta com especialista. “Os pais devem estar sempre atentos, colocar regras e limites de utilização desses aparelhos e da Internet”, aconselha Furtado.

Para os jovens/adultos podem adoptar comportamentos para minimizar a dependência. “Começar a disciplinar a forma como se usa os aparelhos, valorizar mais o mundo real e o contacto físico das pessoas”, sugere.

Mais do que transmitir informações, é mister promover espaços onde se possa relacionar pessoalmente. “Promover jogos simples que se praticavam antigamente”, sugere Samuel Santos, apontando que o mundo virtual é um espaço ideal para sensibilizar as pessoas a procurarem alternativas fora dali.

O uso de telemóveis com menos funcionalidades, ou seja, regredir para aparelhos menos sofisticados, pode ajudar. No entanto, tudo indica que o futuro vai ser virtual, tornando quase impossível ficar-se imune à nomofobia.

“As pessoas estão a dar mais valor ao mundo virtual do que à própria realidade, vivendo praticamente nas redes sociais”, refere Furtado. Os prejuízos são reais e manifestam-se no incumprimento dos compromissos, tarefas, actividades, causando problemas pessoais e profissionais.

Luís Furtado acredita que, no futuro, Cabo Verde até pode vir a necessitar de centros de reabilitação para nomofobia. Por agora, o país pode aproveitar para tirar lições das más práticas que acontecem noutras paragens. “Pegando das experiências negativas dos outros países ainda vamos a tempo de corrigir e prevenir isso”, diz.

Para a cura da nomofobia, a identificação do problema é o primeiro e mais importante passo. Ainda que o nomofóbico possa tentar curar-se sozinho, a consulta com um especialista não é um despiciendo.

Os sintomas da nomofobia são parecidos com os apresentados por uma dependência qualquer. Medo, ansiedade, stress e ataques de pânico. Aos sintomas somam-se efeitos colaterais como tremores, dificuldade em respirar, náuseas, dor no peito, aceleração da frequência cardíaca.

À volta da nomofobia, há mais problemas de saúde associados. Perda de visão, dores na coluna, dificuldades em encarar as pessoas, dupla personalidade, entre outros.

Baixa autoestima e dificuldades nos relacionamentos sócio-interpessoais estão entre os factores de risco. Como qualquer vício, por detrás da nomofobia há também um prazer fugaz que o dependente persegue. Os likes no Facebook, retweet no Twitter, visualizações nos vídeos de Youtube, e ‘corações’ no Instagram.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 855 de 18 de Abril de 2018.

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Autoria:Adilson Pereira,22 abr 2018 8:05

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  22 abr 2018 8:05

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