TEDx em campo de refugiados provoca entusiasmo e críticas

PorExpresso das Ilhas,15 jun 2018 16:56

Cartaz do TEDxKakumaCamp
Cartaz do TEDxKakumaCamp(TEDx)

Um dos maiores campos de refugiados em África – Kakuma, no norte do Quénia - recebeu no fim de semana passado um evento TEDx em que os próprios refugiados foram oradores. A iniciativa da agência das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR) foi bem vista por alguns e criticada por outros.

Foi no sábado passado, 09 de Junho, que a ACNUR co-organizou o TEDxKakumaCamp, o primeiro evento do TEDx realizado em um campo de refugiados. As palestras, que prometiam trazer poetas, modelos, professores e criadores encontrados entre os refugiados do campo, aconteceram sob o tema “Prosperar”.

O propósito era, como sempre, contar “histórias que elevam e inspiram não apenas as comunidades que as abrigam, mas o mundo inteiro”. Só que, desta vez, não a partir de um centro de conferências de alguma grande cidade, e para um público privilegiado, mas sim num dos maiores e mais antigos campos de refugiados de África, onde se encontram actualmente mais de 185.000 pessoas, de modo a “destacar a situação dos refugiados e desafiar as percepções e estereótipos negativos”, conforme noticiou a Reuters.

A maior parte das notícias sobre o evento foram positivas e a porta voz da ACNUR, Melissa Fleming, destacou o propósito de levar o poder de um palco como o TED a um campo de refugiados, acreditando que este seria usado pelos refugiados escolhidos como palestrantes para “falar ao mundo não apenas sobre o que passaram mas mostrar que eles também têm coisas incríveis a oferecer”, cita a Reuters.

Entre os refugiados que participaram das talks estiveram a activista Riya William Yuyada, o poeta sudanês Emi Mahmoud, a realizadora congolesa Amina Rwino e o atleta Pur Biel, que falaram das guerras que os forçaram a deixar os seus países e também de como reconstruiram as suas vidas enquanto refugiados, sempre com a esperança de um dia regressarem às suas casas.

Uma das histórias que mais comoção provocou na plateia é a da modelo Halima Aden, de origem somali, que hoje, com 20 anos, olha para a sua infância no campo de Kakuma – onde enfrentou subnutrição e malária – como um aprendizado quanto às diferenças culturais e vivência em comunidade, juntando-se à iniciativa TEDxKakumaCamp para mudar a narrativa sobre os campos de refugiados como lugares de desesperança.

Entretanto, algumas criticas estão a ser direccionadas, não aos refugiados que corajosamente compartilharam as suas histórias e aos milhares que assistiram mas, à ACNUR por enquanto organização humanitária ter cedido a “narrativas cínicas do neoliberalismo”.

Os críticos vão beber dos estudos dos académicos Suzan Ilcanb e Kim Rygielc que descreveram a tendência das agências humanitárias nos últimos anos de encorajar os deslocados para a “auto-governação” e a “remodelarem-se como sujeitos resilientes e empreendedores”.

“O formato TED essencialmente fetichiza e transforma a arte da inspiração e inovação individual. Embora haja excepções notáveis no formato, as palestras são conhecidas por promover contos do tipo “de zero a herói” [n.r - outra tradução possível: de pobre a príncipe] sob o lema implícito: se você não se considerar desfavorecido ou oprimido, não o será”, escreve o colunista Honno Brancamp.

O escritor africano entende que essa retórica de resiliência e empreendedorismo - particularmente quando promovida pelo ACNUR – é um problema porque “faz falsas promessas e desvia a atenção das desigualdades estruturais, da discriminação e das políticas de contenção” e lembra a hostilidade que, em anos recentes, o governo queniano demostrou para com refugiados, ameaçando encerrar os campos e expulsá-los.

“ Denominar os refugiados de empreendedores e os campos de refugiados como lugares de oportunidade mostra o cinismo ilimitado do humanitarismo neoliberal”, dispara Brancamp.

“ Eles merecem cada oportunidade de florescer, ter esperança, sonhar e ser bem-sucedidos”, contrapõe a modelo Halima Aden sobre os deslocados e a realização do evento.

Segundo dados da ACNUR, existem pelo menos 22 milhões de refugiados no mundo, a maioria fugindo a conflitos, perseguição e violação de direitos nos seus países. Cerca de 90% destes encontram-se em campos criados em países em desenvolvimento, como o Quénia.

O campo de Kakuma é descrito como um lugar vibrante, cheio de vida, de amor, de negócios, solidariedade e criatividade.

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Autoria:Expresso das Ilhas,15 jun 2018 16:56

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  15 jun 2018 16:56

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