O que os animais mais antigos da Terra podem nos ensinar

PorExpresso das Ilhas,20 ago 2018 6:14

Um pesquisador russo toma uma amostra junto ao rio Kolimá, na Sibéria
Um pesquisador russo toma uma amostra junto ao rio Kolimá, na Sibéria

​A ressurreição de vermes de mais de 40.000 anos sugere que, se a vida já surgiu em planetas como Marte, ela poderia ser mantida congelada por milénios.

Na semana passada, o Siberian Times anunciou a descoberta de um grupo de pesquisadores russos em colaboração com a Universidade de Princeton (EUA). Depois de descongelar e cultivar 300 amostras de vermes aprisionados no permafrost siberiano, observaram que em duas delas havia alguns desses animais vivos. Segundo El País, as datações por carbono indicaram que uma das amostras, colectada nas proximidades do rio Kolimá, tinha cerca de 32.000 anos de idade. A mais antiga, colectada perto do rio Alazeya, tinha mais de 41.000.

Os resultados do trabalho foram divulgados na revista Doklady Biological Sciences, uma pequena publicação que traduz estudos russos para o inglês, mas espalhou-se rapidamente pelo mundo. Embora alguns pesquisadores tenham aventado a possibilidade de que as amostras estivessem contaminadas e a datação não esteja correcta, algo que ainda não foi totalmente descartado pelos próprios autores, os especialistas consultados pelo El País não consideraram o resultado impossível. José Pérez, pesquisador do CSIC no Instituto de Biologia Funcional e Genómica de Salamanca, diz que “esse tipo de nematoides pode ser congelado e mantido vivo enquanto estiver congelado”. Ann Burnell, da Universidade de Maynooth, na Irlanda, também considera possível uma sobrevivência tão prolongada, embora reconheça que o estudo russo é uma confirmação prática dos grandes períodos “que alguns vermes especialmente tolerantes ao congelamento podem sobreviver em um estado de animação suspensa”.

Os autores, liderados por Anastasia Shatilovich, da Academia Russa de Ciências, apontam as implicações que a descoberta pode ter para compreender melhor a criopreservação ou a possibilidade de encontrar vida extraterrestre preservada na água congelada de lugares como Marte ou na lua de Júpiter, Europa. Além disso, de acordo com Shatilovich, eles acreditam que no futuro poderão ser encontrados outros pequenos animais “como rotíferos ou tardígrados” preservados no permafrost durante milénios.

Há anos que se fantasia sobre a possibilidade de congelar um corpo recém-morto devido a uma doença incurável e mantê-lo por décadas ou séculos até que a tecnologia permita ressuscitá-lo. Alguns vermes semelhantes aos encontrados na Sibéria são usados como modelos para entender doenças humanas, mas sua resistência ao congelamento não significa que o que é possível para eles um dia o seja para nós. “Poder congelar um organismo e ele sobreviver depende da sua complexidade”, diz Pérez. “É mais fácil com bactérias, mas em animais maiores, como nematoides, o limite é atingido. Foram feitas tentativas de congelar moscas Drosophila, mas não é possível”, explica. Além disso, o pesquisador do CSIC aponta outro detalhe importante quando se pensa em aplicar a ideia da criopreservação dos vermes à nossa espécie: “Nós congelamos milhares e apenas alguns poucos sobrevivem, cerca de 0,01%.”

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 872 de 14 de Agosto de 2018.

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Autoria:Expresso das Ilhas,20 ago 2018 6:14

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  20 ago 2018 6:14

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